Cura-“gay” reposta no Brasil.

   Cura-“gay” reposta no Brasil.

1973 – A Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade da lista de transtornos mentais.
1975 – A Associação Americana de Psicologia adotou a mesma posição, orientando os profissionais a não mais patologizarem a homossexualidade de seus pacientes.
1985 – O Conselho Federal de Psicologia brasileiro, antes mesmo da OMS, adotou o entendimento de que homossexualidade não é doença.
1990: A Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou homossexualidade da lista de doenças.
2017: um juiz de Brasília determinou que o Conselho Federal de Psicologia abstenha-se de interpretar a sua resolução de número 1, de 1999 (proibidora das terapias de (re) orientação sexual) de modo que impeça os psicólogos de dispensarem atendimento profissional, destinada à (re) orientação sexual, ou seja, a ordem judicial, na prática, autorizou as terapias de re-orientação sexual.

O juiz interpretou a resolução do Conselho Federal de Psicologia, no sentido de “não privar o psicólogo” de estudar ou de atender a quem o procure, voluntariamente, “em busca de orientação acerca da sua sexualidade”. Ora, sempre foi possível procurarem-se os psicólogos, voluntariamente, em busca de orientação acerca da sexualidade, sentido em que a liminar, teoricamente, nada inovou em relação à disponibilidade profissional dos psicólogos.

A resolução em causa, dispõe:

“Art. 3º – os psicólogos não exercerão qualquer ação que favoreça a patologização de comportamentos ou práticas homoeróticas, nem adotarão ação coercitiva tendente a orientar homossexuais para tratamentos não solicitados.
Parágrafo único – Os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento e cura das homossexualidades.”

A decisão não revogou tal artigo, não considerou patológica a homossexualidade, não autorizou os psicólogos a proporem tratamento e cura das homossexualidades, porém interpretou tais dizeres no sentido de “não privar” os psicólogos de atenderem a quem, voluntariamente, os procure, em busca de “(re) orientação acerca da sua sexualidade.”.

Seria ingenuidade pensar-se que, nestes termos, a liminar limitou-se a permitir que os psicólogos atendam a pacientes necessitados de orientação sexual. Ora, jamais a resolução interpretada privou-os desta possibilidade. Se assim é, então por que Rosângela Justino, psicóloga cristã, punida pelo Conselho de Psicologia por oferecer a cura da homossexualidade, propôs a ação que propôs ? Não foi para que o juiz, na sua hermenêutica, declarasse o óbvio. Ainda que ele declarasse o óbvio e ainda que a liminar mantenha intacto, na sua forma, o parágrafo do artigo terceiro (segundo o qual os psicólogos não colaborarão com eventos e serviços que proponham tratamento da homossexualidade), ela o descaracterizou no seu fundo: mantém-se a vedação de tratamento da homossexualidade; afirma-se, contudo, a possibilidade da prestação de serviços de atendimento de orientação ou reorientação.

“Orientação” e “reorientação” aqui, são eufemismos que dissimulam o que, coloquialmente, se designa pela malfadada locução “cura-gay”. Ainda que o juiz não visasse especificamente a tal resultado, é a ele que, plausivelmente, visava a autora da ação e é nele que redundará a aplicação prática da decisão.

Tal decisão deu-se, até aqui, por liminar (decisão passível de cancelamento) e após a oitiva do Conselho Federal de Psicologia; a decisão final do processo (seja qual for) é suscetível de recurso para o tribunal de justiça. Ela permite que os psicólogos pratiquem terapias de “reorientação” sexual, ou seja, de “conversão” do homossexual em heterossexual.

A liminar encorajará dados psicólogos a atenderem pacientes egodistônicos (insatisfeitos com a sua sexualidade) que, por sua vez, existem como resultado do preconceito ambiente que a própria liminar, indiretamente, fomenta: há pessoas insatisfeitas com a sua homossexualidade porque há preconceito (cuja erradicação vem se fazendo a pouco e pouco, pelo mundo afora); haverá mais preconceito também graças aos efeitos práticos desta liminar.

Na prática, a liminar estimulará a que pais preconceituosos, a que gente desinformada, a fiéis das religiões que se julgam em pecado de homossexualidade, procurem terapias de “reorientação”, sabidamente inúteis, contrapoducentes e deletérias. São inúteis pois homossexualidade não se “reverte”; não há ex-“gay”. Contrapoducentes pois induzem a sofrimentos. Deletérias pois corroboram a homofobia.

