Quem é “VIRMOND, A.”, nos livros de Gustavo Biscaia de Lacerda.

Quem é “VIRMOND, A.” nos livros de Gustavo Biscaia de Lacerda.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

Acha-se, disponível na rede, desde 2011, uma tese de doutoramento aprovada na Universidade Federal de Santa Catarina, intitulada (com mau gosto) “Momento comtiano”, relativa ao pensamento do Positivismo de Augusto Comte, em que o autor, Gustavo Biscaia de Lacerda,  menciona, no texto e na bibliografia, “VIRMOND, A.”.

A. Virmond sou eu, de nome completo Arthur Virmond de Lacerda Neto, que deveria haver sido mencionado da forma academicamente correta, ou seja, “LACERDA NETO, A. V. de”.

O já agora professor pós-doutor Gustavo é meu irmão germano (somos filhos dos mesmos pai e mãe) e, obviamente, conhece-me o nome completo e as regras acadêmicas de citação de autores, que seguiu corretamente em relação a todos os que cita, exceto no que me concerne. Sou o único autor cujo nome ele elidiu, parcialmente, para ocultar o meu segundo sobrenome, Lacerda, e evitar, com isto, que o leitor perceba o parentesco existente entre nós.

Escrevi dois livros que tratam especificamente do Positivismo e outro em que há capítulos sobre ele, a saber: “A república positivista. Teoria e ação no pensamento político de Augusto Comte”, que o autor menciona na sua tese e no seu livro “Laicidade”; “A desinformação anti-Positivista no Brasil”, que Gustavo menciona no seu livro “Laicidade”; “Provocações”, com capítulos acerca do Positivismo, que Gustavo não menciona na sua tese nem em “Laicidade”.

A bibliografia da sua tese omite “A desinformação anti-Positivista no Brasil” e “Provocações”, que ele deveria haver, no mínimo, consultado; se não o fez, deixou de recorrer a livros de que dispunha, quanto mais não fosse porque lhe dei, pessoalmente, um exemplar de “A desinformação anti-positivista no Brasil” que publiquei no mesmo volume em que publiquei a “Pequena história da desinformação”, de Vladimir Volkoff: trata-se de dois livros em um só tomo, de que ele menciona o segundo, na bibliografia.  A quem consultou o de Volkoff é materialmente impossível ignorar a existência de “A desinformação anti-positivista no Brasil”. Na sua tese, ele o ignorou adrede: fingiu desconhecê-lo.

A menção errada do meu nome e a omissão de dois dos meus livros constituem falhas imperdoáveis. Não foram casuais; ao contrário, foram intencionais, no intuito de ocultar o meu nome e parte da minha obra. A atitude do autor da tese constitui falha acadêmica, pelo que ela não poderia, jamais, haver sido aprovada com louvor, como o foi: ao contrário, sem louvor, e com censura pela atitude mesquinha de que ela serviu de instrumento, como veículo de ódio de família que, no seu autor, sobrepujou e ainda sobrepuja a correção acadêmica.

Após a disposição da tese, na rede de computadores, dirigi-me, privadamente e por escrito, a Gustavo. Protestei contra a mutilação do meu nome; em resposta, recebi subterfúgios cínicos. Quando lhe esfreguei na cara a regra da Abnt, concernente à citação dos nomes dos autores, ele calou-se.

Em 2016, Gustavo publicou  “Laicidade na I República Brasileira” (Curitiba, Appris Editora), em cuja página 162 insiste na aleivosia de identificar-me com o meu nome mutilado, a saber, “VIRMOND, A.”.

O professor pós-doutor Gustavo Biscaia de Lacerda odeia-me ferozmente há, pelo menos, dez anos; recusava-me, com ódio velado, há cerca de vinte, suspeito de que por homofobia internada (“internalizada”).

Em 2016, ele persiste, se não no seu ódio, certamente sim no procedimento soez de ocultar-me a identificação por nome completo e o nosso parentesco, com evidente infração da correção acadêmica (porquanto “Laicidade” foi-lhe texto de pós-doutorado) e da probidade com que menciona as suas fontes, ao menos em relação ao que me toca.

No seu blogue “Filosofia social e Positivismo”, o pós-doutor Gustavo mantém as ligações de vários sítios eletrônicos de interesse positivista, porém não o do meu “Positivismo de Augusto Comte” (https://positivismodeacomte.wordpress.com/).

Cada um julgue do valor moral e da lisura acadêmica com que o professor pós-doutor Gustavo Biscaia de Lacerda me vota ódio e com que elide ao público, nas suas obras, a minha identificação. Ele sonega aos seus leitores informação que lhe era acadêmica e intelectualmente obrigatório propiciar-lhes; ele desinforma-os.

Cada um julgue se ele procedeu com probidade acadêmica e lisura intelectual ou se atuou com inegável desonestidade acadêmica e intelectual.

Pergunto: há probidade ou improbidade em sonegar, deliberadamente, em parte, o nome de autor que cita em nota de rodapé e na bibliografia, em tese de doutorado e em texto de pós-doutorado, acessíveis ao público, nome que ele obviamente conhece, por inteiro? ? Representa reincidência de improbidade persistir na mutilação do meu nome (em livro de 2016), a despeito do meu protesto, em 2011, e ainda que eu não houvesse protestado ? ? Ou ele foi probo, honesto, correto, moral acadêmica e intelectualmente, ao mutilar o meu nome, cujo enunciado obviamente conhece e cuja enunciação como “LACERDA NETO. A. V. de” era-lhe imperiosa, academicamente  e por lisura intelectual ? ?

Não se trata, da minha parte, de mera vaidade ferida por descuido do pós-doutor. Academicamente, a menção correta dos autores é forçosa: o pós-doutor jamais incorreria em tal desatenção de boa-fé.

