A exposição do banco Santander.

 

                                   A EXPOSIÇÃO DO BANCO SANTANDER.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

12.9.2017

Neste momento (8:30 h do dia 14 de setembro de 2017) há 62 mil e pico assinaturas em prol da reabertura da exposição, que o banco encerrou por conta do protesto de alguns.

Gravuras que expõem práticas sexuais existentes na vida de algumas pessoas não constituem, necessariamente, apologia. Fazer apologia é elogiar, enaltecer, engrandecer, reputar ótimo, desejável, recomendável, louvável, especialmente incitar à prática em causa. As gravuras não faziam nada disto. Arte que retrata fatos não é arte apologética.

Ainda estou por compreender porque é que as crianças devam ser “preservadas” de tudo quanto os adultos (certos adultos) censuram, em relação à sexualidade. Ainda estou por compreender porque é que à criança se deva negar conhecimento das realidades da vida; porque é que elas devem ser mantidas na ignorância, até certa idade, de certas realidades, o que inclui pedofilia, zoofilia (e da homossexualidade, do lesbianismo, da trans-sexualidade, da existência da genitália). Por que é que uma criança deve, até certa idade, ignorá-las ? Que mal haveria em que elas lhes soubessem da existência ? Elas tornar-se-iam, se lhes soubessem da existência, pedófilos e zoofílicos ou apenas saberiam que tais práticas existem ? Ainda estou por compreender o valor pedagógico e moral da ignorância, em lugar da informação e do esclarecimento. Há, no etos de muitos brasileiros, a convicção (que julgo especiosa) de que às crianças é imperioso sonegarem-se informações, a título de educação e de moralidade, pelo menos até certa idade delas. Considero, ao contrário, que à criança nenhuma informação se deve sonegar e que tudo se lhe deve esclarecer, quanto lhe suscite curiosidade e desejo de saber. Se os pais são e devem ser os senhores e detentores da educação da criança, como alegam alguns, cabe-lhes esclarecer e orientar os seus filhos, explicar-lhes os fatos, ao invés de negar-lhes a existência.

Até muito recentemente, era “necessário” “preservar” as crianças da observação de dois homens e de duas mulheres que estivessem de mãos entrelaçadas ou que se beijassem. Homossexualidade é contagiosa, por observação visual ? Ver dois homens que se beijam torna a criança homossexual ? Evidentemente, não. O mesmo se aplica a imagens de (suposta) pedofilia, e de zoofilia. O discurso “conservador” usa as crianças e a sua “proteção” para justificar os seus preconceitos.

Demais, a exposição tratava exatamente de sexualidade, era o lugar próprio da exposição de gravuras e peças desta natureza.

A imagem de zoofilia era muito discreta e retratou fato presente no interior do Brasil, certamente mais em herdades do que em ambientes urbanos. Retratar fato, com intenção artística ou sem ela, é inteiramente diverso de exaltá-lo.

Há uma estatueta de Pã, em que ele penetra um bode, exposta em museu, suponho que italiano, em meio a diversas estátuas da antigüidade. Pã, com o seu falo ereto, pratica zoofilia, em escultura exposta à vista das crianças que visitem o museu. Ela não suscitou o escândalo dos grupos “conservadores” nem foi retirada por “apologia da zoofilia”. Expus a fotografia no meu blogue (aqui, há censura.).

A gravura de lesbianismo e de sodomia sujeita-se à pecha de mau gosto, consoante a sensibilidade estética do observador, e limita-se a retratar situações corriqueiras na vida de de milhares de pessoas, que exercem a sua sexualidade com pessoas do mesmo sexo. Não vejo motivo nenhum de escândalo em tal representação, nem que a gravura em causa deva ser negada à observação de crianças. Como no caso da gravura de zoofilia, negar as realidades não informa nem educa: consagra a ignorância e a desinformação como desejáveis.

