Cabelo moicano

CABELO MOICANO

( Como conheci o Paulo Roberto da Conceição Júnior)

20.VIII.2007

 

                                                                                                                             Arthur Virmond de Lacerda Neto

 

            Em fins de julho de 2007, recebi, no apartamento em que habitava, na rua Riachuelo, uma chamada de alguém que procurava por Drico. Respondi-lhe que era engano, que não era eu e que jamais houvera, aqui, alguém deste apelido.

            O interlocutor explicou-me que o número da minha casa aparecia-lhe no telemóvel, o que estranhei, pois não lho dissera; tentamos nos identificar um ao outro para esclarecer a origem do número, no aparelho dele. Perguntei-lhe como se chamava o Drico: ele esquecia-se; indaguei-lhe onde se haviam conhecido: ele deslembrava-se; interroguei-lhe a aparência de Drico: não se recordava!

            Na tentativa de esclarecer a situação, indaguei-lhe como se chamava; ele identificou-se como Paulo Roberto da Conceição Júnior: desconhecia-o e, em reciprocidade, enunciei-lhe o meu nome. Perguntei-lhe a idade: dezoito anos; ele surpreendeu-se de saber-me com quarenta. Em verdade, ele arredondara a sua, para mais, e eu alterara a minha, para menos, em um ano: distanciavam-nos vinte e quatro anos de diferença etária.

            Exprimiu-se desejoso de conhecer-me: porque ele nenhum compromisso tivesse naquele dia, nem eu, e porque me houvesse inspirado confiança, ao enunciar-me  seu nome, acedi-lhe ao desejo e combinamos de nos encontrarmos nas lanchonetes da rua XV, junto do bonde, às nove da noite. Descrevi-me: usava óculos e barba curta e bem aparada; ele usaria uma blusa branca e cabelo do tipo moicano.

            Aguardei-o e porque ele não aparecesse, regressei a casa (a cinco minutos a pé do lugar do encontro); telefonei-lhe, ele disse-me que estava chegando: tornei ao lugar, onde vi um rapaz cuja idade, traje e cabelo coincidia com o dele. O rapaz falava ao telefone, em um canto; vi-o, pareceu-me havê-lo reconhecido; de observá-lo, ele ocultou-se atrás de uma parede; ao findar a conversa, observou-me e dirigiu-se rapidamente a uma mesa, em que havia um casal, com quem parolava com gestos largos.

            Hesitei entre abordá-lo e não o fazer; porque seria um encontro para nos conhecermos, pareceu-me esquisito apresentar-me a ele, na presença de dois estranhos, motivo  porque abstive-me de fazê-lo, e retirei-me, desoncertado com a sua atitude de marcar o encontro, de comparecer e de ignorar-me ao ver-me.

            No mesmo dia, mais tarde, ou no dia subseqüente, telefonei-me e disse-lhe que vira uma pessoa no lugar e hora concertados, e que ela ignorou-me; ele respondeu-me que era outra pessoa e que ele não pudera comparecer, o que estranhei ainda mais, pois, no dia do encontro frustrado, ele disse-me que já lá se encontrava: ou mentiu-me ao dizer-mo, ou mentiu-me ao dizer-me que não pudera comparecer. Era muito estranho.

            Marcaríamos novo encontro em outro dia, anunciou-me, ao que manifestei-me receptivamente.

            Seis dias após, observei, no identificador de chamadas do meu telefone, que ele telefonara-me; liguei-lhe, no  dia seguinte (18.VIII.2007): combinamos de nos vermos, no mesmo  lugar da combinação anterior. Desta vez, ele compareceu: não era o rapaz que vira antes: ao conhecê-lo, averigüei a diferença de aspecto entre um e outro. Foi notável que na primeira ocasião, houvesse, no  lugar e na hora combinados, uma pessoa que trajava casaco branco, como ele disse-me que trajaria, e que usava cabelo do tipo moicano (então, da moda, entre os jovens, em Curitiba), como ele  disse-me que usava, e que não era ele!

            Coincidências acontecem; custei, todavia, a acreditar que se tratara de uma: tomado de algum ceticismo, perguntei-lhe, duas vezes, se correspondia-lhe ou não a pessoa da primeira ocasião, o que ele negou-me. Convenci-me da coincidência, ao recordar-me de que o cabelo do rapaz que vi, achava-se excessivamente curto nas laterais,  ao passo que o dele era mais comprido na região correspondente, para mais da diferença fisionômica de cada qual.

            Averigüamos que ele conhecia o meu número de telefone pelo Adriano Roberto Magri que, na segunda semana de junho de 2007, residiu comigo por três dias, em um dos quais, atendi duas chamadas do Paulo, para ele. Depois, o Paulo esqueceu-se de a quem pertencia o número e o Adriano, do Paulo, a cujo  respeito perguntei ao Adriano, que respondeu-me desconhecê-lo.

            Passeamos no centro comercial Curitiba, agradavelmente; porque ele desejasse conhecer-me a casa, levei-o a ela, onde exibi-lhe fotografias do Adriano na casa que habitei, na rua Lamenha Lins. Pouco antes das onze horas, ele regressou a sua casa. Quer durante o passeio, quer em casa, disse-me que gostara de conhecer-me; era recíproco: “Você é simpático; é uma graça”, disse-lhe.  Na saída, abracei-o com carinho e ele a mim. No dia seguinte, ele exprimiu-me haver-me adorado a companhia e eu, da sua, conservei uma lembrança simpática e muito afetuosa. A vida é feita de momentos, dizia-me o Rodrigo Sanchez Rios, catorze anos antes.

            Foi inusitado, singularíssimo, o modo pelo qual  nos conhecemos: se acreditasse em destino, diria que foi ele quem nos aproximou.

            Não importa como as pessoas se conhecem: importa que a relação entre elas seja-lhes grata, que elas se tratem com respeito e sinceridade. Tampouco importam as diferenças de idade: importa que a relação, sendo de amizade, implique tratamento recíproco de igualdade; aliás, precisamente na igualdade com que se havêm reciprocamente as pessoas, é que se encontra o peculiar da amizade. 

            No nosso caso, determinou-se, ele, pela curiosidade, eu, por idêntico estímulo e, talvez, ambos, pela inclinação a formarmos novos amigos em pessoas de bem, que foi o que cada qual encontrou no outro.

 

   Nota de 14 de agosto de 2016. Após julho de 2007, voltei a ver o Paulo Roberto uma só vez, fugazmente; sequer nos falamos. Em 14 de agosto de 2016, ele reconheceu-me no largo da Ordem, em Curitiba e interpelou-me.  Conversamos com vagar e com a mesma amizade de 2007.

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Uma resposta para Cabelo moicano

  1. Paulo disse:

    oi goste muito

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