Artigos sobre nudez natural, não erótica.

Os meus artigos, ilustrados com fotografias, em favor da nudez natural e pelo fim do pudor:

Nudez e vergonha do corpo: aqui. (É o campeão de acessos.).

A favor da nudez: aqui.

Nu na rua. Código Penal arcaico: aqui. (Em que demonstro que, no Brasil, NÃO É PROIBIDO ANDAR NU NA RUA.).

As mamas as vento (“topless”) em público NÃO constituem crime de ato obsceno. Onde o homem pode expor o tórax, a mulher pode fazer o mesmo, decidiu o TJ de SP: aqui.

O  nudismo é filosofia de vida, dotado de ética e de valores: Etica do corpo livre PDF

Abricó, praia nudista: aqui.

Mamas ao vento e pênis à mostra: aqui.

A nudez é inocente: aqui.

Chispada: aqui.

                        Nudez perante crianças: Nudez perante crianças. PDF.

Teologia da nudez (em que examino a nudez, o “pecado original”, a nudez de 3 profetas e a atitude de Cristo em relação à nudez,  simpaticamente à nudez). (A minha condição de ateu e de jamais cristão não é contraditória com a minha teologia da nudez, que não pressupõe nem ser cristão nem crente em Jeová. Ela demonstra o quão parcial o cristianismo ortodoxo é, quanto à nudez e ao corpo e que é possível hermenêutica alternativa). Em 3 partes, ilustradas:

Primeira parte, na edição 175. Definição de nudismo; deus quis a nudez; o pecado original não foi erótico: aqui.

Segunda parte, na edição 176. O pecado original foi de desobediência; pecado é recusar a obra divina; Isaías, Miquéias e Saul nus; a nudez em Cristo; opiniões de autoridades cristãs em prol da nudez: aqui.

Terceira parte, na edição 177. Origem histórica, persa e cristã, da gimnofobia e do pudor: aqui.

Envergonhar-se do corpo é obrigatório? Divertido sermão nudista. aqui.

Homens que, nos vestiários de academias, entram no chuveiro de cueca e deles se restiram de cueca. Pudor ridículo (parece convento) de curitibanos e não só: aqui.

Minha carta à ministra dos Direitos Humanos, em prol do nudismo, do monoquini e da revogação do artigo 233 do Código Penal: carta-a-ministra-dos-direitos-humanos.

Os fotógrafos e as fotografias de nus em público. Trecho de epístola ao comandante da PM de SP:aqui.

No Jornal Olho Nu há artigos meus nos números 159, 165, 166,168,169, 175, 170 (duas vezes), 175, 176, 177, 178, 180, 182.

Ética do corpo livre: aqui.

Jornal Olho Nu, 178, de setembro de 2015: análise do livro “O nu ao ar livre” aqui.

 João Ramalho, o primeiro nudista do Brasil, no século 15, no jornal Olho Nu, de fevereiro de 2019: aqui; o mesmo texto, acompanhado das fontes, em PDF: João Ramalho.

A arte, no Brasil, ainda é gimnofóbica. O brasileiro não representa o nu, notadamente masculino, ao passo que na Grécia e em Roma antigas, nos E.U.A. e na Europa atuais, o nu masculino é comuníssimo. Vide aqui coleção abundantíssima de nus masculinos, demonstração do quanto o brasileiro ainda é preconceituoso e caretíssimo. Vide aqui outro sítio de pintura de nus na arte (masculinos e femininos). O art. 233 do Código Penal pune fazer, ter, adquirir desenho, pintura, estampa obsceno. A arte com nu é obscena ? Está na hora de revogarem-se os artigos 233 e 234 do Código Penal.

                 Minha página no Tumblr: mostruário de nudez natural e artística:aqui. (https://arthurvirmonddelacerdaneto.tumblr.com/).

Vide aqui repertório de lindíssimas fotografias de  nus masculinos.

                Nudismo na Alemanha, nos anos 1920, com escola nudista e não só. Relato de R. Salardenne, no seu livro “Um mês entre os nudistas”: Um mês entre os nudistas.

O Cristo, nu, de chocolate: O Cristo nu, de chocolate.O cristo nu, de chocolate.

Filmagem de nu no metrô de Berlim aqui.

Por que, nas piscinas, os nadadores devem usar tanguinhas minúsculas? Nos E.U.A. , antes da caretização religiosa, nadavam nus. Veja aqui.

Fotografias de  nudez natural, em público, na Europa, aqui.

Em décadas transactas, foi preciso os homem baterem-se pela exposição dos seus mamilos: Campanha pelos mamilos à mostra.

Sítio de fotografias de pinturas, desenhos e esculturas de nudez frontal masculina aqui.

Cinema nudista: aqui.

Vídeo. Visita do casal aos amigos nudistas. Para “melhorar o seu inglês”: aqui.

Pudor nos EE. UU. AA. e liberdade de nudez na Europa. Curtíssima metragem: aqui.

Resenha de “Pureza”, de Nelci Pereira de Sousa, livro adamita (nudismo cristão), de conteúdo altamente humanista e ótimo: aqui.

Projeto fotográfico brasileiro, de Hugo Godinho aqui.

Desenhos brasileiros de nus, de Fábio Lopes aqui.

