Artigos sobre nudez natural, não erótica.

Os meus artigos, ilustrados com fotografias, em favor da nudez natural e pelo fim do pudor:

Nudez e vergonha do corpo: aqui. (É o campeão de acessos.).

A favor da nudez: aqui.

Nu na rua. Código Penal arcaico: aqui. (Em que demonstro que, no Brasil, NÃO É PROIBIDO ANDAR NU NA RUA.).

As mamas as vento (“topless”) em público NÃO constituem crime de ato obsceno. Onde o homem pode expor o tórax, a mulher pode fazer o mesmo, decidiu o TJ de SP: aqui.

Abricó, praia nudista: aqui.

Mamas ao vento e pênis à mostra: aqui.

A nudez é inocente: aqui.

Chispada: aqui.

                        Nudez perante crianças: Nudez perante crianças. PDF.

Teologia da nudez (em que examino a nudez, o “pecado original”, a nudez de 3 profetas e a atitude de Cristo em relação à nudez,  simpaticamente à nudez). (A minha condição de ateu e de jamais cristão não é contraditória com a minha teologia da nudez, que não pressupõe nem ser cristão nem crente em Jeová. Ela demonstra o quão parcial o cristianismo ortodoxo é, quanto à nudez e ao corpo e que é possível hermenêutica alternativa). Em 3 partes, ilustradas:

Primeira parte, na edição 175. Definição de nudismo; deus quis a nudez; o pecado original não foi erótico: aqui.

Segunda parte, na edição 176. O pecado original foi de desobediência; pecado é recusar a obra divina; Isaías, Miquéias e Saul nus; a nudez em Cristo; opiniões de autoridades cristãs em prol da nudez: aqui.

Terceira parte, na edição 177. Origem histórica, persa e cristã, da gimnofobia e do pudor: aqui.

Envergonhar-se do corpo é obrigatório? Divertido sermão nudista. aqui.

Homens que, nos vestiários de academias, entram no chuveiro de cueca e deles se restiram de cueca. Pudor ridículo (parece convento) de curitibanos e não só: aqui.

Minha carta à ministra dos Direitos Humanos, em prol do nudismo, do monoquini e da revogação do artigo 233 do Código Penal: carta-a-ministra-dos-direitos-humanos.

Os fotógrafos e as fotografias de nus em público. Trecho de epístola ao comandante da PM de SP:aqui.

No Jornal Olho Nu há artigos meus nos números 159, 165, 166,168,169, 175, 170 (duas vezes), 175, 176, 177, 178, 180, 182.

Ética do corpo livre: aqui.

Jornal Olho Nu, 178, de setembro de 2015: análise do livro “O nu ao ar livre” aqui.

 João Ramalho, o primeiro nudista do Brasil, no século 15, no jornal Olho Nu, de fevereiro de 2019: aqui; o mesmo texto, acompanhado das fontes, em PDF: João Ramalho.

A arte, no Brasil, ainda é gimnofóbica. O brasileiro não representa o nu, notadamente masculino, ao passo que na Grécia e em Roma antigas, nos E.U.A. e na Europa atuais, o nu masculino é comuníssimo. Vide aqui coleção abundantíssima de nus masculinos, demonstração do quanto o brasileiro ainda é preconceituoso e caretíssimo. Vide aqui outro sítio de pintura de nus na arte (masculinos e femininos). O art. 233 do Código Penal pune fazer, ter, adquirir desenho, pintura, estampa obsceno. A arte com nu é obscena ? Está na hora de revogarem-se os artigos 233 e 234 do Código Penal.

                 Minha página no Tumblr: mostruário de nudez natural e artística:aqui. (https://arthurvirmonddelacerdaneto.tumblr.com/).

Vide aqui repertório de lindíssimas fotografias de  nus masculinos.

                Nudismo na Alemanha, nos anos 1920, com escola nudista e não só. Relato de R. Salardenne, no seu livro “Um mês entre os nudistas”: Um mês entre os nudistas.

O Cristo, nu, de chocolate: O Cristo nu, de chocolate.O cristo nu, de chocolate.

Filmagem de nu no metrô de Berlim aqui.

Por que, nas piscinas, os nadadores devem usar tanguinhas minúsculas? Nos E.U.A. , antes da caretização religiosa, nadavam nus. Veja aqui.

Fotografias de  nudez natural, em público, na Europa, aqui.

Sítio de fotografias de pinturas, desenhos e esculturas de nudez frontal masculina aqui.

Cinema nudista: aqui.

Vídeo. Visita do casal aos amigos nudistas. Para “melhorar o seu inglês”: aqui.

Pudor nos EE. UU. AA. e liberdade de nudez na Europa. Curtíssima metragem: aqui.

Resenha de “Pureza”, de Nelci Pereira de Sousa, livro adamita (nudismo cristão), de conteúdo altamente humanista e ótimo: aqui.

Projeto fotográfico brasileiro, de Hugo Godinho aqui.

Desenhos brasileiros de nus, de Fábio Lopes aqui.

Projeto fotográfico de Hugo Carmesin. Adesões à publicação do livro “Nu Cenário” aqui.

Snaps fanzine, revista de nudez masculina natural: aqui.

Viva Calígula, repertório de fotografias de nudez não erótica: aqui.

Reportagem sobre revistas de nudez natural, brasileiras: aqui.