Por fim, a liminar serve aos interesses das seitas evangélicas, tão insistentes em verberar a homossexualidade como pecaminosa. Elas exploram o sofrimento dos seus fiéis e lucram, financeiramente, com ele. A liminar propicia-lhes novo argumento em prol da condenação da homossexualidade e, com isto, no sentido do sofrimento dos seus fiéis homossexuais, o que, por sua vez, redunda-lhes no enriquecimento financeiro. A homofobia religiosa é lucrativa; as igrejas evangélicas grassam, no Brasil, enormemente e enriquecem, às custas, também, da ignorância do seu público.

Cria-se o problema para se lhe oferecer, aos “problemáticos”, a solução. Não se criasse o problema e não haveria o que solucionar.

Sem revogar nem negar vigência ao artigo terceiro da resolução, a liminar inovou com hermenêutica, com circunlóquios, com jogos de palavras. O artigo da resolução, explícito, foi interpretado pelo juiz; sê-lo-á, também, pela autora da ação: o texto diz A; segundo o juiz, diz B; a autora usará B para justificar C, em que C corresponde,na prática, à cura-“gay”. O pedido da autora, que o juiz deferiu, é perceptivelmente capcioso; ela usou o Poder Judiciário para criar a possibilidade jurídica de, por via oblíqua, legitimar o que não se chamou, na ação, de cura, porém de (re) orientação: a semântica é secundária; foi primacial obter a legitimação do que, na prática, resultará em esforços por “corrigir” a homossexualidade dos pacientes, fortalecer a homofobia como por incrementar a neurose dos milhares de homossexuais neurotizados pelo cristianismo, mormente pelas seitas neo-pentecostais (com exceções).

Outros pedidos da autora da ação mereceram indeferimento. Que pedidos eram ? Que mais ela pretendeu e o juiz negou-lhe ?

Uma das autoras da ação em que se deu a liminar é evangélica e psicóloga, o que é significativo. Tratou-se, já, da terceira ação deste tipo. Dias atrás, o banco Santander encerrou (precipitadamente) exposição em que grupos (com alarme desnecessário) vislumbraram, com exagero, inexistentes incitamentos à pedofilia e à zoofilia. Também dias atrás, a PUC Pr cancelou, em Londrina, evento relativo ao meio lgbt (estava no seu direito fazê-lo. Entre exercê-lo e não o exercer, optou pela primeira alternativa). A Universidade Presbiteriana Mackenzie oficiou ao banco Santander, em antagonismo à exposição.

São sinais dos tempos; sinais de reação conservadora e retrógrada, dos meios religiosos (certamente, com a aprovação ou, no mínimo, complacência dos setores políticos a eles afins), como pressão tendente a coibir a liberdade artística (foi o caso da exposição do banco Santander), a re-instaurar-se a homossexualidade como patologia (se não teoricamente, porém, sim, na prática) e a contrariar o esforço de décadas e de gerações, por erradicar-se a homofobia, preconceito responsável por sofrimentos desnecessários e inúteis de que padeceram e ainda padecem incontáveis pessoas. Pelas amostras, prosseguirão, muitos, a padecer-lhes.

Em tempo: escusa de ser-se homossexual para contrariar-se a homofobia. Recusá-la é questão de informação, de esclarecimento, de humanidade; aceitá-la, praticá-la e fomentá-la são produtos da ignorância, do machismo e, comumente, máxime no Brasil, da pregação religiosa.

Em tempo número 2: a Gazeta do Povo, de Curitiba, visivelmente retrógrada.

O texto da liminar (ata da audiência): aqui.

Texto de entrevista de Rozângela Justino (autora da ação), em que advoga, explicitamente que 1) ninguém é homossexual, porém está homossexual; 2) que a homossexualidade é reversível; 3) que o seu atendimento não se destina a promover a auto-aceitação dos seus pacientes homossexuais, senão a reorientação da sua homossexualidade, ou seja, nesta capítulo ela pratica, e pratica exclusivamente, a trivialmente nominada “cura-gay”. Leia-lhe a entrevista aqui.

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Antropofagia e zoofilia (?) cristãs.

