Elogio da mesóclise.

                                                      Elogio da mesóclise.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

21.VII.2017.

A mesóclise é recurso útil do idioma, usável por qualquer pessoa que a conheça, que a queira usar e que zele pela norma culta. O seu uso não “exclui” ninguém, não dificulta a ninguém o acesso à comunicação: basta entender-lhe o funcionamento, aliás, bastante singelo e fácil.

Sim, a mesóclise é de fáceis entendimento e uso. É facílimo intercalar o pronome no verbo, operação de que qualquer pessoa torna-se capaz, uma vez que a aprenda e que treine fazê-lo: aprendê-la e treinar-lhe o emprego são fáceis, ao alcance de qualquer indivíduo de inteligência normal e que, no meu tempo de estudante, aprendia-se com onze anos de idade. As crianças aprendiam a mesóclise. Não, ela não é difícil: é fácil.

Talvez pareça difícil para quem a ignora e se lhe depara; para quem lhe resiste ao uso; para quem está acostumado ao coloquial e não se esforça por transcendê-lo; para o desmazelado, para o preguiçoso; para quem alega a sua pretendida dificuldade como pretexto para criticá-la.

A norma culta, a que a mesóclise pertence, não segrega. Ao contrário, ela permite o acesso à alta cultura, de que é depositária a literatura, em sentido amplo e elevado, e de que a leitura constitui meio privilegiado de contacto. Por meio da leitura de bons livros, revistas, artigos, acede-se ao saber. Por outro lado, o desconhecimento da norma culta (e, nele, o desdém pela mesóclise) não integra, porém segrega, da alta cultura, o apedeuta, porquanto a dificuldade de entender textos redigidos em padrão elevado ou discursos proferidos em igual condição, dificulta-lhe a cognição dos respectivos conteúdos e limita-lhe a inteligência ao quanto, falado ou escrito, encontra-se ao nível do seu raso nível.

Beleza e recurso da língua portuguesa, o brasileiro desaprendeu a mesóclise, por conta do péssimo ensino do idioma e de doutrinas transmissoras do desprezo pela norma culta, como (alegadamente) instrumento de dominação de classes. A norma culta representa veículo de integração de pessoas, à cultura, em senso amplo e elevado, que o conhecimento apenas coloquial do idioma dificulta ou, no limite, impede. Por isto, saber o idioma com riqueza e rigor, é pessoalmente vantajoso e socialmente valioso: vale mais pessoa instruída do que o seu contrário, vale mais coletividade de indivíduos esclarecidos do que o seu oposto. Valer, aqui, equivale a deter mais conhecimento, mais discernimento, ser capaz de aceder a novos saberes e de compreender, competentemente, o quanto se lê e ouve. Ler, ouvir, e entender o que se lê e ouve, é valioso pessoal e socialmente: pessoalmente, o leitor e o ouvinte capaz aprende mais e aprimora-se como pessoa; socialmente, povo instruído tende a ser mais sofisticado em termos de etos e, portanto, melhor nas suas relações humanas, no seu discernimento político, nas suas atitudes, preferências, reações.

A mesóclise vale como regra de sintaxe, como elemento de correção gramatical, como conhecimento do idioma, como recurso disponível aos seus usuários. Vale mais: vale como símbolo do apreço pela alta cultura, pelo amor ao saber. Vale como emblema do desenvolvimento dos povos.

Julga que exagero, que há afinidade ilusória entre sutileza gramatical e a condição de vida de um povo ? Porém ela existe: é pelo ensino do idioma na sua forma augusta, pela sua valorização e pelo seu uso, que se propicia ao comum do povo, ao homem mediano, o instrumento da aquisição de conhecimentos registrados no padrão culto do idioma. Quem domina o superior, acede também ao inferior, porém a recíproca não se confirma: o cultivado lê (talvez desagrado) e entende o texto simplório, porém ao bronco repugna o texto de padrão superior, à conta da penúria do seu domínio do vernáculo. Quem domina, a sério e com qualidade, o seu idioma, capacita-se, ipso facto, a elevar-se em conhecimento; quem não o domina-se, fada-se a, sub-capacitado no idioma, manter-se ignaro em geral (vulgo “burro”.).

O incapaz de inteligir textos de sofisticação além do rasteiro, restringe sensivelmente a sua capacidade de perceber o meio em que vive, do que resultam conseqüências também diretamente políticas: pessoa culta e instruída é pessoa tendencialmente apta a avaliar da situação econômica, social, política, em que vive. Pessoa inculta é pessoa facilmente impressionável e manipulável.

Ensine-se a norma culta, na sua generalidade (e a mesóclise) e o povo compreender-lhe-á o uso e quem as usa.

Mutável, a língua detém recursos usados no passado e usáveis no presente. A mesóclise ela existe e pode ser usada. Não há uso seu, desnecessário, inatual; o seu uso não constitui anacronismo. Ao contrário: ele é cabível, possível, atual, presente, enriquecedor, como forma de comunicação, como recurso estético.

Ainda que aplicar a mesóclise representasse “culto do passado”, é legítimo manter-se, de qualquer componente do pretério, o bom e o útil. Recusar, dele, o bom e o útil, é empobrecedor, ao menos no caso do idioma.

Demais, o discurso de ser passadista a mesóclise pode inibir quem pretenda usá-la, a despeito de ser-lhe, o uso, perfeitamente legítimo. É como se empregá-la equivalesse a “mau costume” idiomático ou ao “politicamente incorreto”: nem um, nem outro, porém é mau critério idiomático censurar, a troco de passadismo, de adesão política ou seja lá do que for, algum recurso do idioma, cujos conhecimento e uso possibilitam mais comunicação e mais estética.

Em décadas recentes, no Brasil, corria mais a mesóclise do que no presente: é sintoma, mais um, de que as gerações mais novas desaprenderam o idioma; de que se degenerou (e como!) o ensino do idioma e a qualidade com que se fala e escreve, mesmo o público aliteratado e acadêmico (há teses, dissertações, artigos, monografias, de pós-doutores, doutores, mestres, professores, estudantes, mal redigidos; quase tudo quanto se traduz, no Brasil, desde cerca de 1980, é ruim.).

A língua é viva e se empobrece, depaupera-se, em detrimento dos seus usuários, quando alguns hostilizam-lhe recursos seus, legítimos, e privam, por constrangimento moral ou (pior) por ensinança escolar, os outros, de meios de comunicação de que o idioma dispõe. No fundo, no combate à mesóclise manifesta-se a preferência pelo fácil, pelo rasteiro, bem como a desvalorização do idioma, males que urge contrariar.

Para rematar com fecho fácil e até pueril: a mesóclise, dantes correntia, usá-la-emos, prestigiá-la-emos, a ela afazer-nos-emos; de tanto usarmo-la, tornar-se-nos-á familiar ao ponto em que, quando a ela houvermo-nos habituado, sentir-lhe-emos a falta quando alguém dela se privar e nos privar. Conheçamo-la, aplique-mo-la: mais beleza e graça conferir-se-á ao que se disser e redigir.

 

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