Colonização portuguesa superior à inglesa.

Colonização portuguesa superior à inglesa.
12.2.2013.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

É corrente no Brasil a opinião de que a sua colonização foi inferior à dos ingleses, na América do Norte. Será verdadeira ?
Quem lê a História do Brasil, do inglês Roberto Southey; a História dos Estados Unidos, de André Maurois; a História do Brasil, de Rocha Pombo; Fórmulas políticas do Brasil holandês, de Mário Neme; O mundo que o português criou, Novo mundo nos trópicos, Um brasileiro em terras portuguesas, de Gilberto Freyre e, sobretudo e por todos, 500 anos do descobrimento. Uma nova dialética, do brasileiro Carlos Raimundo Lisboa de Mendonça, descobre que a colonização portuguesa no Brasil foi superior – superior, em todos os sentidos, à inglesa nos atuais E. U. A., por sua vez inferior e menos do que medíocre. Inferior e menos do que medíocre.
Quem não leu 500 anos do descobrimento e repete os lugares-comuns em circulação no Brasil, depreciativos do nosso passado, que nos causam vergonha dele e das nossas origens, que infundem sentimento de inferioridade, no brasileiro, em face dos estrangeiros (notadamente dos E.U.A.) acha-se mal informado e carece, urgentemente, de lê-lo e de prosseguir estudos mercê da leitura dos mais livros que citei.