Jesus praticou canibalismo simbólico e Maria talvez haja sido fecundada por uma pomba. Leia aqui: ANTROPOFAGIA E ZOOFILIA EM JESUS

 

 

Vinho da missa.

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A exposição do banco Santander.

 

                                   A EXPOSIÇÃO DO BANCO SANTANDER.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

12.9.2017

Neste momento (8:30 h do dia 14 de setembro de 2017) há 62 mil e pico assinaturas em prol da reabertura da exposição, que o banco encerrou por conta do protesto de alguns.

Gravuras que expõem práticas sexuais existentes na vida de algumas pessoas não constituem, necessariamente, apologia. Fazer apologia é elogiar, enaltecer, engrandecer, reputar ótimo, desejável, recomendável, louvável, especialmente incitar à prática em causa. As gravuras não faziam nada disto. Arte que retrata fatos não é arte apologética.

Ainda estou por compreender porque é que as crianças devam ser “preservadas” de tudo quanto os adultos (certos adultos) censuram, em relação à sexualidade. Ainda estou por compreender porque é que à criança se deva negar conhecimento das realidades da vida; porque é que elas devem ser mantidas na ignorância, até certa idade, de certas realidades, o que inclui pedofilia, zoofilia (e da homossexualidade, do lesbianismo, da trans-sexualidade, da existência da genitália). Por que é que uma criança deve, até certa idade, ignorá-las ? Que mal haveria em que elas lhes soubessem da existência ? Elas tornar-se-iam, se lhes soubessem da existência, pedófilos e zoofílicos ou apenas saberiam que tais práticas existem ? Ainda estou por compreender o valor pedagógico e moral da ignorância, em lugar da informação e do esclarecimento. Há, no etos de muitos brasileiros, a convicção (que julgo especiosa) de que às crianças é imperioso sonegarem-se informações, a título de educação e de moralidade, pelo menos até certa idade delas. Considero, ao contrário, que à criança nenhuma informação se deve sonegar e que tudo se lhe deve esclarecer, quanto lhe suscite curiosidade e desejo de saber. Se os pais são e devem ser os senhores e detentores da educação da criança, como alegam alguns, cabe-lhes esclarecer e orientar os seus filhos, explicar-lhes os fatos, ao invés de negar-lhes a existência.

Até muito recentemente, era “necessário” “preservar” as crianças da observação de dois homens e de duas mulheres que estivessem de mãos entrelaçadas ou que se beijassem. Homossexualidade é contagiosa, por observação visual ? Ver dois homens que se beijam torna a criança homossexual ? Evidentemente, não. O mesmo se aplica a imagens de (suposta) pedofilia, e de zoofilia. O discurso “conservador” usa as crianças e a sua “proteção” para justificar os seus preconceitos.

Demais, a exposição tratava exatamente de sexualidade, era o lugar próprio da exposição de gravuras e peças desta natureza.

A imagem de zoofilia era muito discreta e retratou fato presente no interior do Brasil, certamente mais em herdades do que em ambientes urbanos. Retratar fato, com intenção artística ou sem ela, é inteiramente diverso de exaltá-lo.

Há uma estatueta de Pã, em que ele penetra um bode, exposta em museu, suponho que italiano, em meio a diversas estátuas da antigüidade. Pã, com o seu falo ereto, pratica zoofilia, em escultura exposta à vista das crianças que visitem o museu. Ela não suscitou o escândalo dos grupos “conservadores” nem foi retirada por “apologia da zoofilia”. Expus a fotografia no meu blogue (aqui, há censura.).

A gravura de lesbianismo e de sodomia sujeita-se à pecha de mau gosto, consoante a sensibilidade estética do observador, e limita-se a retratar situações corriqueiras na vida de de milhares de pessoas, que exercem a sua sexualidade com pessoas do mesmo sexo. Não vejo motivo nenhum de escândalo em tal representação, nem que a gravura em causa deva ser negada à observação de crianças. Como no caso da gravura de zoofilia, negar as realidades não informa nem educa: consagra a ignorância e a desinformação como desejáveis.

Verberar-se a exposição por conta também da pintura de homossexualidade equivale a censurar-se a homossexualidade masculina e feminina, pelo seu lado genesíaco e, destarte, coonestar a homofobia e a lesbofobia, em sentido diametralmente oposto ao da evolução do etos e do patos da maioria das populações ocidentais.

