A direita e movimento homossexual, com nota sobre o Positivismo.

                        A direita e o movimento homossexual

                                                           Arthur Virmond de Lacerda Neto.

                                                                       9.VII.2011

            Para formular uma consideração um tanto óbvia, observa-se, no Brasil, atualmente, duas correntes de pensamento: a esquerda e a direita, sendo mínima a segunda e majoritária, mesmo hegemônica, a primeira.

            Embora minoritária, a corrente de direita existe e manifesta-se por alguns veículos, como a gazeta  (eletrônica e impressa) Independência e a gazeta (eletrônica apenas) Mídia sem Máscara. Em ambas, os seus articulistas  examinam as atualidades brasileiras e internacionais, à luz dos seus valores e dos seus critérios de juízo.

            Os direitistas radicais (ou talvez, todos os direitistas) abominam o ecologismo, a intervenção do Estado na economia, o desarmamento,  a crítica ao cristianismo (em regra, professam o catolicismo), o islamismo, a militância política nas escolas, o politicamente correto, a desinformação, o governo cubano, o marxismo, o socialismo e, por fim (embora  não por último), o movimento guei, tema sensível naqueles veículos, para os respectivos articulistas e intervenientes (por comentários aos artigos que divulgam.).

            Os direitistas identificam o esquerdismo com o movimento homossexual. Há, de fato, uma associação entre um e outro, e por repudiarem o primeiro, repelem o segundo, não tanto por si próprio, quanto mercê da sua origem, ou seja, detestam o movimento guei porque vinculado ao esquerdismo. É provável que o repelissem, ainda que se ele independesse do esquerdismo, devido à filiação católica da maioria deles, ao conservadorismo de costumes, ao preconceito puro e simples, porém, certamente, tratar-se-ia de uma recusa passiva, moderada, não militante, de quem não gosta e por isto não usa, indiferente a que os outros gostem e usem.

            Em relação aos direitistas extremados, contudo, não é assim: há, da parte deles, não apenas a recusa do esquerdismo, como, por tabela, a de tudo quanto se lhe associe e, destarte, a do movimento homossexual. Há uma sua recusa, não pura e simples, porém qualificada pela  raiva, pela irritação, pela intolerância. Há, também, maniqueísmo em relação aos militantes do movimento guei: no entendimento destes direitistas, todo militante é, por inerência, esquerdista e, por isto,  merecedor de ataque.

            O antagonismo dos direitistas ao movimenot homossexual acentua-se pela sua condição, corriqueira, de católicos defensores do cristianismo e da teologia (em face do ateísmo, do livre pensamento, da laicidade, do Positivismo, do materialismo). É óbvio que todo cristão é, por definição, por obrigação dogmática, um condenador da homossexualidade, que  escandaliza a muitos deles e que lhes provoca um verdadeiro histrionismo, nos seus protestos de que o casamento guei levará ao fim da família, representa um atentado a esta, um indício de decadência de civilização.

            Se a associação entre esquerdismo e gueizismo freqüentemente existe, não existe por inerência, ou seja, a condição de militante não implica, por obrigação, a de esquerdista, como tampouco a de ateu, de ecologista, de petista, ainda que, amiúde, coincidam. Há militantes gueis esquerdistas, como outros que não o são; há direitistas anti-movimento homossexual, como haverá outros que não o sejam: tal distinção é importante, na medida em que corresponde a um matiz das diferentes posições doutrinárias das pessoas e em que o extremismo da direita, como qualquer extremismo, leva a juízos falsos na avaliação, parcial, da realidade, e injustos, ao rotular-se as pessoas dentro de esquemas simplistas e próprios de quem exige adesão absoluta, sob pena de rejeição, também absoluta (é o que coloquialmente se chama de “8 ou 80” ou “quem não está comigo, está contra mim”).

