Mentes perigosas. Primeira parte.

 

                                                              "Mentes perigosas"

                                                                Dezembro de 2009.

 

                                                                                              Arthur Virmond de Lacerda Neto

                                                                                                 arthurlacerda@onda.com.br

 

            Da autoria da psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva, "Mentes perigosas" ocupa-se dos psicopatas ou  personalidades perversas: caracteriza-lhes o comportamento, ensina a reconhecê-los e a defendermo-nos deles, minudencia exemplos de crimes praticados por alguns deles, trata da psicopatia nos menores de idade, denuncia o individualismo que lhes favorece a ação, exorta por uma mentalidade altruísta.

           

            Méritos.

            "Mentes perigosas" apresenta os méritos de difundir, entre o público leigo,  conhecimentos utilíssimos, até então privativos do pessoal especializado (médicos, psicólogos e psiquiatras), a saber, o da descrição dos  psicopatas nos seus traços de comportamento, o que permite reconhecê-los, e o de ensinar a protegermo-nos deles, em dois serviços sociais inestimáveis, em face do perigo público que eles encarnam e dos danos que são capazes de inflingir e que atingem, em certos casos, a medida gravíssima do crime violento, mesmo do homicídio.

            Obras de vulgarização de conhecimentos científicos, nos domínios  da psicologia e da psiquiatria, propiciam um instrumental teórico que, em alguma medida, capacita as pessoas a conhecerem-se e a entenderem-se, e ao seu semelhante, e, portanto, a melhorarem a sua forma de ser e de conviver:  do conhecimento da natureza humana, própria e alheia, resulta a possibilidade de intervir-se nela, na medida do possível, ou de a ela adaptarmo-nos, como alternativa à intervenção. Correspondem a  efeitos da compreensão de livros que tais, a aquisição de conhecimentos e o melhoramento das relações humanas,  sendo, o primeiro,  pessoalmente útil e o segundo, socialmente benéfico.

                       

            Má redação.

            Padece "Mentes perigosas" de redação deficiente em várias passagens e, portanto, suscetível de melhoramentos, quanto às preposições, muitas delas erradas (à exemplo de "autoridade sobre o assunto", página 40; "talento para mentir", página 103); ao uso de vulgarismos e de gírias (como a expressão "cara muito legal", na página 71) e de americanismos; às simplificações inaceitáveis (à exemplo de "a nossa tendência inicial é buscar", ao invés de "a nossa tendência inicial é a de buscarmos").

            O próprio título figura em minúsculas ("mentes perigosas"), adoção repreensível da prática, infelizmente corriqueira entre nós, da abolição da maiúsculas mesmo em nomes próprios e no início das frases, sintoma do desleixo dos brasileiros em relação à linguagem escrita.

              Na capa, é óbvia a má redação da frase: "Como reconhecer e se proteger de pessoas", ao invés de "Como reconhecer pessoas e proteger-se delas". A dedicatória (página7),  contém erro da mesma natureza: "A todas as pessoas "de bem" que acreditam e lutam por um mundo menos violento e mais justo", quando acreditar exige a preposição "em" e não se compagina com a preposição "por". Destarte: "que acreditam em um mundo menos violento e mais justo e lutam por ele".

            Uma revisão do texto, na sua totalidade, para corrigi-lo e aprimorá-lo, corresponder-lhe-á a um acréscimo de qualidade, na medida em que o idioma equivale a um valor e em que um texto esmerado na sua execução honra o seu autor e leva ao leitor um produto recomendável, responsabilidade dos autores especialmente grave em um país em que o desprezo pela norma culta institucionalizou-se como doutrina acadêmica (com a sóciolingüística, vale dizer, a aplicação do marxismo na elaboração de teorias relativas ao idioma), o mal falar como traço da identidade nacional e o mal escrever como estilo dos brasileiros.

            São fáceis as objeções de que a tal redação corresponde o falar da maioria do povo e que, portanto, é o que ele entende e a de que o intuito do autora consistiu no de transmitir certo conhecimento e não o de propiciar o bom exemplo idiomático. Nada, contudo, justifica a mediocrização do idioma nem o seu envilecimento. Se o estilo do livro foi intencional na sua qualidade, então, tratou-se de uma escolha que o desabona.