Neste momento há (alguma) exaltação de ânimos, que em nada contribui para a análise serena e para o senso de proporções. Melhor é analisar-se o conteúdo e o intuito das peças com isenção, procurar-se entender a mensagem que cada artista pretendeu comunicar, evitarem-se exageros em relação à sua alegada perversidade.

O promotor público da vara da infância e da juventude de Porto Alegre visitou, hoje (12 de setembro de 2017) a exposição e, nas peças a que se increpou teor de pedofilia, nada encontrou que confirmasse a increpação. Não há pedofilia na exposição, ainda menos “apologia” a ela.

A arte é suscetível de crítica (louvor, reprovação; admiração, desdém): eis o papel dos críticos de arte e do público seu espectador, mediante a liberdade de expressão artística e opinativa, em que caibam todas as concepções plásticas e todos os juízos a propósito delas. O exercício da crítica serena e criteriosa possibilita discirnir-se o que for de bom gosto do seu contrário; louvar-se a criação engenhosa e bela e desprezar-se o reles e o desagradável, com liberdades de criação e de exposição, e de crítica. Liberdades, ao invés de censura ou de coação inibidora delas.

Ao mesmo tempo, mostruários do tipo do encetado pelo banco Santander tendem a suscitar os melindres de pessoas e de grupos conotados com dados padrões de moralidade (e de pensamento político), bastante hostis às questões de gênero, precisamente o tema da exposição. Era expectável algum virtual desconforto desta parcela do público; não era expectável e foi exagerado e até inverídico o conteúdo das increpações, em relação à pedofilia e à zoofilia (o promotor público da vara da infância e da juventude, de Porto Alegre, observou as peças acusadas e não lhes reconheceu conotação pedófila). Tampouco era expectável o resultado (encerramento da mostra), duplamente desastroso, seja porque privou de visitá-la quem não o fizera e desejasse fazê-lo, seja, especialmente, porque criou péssimo precedente, o de que grupos de pressão talvez sejam capazes (como este o foi) de obter consectários em que a hostilidade a 5 ou 6 peças impeça-lhes a exibição e das demais.

Neste sentido, o banco atuou com precipitação e despreparo: estivesse cônscio de que algumas peças seriam, porventura, problemáticas e soubesse resistir às pressões ou, ao menos, com elas contemporizar. Por exemplo, que se agrupassem-nas em setor especial da exposição, com aviso de que elas poderiam causar espécie a dados setores do público; no máximo, que se retirasse da exposição. O melhor é mantê-las intocadas e reabrir-se a exposição, no interesse dos muitos que se viram privados de aceder-lhe e que desejarão visitá-la, em proporção, aliás, provavelmente maior do que antes, devido à repercussão dos fatos.

Algumas peças (fotografias de Alair Gomes, pelo que me constou) apresentavam nudez. O corpo é natural, a nudez é inteiramente inocente, a malícia acha-se no espírito do malicioso. O pudor (entendido como vergonha de ser visto nu, da genitália e das mamas) não faz sentido nem há mal nenhum na exposição fotográfica ou pictórica da nudez, para adultos e para crianças. Neste capítulo, a exposição pode contribuir utilmente para a normalização da nudez natural, ou seja, para a sua dissociação da sexualidade e para o entendimento de que nela inexiste imoralidade.

Zoofilia. Pã.

Na mitologia, Pã penetra bode. Zoofilia, exposta em museu europeu.

Leda e o cisne.

Na mitologia grega, Júpiter possui Leda, sexualmente, como cisne. Zoofilia exposta em museu europeu.

Exposição do Santander. 1.

Uma das gravuras da exposição do banco Santander, a que se acusou de zoofilia.

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Anedota fálica. O chafariz-pênis de Curitiba.

 

1) ANEDOTA FÁLICA.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

21.VIII.2017.

Chama-se de anedota a narrativa breve, relativa a fato real ou fictício e não necessariamente hilária. Chamo de anedota fálica a narrativa breve, relativa ao falo (sinônimo de pênis ou pinto) e, consoante a sensibilidade do leitor, risível, burlesca, tola, de mau gosto, brejeira, inútil ou como queira cada um qualificá-la: ela admite todos os adjetivos e é passível de valoração por distintas sensibilidades. Pretendo que esta seja edificante, na medida em que se presta a motivar reflexões.