Não se trata de questão de somenos, de meros sobrenomes, de picuinha de autor enfatuado: trata-se do intencional, deliberado, consciente obscurecimento da minha pessoa, da vinculação dela aos meus livros e do parentesco existente entre mim e Gustavo. Como “VIRMOND, A.”, não sou eu; não sou o autor dos meus livros e não sou irmão de Gustavo. Eu sou eu, bibliograficamente, como “LACERDA NETO, A. V. de”: desta forma, academicamente correta, o meu nome corresponde-me à pessoa; somente ela identifica-me, realmente, como autor dos meus livros; por ela, nota-se a coincidência de sobrenomes entre mim e o pós-doutor, o que, por sua vez, suscita, no mínimo, suspeita de parentesco entre ambos.

Identificado pela forma como o pós-doutor o fez, é como se eu não fosse eu: “VIRMOND, A.” não é ninguém.  Para o leitor desavisado,  “LACERDA NETO, A. V.  de” e “VIRMOND, A.” são duas pessoas, de que a segunda nenhum parentesco guarda com ele; no meio acadêmico, é indesculpável tal infração das regras da Abnt.

É evidente que qualquer leitor, ao se lhe deparar o nome Arthur Virmond de Lacerda Neto, percebe a coincidência com o Lacerda de Gustavo Biscaia de Lacerda: é esta percepção que o pós-doutor elide, capciosamente. Ele almeja evitar que os seus leitores percebam haver outro Lacerda, autor de livros sobre o Positivismo, e anteriores aos dele; deseja evitar a pergunta, no espírito do leitor: “Qual é o parentesco entre ambos?” e a resposta: “São irmãos germanos”.

Ele, que pontifica graças ao Positivismo, talvez insuporte, intimamente, dever-me a mim havê-lo conhecido. Talvez também me inveje, do que suspeito há cerca de vinte anos. Creio que me odeia por homofobia internada (“internalizada”).

Em 2018, o doutor Gustavo ejaculou novo livro, intitulado Comtianas brasileiras, em que persiste na desonestidade em causa (p. 288). Redigido em estilo amiúde canhestro, com vício do duplo sujeito, galicismos e outros defeitos, disse (p. 275): Ter diploma universitário, doutorado e ser professor não são garantias de conhecimento nem de integridade intelectual”. Confirmo-lhe as palavras, em relação a si próprio, na parte da “integridade intelectual” e de “VIRMOND, A.”. Melhor do que disse o doutor Gustavo, não o diria eu.

 

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Artigos sobre nudez natural, não erótica.

Os meus artigos, ilustrados com fotografias, em favor da nudez natural e pelo fim do pudor:

Nudez e vergonha do corpo: aqui. (É o campeão de acessos.).

A favor da nudez: aqui.

Nu na rua. Código Penal arcaico: aqui. (Em que demonstro que, no Brasil, NÃO É PROIBIDO ANDAR NU NA RUA.).

As mamas as vento (“topless”) em público NÃO constituem crime de ato obsceno. Onde o homem pode expor o tórax, a mulher pode fazer o mesmo, decidiu o TJ de SP: aqui.

O  nudismo é filosofia de vida, dotado de ética e de valores: Etica do corpo livre PDF

Abricó, praia nudista: aqui.

Mamas ao vento e pênis à mostra: aqui.

A nudez é inocente: aqui.

Chispada: aqui.

                        Nudez perante crianças: Nudez perante crianças. PDF.

Teologia da nudez (em que examino a nudez, o “pecado original”, a nudez de 3 profetas e a atitude de Cristo em relação à nudez,  simpaticamente à nudez). (A minha condição de ateu e de jamais cristão não é contraditória com a minha teologia da nudez, que não pressupõe nem ser cristão nem crente em Jeová. Ela demonstra o quão parcial o cristianismo ortodoxo é, quanto à nudez e ao corpo e que é possível hermenêutica alternativa). Em 3 partes, ilustradas:

Primeira parte, na edição 175. Definição de nudismo; deus quis a nudez; o pecado original não foi erótico: aqui.

Segunda parte, na edição 176. O pecado original foi de desobediência; pecado é recusar a obra divina; Isaías, Miquéias e Saul nus; a nudez em Cristo; opiniões de autoridades cristãs em prol da nudez: aqui.

Terceira parte, na edição 177. Origem histórica, persa e cristã, da gimnofobia e do pudor: aqui.

Envergonhar-se do corpo é obrigatório? Divertido sermão nudista. aqui.

Homens que, nos vestiários de academias, entram no chuveiro de cueca e deles se restiram de cueca. Pudor ridículo (parece convento) de curitibanos e não só: aqui.

Minha carta à ministra dos Direitos Humanos, em prol do nudismo, do monoquini e da revogação do artigo 233 do Código Penal: carta-a-ministra-dos-direitos-humanos.

Os fotógrafos e as fotografias de nus em público. Trecho de epístola ao comandante da PM de SP:aqui.

No Jornal Olho Nu há artigos meus nos números 159, 165, 166,168,169, 175, 170 (duas vezes), 175, 176, 177, 178, 180, 182.

Ética do corpo livre: aqui.

Jornal Olho Nu, 178, de setembro de 2015: análise do livro “O nu ao ar livre” aqui.

 João Ramalho, o primeiro nudista do Brasil, no século 15, no jornal Olho Nu, de fevereiro de 2019: aqui; o mesmo texto, acompanhado das fontes, em PDF: João Ramalho.

A arte, no Brasil, ainda é gimnofóbica. O brasileiro não representa o nu, notadamente masculino, ao passo que na Grécia e em Roma antigas, nos E.U.A. e na Europa atuais, o nu masculino é comuníssimo. Vide aqui coleção abundantíssima de nus masculinos, demonstração do quanto o brasileiro ainda é preconceituoso e caretíssimo. Vide aqui outro sítio de pintura de nus na arte (masculinos e femininos). O art. 233 do Código Penal pune fazer, ter, adquirir desenho, pintura, estampa obsceno. A arte com nu é obscena ? Está na hora de revogarem-se os artigos 233 e 234 do Código Penal.