Projeto fotográfico de Hugo Carmesin. Adesões à publicação do livro “Nu Cenário” aqui.

Snaps fanzine, revista de nudez masculina natural: aqui.

Viva Calígula, repertório de fotografias de nudez não erótica: aqui.

Reportagem sobre revistas de nudez natural, brasileiras: aqui.

“Eu escolhi você”, de Clarice Falcão, com imagens de nudez natural (no Vímeo):   https://vimeo.com/196792830.  Minha análise do clipe :eu-escolhi-voce-de-clarice-falcao-pdf

Testemunho de Adriano Facioli, acerca da sua experiência nudista: adriano-facioli-testemunho.

Filme de Antonio da Silva, “Poesia no pênis”: aqui.

“Le banquet d`Auteil”: dramaturgia com nudez. Vide a partir do quadragésimo nono minuto: aqui.

          Quatro desenhos nudistas, de Henrique de Macedo Airoso da Silva, publicados pelo jornal Olho Nu (edição de número 200, de julho de 2017): aqui.

Genealogia da obscenidade (vídeo de Diego Fernandes), no Youtube: aqui.

Há fotografias de nudez natural na Europa e EE.UU.AA, inclusivamente das escolas nudistas.

Se gostou da idéia, divulgue-a. A idéia é a de erradicar a vergonha do corpo, a de que há partes inerentemente obscenas (pênis, mamas, nádegas) no corpo, que devem ser ocultadas. A idéia é a de que todas as partes do corpo são dignas e apresentáveis e que não faz sentido o pudor como vergonha do corpo. A idéia é a de que a nudez natural é diferente de nudez sexual e de que a malícia está no pensamento do malicioso.

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Curitibanos-curitibocas.

Neste blogue, abaixo, “O curitibóca” (descrição e julgamento do próprio); “Cura-curitibóca” (terapia em sete lições) e “Bestiário do curitibóca ou exemplos da babaquice”.

Leia descrição do comportamento dos curitibanos-curitibocas: O curitibóca

Leia o Cura-curitibóca em oito lições aqui: Cura-curitiboca. Se você é curitibano, sugiro-lhe que leia, por primeiro, a oitava lição.

Leia o “Bestiário do curitibócaou exemplos da babaquice”: Bestiário do curitiboca ou Exemplos da babaquice

Leia análises de outros autores, de Curitiba e forasteiros, sobre o etos e o patos do curitibano: O curitiboca. Alguns testemunhos.

 

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Revisão de textos.

Faço revisão de textos, consoante a forma culta do idioma.

O interessado deve escrever-me para arthurlacerda@onda.com.br e dizer-me da extensão do seu texto. Combinaremos preço e prazo.

Traduzo do francês.

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Nova mentalidade. Novos costumes.

 Nova mentalidade. Novos costumes.

(Escrevi-o dez anos atrás. Compare o estado de coisas de então com o de hoje).

Apolo e Jacinto 1                                                Arthur Virmond de Lacerda Neto. 27.IX.2009.[1]

Nenhuma mudança profunda de costumes é rápida; toda mudança deles, que perdure, supõe a modificação prévia das mentalidades.

Estes dois aforismos sociológicos, devidos a Augusto Comte, fundador da Sociologia, verificam-se a propósito da homossexualidade no Brasil. Por um lado, a homofobia, que se instalou no sistema psicológico dos brasileiros, entranhadamente, vem declinando a pouco e pouco, com mais rapidez nas capitais, em que as pessoas importam-se menos do que no interior com a vida alheia e em que, destarte, há mais liberdade de ser-se e de fazer-se.

De alguns poucos anos a esta parte, advieram: a consciência da necessidade do respeito para com a parcela homossexual da população; a presença, dantes inexistente, de personagens homossexuais nas telenovelas, nos seriados, no cinema, o que contribui para habituar as pessoas em geral à existência declarada de homossexuais no meio social; a homossexualidade como integrante dos programas escolares de educação sexual. [2]

Trata-se de meios de formar as consciências, de educar, sentido em que todo esforço é bem-vindo, é obra de gerações e os seus resultados apuram-se a longo prazo. Foi assim com outras revoluções mentais por que passou a Humanidade e com a constituição da própria homofobia, na transição da liberdade sexual greco-romana para a anti-sexualidade católica, adotada pelas várias seitas cristãs da atualidade e pelo catolicismo romano, agentes por excelência da intolerância contra o casamento homo. [3]

A sexualidade deixou, já, de corresponder a tabu e tema em que as pessoas eram formadas na ignorância: a educação sexual nas escolas representou passo importante em prol do esclarecimento dos jovens e do exercício sadio e responsável da sexualidade. Agora, em novo avanço, a sociedade vai aprendendo a respeitar as diversidades sexuais, que antes repugnava ou, se tanto, tolerava.

São modificações na mentalidade, que se vem desenvolvendo nos últimos trinta anos e de que sobretudo as gerações jovens são as portadoras, sinal inequívoco de um futuro tendencialmente caracterizado por mais liberdade.

