Ser pai

 

 

 

      

 

 

                                                     SER PAI

                                                                       1º.I.2006

                                                                         A pensar    no ………………….e  ………………………………..(em quem?Direi no livro, quando publicar isto).

                                                                                                                                                                                        

                                                                                                                                                                                                                                         Arthur Virmond de Lacerda Neto

 

                               Longe de reduzir-se ao ato puramente genesíaco da reprodução,  equivale a paternidade a uma verdadeira função, em que ao pai toca  formar o filho,  acompanhar-lhe o desenvolvimento,  orientá-lo,  colaborar com ele,  corrigi-lo, votar-lhe compreensão e paciência, bondade e carinho, e, quando necessário, rigor e severidade. Ela importa em uma responsabilidade, que se inicia no momento da concepção, que perdura ao longo da vida e em que reúnem-se os aspectos educador e afetivo: ser pai significa educar e amar.

                               Nem todos os pais acham-se capazes de desempenharem este papel: há indivíduos introvertidos demais para se amistarem com os seus filhos; há os egoístas, inaptos para dedicarem-se-lhes; há os insensíveis, incapazes de amarem-nos; há os permissivos, que lhes toleram os excessos; há os irresponsáveis, que os abandonam do ponto de vista afetivo, material e moral; há os desnaturados,  que insuportam a responsabilidade paternal.

                               Indivíduos assim deveriam exercer auto-crítica e absterem-se de reproduzir-se; dado corresponder o casamento voluntariamente estéril a uma limitação dificilmente aceitável para as respectivas mulheres, deveriam, na verdade, optar pelo celibato.  Ninguém escolhe o pai de quem é filho, portanto gerar um significa impor-lhe uma fatalidade, porém todo indivíduo, cônscio da sua inaptidão para a paternidade, pode, mesmo deve, abster-se de produzi-lo, ou seja, abster-se de encarnar um mau pai e, sobretudo, de, por conta disto, infelicitar o próprio filho. Há mérito no bem que se pratica e, mesmo, no mal de que conscientemente poupamos o nosso semelhante.

                               Na verdade, o casamento estéril já se vai tornando uma realidade no Brasil e alhures, embora por motivos de ordem econômica; é desejável que resulte de uma deliberação do casal, quando o marido reconhecer a sua incompetência como futuro progenitor (o mesmo aplica-se à mulher).

                               Todas as formas de paternidade louvável caracterizam-se pela dedicação: bom pai é o que dedica-se ao filho,  que tem nele um objeto da sua afetividade, da sua atividade e da sua inteligência; é aquele cuja existência desenvolve-se também para o filho. Ser bom pai equivale ao reconhecimento de que, a partir da concepção do filho, ele passa a viver, em certa medida, em função deste. Porque, no fundo, nisto se condensa o exercício da paternidade: em pai e filho representarem dois: o pai mais o filho, diferentemente da paternidade irresponsável, em que o pai, embora o seja biologicamente, não o é moralmente: vive a um.

           Mau pai, ao contrário, é aquele que negligencia o filho, em alguma medida, que deixa de votar-se-lhe como seria desejável: é o pai ausente, indiferente, insensível, negligente, permissivo, autoritário, violento, separada ou conjuntamente.

                               Embora seja fácil produzir um filho (efeito para o qual basta ejacular no lugar certo, no momento oportuno), não o é igualmente desempenhar-se, a contento, da missão paternal, o que exige uma certa preparação: muitos indivíduos acham-se despreparados para ela, vale dizer, não sabem ser pais e cometem erros neste âmbito, em prejuízo direto dos filhos. Enquanto para o exercício de uma atividade profissional todos reconhecem a necessidade de uma formação especial, raros admitem-na quanto à paternidade que, embora não corresponda a uma profissão, exige preparo que mormente as pessoas não recebem, o que resulta no seu exercício empírico, ou seja, os pais criam os seus filhos consoante o seu discernimento e as experiências próprias e alheias, muitas vezes mais empírica do racionalmente. Ser pai, na verdade, corresponde a uma arte.

                               Daí ser desejável a instituição de cursos de paternidade, em que se transmitam conhecimentos de puericultura, de psicologia, de higiene, de sociologia e de outros, no intuito de bem apetrechar-se cada genitor; trata-se de uma verdadeira educação destinada a enriquecer a dedicação que todo indivíduo deve aos seus filhos.

