Artigos sobre nudez natural, não erótica.

Os meus artigos, ilustrados com fotografias, em favor da nudez natural e pelo fim do pudor:

Nudez e vergonha do corpo: aqui. (É o campeão de acessos.).

A favor da nudez: aqui.

Nu na rua. Código Penal arcaico: aqui. (Em que demonstro que, no Brasil, NÃO É PROIBIDO ANDAR NU NA RUA.).

As mamas as vento (“topless”) em público NÃO constituem crime de ato obsceno. Onde o homem pode expor o tórax, a mulher pode fazer o mesmo, decidiu o TJ de SP: aqui.

Abricó, praia nudista: aqui.

Mamas ao vento e pênis à mostra: aqui.

A nudez é inocente: aqui.

Chispada: aqui.

                        Nudez perante crianças: Nudez perante crianças. PDF.

Teologia da nudez (em que examino a nudez, o “pecado original”, a nudez de 3 profetas e a atitude de Cristo em relação à nudez,  simpaticamente à nudez). (A minha condição de ateu e de jamais cristão não é contraditória com a minha teologia da nudez, que não pressupõe nem ser cristão nem crente em Jeová. Ela demonstra o quão parcial o cristianismo ortodoxo é, quanto à nudez e ao corpo e que é possível hermenêutica alternativa). Em 3 partes, ilustradas:

Primeira parte, na edição 175. Definição de nudismo; deus quis a nudez; o pecado original não foi erótico: aqui.

Segunda parte, na edição 176. O pecado original foi de desobediência; pecado é recusar a obra divina; Isaías, Miquéias e Saul nus; a nudez em Cristo; opiniões de autoridades cristãs em prol da nudez: aqui.

Terceira parte, na edição 177. Origem histórica, persa e cristã, da gimnofobia e do pudor: aqui.

Envergonhar-se do corpo é obrigatório? Divertido sermão nudista. aqui.

Homens que, nos vestiários de academias, entram no chuveiro de cueca e deles se restiram de cueca. Pudor ridículo (parece convento) de curitibanos e não só: aqui.

Minha carta à ministra dos Direitos Humanos, em prol do nudismo, do monoquini e da revogação do artigo 233 do Código Penal: carta-a-ministra-dos-direitos-humanos.

Os fotógrafos e as fotografias de nus em público. Trecho de epístola ao comandante da PM de SP:aqui.

No Jornal Olho Nu há artigos meus nos números 159, 165, 166,168,169, 175, 170 (duas vezes), 175, 176, 177, 178, 180, 182.

Ética do corpo livre: aqui.

Jornal Olho Nu, 178, de setembro de 2015: análise do livro “O nu ao ar livre” aqui.

A arte, no Brasil, ainda é gimnofóbica. O brasileiro não representa o nu, notadamente masculino, ao passo que na Grécia e em Roma antigas, nos E.U.A. e na Europa atuais, o nu masculino é comuníssimo. Vide aqui coleção abundantíssima de nus masculinos, demonstração do quanto o brasileiro ainda é preconceituoso e caretíssimo. Vide aqui outro sítio de pintura de nus na arte (masculinos e femininos). O art. 233 do Código Penal pune fazer, ter, adquirir desenho, pintura, estampa obsceno. A arte com nu é obscena ? Está na hora de revogarem-se os artigos 233 e 234 do Código Penal.

Vide aqui repertório de lindíssimas fotografias de  nus masculinos.

                Nudismo na Alemanha, nos anos 1920, com escola nudista e não só. Relato de R. Salardenne, no seu livro “Um mês entre os nudistas”: Um mês entre os nudistas.

Filmagem de nu no metrô de Berlim aqui.

Por que, nas piscinas, os nadadores devem usar tanguinhas minúsculas? Nos E.U.A. , antes da caretização religiosa, nadavam nus. Veja aqui.

Fotografias de  nudez natural, em público, na Europa, aqui.

Sítio de fotografias de pinturas, desenhos e esculturas de nudez frontal masculina aqui.

Cinema nudista: aqui.

Vídeo. Visita do casal aos amigos nudistas. Para “melhorar o seu inglês”: aqui.

Pudor nos EE. UU. AA. e liberdade de nudez na Europa. Curtíssima metragem: aqui.

Resenha de “Pureza”, de Nelci Pereira de Sousa, livro adamita (nudismo cristão), de conteúdo altamente humanista e ótimo: aqui.

Projeto fotográfico brasileiro, de Hugo Godinho aqui.

Desenhos brasileiros de nus, de Fábio Lopes aqui.

Projeto fotográfico de Hugo Carmesin. Adesões à publicação do livro “Nu Cenário” aqui.

Snaps fanzine, revista de nudez masculina natural: aqui.

Viva Calígula, repertório de fotografias de nudez não erótica: aqui.

Reportagem sobre revistas de nudez natural, brasileiras: aqui.

“Eu escolhi você”, de Clarice Falcão, com imagens de nudez natural (no Vímeo): aqui.   Minha análise do clipe :eu-escolhi-voce-de-clarice-falcao-pdf

Testemunho de Adriano Facioli, acerca da sua experiência nudista: adriano-facioli-testemunho.

Filme de Antonio da Silva, “Poesia no pênis”: aqui.

“Le banquet d`Auteil”: dramaturgia com nudez. Vide a partir do quadragésimo nono minuto: aqui.

          Quatro desenhos nudistas, de Henrique de Macedo Airoso da Silva, publicados pelo jornal Olho Nu (edição de número 200, de julho de 2017): aqui.

Genealogia da obscenidade (vídeo de Diego Fernandes), no Youtube: aqui.