Para que desaparecesse o tabu anti-sexual, tão próprio da civilização cristã, foram necessárias décadas, ao longo das quais a consciência de que a sexualidade deve ser conhecida como tema de informação e de esclarecimento, foi se consolidando até corresponder, atualmente, a componente da nossa cultura. Da mesma forma, a homofobia vai se desvanecendo, até o respeito e a liberdade corresponderem a traço do sistema psicológico das pessoas: é o futuro para que tendemos, com  aparente rapidez que surpreende à vista do que era, em anos anteriores, o cruel do preconceito. Na verdade, respeito para com uns e liberdade de todos apresentar-se-ão na forma de indiferença de uns em relação à forma de ser e à liberdade alheias, quero dizer: indiferença pela condição sexual alheia e pela maneira como cada um a vive.

As mentalidades inovam-se e, com elas, os costumes: a liberdade de os pares homossexuais darem-se as mãos e beijarem-se, em público, de se desposarem em cerimônias laicas, de usarem alianças, de as pessoas revelarem a sua condição sexual livre de medos e de represálias, são novidades bem-vindas cujo princípio consiste no de que a liberdade vale para todos e de que o respeito é dever de todos para com todos. Se importam as leis para coibir e reprimir os desvios de comportamento que ferem o senso comum, a exemplo dos atos de discriminação, importa, muito mais, o convencimento das pessoas que lhes determina atitudes espontâneas e consenso em torno de valores partilhados coletivamente. O esforço da militância homossexual e de quantos aderiram aos seus ideais concorre para com a adoção dos valores do respeito em face da diversidade e da recusa da discriminação.

Os chamados “direitos” dos homossexuais referem-se, juridicamente, às faculdades legais (a exemplo do matrimônio entre homossexuais, da pensão paga ao parceiro do morto etc.); moralmente, eles implicam em deveres da restante sociedade em face dos homossexuais: no dever positivo de respeitar, no dever negativo de não discriminar. Psicologicamente, eles correspondem à convicção que considera a sexualidade indiferente como critério de avaliação das pessoas, ou seja, como não-critério, ao menos na medida em que inexista real dano a outrem.[4]

Da homofobia para a homofilia, da recusa para o respeito da censura para a indiferença, vai a distância correspondente a duas mentalidades diversas: uma, determinada por séculos de cristianismo e que se exprime pelo desprezo, odiento, do que aquela religião condenou; outra, nascente, manifesta-se pela aceitação do ser humano na sua condição natural. Trata-se de dois estados da mentalidade, em que o primeiro declina, e o segundo emerge, não pela imposição das leis[5], e sim pela convicção das pessoas, que se vai formando paulatinamente, ano após ano, em um movimento que é diretriz de muitas sociedades ocidentais, empenho do nosso presente e que será aquisição das gerações vindouras.

(Na gravura: Apolo, deus, e Jacinto, a quem ele amava e por cuja morte transformou o fio de sangue que dele escorreu em flores do seu nome e da cor do seu sangue: flores são jacintos e cor é vermelha.).

[1] Este artigo data de 2009. Entrementes, em 2011, o Supremo Tribunal de Justiça chancelou o casamento homo e, em junho de 2019, afirmou a necessidade de se criminar a homofobia. Coteje o estado de coisas de 2009 com o de 2019.

[2] Sujeita, contudo, ao repúdio da chamada Bancada Evangélica do Congresso Nacional. Comenta-se, nos meios alegadamente bem informados, a homossexualidade do pastor Silas Malafaia, que se notabilizou pelo seu furor anti-homossexual, a contar da entrefala que concedeu à jornalista Marília Gabrilela, em 2011 (assista-lhe em: (https://www.youtube.com/watch?v=b50Oi8RRYLc ). Nota de 2019.

[3] O papa Francisco I vem, paulatinamente, demonstrando abertura para com os homossexuais.  Aliás, aproximadamente a metade dos clérigos católicos é homossexual, proporção que ronda os 80% no Vaticano. Vide O armário do Vaticano, de Frederico (Fréderic) Martel, e  A primeira pedra. Eu, padre gay, de K. Charamsa. Nota de 2019.

[4] Real dano para outrem significa, por exemplo, o estupro ou a sujeição de alguém à prostituição.

[5] Assim o redigi em 2009. De então a esta parte, a inovação do etos redundou na das leis: incontáveis países instituíram, nas respectivas legislações, o casamento homo (como o Brasil, em 2011) e a criminação da homofobia (adotada em 42 países até 2019, ano em que o Supremo Tribunal Federal brasileiro decidiu ser necessário criminá-la).

 

 

 

 

 

 

 

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O amor entre dois homens ou duas mulheres.

O amor entre dois homens ou duas mulheres.[1]

31.VII.2008

Arthur Virmond de Lacerda Neto

 

Há quem descreia no amor entre dois homens e haja, por isto, desistido de protagonizá-lo. Trata-se de descrença resultante, certamente, da observação de situações alheias e, possivelmente, de decepções pessoais, cujo efeito é o da desesperança em relação a novos amores. Há, nisto, pessimismo que os fatos desmentem ou, ao menos, mitigam.

Em resultado da homofobia instalada como padrão psicológico nas sociedades ocidentais, dentre elas a brasileira, a maior parte dos homossexuais, até aqui, achou-se na impossibilidade de amar abertamente, ao mesmo tempo em que, manifestando-se a sexualidade ao longo da vida e correspondendo a necessidade permanente, muitos homossexuais exerciam-na como expressão única da sua condição homossexual, o que lhes gerou promiscuidade célebre, caracterizada pela pluralidade de parceiros, pela ausência de afetividade entre eles e pela busca exclusiva da volúpia: não podendo amar, restava-lhes o copular.

