“Foda-se.”.

 

MUTAÇÃO SEMÂNTICA DO TABUÍSMO “FODA-SE”.

É correntio, entre a gente de boca-suja, a expressão “foda-se”.
Até poucas semanas atrás, ela equivalia a imprecação. Nos últimos dias, ouvi-a, entre jovens como equivalente a “pouco se me dá a sua opinião”; como equivalente de desdém (sem sobranceria) pelo que outrem pensa ou diz do locutor e que não lhe diz respeito.

Ou seja: alguém diz ou pensa, seja o que for, acerca de um terceiro. O que o alguém diz ou pensa não é da conta dele. O terceiro repele a opinião do alguém com “Foda-se”.

Há câmbio no sentido da locução, que (na medida desta observação) transitou do sentido de insulto, de xingação, para o de afirmação da independência da vida de cada um em relação ao juízo alheio, no que não interessa ao ajuizador. Em suma: foda-se significa cuide da sua vida, que da minha cuido eu.

Sim, cuide cada qual da sua vida.

Corriam, já, as fórmulas “Sou eu que pago as minhas contas e não devo nada a ninguém” e “Cuide da sua vida, que da minha, trato eu”. Ambas repelem o vezo fiscalizador de muitos brasileiros, que se ocupam da vida alheia (são, na locução que criei, fiscais de cu, em que empreguei o substantivo cu por metonímia).

O neologismo de sentido de “Foda-se” revela que as pessoas (os jovens, notadamente ?) estão mais independentes das opiniões dos abelhudos ? Se assim for, tanto melhor. Aliás, sempre deveria ter sido assim: a vida alheia deve constituir não-assunto, exceto se e na medida em que toca na vida de quem dela se ocupa.

Outro perspicaz provérbio (é reflexão de Sêneca, se não erro) é o de que pessoas vulgares falam de pessoas; pessoas cultas, de fatos; ainda mais cultas, de idéias.

Eis porque ocupar-se da vida do vizinho, mexericar, julgar a outrem são sintomas de ignorância. Gente ignorante, vazia de conhecimentos, pobre de cultura intelectual e rasa de valores, cuida da vida alheia. Triste sina, a do povo brasileiro, em que a famosa “fofoca” era usual: não deveria sê-lo.

Falar da vida alheia é vulgaridade, é mediocridade, é escassez de elevação, incultura, até mesquinharia.

Fala da vida alheia ? Vá ler livros, para ter no que pensar e do que falar.

Se a minha hipótese se confirma (a de que os jovens adquiriram mais senso de independência em relação aos enxeridos), considero valiosa a mentalidade em que as pessoas se condicionam menos por opiniões descabidas (descabidas é diferente de erradas. Erradas respeita ao seu mérito; descabidas, à sua oportunidade e cabimento) e se ocupam menos (ou não) do que não deve constituir ocupação.

Oxalá que se viva menos em função “do que os outros vão dizer ou vão pensar” e “para dar uma satisfação para os pais, para a famíia, para os amigos e para a sociedade” (especifica, porém nem de longe, exclusivamente, em relação à exigência moral [de origem religiosa] de casar-se e de os homossexuais sujeitarem-se à heteronormatividade, particular em que [e ainda bem!] os costumes no Brasil vem se alterando para melhor.).

“Cuide da sua vida, que da minha, trato eu.”
“Sou eu que pago as minhas contas e não devo nada para ninguém.”
“Foda-se.”

A terceira fórmula é lacônica, direta e fulminante. Prefiro-a.

Em Portugal, diz-se “estar-se nas tintas” para o que outrem pensa ou diz.

(Escusa de frisar o vezo fiscalizador dos evangélicos, fiscais de cu e censores da homossexualidade alheia e tanto mais quanto mais enrustidos.)

(Antes de que algum deficiente cultural me venha imprecar que eu disse porcaria, que sou boca-suja, fique a saber o meu censor que vejo as palavras como objetos idiomáticos. Elas são-me coisas, dotadas de etimologia, história, semântica. Entendeu ? Se não entendeu, releia. Se ainda assim ficou indignado, então…paciência. ).

 

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