Há fotografias de nudez natural na Europa e EE.UU.AA, inclusivamente das escolas nudistas.

Se gostou da idéia, divulgue-a. A idéia é a de erradicar a vergonha do corpo, a de que há partes inerentemente obscenas (pênis, mamas, nádegas) no corpo, que devem ser ocultadas. A idéia é a de que todas as partes do corpo são dignas e apresentáveis e que não faz sentido o pudor como vergonha do corpo. A idéia é a de que a nudez natural é diferente de nudez sexual e de que a malícia está no pensamento do malicioso.

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Curitibanos-curitibocas.

Neste blogue, abaixo, “O curitibóca” (descrição e julgamento do próprio); “Cura-curitibóca” (terapia em sete lições) e “Bestiário do curitibóca ou exemplos da babaquice”.

Leia “O curitibóca” aqui.

Leia o Cura-curitibóca em oito lições aqui. Se você é curitibano, sugiro-lhe que leia, por primeiro, a oitava lição.

Leia o “Bestiário do curitibóca ou exemplos da babaquice” aqui.

Leia análises de outros autores, de Curitiba e forasteiros, sobre o etos e o patos do curitibano: O curitiboca. Alguns testemunhos.

 

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Frase da vida.

FRASE DA VIDA.

Notinha sobre costume dos anos de 1980.

10.5.2016.

Nos meus tempos de moço, os mais velhos do que eu, da família (pelos lados de pai ou de mãe), perguntavam-me a minha idade, ao que lhes respondia que 18 anos, 19, 20 ou pouco mais. Eles redargüiam-me “Tenho idade para ser seu pai”. Haveria, nisto, algum paternalismo, algum carinho dos homens daquele tempo, pelos moços? Presumo que sim. Sempre levei a bem que mo dissessem, pois percebia-lhes o tom amável e o intuito benévolo.

Em 2014, perguntei a um rapaz (o Diogo Cavalheiro) a sua idade (então, 21 anos) e obtemperei-lhe “Tenho idade para ser seu pai”, por memória do que me diziam, na minha mocidade. Ele sorriu-me. Eu contava 48 anos de idade.

Na minha observação havia algum carinho por ele. Antes de que alguém imagine que fosse mais do que carinho, era só carinho, mesmo. E se eu estivesse interessado nele, haveria mal ? Não, não haveria mal nenhum.

Talvez eu haja incorporado, no meu modo de ser, especificamente na minha idiossincrática formação, na minha convivência com pessoas de uma e duas gerações anteriores à minha, de gente 30, 40, 50 anos mais velhas do que eu e que me tratavam com bondade e simpatia (tudo parentela, Biscaias e Supplicys de Lacerda) a inspiração para simpatizar com os moços, com alguns, pelo menos. (Interessava-me conhecer a história da família, apreender a experiência dos mais velhos, perceber a cosmovisão da geração deles.).

É, julgo, componente da minha juventude que se me entranhou; é o contributo amável de pessoas, já todas mortas, que se agregou, em parte, ao meu modo de ser e que se compagina, em alguma medida, com a minha idiossincrasia, também especialíssima, neste particular. Na madureza (fase atual da minha vida) apraz-me a companhia de moços, diferentemente da maioria dos meus eqüevos, que (penso eu) prefere a convivência com os seus próprios eqüevos.

Não me costumo bazofiar nem dizer de mim próprio, em público; tampouco em privado. Fica o registro dos costumes de parte da geração anterior à minha (supondo que se tratasse, deveras de costume) e notinha sobre a minha individualidade.

 

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A igreja e as universidades.

 

A IGREJA E AS UNIVERSIDADES, LUGAR-COMUM DA PROPAGANDA CATÓLICA.
Arthur Virmond de Lacerda Neto.
6.5.2016.

É lugar-comum dos cristãos defenderem o cristianismo com a alegação de que “eles” criaram as universidades ou de que a igreja católica as criou. Alegam-no como mérito do cristianismo.

É sintomático: as universidades, no presente, são centros de altos estudos, de pesquisa e de produção do conhecimento. Estudos, pesquisas e conhecimentos científicos, laicos, divorciados de religião, teologia, deus. As universidades são focos, por excelência, de ateísmo prático, a despeito do que os cristãos invocam, em favor próprio, a criação das universidades como obra cristã.

Mas elas não foram criadas pela igreja tal como existem hoje; foram criadas séculos atrás como focos de teologia e não de ciência.
Há falácia e anacronismo em dizer-se que as universidades são produto da igreja se se transmitir ou induzir à crença de que séculos atrás eras elam como são no presente. Não, não eram. A igreja não criou as universidades para fomentar a pesquisa científica nem para ampliar o saber laico, ambos fora da teologia. Ao contrário, em relação ao ensino, a igreja católica sempre foi ávida por detê-lo para inculcar os seus dogmas na infância e na juventude e plasmar os povos ao seu modo, com universidades ou em ela. E nas universidades católicas, teologia é disciplina (tanto quanto eu saiba) obrigatória; suponho que, também, o criacionismo (deus criou o mundo): elas são parcialmente agentes da teologia, do espírito diretamente oposto ao que preside às universidades laicas.

A UFPR (a mais antiga universidade do Brasil, sem lhe ser a primeira) foi criada pelo escol laico de Curitiba, plêiade de 60 e tal pessoas, entre os quais 3 positivistas (ateus) confessos. Dos demais, certamente muitos seriam anti-clericalistas e também ateus. Nem ela nem as universidades como elas existem modernamente semelham ao que eram ao tempo em que o cristianismo as criou: hoje elas disseminam conhecimento laico e até anti-cristão, ao passo que as que o cristianismo criou estavam ao seu serviço.