As gerações pretéritas, e dentre as atuais, as dos indivíduos que contam, hoje, cerca de trinta anos para mais, foram condicionadas, pelo meio homofóbico, a reprimir a sua natureza, a frustrar a sua sexualidade e a privar-se de amar.

Esta última particularidade resultou em que muitos homens não experimentaram o amor, não aprenderam a estabelecer compromissos afetivos a sério, não idealizaram vida a dois, não adquiriram o valor da fidelidade, não puderam estabelecer comunhão com quem amassem: da maioria dos integrantes destas gerações escassamente se podem esperar relacionamentos sérios nem duradouros: em relação a eles, a descrença na felicidade a dois pode justificar-se.

Todavia, o preconceito e a promiscuidade vem-se alterando, rapidamente, nos últimos poucos anos: há menos homofobia e mais aceitação; de conseqüência, mais liberdade de ser homossexual, ou seja, de exercer a sua sexualidade como prática normal e sadia, psicológica e fisicamente, e de amar, como expressão da natureza emocional de cada um.

Entre o amor heterossexual e o homossexual, não há diferença para mais do sexo dos envolvidos: em si, o fenômeno é rigorosamente igual. Em ambos, há encantamento, atração, carinho, anseio por compartilhar cada qual da vida do outro; em ambos, encontram-se os mesmos problemas: ciúme, traição, insegurança, desencanto, separações; em ambos, as mesmas virtudes: fidelidade, companheirismo, adaptação mútua, seriedade, realização afetiva, felicidade.

Nesta época de maiores aceitação e liberdade, os homossexuais, em especial os jovens, enfrentam menos problemas, desfrutam mais do seu corpo e (de longe o mais importante) muitos moços procuram realizar-se afetivamente. Daí multiplicarem-se os casais juvenis, antanho inexistentes, em que aos envolvidos a promiscuidade atrai menos (ou repugna) e em que a volúpia é secundária; anima-os a procura de relação estável e sincera com pessoa fiel, no ideal de vidas por partilhar, segundo as preferências individuais de idade e temperamento.[2]

Há, em curso, evolução dos costumes, por efeito de modificação das mentalidades e como causa de adaptações nas instituições, a exemplo do casamento homo, em perspectiva no Brasil e já adotado em outros países.

O amor entre iguais existe, já, entre os jovens e existirá, crescentemente, sobretudo entre eles e (conquanto em proporção menor) entre os mais velhos, o que vem provocando alteração bem-vinda e acelerada na psicologia dos homossexuais moços, devido ao anseio de muitos deles pela afetividade e ao esforço pela sua realização, progresso importante no sistema de valores vigente no meio homo e na sociedade brasileira em geral: a felicidade de dois homens ou de duas mulheres entre si corresponde a objetivo cada vez mais alcançável e merecedor da tentativa dos interessados nele.

[1] Este artigo data de 2008. Entrementes, em 2011, o Supremo Tribunal Federal consagrou o casamento homo; em junho de 2019, afirmou a necessidade de se criminar a homofobia.

[2] É ilusório pensar-se que deve haver, nos casais, paridade etária ou que, como nos casais heterossexuais de décadas recentes, o marido devesse contar em média cinco anos a mais do que a mulher: são convenções sociais. Pode ser assim, como pode não o ser: pode ser como os envolvidos sentirem-se melhor; deve poder ser assim.

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Os olavinhos e o vernáculo.

 

Por décadas a fio, a sociolingüística e a esquerda brasileiras desdenharam da norma culta do idioma e da gramática, que increpavam e increpam de patriarcal, machista, elitista e representante da classe opressora. Valorizavam e valorizam o popular, o coloquial, o raso e o fácil.  Daí resultaram o espetáculo do despreparo de gerações de brasileiros, em relação ao idioma, e os derradeiros lugares dos estudantes deste país nos exames internacionais, em língua portuguesa. Daí também resultam os erros cada vez mais multiplicados, os vícios, os lugares-comuns do comum do povo; também as traduções ruins, a inépcia da forma (e do fundo ?) dos textos acadêmicos (mestres, doutores, pós-doutores que escrevem mal e publicam em revistas, dissertações e teses em que exibem a sua deselegância estética e os seus solecismos.), como ainda o desconhecimento de recursos como a mesóclise (que a maioria ignora que é), os pronomes contraídos (lho, lha, to, ta, ma, mo: nunca disto ouviram dizer), o uso errado dos tempos verbais (nas lojas, os atendentes dizem: “Não vai ter”.), as regências erradas (“As despesas incorridas.”).

Há  décadas Olavo de Carvalho e eu (que não sou olavinho) vimos denunciado tudo isto. Hodiernamente, ele tem milhares de leitores, ouvintes e seguidores. Uma das suas recomendações é: estude, por primeiro, antes de tudo, o vernáculo; outra: estude, leia, instrua-se. A estratégia olavista é a de formar grupo intelectualmente bem formado que origine, não já, porém no futuro, militantes políticos.