Verberar-se a exposição por conta também da pintura de homossexualidade equivale a censurar-se a homossexualidade masculina e feminina, pelo seu lado genesíaco e, destarte, coonestar a homofobia e a lesbofobia, em sentido diametralmente oposto ao da evolução do etos e do patos da maioria das populações ocidentais.

Neste momento há (alguma) exaltação de ânimos, que em nada contribui para a análise serena e para o senso de proporções. Melhor é analisar-se o conteúdo e o intuito das peças com isenção, procurar-se entender a mensagem que cada artista pretendeu comunicar, evitarem-se exageros em relação à sua alegada perversidade.

O promotor público da vara da infância e da juventude de Porto Alegre visitou, hoje (12 de setembro de 2017) a exposição e, nas peças a que se increpou teor de pedofilia, nada encontrou que confirmasse a increpação. Não há pedofilia na exposição, ainda menos “apologia” a ela.

A arte é suscetível de crítica (louvor, reprovação; admiração, desdém): eis o papel dos críticos de arte e do público seu espectador, mediante a liberdade de expressão artística e opinativa, em que caibam todas as concepções plásticas e todos os juízos a propósito delas. O exercício da crítica serena e criteriosa possibilita discirnir-se o que for de bom gosto do seu contrário; louvar-se a criação engenhosa e bela e desprezar-se o reles e o desagradável, com liberdades de criação e de exposição, e de crítica. Liberdades, ao invés de censura ou de coação inibidora delas.

Ao mesmo tempo, mostruários do tipo do encetado pelo banco Santander tendem a suscitar os melindres de pessoas e de grupos conotados com dados padrões de moralidade (e de pensamento político), bastante hostis às questões de gênero, precisamente o tema da exposição. Era expectável algum virtual desconforto desta parcela do público; não era expectável e foi exagerado e até inverídico o conteúdo das increpações, em relação à pedofilia e à zoofilia (o promotor público da vara da infância e da juventude, de Porto Alegre, observou as peças acusadas e não lhes reconheceu conotação pedófila). Tampouco era expectável o resultado (encerramento da mostra), duplamente desastroso, seja porque privou de visitá-la quem não o fizera e desejasse fazê-lo, seja, especialmente, porque criou péssimo precedente, o de que grupos de pressão talvez sejam capazes (como este o foi) de obter consectários em que a hostilidade a 5 ou 6 peças impeça-lhes a exibição e das demais.

Neste sentido, o banco atuou com precipitação e despreparo: estivesse cônscio de que algumas peças seriam, porventura, problemáticas e soubesse resistir às pressões ou, ao menos, com elas contemporizar. Por exemplo, que se agrupassem-nas em setor especial da exposição, com aviso de que elas poderiam causar espécie a dados setores do público; no máximo, que se retirasse da exposição. O melhor é mantê-las intocadas e reabrir-se a exposição, no interesse dos muitos que se viram privados de aceder-lhe e que desejarão visitá-la, em proporção, aliás, provavelmente maior do que antes, devido à repercussão dos fatos.

Algumas peças (fotografias de Alair Gomes, pelo que me constou) apresentavam nudez. O corpo é natural, a nudez é inteiramente inocente, a malícia acha-se no espírito do malicioso. O pudor (entendido como vergonha de ser visto nu, da genitália e das mamas) não faz sentido nem há mal nenhum na exposição fotográfica ou pictórica da nudez, para adultos e para crianças. Neste capítulo, a exposição pode contribuir utilmente para a normalização da nudez natural, ou seja, para a sua dissociação da sexualidade e para o entendimento de que nela inexiste imoralidade.

Zoofilia. Pã.

Na mitologia, Pã penetra bode. Zoofilia, exposta em museu europeu.

Leda e o cisne.

Na mitologia grega, Júpiter possui Leda, sexualmente, como cisne. Zoofilia exposta em museu europeu.

Exposição do Santander. 1.

Uma das gravuras da exposição do banco Santander, a que se acusou de zoofilia.

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