Nova mentalidade. Novos costumes.

 

                                               Nova mentalidade. Novos costumes.

 

                                                                                  Arthur Virmond de Lacerda Neto

                                                                                  arthurlacerda@onda.com.br

                                                                               27.IX.2009

                        Nenhuma mudança profunda de costumes é rápida; toda mudança deles, que perdure, supõe a modificação prévia das mentalidades.

                        Estes dois aforismas sociológicos, devidos a Augusto Comte, fundador da Sociologia, verificam-se a propósito da homossexualidade no Brasil. Por um lado, a homofobia, que se instalou no sistema psicológico dos brasileiros, entranhadamente, vem declinando a pouco e pouco, com mais rapidez nas capitais, em que as pessoas importam-se menos do que no interior com a vida alheia e em que, destarte, há mais liberdade de ser e de fazer.

            De alguns poucos anos a esta parte, adveio a consciência da necessidade do respeito à parcela homossexual da população; uma presença, dantes inexistente, de personagens gueis nas telenovelas, nos seriados, no cinema, o que contribui para habituar as pessoas em geral à existência declarada de homossexuais no meio social; a homossexualidade como integrante dos programas escolares de educação sexual.

             Trata-se de meios de formar as consciências, de educar, sentido no qual todo esforço é bem-vindo, é obra de gerações e os seus resultados apuram-se a longo prazo. Foi assim com outras revoluções mentais porque passou a Humanidade e com a constituição da própria homofobia, na transição da liberdade sexual greco-romana para a anti-sexualidade católica, adotada pelas várias seitas cristãs da atualidade e pelo catolicismo romano, agentes por excelência da intolerância contra o casamento guei.

            A sexualidade deixou, já, de corresponder à tabu e à tema em que as pessoas eram formadas na ignorância: a educação sexual nas escolas representou um passo importante no sentido do esclarecimento dos jovens e do exercício sadio e responsável da sexualidade. Agora, em novo avanço, a sociedade vai aprendendo a respeitar as diversidades sexuais, que antes repugnava ou, se tanto, tolerava.

            São modificações na mentalidade, que se vem desenvolvendo nos últimos trinta anos e de que sobretudo as gerações jovens são as portadoras, sinal inequívoco de um futuro tendencialmente caracterizado por mais liberdade.

            Para que desaparecesse o tabu anti-sexual, tão próprio da civilização cristã, foram necessárias algumas décadas, ao longo das quais a consciência de que a sexualidade deve ser conhecida como tema de informação e de esclarecimento, foi se consolidando até corresponder, atualmente, a um componente da nossa cultura. Da mesma forma, a homofobia vai se desvanescendo, até o respeito e a liberdade corresponderem à um traço do sistema psicológico das pessoas: é o futuro para o qual tendemos, com uma aparente rapidez que surpreende à vista do que era, em anos anteriores, o cruel do preconceito.

            As mentalidades inovando-se, inovam-se os costumes: a liberdade de os pares homossexuais andarem de mãos dadas, de beijarem-se em público, de se desposarem em cerimônias laicas, de usarem alianças, de as pessoas revelarem a sua condição sexual livre de medos e de represálias, são novidades bem-vindas cujo princípio consiste no de que a liberdade vale para todos e de que o respeito é dever de todos para com todos. Se importam as leis para coibir e reprimir os desvios de comportamento que ferem o senso comum, a exemplo dos atos de discriminação, importa, muito mais,  o convencimento das pessoas que lhes determina atitudes espontâneas e consenso em torno de valores partilhados coletivamente. O esforço da militância guei e de quantos aderiram aos seus ideais concorre para com a adoção dos valores do respeito em face da diversidade e da recusa da discriminação.

            Os chamados “direitos” gueis referem-se, juridicamente, às faculdades legais (à exemplo do matrimônio entre homossexuais, da pensão paga ao parceiro do morto etc.); moralmente, eles implicam em deveres da restante sociedade em face dos homossexuais: no dever positivo de respeitar, no dever negativo de não discriminar. Psicologicamente, eles correspondem à convicção que considera a sexualidade um indiferente como critério de avaliação das pessoas, ou seja, como um não-critério.

            Da homofobia para a homofilia, da recusa para o respeito, vai a distância correspondente a duas mentalidades diversas: uma, determinada por séculos de cristianismo e que se exprime pelo desprezo, odiento, do que aquela religião condenou; outra, nascente, manifesta-se pela aceitação do ser humano na sua condição natural. Trata-se de dois estados da mentalidade, em que o primeiro declina, e o segundo emerge, não pela imposição das leis, e sim pela convicção das pessoas, que se vai formando paulatinamente, ano após ano, em um movimento que é uma diretriz de muitas sociedades ocidentais, um empenho do nosso presente e que será uma aquisição das gerações vindouras.

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