O seu protagonista, chamo-o de Varão, por tratar-se de homem. Pudera apodá-lo de Macho, do que desisti, para não lhe atribuir caráter nem machista, tampouco sexual. Ao contrário, o teor da anedota é angelical.

Varão freqüenta ginásio ou (na dicção brasileira) academia de ginástica, em que pratica o exercício denominado de abdominal: o ginasta deita-se, estira-se em decúbito dorsal (de costas para o chão) e contrai o abdômem, mediante a projeção do tronco para a frente.

Varão praticava cinqüenta (faço questão do trema) movimentos abdominais, divididos em cinco séries de dez repetições; ao cabo de cada série, interpunha alguns segundos de repouso, em posição sentada.

Varão vestia bermuda curta, traje apropriado para a atividade física.

Eis que uma vez ao menos, ao sentar-se com as pernas flexionadas, expôs-se, fortuita e inadvertidamente, por fora da sua bermuda e da sua cueca… o seu falo ! (Falo é sinônimo de pênis ou pinto. Há outros equivalentes coloquiais, e chulos.).

O falo de Varão achava-se flácido; não era volumoso nem excessivamente alongado nem vistoso (haverá quem lhe lamente tantas deficiências). Se era fanado ou intacto, irreleva.

Dada a dimensão (então) diminuta do pênis do Varão e que este vestia cueca e bermuda, a exposição do primeiro foi e somente poderia ser discreta e pouco perceptível. Ela ocorreu tão natural e involutariamente,  que Varão despercebeu achar-se desvelada parte do seu pinto.

Nas proximidades imediatas achava-se o proprietário da academia: ele viu o pinto parcialmente exposto, o que comunicou ao gerente do estabelecimento que, por sua vez, reportou o fato ao Varão que, de pronto, atinou com a situação embaraçosa criada pela diminuta e inintencional exposição de menos da metade da sua murcha piroca (oh ! Que palavra! Que hei de fazer ? É para evitar repetições.).

Entendo que o proprietário possa e deva zelar pelo decoro, pela “moral e pelos bons costumes” vigentes no seu estabelecimento; que se deve poupar os circunstantes de vexames desnecessários; que em cada ambiente há comportamentos apropriados; que certas pessoas chocam-se com a vista de pênis; que há lugar e momento próprio em que ele possa ser desvelado; que o exibicionismo é censurável (não houve exibicionismo.). Varão também percebe tudo isto.

O gerente do ginásio, em jeito de pastor, apascentou o Varão, para que este, vindouramente, praticasse o exercício de abdominais voltado para a parede, a fim de se premunir que, novamente, o seu pinto se descobrisse, na presença da gente pudica ou de qualquer gente.

Houve exposição de pênis flácido, de tamanho regular e não avantajado. Ela resultou de movimentos de execução necessária; foi inintencional, fortuita, breve e discreta. O Varão não a percebeu. Malgrado tudo isto, ela motivou a intervenção do proprietário da academia.

Diálogos possíveis:

-“Ninguém é obrigado a ver o pinto de ninguém !”. Foi inintencional; demais, não olhasse.

-“Academia não é lugar de mostrar o pau !”. (linguajar que não o meu.) Não o mostrou: ele se expôs fortuitamente.

-“É lugar em que há mulheres e até senhoras !”. O que é que tem ? Houve tentativa de estupro ?

-“Tem de estar trajado adequadamente em cada lugar.”. Acaso não o estava ?

-“Que pouca vergonha !”. Vergonha do corpo ?

-“Se um homem mostrasse o pinto para a sua filha, o senhor iria gostar ?”. Quem tem de gostar ou não é ela.

– [Etc.]. [Respostas à altura.].

Por que a exposição fortuita, efêmera, inocente e parcial do pênis motivou a reação do proprietário do estabelecimento ? Por que o desvelamento, ainda que acidental, do pênis motiva tal tipo de reação ? Que mal intrínseco ele contém ?

Mal intrínseco, ele não contém nenhum, exceto se ereto e em vias de estuprar alguém. Fora desta condição manifestamente ofensiva e indesejável, ele é orgão como qualquer outro; é parte do corpo como qualquer outra e tão inocente quanto qualquer outra.

O caráter (no entendimento de muitos) inconveniente e censurável da sua exposição deve-se à herança arcaico-cristã (trivial e erroneamente conhecida por judaico-cristã) que ainda permeia o etos de muitos brasileiros, como produto da lenda de Adão e Eva, aliás enganosamente interpretada.