            Tal rotulação maniqueísta foi, aliás, exatamente a que me aplicaram: sendo interveniente (não me considero  militante) no movimento homossexual e crítico da homofobia da direita (ao menos, de certa direita), esta mesma direita, ou, ao menos, certos representantes seus, conotaram-me com o esquerdismo. Porque comentei, na Mídia sem Máscara, artigos homofóbicos, em favor da liberdade guei, desativaram a minha conta, ou seja, impediram-me de comentar mais, após haverem-me insultado em público, como resposta a comentários meus, naquele sítio.

            É óbvio que cada sítio e cada gazeta funciona conforme os critérios dos seus diretores e nenhum deles é obrigado a admitir opiniões adversas à sua orientação. No caso da Mídia sem máscara, contudo, calaram-me porque, sem ser esquerdista, sem ser marxista, sem ser petista, exprimi um mínimo de compreensão pela causa guei. A isto chamo de extremismo  de posições e de intolerância de opiniões (para mais da baixeza do tratamento insultuoso).

            Não que me considerasse especialmente prejudicado; ao contrário, a Mídia sem Máscara tornou-se, há muito tempo, um sítio de azedumes, de desabafos emocionais, de manifestações raivosas, cuja leitura considero desagradável, que em nada me enriquece e no qual nada perco ao privarem-me de nele intervir.

            Tampouco pretendo cativar seja lá quem for, seja lá de que direita for. Desde os meus dezoito anos sou Positivista, adepto da doutrina do “ordem e progresso” e sempre afirmei as minhas convicções com independência, em relação aos grupos ideológicos em presença no Brasil (aliás, o Positivismo constitui outro objeto da repulsa da direita radical e da mal informada[1]).

            Em relação ao mérito da causa homossexual e da oposição da direita a ela, a primeira corresponde a um movimento libertário, conforme à natureza humana, que se aceita na sua condição; a oposição da direita corresponde a uma atitude contrária à liberdade tão cara à direita, ou seja, ela preza a liberdade, porém não  aquela pela qual a esquerda se bata nem a que o cristianismo proíba.

              Tanto pior para ela que, já tão combatida pelo esquerdismo que prepondera entre nós, desmoraliza-se ainda mais, pelo retrógrado desta sua posição e pela sua associação com a teologia cristã, com que justifica a sua atitude: a atitude é retrógrada, a justificativa é desprezível. A direita brasileira carece de rever a sua posição “conservadora” em relação a isto; urge-lhe perder o preconceito, sem abjurar dos seus valores; carece de humanizar-se ao invés de manter-se embrutecida.

            Tanto melhor para a esquerda que, nisto, adotou o valor da liberdade, em favor de uma parcela significativa dos seres humanos, até aqui oprimida por séculos de preconceito, e que aderiu a uma causa profundamente humana e  profundamente justa.


[1] No Brasil, o Positivismo é vítima de abundante ignorância e de igualmente abundante desinformação.  Sobre ele, cada escritor inova na asneira que inventa e no desentendimento que manifesta ou repete as distorções em voga; raros são os que o conhecem a sério e procuram entendê-lo com honestidade. Nem é preciso explicitar que no segundo caso acham-se os próprios positivistas. Por outro lado, na esquerda é comum taxarem-no de burguês, com as implicações marxistas desta qualificação; a direita é vezeira em recriminá-lo mercê do seu anti-teologismo e em taxá-lo, erradamente, de autoritário.  Na Mídia sem Máscara, observo algum  anti-positivismo que se origina, por certo, na convicção teológica dos seus intervenientes, como nos ensinamentos  de Olavo de Carvalho, mal informado sobre o Positivismo, a cujo respeito emitiu só estupidezes no seu Jardim das Aflições.