“Eu escolhi você”, de Clarice Falcão, com imagens de nudez natural (no Vímeo): aqui.   Minha análise do clipe :eu-escolhi-voce-de-clarice-falcao-pdf

Testemunho de Adriano Facioli, acerca da sua experiência nudista: adriano-facioli-testemunho.

Filme de Antonio da Silva, “Poesia no pênis”: aqui.

“Le banquet d`Auteil”: dramaturgia com nudez. Vide a partir do quadragésimo nono minuto: aqui.

          Quatro desenhos nudistas, de Henrique de Macedo Airoso da Silva, publicados pelo jornal Olho Nu (edição de número 200, de julho de 2017): aqui.

Genealogia da obscenidade (vídeo de Diego Fernandes), no Youtube: aqui.

Há fotografias de nudez natural na Europa e EE.UU.AA, inclusivamente das escolas nudistas.

Se gostou da idéia, divulgue-a. A idéia é a de erradicar a vergonha do corpo, a de que há partes inerentemente obscenas (pênis, mamas, nádegas) no corpo, que devem ser ocultadas. A idéia é a de que todas as partes do corpo são dignas e apresentáveis e que não faz sentido o pudor como vergonha do corpo. A idéia é a de que a nudez natural é diferente de nudez sexual e de que a malícia está no pensamento do malicioso.

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Curitibanos-curitibocas.

Neste blogue, abaixo, “O curitibóca” (descrição e julgamento do próprio); “Cura-curitibóca” (terapia em sete lições) e “Bestiário do curitibóca ou exemplos da babaquice”.

Leia “O curitibóca” aqui.

Leia o Cura-curitibóca em oito lições aqui. Se você é curitibano, sugiro-lhe que leia, por primeiro, a oitava lição.

Leia o “Bestiário do curitibóca ou exemplos da babaquice” aqui.

Leia análises de outros autores, de Curitiba e forasteiros, sobre o etos e o patos do curitibano: O curitiboca. Alguns testemunhos.

 

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Polícia léxica.

POLÍCIA LÉXICA.
Censuraram a palavra mulato, por, alegadamente, derivar de mula, e os pardos não quererem ser tratados por mulas, embora jamais “mulato” tivesse conotação depreciativa.

Agora, censuraram o agradecimento “obrigado”, porque expressava, antanho, obrigação de reciprocidade, de quem agradecia, perante quem recebia o agradecimento (“Estou obrigado, sinto-me obrigado a retribuir-lhe”). Querem que se diga “Grato”. Até me constou que, em curso de Direito, docente riscou a palavra “obrigado”, em texto do seu instruendo.

Disse instruendo, pois aluno fica proibido: aluno significa sem luz. Bem, em Curitiba, em que não faz sol, “aluno”, pode.

Aliás, Curitiba também não se pode usar: que pouca vergonha, um tabuísmo na primeira sílaba ! Que é que se vai dizer para uma criança, que pergunte o que é “cu” ?! Que seja, pois, Ritiba, porém não pronuncie “rritiba” nem “rritchiba”.

Proponho que se proíba a palavra “trabalho”: deriva de “tripalium”, nome de estaca em que se castigavam os escravos medievos. Chamar a alguém de trabalhador equivale a apodá-lo de “escravo castigado”. Logo, fica censurada tal indignidade.

Também proponho que se proíba a palavra “cristãos”: em primeiro, porque não há Cristo grande nem maior do que o original; em segundo, porque ele foi condenado e executado e é indigno nomearem-se os adeptos de uma religião com o nome de um condenado à morte. Arranjem-se lá como puderem, com outro nome.

Também fica anatematizado o verbo “branquear”: não se poderá dizer que, lavada, a roupa foi branqueada, pois tal verbo é racista

Melhor será dizer que a roupa está imaculada.

Porém imaculada também é palavra reprovável, devido à Imaculada Conceição: dado que a religião dela se apropriou, para exprimir “concebeu sem cópula”, devemos reservar tal adjetivo para as mulheres que engravidem sem haverem recebido sêmen.

Quanto ao indumento que se lavou e ficou branco, é melhor não o lavar. Enodoado, encardido, sujo, evitam-se problemas de polícia etimológica.

Mourejar é verbo duvidoso: vários mourejam, com gosto; outros, com pena. É duvidoso se é termo enaltecedor ou deprimente dos mouros. Esfalfar-se é melhor.

Não se dirá enegrecer, a menos que seja louvaminheiro: “Estás bonito, hein ?! Depois de uma semana a tomar sol, estás enegrecido e sensual !”. Neste caso, aceita-se, porém repugnará dizer que “O céu enegreceu antes da tempestade.”.

O próximo passo da polícia vocabular será o de examinar-se a etimologia dos nomes próprios e ostracizar os inconvenientes. Creio que Letícia, permanecerá: alegria; Artur, também: urso forte. Que dizer de Teófilo (amigo de deus) ? E de Luciano, escravo de Lúcio ?

Certo é que o correto é Miguel Ângelo e não Michelangelo e que os prenomes podem ser traduzidos e a sua tradução era tradicional, até no Brasil: Carlos Marx, Frederico Engels, Alexandre Pope, Luis Beethoven.

Já Maycon, Djheynny, Kéroulaynne, Daiana e quejandos, acho bem se erradiquem, em nome dos direitos humanos. Aliás, estas extravagâncias não seriam usadas se os respectivos pais tivessem um mínimo de sensatez, de gosto e não alimentassem complexo de inferioridade perante dos E U A.