                 Minha página no Tumblr: mostruário de nudez natural e artística:aqui. (https://arthurvirmonddelacerdaneto.tumblr.com/).

Vide aqui repertório de lindíssimas fotografias de  nus masculinos.

                Nudismo na Alemanha, nos anos 1920, com escola nudista e não só. Relato de R. Salardenne, no seu livro “Um mês entre os nudistas”: Um mês entre os nudistas.

O Cristo, nu, de chocolate: O Cristo nu, de chocolate.O cristo nu, de chocolate.

Filmagem de nu no metrô de Berlim aqui.

Por que, nas piscinas, os nadadores devem usar tanguinhas minúsculas? Nos E.U.A. , antes da caretização religiosa, nadavam nus. Veja aqui.

Fotografias de  nudez natural, em público, na Europa, aqui.

Em décadas transactas, foi preciso os homem baterem-se pela exposição dos seus mamilos: Campanha pelos mamilos à mostra.

Sítio de fotografias de pinturas, desenhos e esculturas de nudez frontal masculina aqui.

Cinema nudista: aqui.

Vídeo. Visita do casal aos amigos nudistas. Para “melhorar o seu inglês”: aqui.

Pudor nos EE. UU. AA. e liberdade de nudez na Europa. Curtíssima metragem: aqui.

Resenha de “Pureza”, de Nelci Pereira de Sousa, livro adamita (nudismo cristão), de conteúdo altamente humanista e ótimo: aqui.

Projeto fotográfico brasileiro, de Hugo Godinho aqui.

Desenhos brasileiros de nus, de Fábio Lopes aqui.

Projeto fotográfico de Hugo Carmesin. Adesões à publicação do livro “Nu Cenário” aqui.

Snaps fanzine, revista de nudez masculina natural: aqui.

Viva Calígula, repertório de fotografias de nudez não erótica: aqui.

Reportagem sobre revistas de nudez natural, brasileiras: aqui.

“Eu escolhi você”, de Clarice Falcão, com imagens de nudez natural (no Vímeo):   https://vimeo.com/196792830.  Minha análise do clipe :eu-escolhi-voce-de-clarice-falcao-pdf

Testemunho de Adriano Facioli, acerca da sua experiência nudista: adriano-facioli-testemunho.

Filme de Antonio da Silva, “Poesia no pênis”: aqui.

“Le banquet d`Auteil”: dramaturgia com nudez. Vide a partir do quadragésimo nono minuto: aqui.

          Quatro desenhos nudistas, de Henrique de Macedo Airoso da Silva, publicados pelo jornal Olho Nu (edição de número 200, de julho de 2017): aqui.

Genealogia da obscenidade (vídeo de Diego Fernandes), no Youtube: aqui.

Há fotografias de nudez natural na Europa e EE.UU.AA, inclusivamente das escolas nudistas.

Se gostou da idéia, divulgue-a. A idéia é a de erradicar a vergonha do corpo, a de que há partes inerentemente obscenas (pênis, mamas, nádegas) no corpo, que devem ser ocultadas. A idéia é a de que todas as partes do corpo são dignas e apresentáveis e que não faz sentido o pudor como vergonha do corpo. A idéia é a de que a nudez natural é diferente de nudez sexual e de que a malícia está no pensamento do malicioso.

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Curitibanos-curitibocas.

Neste blogue, abaixo, “O curitibóca” (descrição e julgamento do próprio); “Cura-curitibóca” (terapia em sete lições) e “Bestiário do curitibóca ou exemplos da babaquice”.

Leia descrição do comportamento dos curitibanos-curitibocas: O curitibóca

Leia o Cura-curitibóca em oito lições aqui: Cura-curitiboca. Se você é curitibano, sugiro-lhe que leia, por primeiro, a oitava lição.

Leia o “Bestiário do curitibócaou exemplos da babaquice”: Bestiário do curitiboca ou Exemplos da babaquice

Leia análises de outros autores, de Curitiba e forasteiros, sobre o etos e o patos do curitibano: O curitiboca. Alguns testemunhos.

 

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Jesus era homo ?

 

JESUS ERA HOMO ? Talvez; creio que provavelmente sim (supondo-se, para argumentar, que ele haja existido, o que é bastante contestável e contestado por vários investigadores).
A narrativa evangélica, acerca de Jesus, é romanceada em todos os seus aspectos, ressalvados alguns pormenores que permitem vislumbrar o que haja sido o Jesus da história.

Atenhamo-nos ao Jesus dos evangelhos: era homem, solteiro, acompanhado, habitualmente, apenas por homens solteiros (há divergências neste particular, porém a versão canônica é a da solteirice); teve amizades femininas ocasionais. Entre ele e João havia amizade ternurenta. Jamais ele condenou a homossexualidade.

Sabe-se que os homossexuais puros, homo a 100%,são minoritários; sabe-se que os heterossexuais puros, heteros a 100%, são minoritários. Entre ambos extremos, a maioria dos humanos têm algum grau de bissexualidade.

No domínio das probabilidades, é mais provável que ele fosse bissexual do que homo ou hetero puros; dado que vivia acolitado somente por homens e era solteiro, é mais provável que fosse homossexual.

Na Idade Média, falava-se, no meio clerical, abertamente, na homossexualidade real o presumida de Jesus. Havia até uma espécie de teologia homossexual. Vide o livro de João (John) Boswell: “Cristianismo, homossexualidade e intolerância”. Neste capítulo, os medievais foram muito mais sinceros e cristãos do que muitos de seus correligionários atuais.

Sim, Jesus pode ter sido homossexual ou bissexual. Aliás, Binet-Sanglet, na França, há cerca de já 100 anos, afirmou que o era e não foi o único a dizê-lo.

A película da Porta dos Fundos não deveria indignar nenhum cristão, na medida em que expõe o que é bastante possível e presumível. Se tanto, os cristãos podem insurgir-se contra algum eventual aspecto evidentemente escarninho ou desprezador, o que ignoro se é o caso ou não (não assisti ao filme), ou seja, quanto à forma, à plástica, porém não quanto ao fundo, à mensagem.