O cristianismo criou a misofalia e a misomamia, ou seja, respectivamente, a censura do pênis e das mamas, no âmbito geral da repressão sexual sexualidade e da gimnofobia (recusa da nudez).

Nas populações cristianizadas, falo e mamas são estigmatizados e ocultados. Não compreendo porque os orgãos alimentares que propiciam leite à criança, são reputados obscenos e devem ser velados, como indecorosos. Não compreendo porque o pênis, orgão excretor e reprodutor, é reputado obsceno e deve ser velado, como indecoroso.

Correlatamente, o cristianismo incutiu nos cristãos o pudor (vergonha do corpo), a gimnofobia (horror da nudez) e a malícia. Se a malícia se encontra mais ou somente no espírito do malicioso, que o criou e lho incutiu, foi o cristianismo que, concomitantemente, criou o pudor ou, ao menos, fortaleceu-o talvez mais do que qualquer outra fonte.

Sem a malícia, sem o pudor, sem a herança cristã, a exposição mamária, por exemplo, nas praias e em piscinas, seria indiferente. Nas populações cristianizadas, ela (ainda, como no Brasil) é motivo de recusa ou de alvoroço: o proibido, quando se revela, desperta a atenção, pelo seu ineditismo. Rapidamente, porém, perde a graça: o visto, já visto e revisto, torna-se indiferente.

Sem a malícia, sem o pudor, sem a herança cristã, a exposição peniana, nas circunstâncias da anedota, teria passado despercebida, teria merecido indiferença ou, talvez, curiosidade por ver-se o que anda oculto. Da parte de alguém teria, quiçá, despertado apetite venéreo, por conta muito mais da imaginação e da libido do observador, do que da parte observada. Sem a malícia e o pudor cristãos, o episódio teria sido interpretado como irrelevante ou pouco relevante. Por efeito do etos cristão, redundou  na intervenção do proprietário da academia e no constrangimento de duas moças, que se exercitavam, no chão, ao lado de Varão.

Faz sentido distinguirem-se no corpo regiões decorosas de outras, indecentes ? Não, não faz. Há, no corpo, partes obscenas por natureza ? Não, não há. O corpo é, por inteiro, digno ? Sim, é-o. A vergonha do corpo faz sentido ou não ? Não, não faz. Faz sentido a moral arcaico-cristã, em relação ao corpo, no sentido manifestado pela anedota ? Não, ela não faz sentido e deve ser abandonada: destabuzar (erradicar o tabu) o corpo, a nudez, as mamas e o falo, e naturalizá-los (interpretá-los como naturais).

Não estou a preconizar que nas academias se autorize a exposição intencional ou fortuita do pênis, em maior ou menor proporção. Estou a examinar o etos pudico e a herança arcaico-cristã, na sua vertente misofálica (e, por extensão, misomamária e gimnofóbica. Misofalia significa recusa do pênis ou da sua exposição; misomamia significa recusa das mamas ou da sua exposição; gimnofobia significa recusa da nudez ou da sua exibição; nos três casos, deliberada ou fortuitamente.).

Quem me acompanha os artigos, já me conhece tais juízos; estou a dizer mais do mesmo. É, contudo, a propósito de episódios aparentemente pífios como este, que devemos refletir e usá-los como pontos de partida para a revisão dos valores, para a renovação dos conceitos e para a modificação dos comportamentos.

À anedota e aos juízos que formulei, cada qual reagirá conforme o seu etos e a sua idiossincrasia. A reação revelará muito do estado axiológico de cada reagente e da sua cosmovisão.

Oh, Apolo nu ! Oh, Mercúrio, deus dos ginásios ! Oh, Hércules, criador das olimpíadas ! Oh, gregos, atletas e ginastas nus ! Não fosteis cristãos ! (os atletas disputavam os jogos olímpicos nus e nus praticavam ginástica, palavra cuja etimologia corresponde a “gimnadzein”: treinar pelado. Treinavam sem escândalo, sem pudor, sem malícia, com o pinto à mostra, por inteiro.).

Aparece o pinto.

 

2) O CHAFARIZ-PÊNIS DE CURITIBA. 