As palavras têm acepções próprias, genuínas e corretas, que devem ser mantidas, a bem da correta expressão de quem as usa. Muitas cambiam de sentido, com o andar dos tempos; quanto mais raso o conhecimento do seu significado (ou: quanto mais ignorante o povo) tanto mais há variações de acepção. Outra coisa é policiarem-se as palavras, devido à sua etimologia ou ao seu uso primevo: porque tal palavra foi usada em tal sentido, séculos atrás, então, hoje, fica proibida; ou: porque tal palavra tem tal raiz, então, fica hoje censurada.

A primeira atitude (de se manter inalterada a acepção das vozes) é recomendável; a segunda (de se estigmatizar dados termos em razão da sua etimologia ou do seu emprego de que já ninguém se recorda) é estúpida.

 

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O homem vulgar bosteja nas redes sociais.

 

O HOMEM VULGAR BOSTEJA NAS REDES SOCIAIS.

É cediço que a maioria das pessoas pensa por senso comum, sabe por senso comum, discute por senso comum. Também é cediço que o bom senso é rareia; outra verdade (que Umberto Eco denunciou ao dizer que nas redes sociais exprimem-se “sete bilhões de imbecis”) é a de que a maioria dos intervenientes nas redes diz do que ignora, do que sabe pouco, do que sabe mal; a maioria fala sem conhecimento de causa, sem reflexão, sem bom senso, sem perspicácia, sem argúcia. Já Augusto Comte alarmava-se com que abundante gente “decide em sociologia sem saber matemática”, mal que despontou com a liberdade de consciência irresponsável, inovação do protestantismo e mal nacional dos franceses, no século 16.

As tolices compreendem todas as matérias, desde a função dos léxicos até educação de filhos (alguns pensam, por exemplo, que os dicionários abonam as palavras.).

O mal não está apenas em o ignorante pronunciar-se ignorantemente: também está em haver ignorantes e em eles não saberem calar-se. Daí a profusão de asneiras que se lê, nas redes, sobre todos os temas, triste revelação da estreiteza mental de muitos. É o que Ortega y Gasset apontava no seu clássico “A rebelião das massas”, como defeito do homem-massa.

Augusto Comte, Umberto Eco e Ortega y Gasset eram homens cultíssimos (talvez não tanto o segundo); era superioridades, pela sua erudição, pela sua perspicácia, pela sua percepção da diferença entre o vulgo e o culto. Não suportariam as redes sociais.

Sintoma da profusão de superficialidade com que as pessoas ajuizam, no Brasil, é o uso do verbo “achar”: as pessoas “acham”. Ninguém tem de achar nada; tem-se de saber. Saber equivale a ler pelo menos dois livros sobre o tema em questão ou, pelo menos, material confiável e que propicie um mínimo de 1) conhecimento e de 2) entendimento.

Eis também porque me repugna disputar: pego mais um livro e vou lê-lo, o que me protege de asneirar e de julgar que tudo sei, ao passo que o ignorante ignora a própria ignorância e pretende ter opiniões e formular juízos, sem estar preparado para fazê-lo, com propriedade.

Também importa avaliar as coisas com imparcialidade, com isenção, com reflexão; saber cambiar de juízo. É valiosa a perspicácia espontânea, atributo inato, de que alguns são mais dotados do que outros.

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Olavo não é mentor de Bolsonaro.

OLAVO NÃO É MENTOR DE BOLSONARO.
Há duas declarações de Olavo em que nega explicitamente tal condição e nega-a malgrado haja proposto dois ministros. Ele sugeriu Ricardo Rodriguez e o ministro das Relações Exteriores, como muitos políticos sugerem, indicam, negoceiam nomeações para ministérios e nem por isto são “gurus”.

Olavo foi categórico em rejeitar a sua alegada condição de mentor ou de “guru” (palavra de mau gosto). Indicar dois ministros não faz de ninguém guru de ninguém.

Ser mentor ou “guru” é outra coisa: é exercer influência intelectual, plasmar a mentalidade e o recheio cultural do influenciado. Bolsonaro não é olavinho, não foi aluno de Olavo, não lhe é leitor. É caricato pretenderem que Olavo seja o mentor de Bolsonaro: é não saber o que seja “mentor”, “influenciado”, “discípulo” nem influência intelectual, o que me parece sintoma de pauperismo intelectual do meio brasileiro, de muitos jornalistas brasileiros, para além de, em muitos, inclinação hostil a um e ao outro.

Também não basta para alguém ser mentor de outrem, que este haja presenteado um dos seus filhos com livro do suposto mentor (Bolsonaro fez presente de um livro de Olavo para um dos seus filhos). As pessoas presenteiam parentes e amigos com livros e nem por isto os respectivos autores são mentores dos presenteadores.

Pouco se me dá se Olavo é ou não é mentor de Bolsonaro ou seja lá de quem for. O que me incomoda é a superficialidade, até a leviandade com que muitos lhe imputam tal condição. O que me incomoda não é que imputem tal condição a Olavo nem que a imputem em relação a Bolsonaro e sim a leviandade com que atribuem ascendência intelectual de uma pessoa em outra.