Teologicamente, a homofobia pertence ao Velho Testamento e não à pregação de Jesus, que jamais se opôs à homossexualidade. A indignação dos cristãos não se inspira na mensagem do seu herói, e sim no que ele não pregou, não anunciou, não proclamou.
Por mais que certos cristãos abominem a homossexualidade, cogitar da homossexualidade (possível, presumida ou assumida) de Jesus é perfeitamente cabível. Como humano e como homem, ele pode, sim, ter sido homossexual ou bissexual, e ter tido afetos masculinos e femininos, e ter sido passivo ou ativo com algum homem. Ele pode, quiçá, haver pertencido ao estrito grupo dos heterossexuais a 100%, o que não se prova. O oposto não se prova, porém se pode presumir ou deduzir, com fundamento.

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Casa de David Carneiro.

 

 

Casa de David Carneiro.   Esta casa foi edificada em 1949 pelo historiador David Carneiro, após o incêndio da Hervateira Americana, situada entre as ruas Emiliano Perneta e Comendador Araújo, na rua Brigadeiro Franco, número 1828. A sua fachada inspira-se na descrição que Eça de Queiroz fez da casa do seu livro “Os Maias”, segundo ouvi várias vezes do próprio David Carneiro e do seu filho homônimo (meu padrinho e parente sangüíneo).

Não se trata de reprodução tal e qual da descrição da casa do livro, porém de inspiração. Alguns anos após a sua construção, foi dividida, internamente, em duas: na lateral direita (com entrada pela escadinha central) habitava Fernando Augusto Lacerda da Silva Carneiro (filho de David e de Marília Supplicy de Lacerda); na lateral esquerda, habitavam David e sua mulher, Marília. Ambos ali viveram até os respectivos óbitos.

Por causa de dívidas, a casa foi leiloada pelo Banco do Brasil e arrematada (casa e terreno) por consórcio de empresários.

Salvei, por iniciativa própria, 5 painéis de azulejos, com os brazões de Lacerdas, Supplicys, Silvas, Carneiros e Monteiros, que entreguei a quem de direito, semi-danificados. Na platibanda, havia 4 réplicas do vaso do campanário da igreja matriz de Curitiba; réplicas feitas em Campo Largo (e não originais portugueses). Nas laterais das 6 sacadas, havia réplicas de pinhas, de porcelanas. Nem as réplicas dos vasos nem as das pinhas encontram-se nos seus lugares originais.

Ao tempo da inauguração do hotel, havia um Memorial David Carneiro, que se fechou poucos meses depois e fechado se manteve por anos, até ser reaberto, com loja, em 2019, por instâncias de curitibanos, em movimento que iniciei no Facebook.

David Carneiro foi dos maiores intelectuais e, indiscutivelmente, o mais prolífico e relevante historiador paranaense. Aliás, redigiu, por anos a fio, diariamente, a Veterana Verba, artigos de elevado teor cultural, que merecem reedição, em livro, completa. Ele colecionou recortes dos artigos; eles existem e merecem publicação na íntegra: é tarefa cultural por empreender-se.

Na Curitiba católica e carola, foi das raras vozes que falava pela secularidade, pelo humanismo, pelo antropocentrismo e pelo Positivismo, de que foi adepto e entusiasta ao longo da sua vida (bem assim os seus filhos David e Fernando), domínio em que construiu e manteve a Capela da Humanidade.

Na fotografia: David Carneiro na Capela da Humanidade; ao fundo, representação da Humanidade, na forma de mulher com seu fllho nos braços. É réplica da estátua que encima o monumento a Benjamin Constant, na cidade do Rio de Janeiro e que adorna a tumba de Augusto Comte, em Paris.

Em 1999, produzi requerimento de tombamento da casa, a que se associaram 28 notabilidades de Curitiba, que o subscreveram. Ele foi indeferido pelo Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico do Paraná, em 11 de novembro de 1999, com base em parecer que a menoscabou. Conservou-se-lhe a fachada, em parte devido à obrigação de manter-se recuo de 2,70 m; ela não é tombada pelo Patrimônio Histórico de Artístico do Paraná. Constou-me ser Unidade de Interesse e Preservação (estatuto municipal).

Em PDF, o requerimento (subscrito por inúmeras notabilidades de Curitiba) e o ofício que recebi da então Secretária da Cultura, comunicando-me o indeferimento:  David Carneiro, casa, tombamento.

Aqui, o parecer (que julgo chocante e superficial) de membro do Conselho do Patrimônio Histórico e Artístico, que fundamentou o indeferimento, e a ata da reunião em que se deliberou pelo indeferimento: David Carneiro, casa, parecer e decisão.

David Carneiro na Capela da H.

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Mesóclise e MEDIOCRIDADE.

A mesóclise é recurso da língua portuguesa em que se insere o pronome no verbo, nos
tempos futuro (futuro do presente e futuro do pretérito. Futuro do presente, como
“farei”; futuro do pretérito, a exemplo de “faria”).
Na mesóclise, o pronome não se antepõe ao verbo (a anteposição do pronome ao
verbo chama-se de próclise, como em “me diga”) nem se lhe pospõe (a posposição do
pronome ao verbo denomina-se de ênclise, a exemplo de “diga-me”). Na mesóclise
introduz-se o pronome “dentro” do verbo. Por exemplo: verbo entender > entenderá >
entender-se-á. Verbo inaugurar > inaugurarão > inaugurar-se-ão. Verbo fazer > farei
isto > farei o > fá-lo-ei. Verbo encontrar > encontrariamos > encontrar-nos-íamos.
Emprega-se a mesóclise no tempo futuro; ela é-lhe peculiar e exclusiva, por ser
impossível praticá-la nos tempos presente e no pretérito. Ela caracteriza a conjugação
dos tempos futuros, sentido em que é vantajosa para a clareza do discurso.
A mesóclise é de fáceis entendimento e uso. É facílimo intercalar o pronome no
verbo, operação de que qualquer pessoa torna-se capaz, uma vez que a aprenda e que se
exercite: aprendê-la e exercitar-lhe o emprego constituem operações ao alcance de
qualquer indivíduo de inteligência normal. No meu tempo de estudante, aprendia-se
com onze anos de idade. As crianças aprendiam a mesóclise. Até por imitação e sem
especial ensinamento é-se capaz de aprendê-la, como, demais, espontaneamente as
pessoas apreendem o idioma, de oitiva.
É feio “se poderá”, “se venderá”, “se aposentará”, sempre que inexiste palavra que induz à próclise.