A igreja católica não criou nenhuma universidade no Brasil (mas criou seminários) até que sentiu alarme com o crescimento da indiferença religiosa do brasileiro medianamente esclarecido, nos anos 30 e 40, e empreeendeu a recatolicização do Brasil. Só então é que tomou a iniciativa de criar as suas universidades, católicas brasileiras. Por amor ao saber ? Não, por amor à sua religião.

Estava no seu direito e no seu papel, porém não se alegue que a igreja fomentou a cultura e promoveu o conhecimento: ou esqueceu-se do célebre índice de livros de leitura proibida, em que ela incluia qualquer livro que, de perto ou de longe, lhe contrariasse os dogmas ? “Porém os mosteiros medievais conservaram a herança cultural da antigüidade”: de acordo, porém não para o propagar, porém para o conservar inacessível ao comum da gente. E papa houve, em 980 (se não erro a data) que ordenou o incêndio da biblioteca palatina, que acumulara, por séculos, ingente material da cultura greco-latina, vale dizer, não cristã: cultura não cristã não lhe interessava.

Ela também criou os colégios jesuítas, desde o século 16, no Brasil. Os jesuítas constituiam a vanguarda da contra-reforma, agentes reacionários, instrumentos do que havia de mais arcaizante na igreja, então. Cultos e instruídos, em geral, segundo consta, porém padres; vários produziram ciência, como ardil da igreja para “provar” a conciliação da ciência com a fé. Que ingenuidade: os jesuítas produziam ciência, porém interpretavam-na teologicamente, talvez hipocritamente, por dever de oficio e conveniência.

O indivíduo pode ser cientista, empregar os métodos científicos e manter crenças religiosas, o que não prova a compatibilidade entre ciência e fé, porém que o religioso produz conhecimento pela forma correta e o interpreta da forma errada, nada mais. A enumeração, vangloriosa, de jesuítas cientistas, como alegação da supostamente elevada contribuição cristã para o progresso da ciência não passa de falácia para ingênuos e de propaganda desonesta: acrescentaram averiguação de fatos, sem os divorciar das idéias sobrenaturais; ao contrário.

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Notas sobre o vernáculo.

Para aprender a bem redatar; evite frases curtas; Português não é difícil; lusofobia, Renato Janine Ribeiro, Gilberto Freyre, Olavo de Carvalho; pessoal acadêmico que escreve mal; deter cultura literária.

Garanto que ninguém lerá o texto: Notas sobre o vernáculo.

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Para aprender a bem escrever.

PARA APRENDER A BEM ESCREVER.

Para aprender a bem redigir, com espontaneidade e fluência, leia constantemente; principie com Machado de Assis, Aloísio de Azevedo e Bobbio; este, nos seus livros de direito e não só. Bobbio é modelar na perfeição lógica com que expunha e na concatenação e desenvolvimento das idéias; Machado e Aloísio são modelares no uso do idioma, com escorreição.
Em Machado, nenhuma palavra escasseia nem sobeja; todas cumprem papel no texto, o que é especialmente valioso como contraponto à prolixidade verbosa de muitos juristas: não há pior do que imitar o estilo jurídico, dos juristas brasileiros das últimas décadas, verboso, prolixo, rebuscado. (Quando me reparam que o meu estilo oral ou escrito é rebuscado, convenço-me de que o objetor desconhece o que seja rebuscado.).

Acrescente vocabulário; consulte o dicionário. Evite traduções brasileiras dos últimos 40 anos; opte pelas portuguesas (não se me cuida de complexo de inferioridade nem de “lusismo”, porém de reconhecer o fato, inegável, de que as versões patrícias das últimas décadas negligenciam recursos do idioma, pontuam mal, empregam coloquialismos, omitem preposições, a mesóclise, os pronomes contraídos – nivelam por baixo, com exceções.).

A mesóclise é recurso belo e usável na escrita e também na fala. Nada de preconceitos contra ela: eles verbalizam a mediocridade e o achatamento do idioma.

Os pronomes contraídos são utilíssimos e poupam palavras; permitem dizer mais, com menos. Por exemplo: vender-lho-ei; dou-to; empreste-ma. Isto existe e se a escola não o ensina, falha; professor segundo quem “isto já não se usa; isto é só em Portugal” é professor desorientado e desorientador, que fomenta a ignorância.

Evite sempre e pratique nunca o vício da duplicação: é vezo de escrevinhadores prolixos, que confundem o leitor (vide arthurlacerda.wordpress.com).

Português não é difícil: é fácil e permite-nos que nos expressemos com acurácia e exatidão, mais do que o pobre idioma inglês que, ele sim, é fácil, à custa de ser carente dos recursos do português.

Frases curtas e muito curtas constituem mau estilo: obrigam a leitura a repetidas interrupções e dificultam o encadeamento do pensamento. Alguns as recomendam, sem fundamento na utilidade nem na clareza; o de praticá-las é conselho inepto.

Há que saber concatenar o raciocínio, efeito para o qual é mais importante bem pontuar do que minorar as frases: a vírgula e o ponto e vírgula permitem separar os elementos da oração; os dois pontos permitem introduzir nova idéia, com continuidade em relação ao conteúdo anterior da frase.

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Entrevista a Pedra de Toque.

Concedi entrevista ao blogue Pedra de Toque, do escritor e tradutor João Rosa de Castro, exposta em primeiro de abril de 2018. Ei-la:

ARTHUR DE LACERDA E A CIVILIZAÇÃO DESNUDA

 April 1, 2018|

Rosa Castro Autor

(Pedra de Toque): Quais são suas fontes de pesquisa criativa e produtiva? Onde vai buscar mais ideias para o seu trabalho? Vêm de outros livros e autores ou da própria vivência? O que predomina?