Onde abunda a gente destituída de cultivo intelectual, abundam os que desconhecem o que seja influência de um pensador nos seus adeptos ou nos que se convencem das suas proposições. Irrita-me a leviandade com que os pregoeiros do mito do “Olavo guru” maltratam a vida intelectual e ajuízam do que seja influência intelectual. Trata-se de balela para consumo das massas e dos ingênuos, da maioria alheia à vida contemplativa e aos crédulos.

Mentor é Augusto Comte, dos Positivistas; Carlos Marx, dos marxistas; os papas, dos cristãos; Paulo Freire, de muitos pedagogos. Olavo está muito longe de preponderar intelectualmente, em Bolsonaro, a ponto de ser-lhe mentor.

Suponho que ninguém seja mentor de Bolsonaro. Suponho que ele seja intelectualmente aquém de ter algum.

Há, no Youtube as declarações de Olavo, em que recusa o papel que os outros lhe atribuem, de mentor do presidente.

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Doutores mal sabedores do vernáculo.

DOUTORES MAL SABEDORES DO VERNÁCULO.

Arthur Virmond de Lacerda Neto. 9.I.2019. 

Hodiernamente, muitos nuper-formados adentram o mestrado e, a seguir, doutoram-se. Os doutores brasileiros atuais são geralmente jovens, nos inícios da sua trintena ou no final da casa dos 20 anos.

            Eles passam cerca de dez anos em altos estudos universitários e cometem, oralmente e por escrito, os mais variados erros de Português. Há doutores e pós-doutores em História, Economia, Filosofia, Psicologia, Antropologia etc., que não o apreenderam a contento: redatam consoante as fórmulas em voga, sem estilo próprio; desconhecem as segundas pessoas, a mesóclise, os pronomes contraídos e as preposições corretas; incorrem na sintaxe do inglês e do francês; usam anglicismos e galicismos (provavelmente mal sabem o que é tudo isto); erram preposições, colocação pronominal, pronomes; ignoram o sentido lídimo de palavras; suprimem as partículas dos verbos transitivos indiretos e de locuções; empregam metáforas tolas (por ignorância dos vocábulos que aplicar em sentido próprio ou por afetação[1]); constroem com deselegância; erram a crase ou engendram-lhe o uso a despropósito, por ignorância das preposições cabíveis; praticam o vício do duplo sujeito e, por isto, desconhecem o emprego dos pronomes; usam adjetivos em lugar dos advérbios de modo (sequer os sabem distinguir); traduzem mal, crêem que fazê-lo de feição corresponde a imitar fielmente o original  e, certamente, jamais leram Machado de Assis, Aloísio de Azevedo, José de Alencar, Coelho Neto nem Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco nem José Saramago. Tampouco leram memorialistas, autobiografias nem biografias.

            Não é assim com todos nem sempre; é assim geralmente com doutores da USP, da Unicamp, da UFPR e de várias outras universidades federais, em artigos, capítulos de livros e livros publicados, por editoras universitárias e não só, bem como em artigos de blogues e postagens no Facebook.

            O estudante passa quatro ou cinco anos na graduação, em que lê (se lê) textos técnicos, porém não o cânone do idioma (autores brasileiros e portugueses, notadamente os clássicos). Ao longo dos dois ou três anos seguintes, cursa o mestrado em que lê (as suas incumbências acadêmicas exigem-lhe leituras) literatura técnica, possivelmente não apenas em vernáculo; não lê o cânone do idioma. Mestre e, já agora, doutorando, a sua atividade de leitura consiste, ao longo de quatro ou mais anos, em literatura técnica, em Português, certamente em inglês e em outro idioma; não lê o cânone do vernáculo. Ao cabo do seu mestrado, ejaculou dissertação; ao fim do seu doutoramento, ejaculou tese; ao longo de ambos, publicou artigos, tudo em Português defeituoso.

            O novo doutor passou pelo menos uma década enfronhado em textos técnicos e escreveu pelo menos dois livros; ao longo destes dez anos (ou mais) escasseou-lhe disponibilidade (o que é compreensível) ou faleceu-lhe vontade e interesse (o que é culpável) ou, provavelmente, ambos, de ler Machado intensamente, Aloísio abundantemente, Saramago fartamente, e mais Alencar, Raul Pompéia, Lima Barreto, Adolfo Caminha, Júlio Ribeiro, Coelho Neto. Também há que haver lido Eça de Queiroz, com fartura, e Camilo Castelo Branco (com algum dicionário grande em mão). Privo-me de incluir Euclides da Cunha, nas duas primeiras partes de Os sertões: seria demais para quem jamais se deu ao esforço de ler sequer um livro de cada um dos anteriores, embora devesse haver lido, por inteiro, a sua terceira parte.

            O novel doutor é moço; encarna, certamente, o orgulho da sua família; envaidece-se, porventura, da precocidade do seu elevado grau; valoriza o conhecimento que hauriu nos seus minuciosos estudos e o com que acrescentou a massa do saber humano, no seu doutoramento. Malgrado tudo isto, sabe mal o seu idioma, em que redige mal: ejaculou artigos, dissertação de mestrado e tese de doutoramento inquinada dos mais variados solecismos e, aqui e ali, de estilo canhestro. Expôs aos leitores o que se nomeia de norma culta, tal como a empregam os cultos, conceito ilusório em relação a ele: ele é pseudo-culto em Língua Portuguesa; os seus textos correspondem aos de quem deveria ser culto no idioma, porém não o é.