Agora, atente nisto: usar, sempre, a próclise, sem distinguir as situações em que ela é obrigatória das em que cabe a mesóclise, ou seja, usar, sempre a próclise para poupar-se ao trabalho de saber usar a mesóclise, ou seja, proceder sempre pelo mais fácil, ou seja, recorrer ao menor esforço, É O CRITÉRIO DE TODO MEDÍOCRE. No desdém pela mesóclise, na preferência preguiçosa pelo fácil, pela próclise, HÁ COMPONENTE DE MEDIOCRIDADE COMO CRITÉRIO DE ESTILO.

 

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Purismo.

Os idiomas recebem influências semânticas estrangeiras, na forma de palavras que acabam por se lhes incorporar. São os estrangeirismos, de que muitos são dispensáveis e desnecessários, sempre que houver palavra vernacular equivalente. Por exemplo (no caso do português):

– se temos tapa-luz e guarda-luz, não carecemos de “abajur”, do francês “abat jour”.
– se temos insulado, não carecemos de isolado, do francês “isolé”.
-se temos maciço, abandonemos o massivo, do inglês “massive”,
– se temos pormenor e minúcia, usemo-los em lugar de detalhe, do francês “detail”.
– se temos com base em, a contar de, de [tal dia] por diante (e outras formulações equipolentes), abandonemos o “a partir de”, do francês “a partir de”.
-se temos até, preteramos (do verbo preterir) o mesmo, do francês “même” (em construções como: “Mesmo ele gostou”).
-se temos boieiro, vaqueiro, pegureiro, repudiemos caubói, do ingês (cowboy [moço-vaca]). Vi “caubói” em título de livro recente: achei péssimo.

Não leva a nada alegar que as importações são naturais; elas são evitáveis e devem ser evitadas sempre que subalternizem e até eliminem as palavras do idioma. Ora, os estrangeirismos quase sempre resultam na eliminação das palavras do próprio idioma e no prevalecimento do estrangeirismo, o que acaba por “poluir” o idioma.

É grande engano pensar, como muitos ingênuos pensam, que os idiomas devem ser enriquecidos com importações, como se toda importação fosse necessária ou fizesse falta. Somente fazem falta se faltar o termo vernacular, se inexistir palavra em português. Quando alguém se mostra receptivo aos estrangeirismos, suspeito de que o sujeito tem vocabulário pobre: conhece poucas palavras do português, conhece as do inglês, do francês (etc.) e logo conclui que “os estrangeirismos são necessários”, “são tantos, que sem eles não dava para a gente falar”, “eles aumentam os recursos da gente”. É a voz da ignorância.

Leia Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, José Saramago; consulte, assiduamente, bons dicionários.

Ser purista significa preferir o léxico vernacular (as palavras genuínas do português) em lugar dos estrangeirismos, das importações, das imitações, das traduções imitantes. Seja purista, orgulhosamente: sê-lo é motivo de orgulho.

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Não há língua brasileira.

 Não há língua brasileira. Não há. A sintaxe é a mesma, o léxico é o mesmo; adjetivos, substantivos, verbos, preposições são os mesmos, com algumas diferenças de uso que nem de longe bastam para afirmar-se a existência de outro idioma. Outro idioma é o chinês em relação ao português, o francês perante o alemão e assim por diante.

Entre Portugal e Brasil, de diferente, há algum vocabulário de origem africana e indígena, no Brasil; algum uso coloquial, como também o há em Portugal e em qualquer parte; localismos, gírias efêmeras. São discrepâncias insuladas e não diferenças estruturais, que tornassem irreconhecível o idioma usado em Portugal pelos brasileiros e vice-versa. Qualquer brasileiro lê e entende Saramago; qualquer português lê e entende Machado de Assis. É claro que os portugueses mal compreenderiam a gíria da favela carioca e os brasileiros mal compreenderiam a gíria do jovem português. Porém no meu tempo de estudante também havia certa gíria que meus pais mal compreenderiam;no entanto, ela passou, esqueceu-se, findou, e o idioma persiste.

Há diferenças de modo de usar o idioma, no Brasil e em Portugal, como as há entre estudantes (brasileiros ou portugueses) e a geração de seus avós, como as há entre gente do interior e gente das capitais, como as há entre o carioca do morro e o curitibano tradicional. Trata-se de estilos locais, geracionais e grupais de usar o mesmo idioma e não de idiomas diferentes. Afirmar-se a existência de estilo brasileiro é correto e verdadeiro; é surreal e exorbita de qualquer senso de proporções afirmar-se a de idioma brasileiro.

O movimento pela língua brasileira contém 2 elementos psicológicos: 1) o de lusofobia, a recusa do passado lusobrasileiro, o desprezo pela origem portuguesa destes país, povo e idioma. Marcar a independência idiomática (como preconiza a funesta obra de Marcos Bagno) é apenas a expressão doutoral de uma aversão entranhada em muitos brasileiros de longa data). 2) é a forma de legitimar o produto da ignorância, do desleixo, do desdém pela gramática. Toda a gente sabe o quão deficiente é o ensino no Brasil, do idioma; toda a gente sabe o quão pouco o brasileiro lê; toda a gente conhece o funesto aforismo de que se pode falar “de qualquer jeito”, mas “tem que escrever direitinho”. Esta mentalidade é a da permissividade e consagra o “direito” de rebaixar o uso do idioma. Tudo isto combinado, resulta em diferenças que não exprimem , por assim dizer, a evolução natural do idioma, praticada por quem o conhece minimamente, porém exprimem a degradação resultante do seu desconhecimento e de tratar-se o idioma como desvalor cultural. 