(Arthur de Lacerda): Parte provém de autores variados, parte provém da minha vivência: de muitas leituras e das reflexões que elas me propiciaram, formei cosmovisão e adquiri conteúdo intelectual; da minha experiência existencial, de alguma parte do que observo e do quanto vivi e vivo (nos limites, estreitos e condicionados da vida que cada um experimenta) aproveito situações humanas, geralmente verídicas, como inspiração ou motivo de análises de situações, valores, comportamentos, reações. Assim, por exemplo, artigos relativos à nudez, resultaram do exame do etos do brasileiro médio e dos seus padrões de moralidade, como produto parcial da leitura de vários autores que se dedicaram ao tema; já dois livretos (Dilema em Braga e Memórias de duas amizades), são autobiográficos. Semelhantemente, muita da minha poesia fundamenta-se em observações e experiências pessoais, de envolta com reflexões.

Com isto, na minha produção predomina o repertório de conhecimentos que acumulei e vou acumulando, mercê de ininterruptas leituras, que aproveito como materiais em que exerço tino pessoal.

(Pedra de Toque): Sabemos que você repudia as paixões e a política imediatista. Mas restou-lhe uma paixão, presente em muito de sua obra escrita impressa e digital: o positivismo de Augusto Comte. Fale um pouco dele.

(Arthur de Lacerda): O Positivismo de Comte (que não se deve confundir com o mal apelidado positivismo jurídico) correspondeu-me à descoberta intelectual da minha juventude. Com cerca de 18 anos de idade, andava à procura de doutrina que, emancipada de sobrenatural, combinasse o conhecimento científico e o antropocentrismo. O Positivismo é isento de sobrenatural (sentido em que é ateu), pauta-se pelo espírito positivo (que transcende o mero conhecimento da ciência), a que associa o humanismo, em que o humano preside aos valores, às motivações, às ações e ao sentido da vida.

Dos meus 18 anos para cá, persisti, invariavelmente, positivista, na convicção da qualidade dos seus ideais de paz, engrazamento entre as pessoas, afetividade como inspiração e racionalidade como critério de ação, conhecimento das realidades, espírito público, apreço pela alta cultura.

Existe, no Positivismo, mensagem construtiva e socialmente útil, na medida em que ele inspira sentimentos, comportamentos e políticas voltados ao melhoramento da condição de vida das pessoas, ao mesmo tempo em que dispensa qualquer sobrenatural, ou seja, voltado ao social, fundamenta-se no real.

(Pedra de Toque): Vemos hoje nas redes sociais através dos movimentos de restabelecimento da monarquia parlamentar no Brasil que “o positivismo foi crucial para o desmonte da monarquia”. É por isso que não lhe agrada tratar de política? Acha que, apesar de ter feito muito bem ao mundo como um todo, o positivismo não fez muito bem ao Brasil?

(Arthur de Lacerda): O meu desinteresse por toda política do presente, de qualquer presente, no que ela contém de imediatista e efêmero, advém-me de idiossincrasia pessoal e não de atitude intelectual originária do Positivismo nem de juízo acerca do acerca do Positivismo, no seu papel político, no Brasil.

A vida política é imediatista, efêmera e mutável, o que não me atrai. Atraem-me os conteúdos culturais já incorporados, de modo estável, ao patrimônio humano: literatura, filosofia, história, ciência, arte, que prefiro conhecer a ocupar-me em acompanhar os embates políticos do dia a dia, sem, todavia, lhes negar importância, porquanto nos atingem, a todos, em alguma medida.

O Positivismo contribuiu para a derrocada da monarquia e para a organização da república, sentido em que o seu papel foi, primeiro, de cooperar para a eliminação do regime já caduco; a seguir, obrar na construção do regime que o Positivismo enaltece. A contribuição dos positivistas foi assinalável, na pessoa de Teixeira Mendes, de Benjamin Constant, de Demétrio Ribeiro, de Júlio de Castilhos, de Borges de Medeiros e não só, como na inserção de inúmeras sugestões dos positivistas na constituição de 1891.

A influência positivista foi benéfica, com o seu repúdio à guerra, à violência em qualquer das suas expressões, com a sua solidariedade pelos trabalhadores, com a sua ênfase na regência moral da política, com o seu espírito público, com a afirmação das liberdades de expressão, opinião, participação política e de escolha pessoal, com a valorização da laicidade do estado, da instrução geral da população, com a dignificação da mulher.

Um positivista mineiro, já falecido, Rubem Descartes de Garcia Paula observou haver faltado Positivismo na vida política brasileira, inclusivamente no lapso de 1964 a 1982: o ideário positivista teria, por meio dos seus adeptos, influenciado no sentido de se evitar ou mitigar excessos de autoritarismo e até de violência dos governos.

Faltou Positivismo de 1930 por diante, com a adversidade do regime de Getúlio Vargas a ele, em simbiose com a igreja católica, ambos coligados em deprimi-lo (e exaltar o catolicismo). Com mais Positivismo e, por conseguinte, mais laicidade, mais instrução, mais humanismo, menos sobrenatural, menos obscurantismo, menos conservadorismo de costumes; mais destinação social da riqueza e, por conseqüência, menos pobreza; com o mesmo espírito de retidão na vida pública que o Positivismo valoriza e, destarte, menos corrupção (ou nenhuma), o quadro da vida coletiva nacional seria bem melhor do que o é.