            A redação dos nossos jovens doutores não é exemplar; não serve de modelo do idioma; não exprime, deveras, o estado do idioma tal como o praticam os que bem o sabem. Ao invés: quanto mais jovem o doutor, tanto mais é certo não se haver enfronhado na herança literária do seu idioma, escrever com alguma deselegância e, sobretudo, defeituosamente.

                     Carente de freqüentação dos bons autores do idioma, ele é forçado a redigir no meio acadêmico, sem haver, previamente, treinado a arte de escrever e sem se haver familiarizado com os que a praticaram superiormente. Finalmente, doutora-se: é doutor proficiente em dois idiomas, sem o ser, de todo, no seu; é doutor que redige e traduz mal; é doutor indouto em vernáculo, com gradações na qualidade ruim, desde a supressão das mais indispensáveis proposições e a construção imitante da fala, até o duplo sujeito e o vanilóquio prolixo.

           Há quem, dentre eles, redija relativamente bem; entretanto, de doutores, seria expectável mais qualidade; de doutores, dever-se-ia esperar correção inatacável; de doutores, deve-se exigi-la.[2]

            É fácil objetar-se que o estilo científico ou técnico difere do do beletrista, do romancista, do poeta (não me refiro à poesia e sim à prosa) e que, por isto, é errado comparar-se o incomparável; que se deve cotejar os bons escritores de textos técnicos e científicos com os seus homólogos, ruins, e não uns nem outros, com os romancistas e contistas.

            Seja. Não se trata, contudo, de os jovens doutores (em ciências humanas, exatas ou biológicas) mimetizarem o estilo dos romancistas, contistas, memorialistas, biógrafos, poetas; de exprimirem os seus conteúdos em romances, contos, memórias, poemas; de sacrificarem a descrição da fatos e a sua interpretação à imaginação própria de ficcionistas nem de exprimirem-nas em jeito de retrospectiva pessoal. Trata-se de familiarizarem-se com as formas literariamente superiores, com o idioma tal como nele redigiram os seus expoentes, cuja leitura ensine, espontaneamente, a perceber-se o que é texto dotado de beleza, clareza e destreza, qualidades que o cientista e o técnico aplicarão nos seus textos científicos e técnicos, o que, por sua vez, resultará em textos científicos e técnicos de qualidade na sua forma. Que o mestre e o doutor eduquem-se como redatores, assim como educaram-se como pesquisadores.

            A seleção de candidatos ao mestrado e ao doutorado, bem como as bancas de defesa de mestrado e de doutoramento, devem atentar também na perfeição do texto do candidato e do concluinte, à luz da sua forma e da sua correção gramatical. Se já o fazem, que assim persistam; se não o fazem, é desejável adotarem este critério, indispensável a quem escreve e a quem produz literatura correspondente aos graus acadêmicos excelsos.

       É horrível ler teses em que o doutor escreveu: “[…] ao afirmar a estrutura que O permitirá […]”. É horrível ouvir professores-doutores dizerem: “Quero agradecê-LO”. É horrível ler coisas como: “A fará” ou “Estava interessado SOBRE tal tema.”. É horrível encontrar construções doutorais como: “Lembro que era isto” (em lugar de “Lembro-me de que era isto”). É lastimável ler coisas do tipo de “Me pareceu” ou “Os amigos se encontrariam”, em lugar de “Pareceu-me” e de “Os amigos encontrar-se-iam”.

         É falacioso pretender-se que o idioma alterou-se e que a evidência disto está precisamente na redação doutoral: afinal, trata-se de doutores (e não do vulgo ignaro), que se exprimem consoante a norma culta. É diferente o autor praticar pequenas inovações, ao sabor do seu estilo, do câmbio da acepção das vozes, dos usos correntes de, por outro lado, errar por ignorância ou mal conhecimento da norma culta.

            Supõe-se que o doutor conheça, a contento, as regras do seu idioma natural e as aplique; espera-se que ele escreva e fale melhor do que o vulgo; que a sua expressão revele o estado do uso culto do idioma; que, enfim, os doutores sejam redatores à altura do seu doutorado. Porém não é assim: os fatos desmente tais expectativas, com freqüência suficiente para justificar-lhe a generalização (ressalvadas as exceções).

            Décadas atrás, os autores e os tradutores brasileiros, os professores, os jornalistas, os estudantes e o público em geral, conheciam as regras do idioma com mais propriedade e as usavam mais do que nos últimos cerca de quarenta anos. Havia bem menos doutores do que hoje e os não-doutores redigiam com beleza e escorreição, sem os defeitos dos nossos jovens acadêmicos. É vergonhoso que o estado do idioma no Brasil seja de mudança para pior.

            Estudar a gramática é importante e usá-la é valioso, em favor da precisão e da clareza da comunicação. Na sua maioria, a nova geração doutorada cursou, no ensino ginasial, a disciplina de Língua Portuguesa, em que sofreu certamente, inculcação da sócio-lingüística, de doutrinas segundo as quais a gramática constitui-se de regras opressoras, arcaicas, lusitanas, que urge reformar e inovar. Somem-se as idéias, falaciosa, da existência do idioma brasileiro; tola, da independência lingüística brasileira: elas criaram ambiente mental justificador do envilecimento do idioma e não apenas da incorporação, legítima, de fraseologia, de vocabulário, de localismos brasileiros. Combinadas tais influências com o menor esforço (critério de todo medíocre), o resultado é o do certo desdém pela forma realmente culta do vernáculo e a aceitação do seu rebaixamento, males que os doutores não transcendem como seria de esperar da elevação dos seus estudos e do seu grau.[4]Parte superior do formulário

            Defeito grave, já grafopatia (doença de redação) endêmica, é o (cafona) duplo sujeito: “João Bodin analisou os governos do tempo do autor, embora houvesse análises diferentes das do filósofo político. O analista francês recebeu elogios.” Haja paciência para aturar tal tipo de excrescência !          A mesma frase, expurgada do defeito: “João Bodin analisou os governos do seu tempo, embora houvesse análises diferentes das suas. Ele recebeu elogios.”.