É um grande equívoco ventilar-se de língua brasileira, cujo efeito será o de consagrar mudanças originárias da incultura. 

Certo setor do movimento mental brasileiro está tentando reaver o cânone português e brasileiro, no esforço de reverter o distanciamento entre linguagem falada e gramática, entre uso coloquial e uso literário. Não conheço em pormenor o critério deste setor, porém tenho quase certeza de que ele recusa o conceito de língua brasileira.

Estudei em Portugal (Lisboa) e morei em Braga. Convivi com professores, com faxineiras, estudantes, comerciantes. O idioma é o mesmo. Não exageremos as diferenças. Há mais diferenças de vocabulário entre Porto Alegre e Curitiba e ninguém pratica o exagero de proclamar a existência do idioma gaúcho. Portugueses e brasileiros entendem-se, sim, no seu comum idioma, malgrado diferenças acessórias. O tal movimento pró-brasileiro acentua o acessório, o secundário, como se o principal inexistisse. Falta-lhe senso de realidade.

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Teoria crítica do Direito: erros sobre o Positivismo.

Em PDF (versão completa): Teoria crítica do Direito

                                                           Arthur Virmond de Lacerda Neto. 1º.XII.2019.

(Versão parcial).

Intitula-se Teoria crítica do Direito o livro de Luiz Fernando Coelho, publicado em quinta edição em 2019 (Curitiba, Bonijuris). Comento-o exclusivamente em relação ao Positivismo.

O nome Positivismo foi introduzido por Augusto Comte, autor da doutrina assim nomeada, da sociologia e de forma de humanismo que chamou de religião da Humanidade. Graças à obra de Comte e ao imenso prestígio que granjeou nos meios intelectuais, políticos, filosóficos europeus e latino-americanos, tal designação notabilizou-se.

As concepções de Comte são as legítimas detentoras do nome em questão e a elas refiro-me com inicial maiúscula, para diferençá-las do uso espúrio que dele fazem doutrinas outras, cujos mentores, partícipes e antagonistas  apropriaram-se do termo e aplicaram-lhes, mais mal do que bem, por extensão ou analogia, o que origina confusões por polissemia.

Devido a tal polissemia, em qualquer obra rigorosa que trate do Positivismo ou dos positivismos, é mister, antes de tudo, circunscrever exatamente a que o autor se refere com tal vocábulo; é imperioso distinguir o Positivismo (se dele o autor se ocupa) dos assim chamados positivismo jurídico, positivismo na historiografia, positivismo em geografia, positivismo em sentido coloquial. Não se admite, em obra nenhuma, ainda menos em obra doutoral, que o autor amalgame doutrinas distintas, como se concordassem entre si por coincidirem (infelizmente) no nome.

É tosco nomear Augusto Comte e invocar-lhe o Positivismo e, no mesmo ponto, mencionar “positivismo” sem mais especificações, e invocar autores de todo alheios à obra do primeiro.

Desta deficiência padece a Teoria crítica do Direito, que se abre com e como “reação a […] herança positivista” (p. 9), responsável por “exigência de cientificidade nos moldes do positivismo”. O livro vale-se do nome positivismo desde o seu intróito, sem explicitar ao leitor de que positivismo trata e qual recusa: não se sabe, nem o autor no-lo elucida, se repudia a obra de Comte, se o normativismo jurídico, se o positivismo lógico, se nada disto, se tudo isto, se um pouco de cada. Há confusão e obscuridade imperdoáveis, por imprecisão teórica própria de calouros.

Segundo o livro, a cientificidade “nos moldes preconizados pelo positivismo” conduziram (p. 9):

1- “a uma especialização cada vez mais aprofundada dos estudos superiores”,

2- “a uma atitude cognoscitiva apegada às partes componentes, em prejuízo da visão de conjunto como um todo”, que

3-  “importou a (sic[1]) a descaracterização das ciências humanas como voltadas para o homem, substituído pelo evento, o fato isolado de seu contexto histórico-social.”

4-  “em psicologia, historiografia, economia e sociologia, toda a problemática das relações humanas viu-se reduzida ao estudo descritivo dos fatos.”

Malgrado a falha que apontei, as quatro críticas permitem-me e permitem a qualquer leitor bem-informado sobre a obra de Comte identificar, prontamente e fora de qualquer hesitação, a que doutrina ele não se refere: não se refere ao Positivismo, ao de Augusto Comte.

Realmente, dentre outras notas, o Positivismo caracteriza-se explicitamente por:

1-  Preconizar, não a especialização do conhecimento científico insuladamente de vistas de conjunto, porém o aprofundamento da cognição em cada ramo da ciência, sempre com vistas de conjunto, com visão global, com percepção do lugar de cada setor do conhecimento em relação a seus homólogos.

2-  Preconizar atitude cognitiva de relação, de ligação dos diversos ramos científicos entre si, por modo propiciar-se conhecimento dos métodos, doutrinas e resultados mais gerais de cada setor e de todos os setores.

3-  Preconizar, de conseqüência, nova especialização: a das generalidades científicas, a do engrazamento dos ramos científicos entre si, no que se chama atualmente de interdisciplinariedade, nome aliás estranho para designar a proposta Positivista, sem o rigor que lhe é próprio.

4-  Protestar pelo desiderato humanista da ciência, pela sua existência como instrumento útil à Humanidade, como conhecimento ao serviço do melhoramento da condição de vida das pessoas. Aliás, ao contrário do que pensa o senso comum ignorante, o Positivismo não é cientificista: ele fundamenta-se na ciência, porém não é por ela limitado nem encontra nela seu escopo; ele é humanista porquanto reconhece na Humanidade seu valor soberano.