É expectável que dentro de dez ou quinze anos surjam cabeças políticas que emulem o pessoal esquerdista. Para já, os olavinhos são (os mais ?) estudiosos e os que prezam pelo conhecimento rigoroso e uso correto do idioma. (Há direitistas escrevinhadores, como os autores de artigos canhestros da Gazeta do Povo). Da freqüentação dos clássicos, do cânone brasileiro e português, de bons autores reeditados, do escrúpulo no uso do idioma, já se vai formando certo pessoal que se caracteriza pela qualidade comparativamente melhor do seu conhecimento da língua e do uso que dela faz. Dentro de dez anos haverá, no Brasil, grupo intelectualizado, lido, hábil e elegante no vernáculo, conservador e de direita, a par da grande massa sub-letrada, politicamente indiferente, de esquerda ou talvez já nem tanto.

Enquanto isto, a sociolingüística apregoa as suas doutrinas e justifica o raso e o fácil (o fácil é o critério de todo medíocre); logo, contribui para manter parte do público em baixo nível idiomático, notadamente o estudantil.

Não sou olavinho nem pratico o politicamente correto – rejo-me pelo correto, sem mais qualificações: tem razão Olavo e os olavinhos: estude; comece pelo idioma.

Sintoma do embrutecimento do etos do brasileiro é a alegação, tosquíssima, de que saber o vernáculo é para quem “é de Humanas” e que quem “é de Exatas ou de Biológicas” não precisa de praticá-lo com rigor gramatical. Outro: a norma culta “é só para a escrita; pode [-se] falar de qualquer jeito.”. Para mim, são toleimas que emburrecem: o idioma é de todos, pois todos se comunicam e fazemo-lo (os sub-letrados não entenderão “fazemo-lo”: que peguem uma gramática e aprendem-no. Aprendam-no – oh, raios, mais uma !) sobretudo oralmente e não por escrito.
Saber com rigor o seu idioma é valor de civilização e virtude pessoal; é meritório e útil.

(Com os seus exageros e hipérboles e ironias dispisciendas, Olavo é sim, brilhante esteta, autor modelar, na sua forma e independentemente do fundo.).

 

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Holandeses no Brasil: foram péssimos.

Circula o mito da pretendida vantagem de o Brasil haver sido ocupado pelos holandeses, mito aliás, decorrente do livro propagandístico do Conde de Nassau, cuja redação ele encomendou ao seu conterrâneo Gaspar Barléus.

Porém…

Ruy Rebello Pinho: “[…] o direito aplicado pelos holandeses no Brasil não difere substancialmente do direito português da época.

Todavia, a preocupação de manter os territórios conquistados, de dominar os portugueses e seus aliados, de obter os lucros exigidos pela Companhia das Indias Ocidentais, tudo isto dá às leis flamengas e à sua aplicação maior crueldade e, não raro, um cinismo chocante.
[…]
Verdade é que portugueses, índios e negros não desejavam um Brasil holandês. E mesmo Nassau acabaria sendo obrigado , sem dúvida, a admitir esta realidade, por bem ou por mal”. (História do Direito Penal Brasileiro, p. 193).