 
Há os mitos de que fomos colonizados pelo pior povo do planeta, de que a nossa desgraça consistiu em não o havermos sido pelos ingleses, de que teria sido muito melhor a permanência dos holandeses no nordeste, de que a presença destes foi maravilhosa, de que os males do Brasil resultam da sua herança colonial. Em nada disto há realidade; em tudo isto há distorções que a observação dos fatos desmente (1).
Eis a verdade ou as verdades: 1) a colonização portuguesa no Brasil foi previdente, competente e frutuosa; 2) a colonização inglesa na América do Norte foi negligente, incompetente, não deixou obra duradoura nem a Inglaterra fomentou o desenvolvimento das suas antigas treze colônias; 3) a presença holandesa no nordeste foi violenta, espoliadora, odiosa e degradou, em todos os aspectos, o estado de civilização criado pelos portugueses; 3-a) o conde de Nassau representou, como pessoa e como métodos, exceção aos governantes holandeses e aos seus procedimentos, pelo que ele não serve, ao contrário, como símbolo do destino do nordeste, se holandês.
Fundado na averigüação da realidade, Carlos de Mendonça compara a atuação portuguesa no Brasil com a inglesa nas suas colônias americanas e conclui favoravelmente à primeira; aponta o malogro da presença britânica nos seus primórdios; afirma a superioridade do sistema econômico português colonial em relação ao homólogo britânico; examina o sentimento de inferioridade (indevido) dos brasileiros, que lhes desperta o desdém (injusto) pelas suas origens e pelas suas qualidades, notadamente ao cotejarem-nas com as estrangeiras (particularmente as norte-americanas).
A ilusão do futuro promissor do nordeste, caso se mantivesse a sua sujeição aos batavos, decorre da existência da “História dos feitos recentemente praticados durante oito anos no Brasil”, livro apologético cuja redação o conde de Nassau encomendou ao seu compatriota Gaspar Barléus e em que este apresentou o governo daquele, tendenciosa e parcialmente. Livro de propaganda, obteve, a longo prazo, o efeito a que se destinava.
Foi o paranaense Rocha Pombo quem desfez o mito e revelou a incapacidade do holandês de realizar obra de civilização no Brasil; posteriormente, Mário Neme esquadrinhou os métodos batavos de governação no Brasil e apontou-lhes, com base em rigorosa documentação, os efeitos profundamente nefastos. Feliz o Brasil, felizes os brasileiros, por haverem-se livrado dos holandeses.
A mitologia lusófoba apresenta por meio a distorção da história; por argumentos o da inferioridade dos portugueses, o do malogro da colonização do Brasil, o da excelência dos ingleses e dos holandeses como colonizadores; por resultados os de o brasileiro vexar-se com a sua própria origem e de sentir-se inferior a outros povos.
Das diferenças, para melhor em relação à colonização da América do Sul, o que inclui o Brasil, e para pior, no que se refere à da América do Norte, já se apercebera Augusto Comte, no seu Sistema de Política Positiva (v. IV, p. 494-495).
Mais uma vez, o criador do Positivismo acertou:
“O modo próprio de colonização introduziu, entre o norte e o sul da América, uma diferença contínua, quanto às relações respectivas com as populações principais. Sistematizada pelo catolicismo e pela realeza, a transplantação ibérica conservou o conjunto dos antecedentes e mesmo permitiu, como expliquei, melhor desenvolvimento dos caracteres essenciais. Mas a colonização britânica, resultado de impulso individual ao qual o protestantismo serviu de consagração, tanto mais alterou as tradições sociais quanto ela emanou, sobretudo, de perseguidos e de revoltados. Posto que os dois modos tenham sido gravemente maculados pela escravidão da raça afetiva, esta monstruosidade suscitou entre eles um contraste decisivo, em que se aprecia quanto a insuficiência de disciplina espiritual e temporal coloca os protestantes abaixo dos católicos. Reproduzida em outros aspectos, esta diversidade torna os americanos britânicos os mais anárquicos dos ocidentais, porque desenvolveram as imperfeições do tipo inglês e comprimiram-lhe as qualidades” (tradução minha, do francês).
Tais afirmações e conclusões, como as de Carlos de Mendonça, de Rocha Pombo, de Mário Neme, de Gilberto Freyre, de Roberto Southey, de André Maurois antagonizam o senso comum, a forma mental a que o brasileiro médio foi condicionado pelas escolas, por livros didáticos, pelo imaginário popular e em que encontram receptividade fácil e automática as acusações à “herança colonial” (2).
Repetidas insistente e acriticamente, as patranhas, as distorções, os exageros, os simplismos passam por consensos e transformam-se em verdades que, uma vez desmentidas, suscitam, em quem se acha mal induzido por elas, os automatismos mentais do ceticismo em relação ao desmentido e da reiteração do senso comum, independentemente do seu exame à luz das respectivas impugnações: o que “todos” “sabem” é “óbvio”.
Assim, são “óbvias” as virtudes da colonização inglesa; “evidentemente” no Brasil há mazelas por culpa da herança colonial; é “lamentável” haverem os batavos deixado o nordeste brasileiro que, “é claro”, seria desenvolvido se eles nele houvessem persistido.
No entanto, o exame do passado revela aspectos altamente desfavoráveis à Holanda no Brasil e à Inglaterra nos atuais E.U.A., bem assim patenteia predicados da colonização brasileira.
Obras há, felizmente, que desmistificam certas “verdades” da história do Brasil, que as desmentem, que repõem o vero e corrigem distorções e injustiças, sentido no qual é indispensável o conhecimento do livro de Carlos de Mendonça, contribuição inestimável para o patrimônio cultural brasileiro (3).
(1)Existe, aliás, texto interessante em que se apontam doze defeitos dos brasileiros, dos quais um consiste em culpar-se a outrem pelos males próprios, de que a acusação à “herança colonial” representa expressão relativa ao passado. Vide http://ahduvido.com.br/os-11-defeitos-insuportaveis-dos-brasileiros .
(2)É o que explica, em parte, o êxito do livro profundamente pernicioso e tendencioso de Laurentino Gomes, “1808”, que, em parte, obteve largo público leitor graças à propaganda que dele se fez: Laurentino pertence (ou pertenceu) à diretoria da revista Veja, o que lhe facilitou a divulgação do livro, que se propagou à força da publicidade e por o seu conteúdo corresponder ao senso comum pejorativo do passado brasileiro. Escreveu o que o público acha-se acostumado a saber; escreveu para vender. Vide a minha crítica em https://arthurlacerda.wordpress.com/category/1808/ (acede-se-lhe por Arthur Virmond de Lacerda Neto wordpress 1808).
(3) Para lá de 500 anos do descobrimento, de Carlos de Mendonça, recomendo Fórmulas políticas do Brasil holandês, de Mário Neme; Os holandeses no Brasil: mitos e verdades, de José Francisco da Rocha Pombo (com prefácio meu); Novo mundo nos trópicos, Um brasileiro em terras portuguesas e O mundo que o português criou, de Gilberto Freyre; História dos Estados Unidos, de André Maurois. Suplementarmente, A colonização do Brasil, de Jaime Cortesão, e A construção do Brasil, de Jorge Couto.

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8 respostas para Colonização portuguesa superior à inglesa.

  1. Maurilio disse:

    Nunca li tantas asneiras, meu amigo ou você é um imbecil ou não estudou história, você deve ser português ou é burro mesmo.