 

 

            Anedota.

            Contém o capítulo primeiro a narrativa de uma situação da vida estudantil da autora, em que o seu então professor de Psiquiatria definiu-lhe, em aula, o que entendia por consciência, o que, por sua vez, despertou-lhe interesse pelo tema e a levou a interrogá-lo a respeito.

            Como episódio autobiográfico a anedota em nada enriquece o livro; ao contrário, a forma algo infantil com que a autora narra-a, permite suspeitar de algum cabotinismo seu, fosse quando estudante, seja atualmente, para mais de encontrar-se alguma prolixidade nos pormenores inúteis da narrativa, que parece efabulada nas intervenções do professor e da autora. Fosse concisa e direta, e o livro ganharia mais. Aliás, nada perderia com a supressão da anedota, cujo conteúdo científico mantivesse.

 

            A metafísica da "consciência".

 

            De modo perfeitamente dispensável, a autora atribuiu uma nova acepção à palavra "consciência",  como equivalente à capacidade de amar: "ser consciente é ser capaz de amar", entendendo o verbo em sentido lato, conotado com sensibilidade,  empatia, compreensão, simpatia, bondade, altruísmo etc., quando, normalmente, a nada disto corresponde aquele vocábulo.

             Pouco depois (na página 27), a consciência "é algo que sentimos" e "pode ser definida como uma emoção". No parágrafo seguinte, contudo, a autora avança na sua semântica e a define como um "senso de responsabilidade e generosidade baseado em vínculos emocionais, de extrema nobreza, com outras criaturas ou até mesmo com a humanidade e o universo como um todo".

            A princípio, a "consciência" significa uma capacidade afetiva; a seguir, ela indica uma emoção; finalmente, equivale a uma função do entendimento combinada com a generosidade: primeiramente, trata-se de uma possibilidade de sentimento; depois, de um sentimento propriamente dito; por derradeiro, de uma capacidade intelectual e de um sentimento.

            Três acepções ou intepretações conferidas, sucessivamente, ao mesmo objeto, resultam em confusão e obscuridade, sem qualquer proveito lingüístico, tampouco para o entendimento dos capítulos subseqüentes.

            Poderia a autora haver exprimido "consciência" por equivalentes como sensibilidade, empatia, consideração pelo próximo, amor, sem nenhuma necessidade de inovar a semântica, ainda que adotando o exemplo do professor Osvaldo, autor da novidade infeliz, em que introduziu uma acepção de natureza afetiva em um conceito de ordem intelectual.

            A confusão, todavia, agrava-se com uma quarta caracterização, em que a consciência "é uma espécie de entidade invisível, que possui vida própria e que independe da nossa razão. É a voz secreta da alma, que habita em nosso interior e que nos orienta para o caminho do bem".

            Nestas condições, a "consciência" transforma-se em um  ser dotado de existência objetiva ("entidade invisível"), independente do ser humano ("que possui vida própria"), em cujo corpo se instala ("que habita em nosso interior") e que lhe influencia o comportamento ("nos orienta para o caminho do bem"; "nos impulsiona a tomar [sic, por tomarmos] decisões totalmente irracionais"; "ela permeia as nossas atitudes cotidianas"; "nos abraça e nos conduz pela vida afora"): ela corresponde a uma abstração personificada.

            Tratar a consciência como abstração personificada significou um retrocesso anterior à obra de Francisco José Gall, que, em 1811, nas suas Funções do Cérebro, início da neuroanatomia, demonstrou resultar a vida psíquica do funcionamento do cérebro, das sua organização e fisiologia, e não de entidades sobrenaturais nem de agentes externos, como a graça divina e a alma, com que, até então, teólogos, metafísicos e alguns médicos explicavam os fenômenos da afetividade e da inteligência.

            A obra de Gall representou um momento de viragem no entendimento das funções morais: com ela, tal âmbito de estudos passou da teologia e da metafísica, para a ciência; do imaginado, para o verificado; de concepções que se anacronizaram e que se abandonaram de todo, para a observação do funcionamento do cérebro e de como ele coordena a economia do ser humano.