Na organização judiciária holandesa, no Brasil, havia os escoltetos, chefes administrativos dos municípios que exerciam, também, funções como exatores fiscais, promotores de justiça e chefes de polícia, remunerados com porcentagens ou comissões sobre as multas que inflingiam, com cujas falcatruas revoltava-se Manuel Calado, testemunha contemporânea da presença holandesa e a que dedica páginas a fio do seu livro “Valeroso Lucideno”. Diz ele: […] saiam seus Escoltetos cada seis meses pelos campos, e matos, com outros ministros da Justiça; e chegavam às casas dos moradores, e nenhum havia que não ficasse condenado em dinheiro, ainda que tivesse feito milagre no cumprimento de suas premáticas; e os Escoltetos todas as condenações que faziam eram para si, e dali davam metade aos do Conselho [colegiado governante], segundo suas diabólicas mancomunações […]. (História do Direito Penal Brasileiro, p. 144-145).
O próprio conde de Nassau reconheceu a existência do vício daninho das atribuições dos escoltetos e ponderou que o remédio para isso será abolirem-se as penas dos delitos leves e várias leis; apodou-os de sanguessugas, dotados de insaciável cobiça. E acrescenta, acerca da moralidade dos ocupantes deste cargo: […] conviria entregar estas funções somente aos mais conceituados, afastando-se delas os ladrões que, como Gueirões, vão arrebatar o alheio com seis mãos. (História do Direito Penal Brasileiro, p. 145).
Quanto à organização judiciária holandesa no Brasil, o holandês Gaspar Barléu, autor de livro encomiástico da obra dos seus patrícios no Brasil, elogia-a, com restrições; já o conde de Nassau aponta seus defeitos. (História do Direito Penal Brasileiro, p. 152). Por sua vez, Manuel Calado não a perdoa. Admite qualidades no Príncipe [Maurício de Nassau], mas o inclui nas negociatas feitas então. Aos do Supremo Conselho, aos do Conselho Político, ao Fiscal, aos escabinos [escabinos eram juízes; os conselhos funcionavam como tribunais de apelação] nega qualquer interesse em fazer justiça. A organização judiciária flamenga objetivava a dissipiar e destruir a Província de Pernambuco, cujos moradores, constrangidos das muitas crueldades e traições [praticadas contra eles, pelos holandeses] lhes entregassem todas suas fazendas, e havendo de ficar na terra fossem mais que cativos, e escravos trabalhando de dia, e de noite, não para si, senão para seus inimigos. (História do Direito Penal Brasileiro, p. 152).
Sobre a ganância holandesa, ajuizou Nassau que os seus compatriotas são homens tais que preferem sofrer danos na vida a sofrê-lo na fazenda: esta é para eles mais cara que a menina dos olhos. (História do Direito Penal Brasileiro, p. 153).
Na obtenção de provas para fins judiciários, os holandeses valiam-se da fraude: aos condenados (católicos) enviavam predicantes calvinistas, que se lhes apresentava como padres católicos, a quem declaravam fatos, na ilusão de o fazerem por confissão e protegidos pelo sigilo respectivo. De posse das informações, os embusteiros comunicavam-nas às autoridades que, com base nelas, sentenciavam os confitentes à morte. (História do Direito Penal Brasileiro, p. 170).
O governo holandês no Brasil proibiu aos moradores possuirem, domesticamente, qualquer tipo de arma, sob pena capital. Para o descobrimento das que porventura existissem, prometeu alforria aos escravos que denunciassem os seus senhores. Diz Manuel Calado que os holandeses, a propósito, usavam de uma maldade nunca vista, e era que davam de beber aos negros cativos, e lhes diziam que se queriam ser forros mexericassem a seus senhores que tinham em tal, e tal parte as armas escondidas, as quais os mesmos Flamengos haviam escondido nos mesmos lugares, em ódios dos Portugueses, e com intenção de por esta via lhes roubarem as fazendas, e alguns foram destruídos e condenados com este estratagema, muitos moradores se foram esconder nos matos com temor (História do Direito Penal Brasileiro, p. 217). Ou seja, os holandeses embriagavam os escravos e prometiam-lhes a liberdade caso denunciassem os seus senhores, por possuirem armas que os próprios promitentes ocultavam, nas casas dos senhores, perfídia com que perderam a muitos; outros, refugiaram-se no sertão.

Outro método empregado pelos holandeses consistia na tortura, que em Portugal e no Brasil português, como na Europa em geral também se usava. Neste capítulo, os holandeses não foram comparativamente brandos, mas tão feros ou mais do que os outros povos.
O governo holandês no Brasil publicou edital pelo qual se proibia aos moradores possuírem, em casa, armas de qualquer tipo, sob pena de morte, e premiava com liberdade os escravos que, a tal propósito, delatassem os seus senhores: a partir disto amiudaram-se os depoimentos falsos e muitos flamengos se conluiaram com negros para extorquir dinheiro dos senhores portugueses, no dizer de Manoel Calado. (História do Direito Penal Brasileiro, p. 174).
Também praticaram genocídios: no Rio Grande, receberam ordem de exterminar todos os moradores mais velhos de dez anos de idade. (História do Direito Penal Brasileiro, p. 78).

Rocha Pombo, vol. I (edição Jackson): “Enquanto portugueses e espanhóis, donos das terras, cuidavam de colonizá-las, os holandeses nada mais queriam do que auferir os proveitos imediatos do tráfico” (p. 281).
Em relação aos métodos dos portugueses e dos espanhóis, compara-os com os dos holandeses que “na Asia, na Africa, na Oceania, na América, usaram dos mesmos processos, cometeram os mesmos abusos, perpetraram os mesmos crimes, se é que não excederam quase sempre o sistema de rigor com que os descobridores excluíam a concorrência de outros povos”. (p. 281).
“E a todos os abusos que eram censurados nos outros [povos] entregaram-se depressa os holandeses quando se fizeram colonizadores” (p. 281).

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O mito do militar-tecnocrata-positivista.

O escritor católico Carlos Ramalhete, em artigo da Gazeta do Povo, de 9.V.2019, criou o mito do militar-tecnocrata-positivista, personagem de fantasia, responsável, segundo o artigo, pela esquerdização do Brasil, desde 1964 até ao regime de Jair Bolsonaro.

Na fase de 1964 a 1982, houve dois únicos militares Positivistas em cargos de alto escalão: o ministro da Marinha Ernesto de Melo Batista, que se demitiu por desconvir com a repressão, pela violência, dos opositores ao regime. O também general positivista Pery Constant Bevilacqua ocupou o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal (de 1965 a 1969), em que concedeu liberdade a vários indivíduos presos ilegalmente. Foi cassado.

Não se pretenda vislumbrar Positivismo onde ele cessou de existir muitas décadas antes de se formarem os militares tecnocratas do período de 1964 ao presente, dos governos militares e do de Jair Bolsonaro. Tecnocratas, ou não, não aderiram ao Positivismo nem o general Golbery do Couto e Silva (que o artigo nomeia), nem os seus camaradas, integrantes dos governos de 1964 a 1984, tampouco os quadros do atual.