Curitiba, cidade provinciana, colonizada pela padralhada católica. Na praça Zacarias havia (e novamente há) um chafariz, que lá se pôs em 1871. Em 1939, em plena recatolicização do Brasil, ele foi transferido para o Museu Paranaense, onde foi decepado: o olhar (religioso ? Sexualmente frustrado ? Pudico, sim) via no chafariz, símbolo fálico; via, nele, um pênis ereto.
No Museu Paranaense, retiraram-lhe a parte análoga à suposta glande.

Curitiba, besta e carola. Só não foi besta e carola de todo, graças à presença de gente como os Positivistas (João Pernetta, David Carneiro, Carvalho de Mendonça, Nilo Cairo, Benjamin Lins) e como Dario Vellozo, Euclides Bandeira e outros.

Após o período da República Velha, caracterizada pela perceptível secularização da classe média brasileira, a igreja católica esforçou-se por recolonizar os brasileiros, em simbiose com o governo de Getúlio Vargas. No Paraná, Caetano Munhoz da Rocha (católico praticante em cuja residência havia capela), atuou neste sentido e nomeou, como funcionários, e como professores da rede pública do Pr, somente católicos convictos. O seu filho, Bento (na fotografia), foi autor da entronização, no recinto da Câmara dos Deputados, no RJ, do boneco de Jesus. Quem se vê na foto? Bento e um padre.

A malícia está na mente do malicioso e não no chafariz. Curitiba, a Fria; Curitiba, a Curitiboca; Curitiba, a Carola; Curitiba, a Besta.

Chafariz intacto.

Atente-lhe à parte superior.

Chafariz no M. P.

Habilmente, o fotógrafo elidiu a “glande” do chafariz-pinto. Na fotografia, Bento Munhoz da Rocha e um padre.

Chafariz decepado.

“Decepado”.

 

Publicado em Chafariz de Curitiba., Costumes., Curitiba., Pênis., Pinto. Pênis. Falo., Preconceito., Puritanismo., Símbolo fálico., Sexualidade., Somatofobia. | Deixe um comentário

COMTE, MARX, GRAMSCI, ORTEGA Y GASSET.

 

COMTE, MARX, GRAMSCI, ORTEGA Y GASSET.

2007.

O Curso de Filosofia Positiva, de Comte, sugere-me estas notas ligeiras:

1- Ao contrário do que dizem alguns esquerdistas, o Positivismo não é ideologia burguesa; ao contrário do que dizem certos marxistas, que do Positivismo não sabem nada, o P. não foi aliado do liberalismo contra as classes despossuidoras. Comte reconhecia a existência de conflitos entre os trabalhadores e os empregadores, a necessidade da satisfação das aspirações trabalhistas, da regulação moral da riqueza, a necessidade de deveres morais dos ricos face aos pobres. Não há no P. capitalismo desenfreado nem apologia do capital; há, ao contrário, crítica à cupidez dos ingleses e ao desenfreio do “sistema industrial” britânico do seu tempo, o mesmo em que Carlos Marx baseou-se para criticar o capitalismo.

A. Paim, anti-positivista muito querido dos liberais desta terra, criou o mito do “ciclo positivista-marxista”, que jamais existiu (aliás, que um escrevedor se haja permitido, em grosso livro de história do pensamento brasileiro, criar ciclo de pensamento que só existe na fantasia dele, é surpreendente); isto porque o marxista Leônidas de Resende averigüou 16 afinidades entre Marx e Comte; daí, Paim “descobriu” que entre nós o positivismo e o marxismo aliaram-se, o que é o oposto do que alguns marxistas dizem: eles dizem que o P. aliou-se …ao liberalismo. Conclusão: certos direitistas e certos esquerdistas são igualmente mal informados sobre o P.

Há, sim, no P., vocação em favor da distribuição da riqueza, da melhoria das condições de vida da generalidade da população, combate à liberdade econômica absoluta, ao uso do capital sem nenhum critério mais do que o egoísmo individual.

É verdade que os liberais e os marxistas são economicistas: o econômico é tudo. Para Comte, o econômico resulta do moral, ou seja, da mentalidade, da formação das pessoas.