(Pedra de Toque: Como considera a “homossexualidade”? Parece apoiar o direito ao casamento civil (incluindo a adoção de crianças) de pessoas de mesmo sexo. Não crê que o culto da “homossexualidade”, assim como o da sexualidade livre como um todo, deixaria de ter o mesmo valor ou ofereceria uma menor “glamourização” aos indivíduos se se politizasse, entre os exemplos, na união civil citada?

(Arthur de Lacerda): Considero a homossexualidade (bem como a bissexualidade e a trans-sexualidade) como inerente ao ser humano: ela sempre existiu, em todos os tempos e lugares. Sempiterna e ubíqua, é onipresente, é constante da natureza humana e como tal foi aceitada por várias civilizações até o advento do cristianismo, não somente co-responsável pelo transtorno do etos romano e pela aceleração do fim da civilização romana, como introdutor de inúmeros males morais
da civilização ocidental, dentre eles a homofobia. Não que o cristianismo o criasse, porém fortaleceu-a, do século 13 a esta parte.
Apoio o casamento entre iguais ou casamento homossexual, para homens e mulheres, com adoção: trata-se de escolha individual, que afeta aos dois envolvidos, nas respectivas privacidades. Aos demais cabe o dever de respeitar a escolha, se ela for este e a possibilidade de não se casar, se for o caso, seja com alguém do mesmo sexo, seja com quem for.

A adoção por casais homo propiciará acolhimento a crianças que, sem ela, ficariam ou prosseguiriam em desamparo. É irrelevante não haver pai e mãe; é relevante haver pai, um ou dois, ou mãe, uma ou duas, e preferível isto a não haver nem um nem outro. A criança adotada certamente pensa mais no seu presente e no seu futuro do que na tacanhice de certos adultos. Penso que a união civil, como casamento, de homossexuais, corresponde a acréscimo de felicidade para parcela significativa da população brasileira: há mais famílias, mais gente com a possibilidade de realizar-se ao seu modo, ao invés de ser fadada a ser infeliz ou a fingir felicidade ao modo alheio.

O andar implica modificações de etos, de sensibilidade, de instituições e de costumes. Vivemos tempos bonançosos, de aceitação da natureza humana e de liberdade de costumes. Tem sido assim nas últimas décadas: feminismo, revolução sexual, liberdade sexual, divórcio, casamento homo, adoção por casais homo, tudo isto se afasta do modo antigo, arcaico, de ser, das pessoas, e de julgar moralmente, modo originário, quer me parecer, em sensível medida, da pregação religiosa. Por outro lado, as modificações que citei importam em mais liberdade e em ética antropocêntrica, alheia a tabus e a condicionamentos direta ou indiretamente teológicos. No fundo, trata-se do movimento espontâneo das sociedades em direção às manifestações da natureza humana, fora de dogmas religiosos. Considero desejável que seja assim.

(Pedra de Toque): Cite dois autores que mais lhe inspiram na sua criação e na sua produção. Fale um pouco deles e da relação mimética da obra deles com a sua.

(Arthur de Lacerda): Inspiraram-me Augusto Comte e Ortega y Gasset. Na verdade, não há mimese entre eles e mim, no sentido de que não os imito, porém no Positivismo encontrei e encontro motivos de reflexão e análise. Em Ortega encontrei reflexões, análises, conhecimentos de amplo espectro, que me forneceram certa capacidade de pensar, certo tirocínio intelectual, que me valeu como (passe a expressão) treinamento de saber pensar, e como fonte de cultura.

O sentido de moral antropocêntrica, a valorização dos bons sentimentos, o desdém pela teologia, o respeito pelo legado humano que se transmite ao longo das gerações, o espírito público, a preocupação social, são traços do Positivismo que me movem e formas da presença de Comte no meu espírito.

Em relação a Ortega, dele assimilei a lição fundamental de reconhecer o homem-massa e diferenciar-se dele.

A combinação das lições de Ortega com o espírito positivo incrementaram-me o senso de independência intelectual que já me reconhecia, antes de os conhecer, vale dizer, a capacidade de pensar autônoma e, sobretudo, independentemente das idéias estabelecidas ou do pensamento majoritário.

(Pedra de Toque): Tente resumir cada um de seus livros em ordem cronológica. De que trata cada um?

(Arthur de Lacerda): Os meus livros principais tratam: “Provocações” comunica algumas reflexões relativas a costumes, tipos humanos, Positivismo, estrangeirismos no idioma.

“Pequena história da desinformação” esclarece alguns mitos circulantes, no Brasil, à volta do Positivismo; nele comprovo que Comte não ensandeceu, que o Positivismo não é burguês nem autoritário, que os regimes de Getúlio Vargas e de 1964 não eram positivistas.

“A república positivista” analisa o projeto político republicano de Comte e a sua aplicação no Brasil.

“Memórias de duas amizades” narra, quase dia por dia, a história de duas amizades que tive.

No âmbito da história do Direito, “As ouvidorias do Brasil colônia” contém a biografia parcial de um ouvidor colonial, Rafael Pires Pardinho; “Breve história das codificações jurídicas” expõe a gênese dos códigos jurídicos modernos.

“Estudos de Direito Romano” e “Novos Estudos de Direito Romano” ocupam-se de aspectos da história do Direito, relativas ao direito da antiga Roma e à sua inserção no curso da evolução do direito ocidental.

(Pedra de Toque): Lemos críticas suas, aliás, bastante jocosas, sobre alguns habitantes de Curitiba, para os quais você usa o gentílico crítico “curitiboca”. Não se orgulha de Paulo Leminski, Dalton Trevisan, e muita gente boa nascida por aí?