            Não é desaconselhável repetir-se diretamente o sujeito; evita-se-lhe a repetição pelos pronomes, cuja função consiste precisamente em substitui-lo. Em vez de os maus redatores valerem-se deles, empregam perífrases com que multiplicam, irracionalmente, o sujeito, em detrimento da clareza e da concisão do seu texto. Acadêmicos, jornalistas, juristas, tornarem-se exímios nesta aberração que conduz à dubiedade no texto. Baldos de tirocínio suficiente com que atinem na estupidez que é a duplicação do sujeito e de autonomia estilística com que redatem fora da fórmula de redação que ele representa, os doutores cometem-no, tal qual os piores escrevinhadores.[5]     

            Evitam a repetição do sujeito e o vício do duplo sujeito os pronomes ele, eles, ela, elas, o, a, os, as, te, to, ta, tos, tas, vos, vo-lo, vo-la, vo-los, vo-las, nos, no-lo, no-la, no-los, no-las, lhe, lhes, lho, lha, lhos, lhas, cujo, cuja, cujos, cujas, dele, dela, deles, delas, seu, sua, seus, suas, vosso, vossas, que existem precisamente para isto; tal é a sua função.

            O seu emprego não causa nenhuma confusão, a não ser que o texto haja sido mal redigido ao ponto de havê-la, caso em que o defeito não radica no pronome e sim na inépcia do autor. Bons redatores empregam, vantajosamente, os pronomes; maus redatores usam, desvantajosamente, o duplo sujeito e desconhecem o valor dos pronomes.

  Aceda à totalidade do texto por aqui: doutores mal sabedores do vernáculo pdf.

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A declaração de Damares Alves.

 

A declaração de Damares Alves.

Arthur Virmond de Lacerda Neto. 9.I.2019.

Ao tomar posse como Ministra da Mulher e dos Direitos Humanos (em primeiro de janeiro de 2019), Damares Alves, pastora, exclamou, em meio a circunstantes que “meninos vestem azul e meninas vestem [cor-de-] rosa!”, declaração que lhe suscitou críticas até escárnios.

A seguir, o também pastor Silas Malafaia ironizou a esquerda e verberou os críticos de Damares pela invocação do nome das campanhas “Outubro azul” e “Novembro rosa”, de profilaxia dos tumores, respectivamente, de próstata e de mamas.

Os nomes das campanhas foram empregados apenas descritivamente ou sequer isto: eles limitaram-se a associar o azul com homens e o cor-de-rosa com mulheres, associação trivialmente efetuada pelas pessoas, ou seja, eles acompanharam o costume, ao passo que a pastora referiu-se às cores prescritivamente: meninos usam azul e meninas, cor-de-rosa contém a elipse do verbo dever: meninos devem usar azul e meninas, cor-de-rosa. Se não houve elipse, é mais do que óbvia a intenção da pastora de conotar cor e sexo com relação de inerência, de obrigação cultural, de pressuposto.

Para ser compreendida, a metáfora deve fazer sentido para o interlocutor (leitor ou ouvinte), ou seja, este deve estar a par do sentido denotativo a que a metáfora se refere, conotativamente. Para fazer sentido, o interlocutor deve saber haver uma realidade distinta da metáfora, de que ela é expressão como figura de linguagem. Nem sempre o interlocutor sabe existir tal realidade e não a compreende. Outra causa de incompreensão está na pobreza intelectual do interlocutor, no seu literatismo; é o caso do leitor, por exemplo, que interpreta a Bíblia literalmente e aceita (por exemplo) haver o mundo sido criado em seis dias e ter havido uma serpente que ofereceu uma fruta (não foi maçã) a Eva.

O asserto de que “meninas vestem cor-de-rosa e meninos, azul”, é metafórico como analogia ao combate à mal chamada ideologia de gênero que, por sua vez , compreende, em sentido próprio, que, de fato, para Damares e seguidores, o azul é a cor típica do vestuário masculino infantil e o cor-de-rosa, do vestuário feminino infantil.

Ela falou metaforicamente, em parte; em parte, denotativamente. Quem a entendeu literalmente, entendeu-a corretamente; quem a entendeu como metáfora, também a entendeu corretamente. Damares não vestiria as suas filhas de azul nem os seus meninos de cor-de-rosa; ela tomou posse trajada, inteiramente, de cor-de-rosa, aspecto em que a sua manifestação deu-se em sentido próprio e não figurado.

É ingenuidade pensar-se que ela falou apenas metaforicamente, como se ela não julgasse que as cores a que se referiu pertencem, tipicamente, a meninos e a meninos. Ainda que o seu aforismo cromático fosse apenas metafórico, não seja ingênuo: para Damares, o lugar por excelência da mulher, é em casa, sob a autoridade do marido e ambos, da de Cristo (interpretado pelos pastores, de que ela é uma): a tal corresponde a cosmovisão evangélica, essencialmente conservadora, em termos de família.