     Aliás, Gall foi expresso em reconhecer o altruísmo como uma função do cérebro e como uma característica da psicologia humana. Toda a frenologia persistiu neste reconhecimento, que a moderna neuroanatomia confirma. Não há uma "entidade invisível" que nos incute a bondade; existe o cérebro, dotado de funções, que determina sentimentos e comportamentos, sejam normais, sejam patológicos. A uma destas funções corresponde o que designamos por altruísmo, discernível em três âmbitos: a veneração, que se volta aos superiores de cada qual (os mais velhos, os indivíduos especialmente respeitáveis); o apego, que dedicamos aos nossos iguais (daí os sentimentos de amor fraternal, conjugal e amistoso) e a bondade, que se exprime em relação aos nossos inferiores (a compaixão em face dos fracos, o carinho pelas crianças).

            No seu "Tratado da irritação e da loucura" (Paris, 1826), Broussais  dedica-se a combater as abstrações personificadas, vale dizer, a ontologia que, ao tempo, explicava as doenças por meio de entidades, ao invés de, no caso da psiquiatria, pela constituição do cérebro e pelas suas anormalidades.

            "Por ontologia médica, escreveu  Broussais,  nós entendemos os seres, entidades ou essências artificiais, espécies de concepções abstratas  ou de abstrações que não podem ser reduzidas a fatos apreciáveis pelos sentidos, nem demonstráveis pela indução; são puras quimeras, sons vãos, aos quais, contudo, atribui-se, pela linguagem, todas as propriedades dos corpos, tanto quanto as das abstrações de boa cepa, ou seja, as redutíveis a fatos. […] em medicina, a ontologia é uma legião de seres ou de entidades artificiais que não contém, jamais, nada de real" (pág. 40). (Broussais, De l´irritation et de la folie, 1839, Paris).

             "A ontologia é a ciência do ser", definiu ele, que prossegue: "Nela, aplicam-se a estas abstrações os adjetivos e os verbos que servem para qualificar e  fazer atuar e sofrer os corpos, repetindo-se que não se fala de corpos. Certas abstrações são necessárias, mas elas representam corpos. […] Quando  representam corpos,  podem receber os epípetos e ser movidos pelos verbos que fazem mover os corpos; porém, quando não os representam e são apenas concepções, não se pode tratá-las como corpos. É isto, todavia, o que fazem os ontologistas; é assim que eles constroem quimeras com os sinais, com palavras reificadas, ou seja, transformadas em corpos. […] É a metafísica propriamente dita, pois os seres quiméricos da ontologia mais elevada acham-se na mesma condição que os anjos, os diabos, os gnomos, os silfos, os gênios" (páginas 668 e 669). (Broussais, "Leçons de phrénologie", 1836, Paris).

            Das considerações de Augusto Comte percebe-se a medida do retrocesso representada pela introdução de uma entidade metafísica na psiquiatria, nos dias atuais:

            "Desde o final do século XV, o espírito humano passa por uma revolução geral e contínua, cujo objeto principal é a reforma gradual e total do sistema inteiro dos conhecimentos humanos, estabelecido, de então por diante, sobre as suas verdadeiras bases, a observação e o raciocínio. Esta revolução fundamental, preparada pelos trabalhos sucessivos de todos os séculos anteriores, sobretudo a partir dos árabes, foi definitivamente determinada e diretamente principiada pelo grande e novo impulso que imprimiram, simultaneamente, à razão humana, as concepções de Descartes, os preceitos de Bacon e as descobertas de Galileu. Desde esta memorável época, o espírito humano, em todos os ramos dos nossos conhecimentos, tendeu constantemente e cada vez mais, a libertar-se completamente e para sempre, do império exercido precedentemente pela teologia e pela metafísica, a subordinar inteiramente a imaginação à observação; em uma palavra, a constituir o sistema definitivo da filosofia positiva.