Inexistem Positivistas nas Forças Armadas há décadas e, de conseqüência, nenhuma influência o Positivismo exerceu nas políticas esquerdizantes que horrorizam o sr. Ramalhete que, com isto, reproduz o mito, de senso comum, de que o regime militar do intervalo de 1964 a1982 deveu-se, em qualquer medida, ao Positivismo.

Também exponho o que é o Positivismo e quais são os seus dogmas. Ramalhete chama-o de “praga”: a “praga” tem muitas virtudes. Leia aqui o meu texto completo: Militares-tecnocratas-positivistas.

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Lugares-comuns de linguagem.

Muitos jornalistas, juristas e acadêmicos usam lugares-comuns de redação, que é aconselhável evitar. Aqui, os examino e aponto alguns: Lugares-comuns de linguagem.

 

LUGARES-COMUNS DE LINGUAGEM.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

Abril de 2019.

 

Muitas pessoas falam consoante o que ouvem, por imitação: como os outros falam, falam eles, como nos meios juvenil, acadêmico, e em ambientes alheios à leitura dos bons autores vernaculares. Daí a célere propagação de modismos, lugares-comuns e erros que, amiúde, convertem-se em cacoetes de redação,

Por exemplo: critica-se algo ou alguém; principia-se a frase acusadora com a locução “O problema [da pessoa, da idéia, da instituição] é que […]”. Assim: “O problema com os liberais é que são poucos.”; “O problema do Brasil é que nele há calor.”.  A pessoa, a idéia, a instituição contém “problema”.

Outro: constrói-se a frase com fórmula fixa: o advérbio quem, seguido de verbo; este, de complemento (ou não); este, do verbo ser no passado : “Quem disse isto foi fulano”, “Quem nos deu informações foi o tio”.

Tais construções são corretas. Contudo, a sua repetição, como meio de expressão recorrente, com exclusão de alternativas de fraseologia e de estilo, demonstra pobreza de recursos de quem as emprega e transformam-nas em cacoetes de redação, em automatismos, em expressões-ônibus e palavras-ônibus,  que denunciam ausência de autonomia estética, espírito de rotina, sub-capacidade de se exprimir sem o quase-jargão que elas demonstram.

Também é o caso dos verbos ganhar e dialogar, de uso metafórico, abusivo, pobre e empobrecedor, corrente no Brasil, nos últimos anos: “O Brasil ganhou dois pontos nos índices de desenvolvimento humano”; “A Bíblia ganhará nova tradução”; “No livro de fulano, Marx dialoga com Platão.”

Na academia (entenda-se: o pessoal universitário), muitos aplicam o verbo dialogar para referir-se ao exame que um autor faz de outro ou às citações que dele faz, o que, evidentemente, não corresponde a dialogar nem os textos reproduzem diálogos de interlocutores (do autor com outros autores): é metáfora desnecessária, cuja recorrência desnatura a acepção lídima deste verbo e constitui cacoete, o que é inaceitável em bons textos.

Ganhar e dialogar têm sentidos próprios; espera-se que o texto jornalístico e acadêmico descreva situações; ao invés, os jornalistas especialmente, mantêm o cacoete de empregarem tais verbos em sentido conotativo, ou seja, oposto ao descritivo: escrevem mal; praticam mau jornalismo, quer no emprego destas metáforas, quer na insistência do seu uso.

É viciosa e contém solecismo este tipo de construção: “Ler livros é hábito. O que propicia cultura.”; “Vieram muitas pessoas. O que me contentou.”; “Leônidas venceu a batalha. O que salvou a Grécia.” Separam-se em frases orações concernentes ao mesmo período, que devem estar unidas, pois contém complementos: “Ler livros é hábito, o que propicia cultura.”; “Vieram muitas pessoas, o que me contentou”; “Leônidas venceu a batalha, o que salvou a Grécia”.
Tal tipo de formulação é evidentemente errado, deselegante e manifesta inépcia na arte de redigir. Grassou nos anos de 2000 e persiste: algum inepto usou-a; outros incautos imitaram-na, um e outros sem nenhuma percepção da sua erronia e da sua deselegância.
Que o primeiro inepto a usasse, denuncia-lhe despreparo; que se difundisse o vezo, evidencia o quão despreparados se encontram os escreventes brasileiros.

Até certo ponto, o emprego dos recursos de comunicação são miméticos: as pessoas imitam-se entre si e penso que tanto mais imitam quanto mais pobres de cultura literária. É o que observava nos meus tempos de escola e de faculdade, entre dezenas de condiscípulos que jamais haviam lido um livro sequer na vida ou, se tanto, os que a escola obrigava a ler. Todos expressavam-se com os prosaísmos do momento, todos empregavam modismos e gírias, e apresentavam pauperismo léxico.

Era eu o único que li (fiz questão disto) alguns clássicos da língua portuguesa durante o curso ginasial e jurídico: Eça de Queiroz quase inteiro, Joaquim Manoel de Macedo, Raul Pompéia, Euclides da Cunha, Antonio Vieira e não só; também Ortega y Gasset, no original; era leitor assíduo e constante. Eis porque sempre se notou e me observavam que eu “falo direitinho” (locução que empregavam; ela própria é sintoma da pobreza lingüística do locutor), ao que respondia: “Uso o que aprendi na escola e sempre li muito”. O interlocutor quedava-se mudo, paralisado, quiçá estupefacto, sem reação; fitava-me com a cara-de-bunda típica em Curitiba.