A suposta metáfora é rica de significados cristãos, conservadores, retrógrados; religiosos no que o cristianismo na versão da ministra tem de arcaizante e contrário, obviamente, à discussão de gênero, que consiste na análise racional, à luz da sociologia, da história, da psicologia, dos condicionamentos que a cultura constrói no papel desempenhado por homens e por mulheres.

Gostaria de saber como é que a pastora, agora ministra, concilia o seu entendimento conservador com a sua própria condição de mulher-extra-doméstica, em cargo público: creio tratar-se do que Olavo de Carvalho nomeia de paralaxe cognitiva, incoerência entre o que se apregoa e o que se vive, dissociação entre a experiência real e deliberada do sujeito e a sua construção teórica: se Damares fosse coerente, recolher-se-ia ao seu lar em vez de entregar-se à mundanidade. Se ela aceitou o cargo de ministra, julga que as mulheres não se devem limitar ao papel de mãe, de esposa e de dona-de-casa, porém podem assumir papéis tradicionalmente ocupados por homens: tal tipo de consideração corresponde precisamente ao tema da discussão de gênero. Discussão de gênero e não “ideologia de gênero”, como erradamente certos conservadores e evangélicos o apodam, inclusivamente Damares Alves, que se exprimiu mal. Disse ela, ao explicar a sua declaração:

“— Fiz uma metáfora contra a ideologia de gênero, mas meninos e meninas podem vestir azul, rosa, colorido, enfim, da forma que se sentirem melhores.”

A declaração de Damares Alves contém três solecismos: um de pronome e dois de advérbio:
1) forma é “como” e não “que”: “forma como se sentir” e não “forma que se sentir”. Esta de “que” em lugar de “como” é primária e equivalente a “A pessoa que o pai dela morreu”.
2) ninguém se veste da forma como se sente “melhor”: alguém se sente bem ou sente-se mal com dado indumento. Quem se sente bem, pode sentir-se mais bem ou menos bem; quem se sente mal, pode sentir-se mais mal ou menos mal. Assim, a pessoa pode vestir da forma COMO se sinta MAIS BEM.
Ainda que fosse correto o emprego da adjetivo “melhores”, deveria ter sido usado no singular, em vez de no plural.

Forma é forma COMO e jamais forma QUE. “Forma que” é coisa de gente pobre de cultura.

Sente-se bem, mais bem, menos bem; mal, mais mal, menos mal e não pior nem melhor. Isto de pior e melhor é coisa de gente que não percebe a lógica do idioma.
Se a ministra fosse esquerdista, far-lhe-ia as mesmas observações. Acho pior o erro em quem é (?) leitora da Bíblia, que no Brasil foi otimamente traduzida, e sua pregadora. Ao menos, estivesse acostumada com o que lê e o repetisse. Não o está e não o fez.

 

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Palavra “séde”: mistério…

PALAVRA “SÉDE”: MISTÉRIO …

Alguns (jovens) estranham quando me ouvem a palavra “séde” (sede de uma firma, como na frase “Endereço da sede, nome, CNPJ”). Fazem-me cara de estranheza, esgares, expressões de interrogação e até de nojo, como se estivessem contendo descarga diarréica.

Há “sede” (“sêde”) e há “sede” (“séde”) e há adultos jovens que desconhecem “séde”. Dá-me o que pensar: há pobreza léxica; estão avezados a vocabulário exíguo; estão desacostumados a adir ao seu repertório terminológico; não consultam léxicos.

O pior é a cara de nojo de alguns. Outros emitem sons:
– Hã ?
“Hã” não sei o que seja.

Outros termos não suscitam reações que tais. Deve haver alguma essência metafísica na palavra “séde”: ela contém, quiçá, propriedade estranhável, assim como as palavras sinalagma, impertérrito, fescenino.

Talvez ela seja demoníaca, instrumento do Diabo para tentar quem acredita em que ele existe (esta de Diabo é patacoada, porém há vastas camadas de humanos que lhe aceitam a existência e o temem. É ridículo, mas, enfim, cada um é tolo ao seu modo).

Talvez seja ela palavra de uso raríssimo, invulgaríssimo, própria de doutíssimos.

Para os que a estranham, quiçá seja cacofônica e lhes soe mal, como a expressão: “vaca galo”, em que há cacófaton: “vá cagá-lo”, que muitos não percebem, pois só conhecem “vá cagar ele” em lugar de “cagá-lo”. (É no que dá povo incapaz de combinar o verbo com o pronome como: “vendê-lo”, “emprestá-lo”, “comuniquei-o”. Combinação deste tipo com mesóclise já excede o expectável, em brasileiros atuais: “dir-to-ei”, “explicar-lhe-ia”, “ensinar-vo-lo-ei”. “Sê-lo” pensam ser “selo”). Não atino na ruindade dos sons “sé”, “dê”.

Talvez ela seja como outra qualquer, como as mais fáceis (ela o é) do vernáculo e seja bem sonante e inocente (afianço-vos que o é), e o problema (há algum) esteja com certos jovens que, dotados de conhecimento raso do seu idioma, desconhecem-na.