    • Carina. disse:

      Maurilio, que comentário grosseiro e desnecessário!! Pela tua educação já se mede o teu grau de inteligência!! Que horror…

    • João Jorge Peralta disse:

      Maurílio, infelizmente quem escreveu tantas, ou melhor, tão grandes asneiras foi você, o que certamente não recomenda muito sua inteligência. Você também demonstrou que não é grande estudioso da nossa história, e repetiu conceitos e preconceitos que certamente aprendeu com algum professor despreparado e também preconceituoso. Lamentável você querer desprestigiar Arthur Virmond, dizendo que “ou é um imbecil ou não estudou história”… Você estudou história, Maurílio? Não, certamente não! Ser português não é nenhuma desonra (pelo contrário!), mas Arthur Virmond é um brasileiro do Paraná, nascido na capital Curitiba, Jurista de renome, com Mestrado em História do Direito, autor de diversos livros, e profundo conhecedor de nossa História e do contexto histórico em que se formou nossa nacionalidade, o que demonstra cabalmente no artigo que você tanto quis desmerecer. Maurílio, que tal você se despir de seus preconceitos, ler com atenção e analisar o artigo, descobrir se existem essas tantas asneiras, identificá-las, provar que são asneiras? Ou quem sabe, assumir um pouco de humildade e reconhecer que quem deu uma de imbecil e comprovou não conhecer história, foi você. Aproveite e leia também “Bandeirantes e Pioneiros”, do gaúcho Viana Moog. E aprenda a amar o Brasil, em toda a sua realidade e grandeza, no tempo e no espaço.

    • Maurílio, o seu comentário não me surpreende. Pertence àquele tipo de brasileiro preconceituoso, que optou claramente pela ignorância, e nada sabe da verdadeira História do Brasil e de Portugal.

      O Dr. Arthur Virmond de Lacerda Netto é um homem culto, esclarecido que, ao contrário de muitos brasileiros que renegam o seu passado, é um cidadão brasileiro lúcido, que sabe distinguir pérolas de bolotas.

      Tudo o foi escrito neste artigo é a mais pura realidade.
      E só não vê isso quem é cego mental.
      E se o Brasil, hoje, não é uma potência maior, a culpa é dos milhares de Maurílios que o habitam, e que em nada contribuíram (e continuam a não contribuir) para o engrandecer.

      O Brasil é um país independente desde 1822. Desde então, muita água passou por baixo de todas as pontes… A geração portuguesa desapareceu. E quem a substituiu?

      Quem ficou a “comandar” os destinos do Brasil não soube continuar a obra culta deixada pelos portugueses. Por comodismo ou ignorância abandonaram o Bom, e cultivaram em massa o Péssimo.

      É tempo dos Maurílios abrirem os olhos e a mente à cultura deixada pelos Portugueses, e desenvolvê-la com inteligência. De contrário nunca sairão da cepa torta.

      SHAME ON YOU, Maurílio. (É para isto que serve o Inglês).

  2. arthurlacerda disse:

    A resposta de Maurílio exemplifica, à perfeição, o que eu escrevi: que os desmentidos às “verdades” que compõem o modelo mental do brasileiro convencional suscitam-lhe reações de reiteração do senso comum, sem averiguação do conteúdo do desmentido. Maurílio não leu nenhum dos livros que mencionei e reagiu-me com emoção e grosseria. É mais dos que “sabe” o que é “óbvio”.

  3. Oliveira disse:

    Eu também acho errado dizer que o Brasil seria melhor se fosse colonizado pela Inglaterra, pois não temos como saber, mas uma coisa é certa, o Brasil herdou de Portugal toda a sua estrutura patrimonialista, que ajudou na criação de uma civilização informal, cordial (homem cordial), e etc. Existem muitas obras que tratam a respeito como exemplos as obras de Sergio Buarque de Holanda, Raimundo Faoro, Max Weber, Temos ainda o livro ” O império Marítimo Portugues ” de Charles Boxer. A Obra do ilustre José Chasin fala da via colonial de entificação do capitalismo.

  4. Realista disse:

    Os Ingleses hà muito que tinham planos de dominar o mundo, a bem ou a mal. O caos que criaram no médio oriente é exemplo disso. Já os Portugueses nunca tiveram esses planos imperialistas. Se não fossem os Franceses do Napoleão, dúvido se o Brasil hoje fosse um país lusófono. Seria uma enorme selva com um nome Espanholado e não a sexta maior economia do mundo. Mesmo em Africa, Portugal só passou a ter colónias em vez de entrepostos comerciais depois da primeira grande guerra, e graças aos imperialistas Inglêses! E foram os mesmos imperialistas Anglo saxónicos que destabilizaram as antigas colónias Portuguesas em Africa logo à independência porque estavam na corrida aos recursos desses países que os Portugueses não chegaram a explorar. O ouro do Brasil foi parar em Londres. O petróleo de Angola estava na mira dos Americanos. Foi a Rodésia que instigou a guerra civíl em Moçambique e foi a Austrália que apoiou a brutal invasão do pequeno mas rico em petróleo Timor lorosae pela Indonésia. Queriam ser anglo descendentes é? Força! A GUYANA inglesa fica aqui mesmo ao lado e qualquer burro consegue aprender o Inglês.

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