            Os diversos ramos dos conhecimentos humanos não passaram com a mesma velocidade por esta importante renovação. Eles passaram por ela sucessivamente, segundo o grau de complicação e de dependência mútua dos fenômenos que consideram. A fisiologia sendo, de todas as partes da filosofia natural, a que estuda os fenômenos mais complicados e os menos independentes, deveu permanecer por mais tempo do que qualquer outro, sob o jugo das ficções teológicas e das abstrações metafísicas. Assim, foi apenas na segunda metade do século XVIII, e depois de a astronomia, a física e a química haverem se tornado ciências positivas, que a fisiologia começou a passar, por sua vez, por esta grande e salutar transformação, pelos imortais trabalhos de Haller, de Carlos Bonnet, de Daubenton, de Spallanzani, de Vicq-d´Azyr, de Chaussier, de Bichat, de Cuvier, de Pinel, de Cabanis etc.

            Mas, para que esta revolução fosse completa e eficaz, era necessário que ela se estendesse, igualmente, aos fenômenos intelectuais e afetivos, que deveram, necessariamente, dela participar mais tarde do que os outros fenômenos dos animais, dada a sua maior complicação e dada a ligação imediata das teorias teológicas e metafísicas que se  prendiam com a constituição da sociedade. Também as memórias publicadas, no começo deste século, por Cabanis, sobre as relações entre o físico e o psicológico, corresponderam à primeira grande tentativa direta de fazer entrar, definitivamente, no domínio da fisiologia positiva este estudo, até então exclusivamente abandonado aos métodos teológicos e metafísicos. O impulso propiciado ao espírito humano por estas memoráveis pesquisas não se abrandou. Os trabalhos de Gall e da sua escola fortificaram singularmente e, sobretudo, imprimiram a esta nova e última porção da fisiologia um elevado caráter de precisão, fornecendo-lhe uma base determinada de discussão e de investigação. Hoje, pode-se dizer que esta revolução, embora não se haja tornado popular, consumou-se definitivamente em todos os espíritos verdadeiramente ao nível do seu século, que todos consideram o estudo das funções intelectuais e afetivas como inseparavelmente ligado ao de todos os outros fenômenos fisiológicos e como devendo ser prosseguidos pelos mesmos métodos e no mesmo espírito".  (Sublinhados meus). ("Examen du traité de Broussais sur l´irritation", 1826).

            "Gall estabeleceu ao mesmo tempo a pluralidade de nossas funções superiores, assim mentais como morais, e a comum residência delas no aparelho cerebral." (Comte, "Catecismo Positivista", página 268 da 4ª edição brasileira).

     Por outro lado, no capítulo 10º, a autora atribui a psicopatia a uma atrofia da amídala cerebral, vale dizer, a uma alteração orgânica de um componente do cérebro. No início do livro, ela institui uma entidade metafísica, cuja ausência caracteriza a psicopatia; depois, explica-a por uma disfunção orgânica.

        Começa pelo método ontológico e prossegue pelo positivo (no sentido de Augusto Comte: decorrente da observação), sendo que dissocia, absolutamente, a entidade "consciência" da atrofia da amídala cerebral.

            Se a "consciência", como entidade, explicasse a psicopatia, seria imperiosa a sua tangibilidade, a possibilidade de ser observada, a sua residência na amídala dos indivíduos sadios e a sua ausência, ali, nos psicopatas.  Ora, inexiste, na amídala, qualquer entidade e, portanto, não existe, nela, a "consciência". Logo, a "consciência" ausente não origina a psicopatia nem a explica.

             Observa-se uma relação entre a amídala e o comportamento e não entre a entidade e ele. Assim, não apenas  inexiste a entidade "consciência", como, ainda que existisse, seria de todo inútil para explicar a psicopatia. Demais, em outro momento (página 165), a autora insiste na causa orgânica  (a disfunção neurobiológica da amídala), a que associa outra, ambiental, que não a criatura ontológica.         

            A "consciência"  exprime  um fato ou  uma metáfora.