                               É falso atribuir-se à diferença etária entre pais e filhos o distanciamento que em certo casos verifica-se entre eles: provém ela da incapacidade de o pai aceitar o filho como ele é, de entendê-lo, de travar amizade e mesmo intimidade com ele, incapacidade que manifestar-se-ia mesmo que entre ambos houvesse proximidade cronológica e que se dissimula com tal alegação. Prova disto, são as amizades entre homens mais velhos e mais moços e, sobretudo, a amizade dos bons pais com os filhos correspondentes.

                               Pai faz falta. Fazem falta carinho e atenção, amizade e compreensão, companheirismo, diálogo e orientação, sentir-se querido, ser apoiado, ter com quem conversar, abrir-se, partilhar. Deve o pai deve encarnar, antes de tudo, um amigo mais velho e, pela inépcia de o serem, muitos representam apenas estranhos mais velhos, cujos filhos procuram fora de casa o que não encontram nela.

                               Do ponto de vista afetivo, são sentimentos importantes os de amor paternal e filial: os pais que não os nutrem, privam-se de um aspecto da natureza humana, e privam do seu correlato aos seus filhos.

                               Da ausência ou da insuficiência do pai resulta, da parte dos filhos, carência afetiva, em que necessitam estes receber-lhes carinho e amor, de cuja falta ressentem-se; decorre-lhes a desorientação em certos momentos, máxime na adolescência e perante as vicissitudes da vida; decorre-lhes o cometimento de erros, que poderiam haver evitado se o pai os orientara; tende a decorrer-lhes a má formação axiológica, que os diminui enquanto pessoas; decorre-lhes a inexistência de um modelo satisfatório de paternidade, que lhes sirva de inspiração quando eles próprios nela ingressarem: a má paternidade provoca malefícios diretos ao filho, indiretos à sociedade e possivelmente sobre o próprio pai: é o caso dos velhos sozinhos, negligenciados pelos seus filhos, muitas vezes depositados em asilos. São pais que, na velhice, colhem o quanto plantaram precedentemente.

                               Há pais decididamente maus: são quantos, supondo saberem o que é melhor para os filhos, impõe-lhes o que eles, pais, concebem assim, ao invés de colaborarem com os filhos nas escolhas que efetuam estes quanto ao rumo das suas vidas; são os que não travam com os filhos verdadeira amizade; são os introvertidos, que, incapazes de externizarem a sua afeição, vivem em uma insensibilidade aparente, frustrante para o filho que anseia por manifestações de um carinho que sabe existir sem se revelarem; são os insensíveis, cuja afetividade inexiste em relação ao filho.

                 São, ainda, os indiferentes,  moralmente ausentes,  que tratam os seus filhos como se eles inexistissem: eis, certamente, os piores, cujos filhos, órfãos de pai vivo, sofrem uma verdadeira agressão moral, que se traduz nas atenções e no carinho que não recebem,  na amizade que não existe, na preocupação de que não constituem o objeto. Pais desta ordem correspondem a verdadeiros fracassos existenciais, cuja paternidade limita-se à pura biologia.

                               Há, por outro lado, e felizmente, bons pais, amorosos, dedicados, preocupados com os seus filhos:  em regra,  e apesar das contrariedades eventuais e próprias do relacionamento com os filhos, são os que realizam-se com eles, os que neles encontram um motivo de alegrias e de felicidade; são os que merecem, na sua velhice, o aconchego da família que constituiram. São pessoas que souberam desincumbir-se da sua função e deixaram obra na pessoa dos filhos que amaram e educaram: não deixassem outra, esta só reune todos os méritos e comporta gratificações inestimáveis: ter um filho, a sério, é ter um tesouro.

                               Assim como há pais pelo sangue, há-os de coração: trata-se dos que, encontrando alguém (um estranho, por adoção; um enteado, pela boda), tomam-se de afeição por ele e votam-se-lhe, malgrado a inexistência de vínculos sangüíneos, que, na verdade, importam, nestes casos, absolutamente nada: o decisivo acha-se nos sentimentos e na dedicação (1). Pai, costuma-se dizer, é quem ama e educa: de fato. Mesmo fora de uma relação estritamente familiar, pode a paternidade configurar-se afetivamente: é o caso em que alguém, generosamente, dedica-se àquele que ingressa no seu coração, como filho, filho de coração, e muitas vezes o pai por afeição importa mais do que o carnal.

               

           (1) É especialmente comovente o caso de Marcelo Antony, ator da rede Globo, em cujo ombro existe uma tatuagem, sob forma de coração, na qual acha-se inscrito o nome Francisco: Francisco é uma criança, seu filho adotivo, mulato.

 

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