(Arthur de Lacerda): Do primeiro que nomeou, não me orgulho; do segundo, digo nada; alguns outros, como Dario Veloso e David Carneiro, admiro-os e orgulho-me de ser-lhes concidadão, porém prefiro ser cauteloso ao orgulhar-me de alguém, como concidadão. Prefiro admirar certos vultos, pela sua grandeza pessoal, pelo seu papel social, pelo seu legado aos seus coevos, a orgulhar-me de pessoas, devido à circunstância acidental de havermos nascido na mesma cidade. O papel das pessoas transcende, muitas vezes, o perímetro da sua cidade e o ambiente dos seus vizinhos; sem desdenhar dos que atuaram, positivamente, no ambiente curitibano, o meu estalão de admiração é outro.

Simultaneamente, em nada me ufano de ser natural de cidade cujo povo, em geral e tradicionalmente, apresenta etos e patos já famigerados e que o gentílico curitiboca (não é da minha autoria) caracteriza pelo seu lado pejorativo. Não me orgulho de pertencer ao corpo de cidadãos em que parte quase se jacta de sentir-se alheio ao concerto dos demais brasileiros, alheio no sentido, quiçá sobranceiro, de arrogar-se pretensa condição europeia e culta e, com isto, superior, quando os traços do curitiboca consistem no ensimesmamento, na introversão, na escassez de alegria e de espontaneidade, sentido em que o curitibano não é brasileiro, no que este apresenta de simpático e aberto ao próximo e aos estranhos.

(Pedra de Toque): Qual será o p(l)ano de fundo quando você condena os estrangeirismos na língua portuguesa? Preservar uma tradição de caráter Português ou valorizar e revalorizar os produtos e serviços oferecidos na nossa língua, seja aqui, seja em Portugal, seja em Moçambique, Angola, etc.? Sua preocupação é comercial ou cultural?

(Arthur de Lacerda): Minha preocupação jamais foi comercial e sempre foi cultural e idiomática. Condeno os estrangeirismos na medida em que representam elementos alienígenas e amiúde desnecessários; se para alguns, eles enriquecem o português, considero que eles o intumescem sem, necessariamente, melhorá-lo. Entre vernacularismo e um peregrinismo, julgo sempre desejável o que já pertence ao vernáculo e indesejável o que, sem necessidade, nele se imiscui.

Não se cuida de preservar tradições lingüísticas de caráter português, porém de zelar pelo nosso idioma e pela sua pureza, cujo mínimo indispensável consiste em usar expressões, recursos, sintaxe e léxico do português em vez dos homólogos estrangeiros.

(Pedra de Toque): Se não nos enganamos, estudou pós-graduação em Portugal, de onde lhe permanecem costumes. Como compara o Direito em Portugal e no Brasil, com cujos costumes, quer linguísticos, quer culturais você precisará conviver e precisará ajudar a transformar enquanto residir por aqui?

(Arthur de Lacerda): O direito civil de lá e de cá é, essencialmente, o mesmo, com poucas diferenças, mais acentuadas em outros ramos do direito, como o constitucional, à vista do sistema, no Brasil, ser presidencialista, e parlamentarista, em Portugal.

Um contraste existe entre o direito português e o nosso, no que toca ao casamento homossexual, lá já existente como produto de alteração no Código Civil, que entre nós vai tardando.

Ambos direitos, por outro lado, são, por assim dizer, irmãos, porquanto provêm da mesma origem, a saber, as Ordenações Filipinas (pré-codigo que vigeu em Portugal e nas suas colônias, o que incluiu o Brasil) e as que as antecederam. Ambos partilham, também, do direito romano e do código de Napoleão, como fontes que os irmanam.

(Pedra de Toque): Arthur, o que é a vida?

(Arthur de Lacerda): A vida é o que é para quem a define como o faz: cada um a define, interpreta e entende ao seu modo, com o que, resposta a tal pergunta é subjetiva e vale tanto como expressão de idiossincrasia e de experiências, como produto de reflexão. Ela é o esforço contínuo do indivíduo, como agente do seu próprio destino, em realizar o programa de futuro que concebeu para si ou em constituir estado de coisas que lhe seja confortável (que, por sua vez, poderá coincidir com o seu planejamento existencial), em meio ao ambiente humano e cosmológico que condiciona, para bem ou para mal, a atividade individual. Neste aspecto, vida é interação entre o indivíduo e o meio; interação equivale a ações e a reações entre ambos, e não em insulamento. Ao fim e ao cabo, a vida se traduz no movimento contínuo entre cada um e os demais e o mais que existe à nossa volta. Viver é existir, em meio às coisas, e conviver, em meio aos outros.

(Pedra de Toque): Receba aquele abraço, que é a única coisa falsa deste blogue.

Os livros de Arthur Virmond de Lacerda Neto podem ser adquiridos na Editora Juruá (www.jurua.com.br) e na Estante Virtual (www.estantevirutal.com.br).

 

O original da entrevista aqui: https://www.pedradetoque.com/post-unico/2018/04/01/ARTHUR-DE-LACERDA-E-A-CIVILIZA%C3%87%C3%83O-DESNUDA

Publicado em Entrevista., João Rosa de Castro., Livros de Arthur Virmond de Lacerda Neto., Ortega y Gasset., Pedra de Toque., Positivismo de Augusto Comte | Deixe um comentário

“Chame-me pelo seu nome”. Tradução brasileira.

 

“CHAME-ME PELO SEU NOME”, TRADUÇÃO BRASILEIRA.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

18.III.2018.

Intitula-se, na sua versão brasileira, Me chame pelo seu nome, o romance de André Aciman (editora Intrínseca; 287 páginas; 2018; tradução de Alessandra Esteche), ambientado na Itália, dos anos de 1980, em que um pesquisador de filosofia antiga (Oliver) hospeda-se na casa campestre de família, cujo filho, Élio, por ele se interessa, sexualmente, e vice-versa.