            Se exprime um fato, é porque a autora (ou alguém, cuja autoridade ela admite) averiguou-lhe a existência objetiva, material, tangível, como ser (aliás, invisível) distinto do corpo humano em que atua. Ora, os únicos seres distintos dos seres humanos e que neles existem são os parasitas (como as lombrigas e os carrapatos), as bactérias (patogênicas ou não) e os vírus. Nunca, ninguém, jamais averiguou, em pessoa alguma, a presença da entidade "consciência": neste sentido, ela não existe e, destarte, não corresponde a um fato.

            Se exprime uma metáfora, deve equivaler, semanticamente, a algo que existe; deve exprimir, mercê de uma comparação, como recurso lingüístico, um fato ou um conjunto de fatos observados: as atitudes altruístas das pessoas, o seu comportamento generoso, a sua empatia e a sua  bondade.

             Parece identificar-se com esta,  a acepção em que a autora emprega o vocábulo em questão, a julgar pela série de exemplos de atitudes altruístas, formulada nas páginas 28 e 30. Neste sentido, ela é sinônimo de altruísmo, sentimento que leva as pessoas a desenvolverem comportamentos em favor dos demais. A existência do termo "altruísmo", com significado perfeitamente caracterizado e notório na língua portuguesa, torna inteiramente dispensável a inovação de sentido que a autora atribuiu à "consciência".

            Tratada como fato e depois como metáfora, não se percebe se, afinal, a "consciência" é um ou é outro. No primeiro caso, ela é falsa; no segundo, é desnecessária.

            Agrava-se, ainda mais, o mistofório relativo à "consciência", mercê da sua identificação com um sentido humano, o "sexto sentido" (página 29). Não se percebe se a autora o considera em acepção própria (a par do tato, da olfação, da gustação etc.) ou (novamente) se à guisa de metáfora.

            Logo abaixo, pondera a autora: "se existe alguma coisa de divino em nós, entendo que a nossa consciência seja essa expressão e, quem sabe, uma fração incalculável do tão falado e pouco praticado amor universal ou incondicional". A ausência de aspas no adjetivo divino manifesta o seu uso conotativo, pelo que se deduz atribuir a autora ao ser humano uma particularidade sobrenatural e própria da divindade.

             "Conceituar ou definir consciência é algo extremamente complexo", afirma a autora, na página  29: aparentemente, a sua complexidade induziu-a a um verdadeiro estado de confusão em que, afinal, não se compreende o que ela seja, porque a própria autora não a compreendeu com clareza suficiente que lhe permitisse explicá-la ao leitor.

            "Isso porque ela está acima de teorias religiosas ou mesmo psicológicas e científicas", continua o mesmo parágrafo. Surpreende que um conceito se ache ou possa achar "acima" das teorias científicas, vale dizer, da observação do fatos. Ora, a própria autora alega uma série de exemplos de comportamentos "conscientes", ou seja, observou fatos em que a consciência se manifesta. Sendo assim, ela é suscetível de análise científica e não se acha acima da ciência, porém dentro dela.

            Também surpreende reputar a "consciência" acima das teorias religiosas, linhas antes de conferir-lhe um aspecto divino, ou seja, de formular uma concepção religiosa, ou, ao menos, um aspecto religioso do seu entendimento do tema.

            Em suma: a autora atribui à "consciência" acepções diversas e introduz  no leitor uma confusão, a mesma que, certamente, existe, neste particular, no seu próprio entendimento e em que, afinal, não se discerne se a "consciência" pertence aos fatos observados, à  uma figura de linguagem, à ontologia, ao domínio sensorial, ao da teologia ou a tudo isto simultaneamente.

            Pode-se admitir a "consciência" como sentimento moral, como sensibilidade em face do próximo (e mesmo dos animais, dos vegetais e do ecossistema em que existe a Humanidade), como critério que leva as pessoas a comportarem-se generosamente, como sinônimo de altruísmo. Neste sentido, que parece coincidir com o que importa ao livro, o psicopata caracteriza-se pela atrofia da afetividade; ele apresenta indiferença emocional em relação ao seu semelhante, consideração exclusiva ou predominante por si próprio e comportamento maligno. Ele  encarna uma pessoa radicalmente egoísta: a tal conclusão, singela e compreensível, reduz-se a abstrusa disquisição acerca da "consciência".

   CONTINUA.

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