Moça brasileira, ontem, disse-me e para quem me acompanhava: “Deixo [um objeto] convosco”. Convosco ! Foi corretíssimo ! Em Portugal, toda a gente (“toda a gente”, que “todo o mundo” é porcaria: galicismo), até crianças sabem “vosso” e “convosco”; cá, é motivo de júbilo quando jovem (vestia preto) exprime-se assim: presumo ser efeito do preto que vestia.

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Bolsonaro não é Positivista.

Alexandre Andrada divulgou, em primeiro de janeiro de 2019, que Bolsonaro filia-se ao Positivismo: é mentira que aqui refuto.

Texto completo, em PDF, com sinopse histórica do Positivismo no Brasil, explicação do que é a ditadura republicana, negação de que Getúlio e o regime de 1964 fossem positivistas e de que Bolsonaro o seja: Bolsonaro não é Positivista.

Jair Bolsonaro não é Positivista, não se filia à tradição Positivista, não foi aluno de Benjamin Constant; pertence a geração muitas décadas posterior ao fim do ciclo humanista do Positivismo no Exército e acha-se, cronologicamente (também mentalmente ?) muito mais propínquo do ciclo anti-Positivista. Certamente jamais leu Augusto Comte nem os seus principais discípulos e expositores, como Laffitte, Littré, Harrison, Marvel, Barreda, Lagarrigue, Miguel Lemos, Teixeira Mendes, Ivan Lins, Luis Pereira Barreto, Mozart Teixeira Soares, para quedar-me com os óbvios.

Para se filiar o bolsonarismo ao Positivismo, é indispensável encontrarem-se declarações escritas ou orais de Jair Bolsonaro, em que lhe aluda, em que se refira às obras de Augusto Comte, em que nomeie Augusto Comte, Miguel Lemos, Teixeira Mendes, Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, os militares Positivistas; em que se refira, enaltecedoramente, à constituição gaucha de 1891, em que empregue a locução “ditadura republicana”. Nada disto se encontrou. Nada disto existe. Não há, no ideário de Jair Bolsonaro, nenhum elemento Positivista, nenhuma idéia, nenhum valor, nenhum princípio cuja percepção justifique conotá-lo com o Positivismo e com a “ditadura republicana”.

Ao invés, o (alegado) mentor intelectual de Bolsonaro é Olavo de Carvalho, por sua vez, antagonista do Positivismo, mal-informado e desinformador: no seu livro O jardim das aflições, Olavo disparatou acerca do Positivismo, que verberou sem o conhecer. Falou sobre o que desconhece. Para mais, Olavo professa o catolicismo, com cuja dogmática o Positivismo antagoniza.

Bolsonaro e Carvalho são cristãos; o Positivismo não o é. Bolsonaro e Carvalho são deístas; o Positivismo não o é. O Positivismo é ateu e humanista; Bolsonaro e Carvalho não o são. O Positivismo é pela laicidade; Bolsonaro, ao contrário.[1]

O autoritarismo político é suscetível de existir sobre si, independentemente de qualquer doutrina, o que inclui o Positivismo, seja entre civis como no meio castrense. A condição de militar, aliás, reformado há trinta anos, de Jair Bolsonaro não o conota, por inerência, com o Positivismo, como se todo militar brasileiro fosse Positivista, por algum modo, ou aderisse à “ditadura republicana”.

Se Bolsonaro professa autoritarismo, é por conta própria ou devido ao influxo de outros mentores, de outras fontes intelectuais que não o Positivismo. A sua orientação mental não é Positivista.

Jair Bolsonaro recusa a laicidade do Estado, ou seja, a separação entre igrejas e Estado; o Positivismo preconiza-a.

Jair Bolsonaro converteu-se a uma seita evangélica e foi batizado; um dos seus lemas de campanha foi “Deus acima de tudo”; o Positivismo não é teológico; aliás, é anti-teológico e ateu ou, no mínimo, agnóstico, ou seja, indiferente à idéia de deus. Para os Positivistas, a Humanidade está acima de todos.

Jair Bolsonaro professa ou aparenta professar crença em Jeová, deidade que o Positivismo reputa como mais uma de tantas, que serviram em fases pretéritas como forma, inteiramente imaginária, de intelecção da natureza.

Jair Bolsonaro externizou racismo contra pretos, homofobia e em mais de uma tirada exprimiu o seu intuito de matar, individual ou coletivamente, os seus desafetos políticos. Bastariam estas três ordens de considerações para dissociá-lo do Positivismo: os Positivistas tratam as pessoas em geral com respeito, independentemente da sua cor, da sua condição sexual e da sua convicção política. Jamais um Positivista diria ter filhos que não desposariam “mulher negra”, que homossexualidade se trata com violência física e que os adversários devem ser mortos.

Constitui artifício retórico associar-se Bolsonaro com o Positivismo: dado o preconceito que vincula o Positivismo com autoritarismo, dada a presença do Positivismo no meio militar (no passado), dada a condição de militar de Bolsonaro, uma forma de denegrir a este consiste em tachá-lo de Positivista (como se ser-se Positivista correspondesse a desdouro), o que é falso (pois Bolsonaro não aderiu ao Positivismo), errado (pois Bolsonaro externa convicções opostas aos dogmas Positivistas) e desonesto (pois nem o Positivismo é autoritário, nem a ditadura republicana o é, nem Bolsonaro praticou atos de autoritarismo despótico.).

 

[1] Minha análise da obra e da influência de Olavo de Carvalho: https://arthurlacerda.wordpress.com/2018/12/04/como-vejo-olavo-de-carvalho/.

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