Emoção de professor

 

                                        Emoção de professor

  Arthur Virmond de Lacerda Neto

27.IV.20004.

“…a filosofia positiva representará sempre a cultura do coração como mais importante do que a do espírito” (Comte, Sistema de Política Positiva, I, 242).

             Exerço a docência desde os meus vinte e sete anos de idade e nela encontrei a minha verdadeira vocação profissional, muito mais do que na advocacia, que jamais me atraiu e que pratico antes em razão das circunstâncias do que por preferência.

            É na atividade de explicador que me realizo, facundo que me sei na espontaneidade do meu dizer e na habilidade com que domino o idioma, resultado, este, do hábito assíduo da leitura, que sempre representou um dos meus maiores prazeres.

            Atrai-me na docência também o convívio com os alunos; gratifica-me andar cercado de gente moça e simpática.

            Em 1999 assumi uma turma universitária, no turno da manhã, para a qual  lecionei História do Direito, em uma época em que a  instituição correspondente implantava um plano pedagógico, infeliz, inovador e sonhador.

            A adoção das práticas do tal plano impôs-se aos docentes sob ameaça de demissão: rendi-me à força, concebi-as e apliquei-as. O resultado que colhi com os cerca de setenta alunos que então assumi, foi o pior: más notas, desinteresse generalizado, temor de reprovação e a exaltação de ânimos de alguns, que tomaram atitudes de confronto direto comigo o que, aliás, correspondia a uma atitude arraigada naquela universidade, da parte dos alunos, face, e contra, os professores.

            Uma aluna sublevou os seus colegas contra mim, havendo aliciado um rapaz, o Diego Negrão Chiuratto, que, em aula, pediu-me a palavra e atacou-me. Ao tempo, eu era dotado de uma infinita paciência e de uma habilidade de diálogo cuja ausência em outros professores foi-lhes fatal e graças à qual logrei manter-me na instituição, até demitir-me, farto da insolência dos alunos e de ser por ela maltratado.

            Naquela manhã de conflito, respondi ao Diego, que me acusava de haver, face a terceiros, denegrido a turma dele. Respondi-lhe que não se deixasse induzir por informações sem antes averiguar-lhes a procedência e a veracidade. Falei-lhe com franqueza, determinação e um fundo de bondade. Ele escutou-me e acatou-me.

            Enfrentei, a seguir, a turma toda, com energia, a descompor os que haviam tomado a iniciativa das desordens, e impus-me, determinando os rumos do nosso convívio e a forma de desenvolvimento das minhas aulas. Como era difícil! Que guerra moviam aqueles alunos contra os seus professores! Afinal, controlei-os, abandonei as práticas inovadoras e tudo passou a correr bem.

            Após a aula daquele dia, encaminhei-me à sala dos professores, como de hábito. À porta, no corredor, encontrei o Diego: cabisbaixo, disse-me que desejava falar-me: disse-me do seu arrependimento por haver aderido às desordens, que fora induzido, que deixara-se levar por boatos, que acreditava em mim, e pediu-me desculpas.

            Ouvi-o compreensivamente. Ele contaria dezenove ou vinte anos – era um menino. À medida em que escutava-o, fui-me tomando de uma simpatia carinhosa por ele, que era um bom rapaz. Ao final, ele atirou-se sobre mim e abraçou-me. Estreitamo-nos e naquele momento, quem se comoveu foi o homem que existe sob o professor que era eu; naquele momento, o Diego ingressou nos meus sentimentos.

            “A vida é feita de momentos”, repetia-me o Rodrigo Sanchez Rios: nunca mais me olvidei da emoção daquele momento nem do Diego, de quem recordava-me, a partir de então, carinhosamente.

            Transcorreram-se anos sem que o revisse, até que, em 27 de abril de 2004, ao deixar o prédio do fórum, em Curitiba, à saída, ao passar ao largo da fila no térreo, reconheci-o nela. Parei para falar-lhe; estendi-lhe a mão, a minha e a dele apertaram-se; ao soltarem-se, eu a sorrir-lhe e ele a sorrir-me, toquei-lhe o rosto com a direita e confessei-lhe: “Que saudade!”. Lamentou-se ele: “Nunca mais vi o senhor”. Trocamos algumas palavras simpáticas; disse-lhe que me demitira daquela universidade, ao que ele obtemperou, referindo-se aos colegas da sua turma: “São pessoas de mente pequena”. Notando-lhe a aliança, perguntei-lhe: “Vai se casar?”; “Já me casei”. A fila deslocava-se e náo poderia impedi-la; rematei:”Então que seja muito feliz!”.

            Olhavamo-nos no fundo dos olhos e os meus certamente brilhavam de alegria por encontra-lo. Antes de separarmo-nos, abracei-o, com carinho, com amizade, com alegria, com emoção.

            Deixei o prédio do fórum a recordar-me do episódio de 1999. Ao adentrar o táxi que tomei, tinha rasos os olhos de lágrimas, por haver encontrado um ex-aluno que, uma vez havendo me hostilizado, soubera ser humilde, soubera ser-me humano, comovera-me com o abraço com que estreitou-me então e a quem eu passara a considerar com sincero carinho.

            Naquele dia de abril de 2004, mesmo no fórum, eu trazia, no bolso, um papel em que rascunhava, laboriosamente, o complemento de uma dedicatória a escrever em livro, que ofereci no dia subseqüente; era uma dedicatória de amigo a amigo. Por então, eu andava forte e fundamente emocionado com o quanto se relacionava com as minhas amizades; os meus sentimentos haviam se multiplicado e o meu coração era, todo ele, uma ternura completa. Na manhã de 1999, quem abraçou, foi o aluno ao professor; na tarde de 2004, quem abraçou, fui eu, ao antigo aluno. Foi um momento da minha vida e um pequeno tesouro do meu coração: foi uma emoção de professor.

Diego Negrão Chiuratto autorizou-me a citar-lhe o nome aqui.

 

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Uma resposta para Emoção de professor

  1. Marcos disse:

    Prezado Prof.  Dr. Arthur de Virmond de Lacerda,
     
    Primeiramente foi um prazer encontrá-lo  por estes dias no centro de Curitiba. Espero que o episódio exposto não seja uma óbice para a continuidade de Vossas aulas. Eu também fazia parte da turma em que o Sr. deu aula na PUC/PR – São José dos Pinhais, por sinal turma do Diego. Faz muito tempo que não vejo o nobre colega de turma, haja vista 3 semestres depois eu ter ido para o campus Curitiba e ele ter continuado o curso naquele campus. De qualquer forma, quero dizer que aquela base fortificada de estudo me preparou para muitos e muitos outros desafios à frente. Certamente, sem aqui fazer eu bajulaçôes, entretanto, o Sr. nos ensinou e nos alertou o que vinha a ser o Curso de Direito. Lembro-me bem das sabatinas, bem como as respostas: "Saiu-se bem, tem 0,5". (nota máxima da sabatina). Lembro-me ainda, do meu tema a ser discorrido: A Romanização do Direito. De todo modo, foi muito valioso ter aprendido com o Sr. a História do Direito tal como ela foi.
    Graças a todos os professores, inclusive o Sr., hoje tenho uma profissão – sou um Advogado. Tive o privilégio de passar no único Exame de Ordem que fiz. Tudo, graças a Deus, e aos mestres.
     
    Desta feita, reporto-me nestas poucas palavras para agradecê-lo pelas aulas e pelo conhecimento dispensado.
    Parabéns por sua dedicação e esforço.
     
    Seu aluno, Marcos Basílio
    28.IV.2006

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