5-  Asserir o princípio da associação do fato ao respectivo contexto social, em sentido alargado no tempo e no espaço, diacrônica e sincronicamente e julgar irracional insular o fato do respectivo contexto social. O ensino, aliás, preconiza Comte, desenvolve-se dogmática ou historicamente; na segunda forma, atinar-se-á sobremodo na dependência dos fatos relativamente ao estado de coisas humano, social, a que corresponde.

6-  Em psicologia, historiografia, economia e sociologia, a problemática das relações humanas não pode ser reduzida ao estudo descritivo dos fatos; não pode ser meramente empírico: deve ser propriamente científico, em que os fatos servem como informações destinadas a formularem-se leis que levem à ação. O Positivismo (disse-o Comte) recusa o mero empirismo; não é empírico: é científico, ou melhor, positivo.

Os 4 pontos de que a Teoria crítica do Direito se afasta, em nome da rejeição do positivismo (seja qual for) correspondem, item por item e fielmente, ao ideário do Positivismo. Se o autor da Teoria recusa dados “moldes”, também os recusa, enfaticamente, o Positivismo. Se o autor da Teoria imputa-os ao Positivismo, então dele recusa não o que ele realmente transmite, senão a imagem, aberrante, que dele formou. Como o autor eximiu-se de precisar que positivismo recusa e, ao enjeitá-lo não nomeia Comte, depreendo que não é ao Positivismo que se refere e que, a contrario, com ele converge e com ele coincide, pelo menos quanto ao que ambos rejeitam.

O longo capítulo VI (O referencial da dogmática jurídica) tem, como seu primeiro tópico “A concepção positivista do direito”. Já aqui, tal enunciado permitiria esperar-se o esclarecimento cabal que o autor negligenciou no seu prefácio. Qual nada: mantém-se confusão, que mal se desfaz.

Segundo Coelho, a “ambiência histórica que as revoluções burguesas consolidaram cristalizou-se” em uma filosofia, “o positivismo”. É cacoete típico de certa esquerda e de certos meios mal-informados imputar ao Positivismo condição de filosofia burguesa; neste sentido, ainda que por efeito de juízo discutível, depreendo tratar-se da obra Comte (p. 194).

O parágrafo seguinte menciona o “positivismo filosófico”, que “engendrou o positivismo jurídico”, ao que o sucessivo acresce: “Convém esclarecer, todavia, que não são expressões sinônimas. O positivismo jurídico é uma doutrina filosófica, resultado da elaboração racional que conduziu ao positivismo francês e alemão e que se expandiu por todo o mundo ocidental, inclusive para a América Latina.”

O autor discerne, portanto, duas correntes: o “positivismo filosófico” e o “positivismo jurídico” que, por sua vez, é “doutrina filosófica”. Como a primeira forma de “positivismo” é filosófica, conclui-se serem ambas filosóficas, com a diferença de que uma apenas é jurídica.

Ambos positivismos resultam de “elaboração racional” que conduziu, por um lado, ao “positivismo jurídico” e, por outro, “ao positivismo francês e alemão e que se expandiu por todo o mundo ocidental, inclusive para a América Latina.”

Esclareça-se o que o texto comunica obscura e confusamente: 1) chama-se de Positivismo a doutrina filosófica desenvolvida por Augusto Comte e que se entranhou nos meios intelectualizados e políticos do Brasil, França, Inglaterra, Suécia, Chile, Argentina, México, Itália e não só. 2) Chama-se “positivismo jurídico”, juspositivismo ou normativismo a doutrina jurídica que entende o direito como o “conjunto de normas postas pelo Estado.” (p. 195) o que caracteriza, segundo o autor, “o ponto de vista positivista”, ou seja (elucido) o modo de ver normativista ou juspositivista e não Positivista.

Dois parágrafos além, o autor expõe: “Apesar de o positivismo ter tido a França como seu ambiente natural […]”. Ora, Augusto Comte era francês e produziu toda a sua obra na França, do que depreendo que, neste lugar, o autor alude ao Positivismo.

No páragrafo sucessivo, com o emprego, sem mais, do adjetivo positivismo, o autor nomeia Augusto Comte, como “criador” da “filosofia positivista”, a respeito da qual desenvolve considerações mais ou menos corretas e imperfeitamente claras.

Após nomear Hegel, de quem sumariamente ventila, o autor nomeia Sthal e o empirocriticismo (“desde Avenarius, Wundt e Mach” […]”, p. 196), como encarnações do “espírito positivista” (p. 196), ainda sem precisar a que positivismo alude. Com o empirocriticismo e com tais autores, já não se trata do Positivismo nem do normativismo, porém do mal-chamado positivismo lógico ou neopositivismo, que nenhuma relação guarda, diretamente, com a obra de Comte. Disto por diante (p. 196), é somente ao cabo de cinco páginas inteiras que o autor emprega o nome juspositivismo (p. 201) o que permite, finalmente, identificar inequivocamente a corrente que examina, naquele lugar.

Em outra passagem, segundo o autor, os positivistas franceses foram animados pelo afã de “endeusar a razão” (p. 197). Em parte nenhuma da obra de Comte, da de seus discípulos franceses nem brasileiros, encontra-se nada que se apropinqüe de algum “endeusamento” da razão. Já se criticou o Positivismo por, alegadamente, “endeusar” a sociedade e o homem, porém dizê-lo da razão é tolice risível, discrepante da letra e do espírito de Comte.

A Teoria crítica do Direito informa ao leitor que “o termo direito positivo[2] vulgarizou-se por influência do positivismo filosófico […]” (p. 205). Não me consta nem jamais me constou que tal locução se propagasse devido ao Positivismo, graças à aceitação nos meios intelectuais europeus e não só, das doutrinas de Comte, que não contém nenhuma formulação desenvolvida relativa ao direito, à sua natureza normativista ou metafísica, burguesa ou revolucionária. Comte preconiza a substituição da noção de direito pela de dever e a instauração de deveres de todos para com todos (inclusivamente para com os animais e os vegetais); de caminho, menciona a origem teológica dos direitos. Mais não diz, neste capítulo.