Compõe-se de quatro partes o livro, em que se nota diferença abrupta entre as três iniciais e a derradeira: naquelas, péssimo tratamento da psicologia do protagonista; superficial exploração de lances interessantes; medíocre entrecho; uma analepse que ocupou espaço sem nada acrescer.

A contrapelo, a quarta secção é (a única) interessante, com lances dotados de alguma fineza psicológica e de beleza de sentimentos, em considerações que as personagens enunciam; no diálogo de Élio com seu pai (que, mesmo assim, mereceria tratamento mais desenvolvido); no reencontro dos protagonistas, vinte anos depois.

O desfecho da narrativa é belo e o conjunto da secção final marca abrupto desnível, para melhor, em cotejo com o quanto o antecede. Dir-se-ia haver dous autores: um, nas três primeiras partes, um tanto desorientado no encadeamento dos fatos e de imaginação limitada; outro, na final, em que expõe a capacidade do autor, que a descurou nas precedentes (hipótese nada fantástica, à vista da existência de logógrafos, redatores ocultos que redigem livros, por encomenda, e que terceiros publicam com os seus próprios nomes, como seus pseudo-autores ou parcialmente autores.). Dir-se-ia, também, valer a pena a leitura apenas do capítulo derradeiro, se o leitor exigente pudesse se poupar dos três capítulos iniciais.

Em suma: eis livro sofrível em três capítulos, e bom, em um.

Talvez no afã de manter fidelidade ao original, a tradução brasileira empregou redação coloquial, muitas frases-feitas, vulgaridades e tabuísmos, a exemplo de pau, cu, duro, dar umazinha. Não que me escandalize a presença de semelhante vocabulário; o tom geral de vulgaridade do texto, todavia, em considerável medida empana o efeito de sinceridade que elas surtem.

Sobre isto, padece da ausência de pronomes indispensáveis, há nenhuma mesóclise, repete-se o verbo colocar em lugar de vestir, empregaram-se adjetivos em jeito de advérbios de modo, ocorrem anglicismos sem aspas nem itálico, faltam vírgulas; é permanente a coloquialidade: lê-se o que fala o homem brasileiro médio, ou talvez o homem brasileiro abaixo da média desejável, em termos de habilidade e de acurácia idiomáticas, na sua pobreza vocabular, na sua incúria lingüística, no seu desconhecimento de vários recursos de comunicação, na forma inferior como sabe o vernáculo e o usa.

Neste sentido, a tradução testemunha o triste estado do idioma, no Brasil hodierno, e sofre da desvirtude de ser totalmente “datada”: dentro de breves anos, abundantes leitores já se haverão olvidado dos coloquialismos hoje correntes e, à medida em que o tempo passar, cada vez menos o leitor futuro entenderá, comodamente, o texto de 2018, nas suas inúmeras passagens imitantes da oralidade, de certa, e ruim, oralidade.

Certamente, a versão atende ao interesse editorial e, possivelmente, não aspira à perenidade, sequer à durabilidade. Interessa que ao vulgo nosso coevo depare-se-lhe texto equivalente a como fala e ouve, ao ponto do desleixo, com que se sentem à vontade os sub-instruídos no idioma.

Há incúria na tradução “Falou sobre os dois filhos que naquele instante estavam brincando na sala com minha mãe, oito e seis […]” (página 267). Em inglês, indica-se a idade das pessoas por números (como 8, 6); em português, escreve-se o número respectivo e se lhe acrescenta a informação “anos de idade”. A tradutora cingiu-se a imitar o inglês, sem obter o equivalente vernacular, que seria: “de oito e seis anos de idade”. Ainda que na redação jornalística eventualmente se posponha número ao nome (por exemplo: Floriano Peixoto, 40), aliás, por imitação de uso (norte-) americano, no Brasil, entre brasileiros, em literatura de língua portuguesa, não há tal. As traduções para o português devem manter-lhe fidelidade aos usos. Vertesse “Falou sobre os dois filhos, de oito e seis anos de idade, que naquele instante […]” e tê-lo-ia feito com propriedade. Ao invés, mecanicamente e com inépcia.

O cúmulo do achatamento da tradução consiste em dois “por causa de que”; o cúmulo da incúria da tradução (ou sinal da ignorância da tradutora) manifestou-se em duas ocorrências de “vinho do porto” (obviamente, trata-se de Porto, cidade.). Houve descuido no emprego de regências distintas para o mesmo verbo; houve negligência na construção de frases, de que alguns elementos omitem-se.

Há solecismo sintático no título, com próclise. Ainda que, no texto traduzido, se praticasse próclise, em vez da ênclise possível, o título não constitui citação (caso em que deveria levar aspas), senão oração autônoma. As traduções francesa e espanhola empregaram ênclise, como, aliás, o próprio original (Call my by your name): seguisse, nisto, a tradução brasileira, o original, e teria andado melhor. Possivelmente, ela lhe pretendeu fidelidade, na adoção da oralidade, também no título, devido ao uso corriqueiro de próclise em início de frases.

Aguardo a tradução portuguesa, para eventual cotejo. Não vá Portugal cometer o erro de publicar a versão brasileira: envileceria o seu acervo literário.

Em três palavras: porcaria de tradução. Ainda que o original acompanhe a coloquialidade (o que me pende por averiguar), o fato é que a tradução o faz, não apenas nos diálogos (o que é natural), bem como na narrativa, o que não é necessariamente natural nem edificante, e que a destina a logo perecer. A loqüela coloquial de muitos brasileiros medianos é tacanha, defeito que a tradução incorporou magistralmente. Será este o seu único mérito ou “mérito”.