2- Um dos males da nossa época, dizia Comte, é o espírito regulamentar, porque tudo se pretende resolver pela lei, inclusivamente os problemas que dependem dos costumes, das opiniões e da formação dos homens, ou então, pela substituição dos homens, em que mudam as pessoas porém não as respectivas práticas políticas. O que importa, é mudar a mentalidade dos indivíduos. Exemplo do espírito regulamentar é o do falecido Ulisses Guimarães, para quem uma nova constituição (a de 88) bastaria para resolver todos os problemas do país.

3- Antonio Gramsci percebeu (por ler Comte?) de que, para obter-se a modificação das instituições, era preciso começar-se pela mudança dos pensamentos e dos costumes. Ora, tal mudança, em curso no Brasil, em sentido socialista, chama-se gramscismo. Comte percebeu o caminho da renovação das instituições; Gramsci adotou-o no sentido socialista. Comte, para a mudança das instituições, pregava a necessidade da liberdade espiritual; Gramsci pregava a necessidade da persuasão das massas; os positivistas não fazem doutrinação subliminar; os gramscistas fazem-no, sistematicamente.

4- José Ortega y Gasset era positivista; sou eu quem o afirma. Ortega adota muitas vezes o ponto de vista do P. , notadamente em “A rebelião das massas”. Muitos dos problemas apontados neste livro acham-se descritos na obra de Comte, que lhes aponta a solução. Em parte, Ortega repetiu Comte, no diagnóstico dos problemas, sem lhes indicar as soluções. Ortega não se referiu a Comte como sua fonte, como, aliás, raramente o fazia.

Porém Ortega criticou o Positivismo como teoria do conhecimento: quer ele, quer Xavier Zubiri fizeram-no; ambos, nisto, simplesmente não entenderam Comte.

Publicado em Comte., Gramsci., Marx., Ortega y Gasset. | Deixe um comentário

Pronomes contraídos.

PRONOMES CONTRAÍDOS.
Vendo-lhe isto = vendo-lhe o = vendo-lho.
Digo-lhe isto = Digo-lho.
Dei isto para ti = Dei-te isto = Dei-to.
Digo para vocês = Digo-vos.
Já disso isto para vocês = Já vos disse isto = Já vo-lo disse
É de vocês = É vosso.
Recomendo isto para vocês = Recomendo vos isto = Recomendo-vo-lo.
Venderei isto para você = Venderei-o para você = Venderei-o lhe = Vender-lho=ei.

É difícil ou você é que não está familiarizado com tais recursos ? Eles existem e são usáveis; existem para serem usados.

Perceba a economia de palavras nas contrações.
Isto não é “lusitanismo”: isto é a sua língua; sua, de brasileiro.

Quanto ao livro “Preconceito linguístico”, de Marcos Bagno, procure, neste blogue, o que escrevi acerca dele, no tópico “Preconceito lingüístico”. Ele enfeitiçou milhares de brasileiros; não a mim.

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Jesus foi crucificado nu.

A pintura é da autoria de Allin Cox.

Jesus (se existiu, o que é totalmente duvidoso) foi crucifixado inteiramente nu. Os romanos crucificavam os condenados inteiramente pelados. As representações de J. C. com a genitália encoberta são falsas; também é falsa a representação das palmas das mãos pregadas: não havia tal. Amarravam-se os braços por detrás da trave horizontal.

O suposto velamento da genitália decorre da gimnofobia (recusa da nudez) e da misofalia (horror do pênis; pênis como orgão indecoroso), ambas criadas pelo cristianismo e ainda entranhadas nos brasileiros, máxime nos evangélicos (e também católicos, embora menos.).

Jesus tinha pinto, escroto e pentelhos. Sim, tinha-os: era homem e os homens são assim.

O objetivo desta postagem é pedagógico, de contribuir para a normalização da nudez natual (não sexual) e para a erradicação do pudor (vergonha do corpo, nomeadamente das partes que o cristianismo estigmatizou.).

Antes do cristianismo, os deuses e os imperadores eram representados desnudos: os gregos e os romanos não sentiam vergonha do corpo, não distinguiam entre partes decorosas e indecentes do corpo, não se pejavam de serem vistos nus, não se escandalizavam com a nudez, que lhes era natural.

“Imoral é o que excita o moralista”, li no Didata, gazeta do Sindicato de Professores do Paraná, acerca de código vestimentário puritano, adotado por faculdade marista, de Curitiba.

 

Jesus. Allin Cox

Um teólogo confirma a  nudez de J. C. aqui.

Imperador romano.

Imperador romano (vai como amostra.).

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