A locução “direito positivo” foi introduzida pelo alemão Gustavo Hugo (1764 — 1844), precursor da Escola Histórica, e repetida pelo jurista inglês João Austin (1790 — 1859), em subtítulo (“A filosofia do direito positivo”) de 1885. Não decorreu da obra de Comte; possivelmente granjeou notoriedade e aceitação graças ao prestígio do Positivismo e do seu nome.

Em 27 páginas quase completas de bibliografia, constam, de Augusto Comte, apenas os dois primeiros capítulos do Sistema de filosofia positiva e o Discurso sobre o espírito positivo, da coleção Os Pensadores (1983). Para obra doutoral, em já majestosa quinta edição, era obrigatório que o autor consultasse e lesse as passagens de Augusto Comte relativas aos sete itens que enumerei acima e às noções de direito e de dever no Sistema de filosofia positiva e no Sistema de política positiva. No mínimo, era-lhe imperioso que inteligisse os dois textos da coleção Os Pensadores e mais o Catecismo Positivista, nela incluída, no mesmo volume, o que lhe teria propiciado noção correta do Positivismo. Era-lhe muito desejável que lesse e entendesse a Moral prática e a Moral teórica, de Pedro Laffitte, sucessor de Augusto Comte. Era-lhe assaz importante que lesse e se compenetrasse de Perspectivas de Augusto Comte, do brasileiro Ivan Lins.

Na ausência do original do Sistema de filosofia positiva, fazem-lhe as vezes as condensações que dele empreenderam Martineau, Rigolage e Teixeira Bastos. Nenhum dos três figura na bibliografia.

A bibliografia inclui um único livro acerca do positivismo lógico (El positivismo logico, de A. J. Ayer); desconhece o esclarecedor A filosofia positivista, de Kolakovski e o lúcido O positivismo jurídico, de Bobbio. Possivelmente suas fontes transcendem, com vantagem, os dois últimos; contudo, em momento nenhum a Teoria usa da mesma clareza expositiva e da mesma lucidez conceitual destes livros, de que o primeiro caracteriza certa atitude mental, que nomeia (em sentido lato) de positivismo, o que inclui a obra de Comte, porém nenhum jurista, e de que o segundo caracteriza perfeitamente o normativismo ou “positivismo” jurídico e sequer menciona Augusto Comte.

Norberto Bobbio assim principia o seu brilhante O positivismo jurídico:

“A expressão “positivismo jurídico” não deriva daquela de “positivismo” em sentido filosófico, embora no século passado tenha havido uma certa ligação entre os dois termos, posto que alguns positivistas jurídicos eram também positivistas em sentido filosófico: mas em suas origens (que se encontram no início do século XIX) nada tem a ver com o positivismo filosófico — tanto é verdade que, enquanto o primeiro surge na Alemanha, o segundo surge na França. A expressão “positivismo jurídico” deriva da locução direito positivo contraposta àquela de direito natural.” (O positivismo jurídico,  Icone Editora, São Paulo, 1996, p. 15).

Seja como for, sobre o Positivismo circulam caricaturas e toleimas variegadas, na literatura brasileira e peregrina, de origem marxista inclusiva e especialmente. A falácia do espantalho constitui recurso cediço na sua pretendida refutação e superação. Com razão ponderou Alain que, sobre Comte, deve-se ler e meditar o próprio Comte, bom conselho aplicável a qualquer autor e especialmente descurado, no meio brasileiro, a respeito dele, em que abundam quantos falam do que desconhecem ou que conhecem por fontes de segunda mão. Quem lê livros errados, forma idéias erradas[3].

Apesar de todas as suas fontes ou por causa delas, a Teoria, acerca do Positivismo, (1) formula juízos errados nas suas incriminações, se é realmente a ele que as dirige e (2) é abstruso na diferenciação do verdadeiro Positivismo em relação às correntes que lhe parasitaram o nome. O segundo defeito desmerece a execução da Teoria e o seu rigor teórico; o primeiro desmerece-lhe a concepção, comunica distorções absurdas do Positivismo e vicia o leitor. A única defesa da Teoria quanto ao primeiro defeito é a de ele increpa outra corrente de pensamento, que não o Positivismo. Em qual seja exatamente, não se atina nem o autor o elucida (segundo defeito).

Vide: positivismodeacomte.wordpress.com.

 

[1] Abstenho-me de anotar as passagens em que o texto merece revisão que o expungisse de galicismos e inglesias, bem assim do uso intolerável de preposições onomásticas com “d” maiúsculo (a exemplo de “De Castro”).

[2] Não se trata de termo e sim de locução.

[3] Este aforismo é da autora luso-brasileira Isabel A. Ferreira.

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A maioria das postagens noticiosas que me aparecem no Facebook é de notícias ruins, deprimentes, negativas. Acusações, denúncias, misérias, desgraças. São raras as postagens de informações que (me) valha a pena ler e igualmente rareiam textos interessantes.
Nas comunidades, muito mimimi, sectarismo, grosseria da direita, da esquerda, dos levianos.
Abundam postagens políticas o que, em si, não é mal. Mal é que quase toda a atenção das pessoas se limite ao político.
Muita perda de tempo, o que já sabia há anos.
É claro que cada usuário pode selecionar quem aceita e o que vê.
Quando comento em postagens (o que raramente pratico), amiúde desativo as notificações, para poupar-me à torrente de grosserias e de asneiras dos militantes disto e daquilo, e dos levianos. As pessoas incivilizaram-se na medida em que aprenderam a permitir-se grosserias, o que 20 ou 30 anos atrás era inaceitável.
É mister as pessoas reaprenderem a moderação, a contenção; a não dizerem, impulsivamente, o que lhes vem à mente, em antagonismo e como ataque; a contarem até 20; a meditarem antes de escrever. Se este mínimo de civilidade voltar a existir, será um grande passo para fora da barbárie.

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