 Tanto na esquerda quanto na direita, há fanáticos  maniqueus, que, uns, rotulam o Positivismo como pertencendo ao inimigo; os outros fazem o mesmo, em relação aos primeiros. Com gente assim, não há diálogo nem serenidade, troca de idéias nem convívio intelectual. Entre o Positivismo e a esquerda há afinidades, na sua preocupação com a função social da propriedade, com a justiça social, com a incorporação social do proletariado, com a elevação do nível das massas, na recusa da teologia; há afinidades com a direita na conservação da experiência histórica, na evolução gradual das instituições, na aceitação das diferenças, na adesão à propriedade privada. É simplificador taxá-lo de esquerda  ou de direita; o Positivismo não pertence a um nem ao outro: é igual apenas a si próprio. O próprio Augusto Comte foi explícito em diferenciá-lo do que designava por revolucionários e  por conservadores; ambos encarnam correntes que, “mutatis mutandis”, perduram na atualidade. Aliás, a ignorância é tal, entre nós, sobre o Positivismo, que os nossos “conservadores” sequer atentaram, jamais, a que Comte escreveu um “Apelo aos conservadores”, em que precisou, com rigor doutrinário, o que entendia pelo adjetivo.     Quanto ao radicalismo ideológico, daqueles em quem  prepondera a mentalidade do “quem não está comigo, está contra mim”, nada se pode esperar além de intolerância e agressividade; é dos outros que se pode esperar o estudo sereno e bem intencionado do Positivismo e a elevação do nível do debate intelectual. Os outros correspondem aos que buscam conhecer as doutrinas com isenção, ao invés de julgá-las consoante os seus pressupostos ideológicos ou de reproduzirem, ingenuamente, as muitas deturpações produzidas pelos ignorantes ou pelos malignos.

   Recomendo “A república positivista”, “Provocações”, “A desinformação anti-positivista no Brasil”, os tresda minha autoria; “A sociologia de Augusto Comte”, de J. Lacroix, adquiríveis por www.estantevirtual.com.br .

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3 respostas para A direita e movimento homossexual, com nota sobre o Positivismo.

  1. João disse:

    Bom dia, Arthur.

    Estou com um texto no peito e no punho para tratar disso de “identificar-se” como “isto” ou “aquilo”.
    Minha leitura de Heidegger, de há algum tempo, me ensina que só somos “algo” (seja guei, seja esquerdista, direitista etc.) após a verificação da nossa totalidade. Ocorre, porém, que só será possível (a outros) verificar nossa totalidade com a morte. Tenha em mente que apesar de, por exemplo, você dizer que é “Positivista”, é possível que algum biógrafo seu diga justamente o contrário (que você era inimigo de Comte, por exemplo). É assim que o meu adorar a obra de Nietzsche não me identifica como nietzschiano nem o meu adorar um homem me identificaria como guei, etc. e tal. Viva o Heidegger. A pesquisa do IBGE, por exemplo, descreveu ontem, no Estadão, que o Brasil (o povo brasileiro, sobretudo os homens) reprova a decisão do STF favorável à união homoafetiva: e precisava? Está escrito no texto “sagrado”: gueis? São “imprestáveis”. Quem seremos nós, homens de verdade, para dizermos o contrário? Ainda por cima (esses mesmos que defendemos: os gueis, os pobres, os asnos, os estropiados) nos vão deturpar depois da morte. Desejo que tenhas forças para manter sua honra!… Evoé!!!

  2. Que grata surpresa, um positivista na Internet! Augusto Comte, de moderno, passou a ser “pós-moderno”! Desculpe-me, Arthur, apenas um chiste de minha parte… Há mais de vinte anos venho estudando o positivismo de Comte e sua vasta influência no Ocidente. Especialmente na Turquia, após a Primeira Guerra Mundial, com o colapso do Império Turco Otomano, o qual teve seu fim decretado graças à atuação decisiva de Mustafá Kemal Ataturk, o “Pai dos Turcos”, cuja ideologia, o Kemalismo, foi inspirada no Iluminismo francês e no pensamento de Augusto Comte, ambos muito admirados por Kemal. Ataturk, como é comumente chamado o grande líder turco, foi o responsável pela modernização e ocidentalização da Turquia. Mas, é claro que o amigo já há muito tempo deve saber disso, não é mesmo?

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