É valiosa a variedade léxica, bem assim saber-se variar a construção das frases e, portanto, dispor de riqueza de meios expressivos. Evitava e evito, cuidadosamente, os modismos, as vulgaridades, os lugares-comuns em curso, o que os meus circunstantes (colegas, amigos e mais gente) facilmente percebiam. Também evito o rebuscamento e a prolixidade, vezos típicos do pessoal jurídico (possivelmente já declinante, e ainda bem.). Cotejadas as minhas petições com as dos demais advogados, as minhas eram perceptivelmente diferentes, na sua redação: redatavam-nas, eles, em gíria jurídica e com prolixidade; eu as redigia como quem é dotado de cultura literária. E que diferença ! Não as redigia como quem escreve literatura; produzia peças técnicas; a diferença está no critério com que redige quem sabe o que é bom texto e o que é mau texto; com que evita prolixidade e jargão e emprega concisão, clareza e a (insubstituível) terminologia jurídica.

Ao pessoal jornalístico e universitário brasileiro, aos redatores brasileiros, desde décadas, falece cultura literária: ler bons autores do idioma (aliás, ela falta aos brasileiros, em geral). Se fossem leitores, saberiam, pelo menos, reconhecer textos mal escritos, prolixos, rebuscados e viciosos, e evitá-los. Ao invés, no meio jurídico o floreio inútil e a prolixidade constituem virtudes. No meio jornalístico, os cacoetes representam expedientes fáceis para escrevinhadores sub-preparados.

Há formandos, mestrandos, doutorandos, mestres, doutores, pós-doutores, professores-doutores e professores-pós-doutores praticantes de cacoetes, vícios, solecismos, de redação por fórmulas: escrevem por obrigação funcional, a maioria sem haver adquirido familiaridade com os bons escritores do idioma; daí o espetáculo de textos acadêmicos que, esteticamente, deveriam ser melhores.

Sintoma infalível de pauperismo léxico é o leitor incompreender duas ou três palavras do texto e tachá-lo de rebuscado: na certa ignora o que seja rebuscado, provavelmente é incapaz de consultar um dicionário (certamente sequer possui algum), tendencialmente resistirá a prosseguir a leitura. Não se privará de increpar o estilo “difícil” do autor nem se sentirá pejado da sua limitação vocabular.

 

Mostruário de lugares-comuns:
1) O excrescente, prolixo, redundante e ambíguo VÍCIO DA DUPLICIDADE. É urgente os escrevinhadores brasileiros convencerem-se de que quem o comete, escreve MAL. Por exemplo: “Augusto Comte, criador do Positivismo, escreveu livros; são bons os livros do francês”. Agora, sem o vício: “Augusto Comte, criador do Positivismo, escreveu livros, que são bons.” ou “Augusto Comte, criador do Positivismo, escreveu bons livros.”
Outro: “A UFPR tem vários professores que lecionam na entidade com 20 horas.”. Sem o vício: “A UFPR tem vários professores que nela lecionam com 20 horas.”. Mais um: “Não toque na pia. A peça é frágil”. Sem o vício: “Não toque na pia; ela é frágil.”.

Repetir o sujeito pode ser valioso e não é necessariamente defeituoso; é necessariamente defeituoso usar paráfrases que duplicam o sujeito (porventura, também o complemento), alongam a frase, tornam-na prolixa e dúbia. Evita-se a repetição do sujeito pelos pronomes: ele, eles, ela, elas, lhe, lho, lhos, lha, lhas. É escandaloso desconhecer-se a função dos pronomes e o seu uso.
2) Vício de “algo”: “Ler é algo bom”. Sem a vulgaridade: “Ler é bom.”.
3) Vício de “registro”: “Tenho registro fotográfico” por “Tenho fotografia”; “O contraste entre imagens e texto esclarecem aspectos. Nestes registros, há boas informações.”. Sem o vício: “O contraste entre imagens e texto esclarecem aspectos. Neles, há boas informações.”
4) Vício de “projeto”: “Fulano lançou um livro; é o seu primeiro projeto”.
5) Vício de “todo um”: “No Brasil há todo um contexto de crise.”.
6) Vício de “bem claro”: “Deixei bem claro o que pretendo”.
7) Vício de “a gente”: “A gente quer.”
8) Vício de “o que”: “Possuo muitos livros. O que me alegra.” Forma correta: “Possuo muitos livros, o que me alegra”. Não se pode separar um elemento da frase, do outro, no caso.
9) Vício de “possuir”: “Possuo dor-de-cabeça”, “O brasileiro possui virtudes”, por “Tenho dor-de-cabeça”, “O brasileiro tem virtudes.”.
10) Vício de “ganhar”: “Curitiba ganha mais um restaurante”, “Fulano ganha respeito”, “Tal partido tem ganhado eleitores”. [Vulgaridades plebéias: “Fulana ganhou nenê”; “A aluna ganhou um ponto do professor”. As mulheres não ganham bebês: concebem-nos.].

11) Vício do emprego do futuro pelo passado: “Aristóteles vai dizer que […]”. Aristóteles já morreu e o que disse, disse no passado. Logo: “Aristóteles disse que […]”.

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