Objetar-se-me-á, acaso, que a tradução logrou êxito e cumpriu com a sua função, pois transpôs o original fielmente, com toda a sua coloquialidade. Admito que possa ser assim; em simultâneo, a qualidade do texto, não como transposição, porém como redação em vernáculo, é mui descuidada.

Traduções e tradutores brasileiros, primorosos, de alta qualidade, houve-os, vários, até fins dos anos de 1970, quando principiou o declínio perceptível do esmero nos textos. A tradução em causa exprime o estado atual de tal desqualificação crescente.

Leiam-se os contos de Machado de Assis, que os estampava em diários cariocas e os destinava ao público em geral (e não especialmente a leitores eruditos ou cultos): revelam, na sua redação, apuro de linguagem, emprego exato da pontuação, escorreição do texto.

O brasileiro médio, da altura, alfabetizado e leitor de diários, era capaz de aceder ao talento de concepção e à escorreição da redação de Machado de Assis. Sirvam-nos os abundantes contos de Machado (bem assim os romances de Aluísio de Azevedo) de testigos do estado do idioma, no Brasil, cerca de cento e quarenta anos atrás (mais década, menos década): bem melhor do que o que se nos depara em Me chame pelo seu nome, cujo original, se reproduz a coloquialidade a que, porventura, se acha afeito o seu autor, constitui peça de má literatura, e cuja versão brasileira constitui, deveras, peça de sub-literatura.

Elevemos o nível da produção literária nacional; saibamos distinguir o que nos engrandece do que nos rebaixa; aprendamos a louvar o bom, o melhor e o ótimo, e a desdenhar dos seus opostos.

Urge aprimorar o conhecimento e o uso do português no Brasil à altura dos seus recursos, da sua riqueza vocabular, da sua exatidão de comunicação, da sua pontuação correta, da construção de frases dotadas de todos os elementos do discurso. À oralidade e à coloquialidade não são inerentes a baixeza: elevemo-las.

Ao filme, não assisti; todavia, notei-lhe uma incongruência: a personagem Oliver, no livro, conta 24 anos de idade; no filme, aparenta bem mais.

 

Mandei impressa e por via eletrônica.

Ilmo. Sr. Diretor da editora Intrínseca.

Curitiba, 23 de fevereiro de 2018.

A editora Intrínseca acaba de publicar “Me chame pelo seu nome”, título que corresponde à derradeira oração do livro assim nomeado.

Entre, contudo, a oração final do livro e o título, há uma diferença: a de que não se principia, em bom português, frase com pronome oblíquo, embora possa-se usá-lo a meio de frase. O pronome oblíquo, no caso, é “me”, corretamente anteposto ao verbo chamar, no meio da frase final do livro e que, no caso do título, jamais poderia, em bom português, anteceder o verbo.

O título gramaticalmente correto é e só pode ser “Chame-me pelo seu nome”, o que, aliás, corresponde à forma do próprio original. Com ênclise traduziu-se em francês (Apelle-moi par ton nom), em italiano (Chiamami col tuo nome), em espanhol (Llámame por tu nombre): para além do original, três idiomas correlatos ao nosso empregaram, corretamente, a ênclise. Inexiste, ainda, tradução em Portugal, do livro, porém os anúncios do filme nomeiam-no Chama-me pelo teu nome.

Até aqui, somente a tradução brasileira incorreu no solecismo de praticar a próclise em lugar em que ela é indevida e errada. O título não corresponde a excerto da frase final do livro e sim frase autônoma, pelo que, consoante regra elementar de gramática, a sua forma deve ser “Chame-me”, a menos que ele se redigisse como citação: […] me chame pelo seu nome.” Não é assim nem seria de esperar que fosse assim. Era de esperar a construção Chame-me.

De nada vale alegar-se que a próclise é correntia, no Brasil; que “todo o mundo” fala assim; que o livro “destina-se ao grande público”; que ele “não é acadêmico”; que “a língua é viva e muda”. São subterfúgios que não justificam o desacerto e que contribuem em nada para educar o público leitor.

Pratique, a editora Intrínseca, o bom vernáculo. Dê, a editora Intrínseca, o bom exemplo. Use, a editora Instrínseca, os seus livros como veículos de educação. Corrija, a editora Intrínseca, o título do livro, em próxima impressão dele; nada lhe custa e ser-lhe-á prestigiante.

Com meus votos de saúde e prosperidade.

Arthur Virmond de Lacerda Neto

 

 

 

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Sexualidade nas “Metamorfoses”.

Da autoria de Ovídio, as Metamorfoses é poema clássico e fonte de inúmeros mitos da antigüidade. Ele contém passagens de homossexualidade masculina, lesbianismo, câmbio de sexo, incesto de filha com pai, amor de irmã por irmão, zoofilia, estupro, libido feminina, que exponho em PDF aqui: As Metamorfoses e a sexualidade.

Não se deve, disto, depreender que as Metamorfoses seja livro essencialmente licencioso; ao contrário, nele, a sexualidade é secundária e tema menor, dentre inúmeras narrativas de importância maior e tratamento bem mais extenso. Apenas os casos de Mirra e de Bíblis  receberam tratamento alargado. Outras personagens e as respectivas ações, fora de conotação sexual, mereceram de Ovídio bem mais atenção.

Reuni as situações concernentes à sexualidade: outro tanto, e maior, será exeqüível quanto, por exemplo, às transformações de pessoas em animais ou coisas, à crueldade das deusas, às peculiaridades das diversas personagens.

 

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