Culto no templo do idioma.

 

CULTO NO TEMPLO DO IDIOMA.

Mote: os peregrinismos “crowfounding”, “poster”, “show”.

[Coro formado por um professor, um leitor, um estudante e três populares entoa este hino:].
Oh, céus ! Oh, infernos ! Oh, miséria humana ! Oh, homens pedantes, homens vazios, homens toscos, pobres de espírito, pobres de idioma, pobres de dicionário ! Ignorais a palavra “cotização”, a palavra “vaquinha”,a palavra “espetáculo” ?

Se falais em gravura grande, em estampa retangular, dizeis cartaz, orgulhosamente !
Falantes do português ! Usuários do vernáculo !
Useis cotização com ênfase e ufania; servi-vos de “vaquinha” em meios informais; articulai, para que toda a gente vos ouça, “espetáculo”, “concerto”, “apresentação”.
Brasileiros e brasileiras ”
Repudiemos “crôufúndíngue”, desdenhemos “pôster”, abominemos “chou” ! Livremo-nos destas feiúras que conspurcam nosso léxico!

Desconheceis o vosso idioma ? Sabei-o mal ? É raso vosso léxico ?
Então, desdenhai-lhes das delícias, da volúpia de dizer no que vos pertence; deixai-vos engodar pela tentação de rebuscar o vosso falar com palavrões, de enxovalhá-lo com exotismos irracionais ! Oh, homens, tomai tento no que fazeis, tomais tento em como falais ! Usemos o Português; abandonemos o pedantismo, louvemos o vernáculo, usemos dicionários.

[Todos levantam-se, com o dicionário em mãos. Repetem, em uníssono:].

Preferimos o português, evitamos o inglês; prezamos o nosso idioma, usamos os nossos dicionários, elevamo-nos ao conhecimento do português.
Admitimos a beleza, a graça e a abundância do vernáculo.
Envergonhamo-nos de mal usar e de desdenhar da língua portuguesa.

[Assentam-se. O coro retoma a sua toada:].

Educai o povo, ensinai a gente, propagai o gosto pelo idioma.

[Os assistentes respondem:].

Orgulhamo-nos do nosso idioma, usamos o nosso idioma, evitamos estrangeirismos, consultamos o dicionários, lemos e relemos os clássicos do nosso idioma.

[Todos erguem os dicionários por sobre as suas cabeças e entoam, em uníssono:].

Nós nos orgulhamos da língua portuguesa; nós a aprendemos; nós nos elevamos às suas graça e riqueza; nós lhes cumprimos a gramática; nós lhe valorizamos as regras; nós empregamos o vernáculo e evitamos peregrinismos.

[Todos seguram, contritamente, os dicionários junto do peito, em êxtase sincero.].

[O professor intervém:].

A Humanidade, criadora do idioma, compõe-se de quantos lhe incorporam as realizações, conservam-nas, melhoram-nas e transmitem-nas tão boas quanto as receberam ou aprimoradas. A cada um que desfruta do patrimônio do idioma cabe usá-lo com conhecimento e elevar-se à ciência dos seus recursos, o que eleva o conhecedor por sobre o ignaro e valoriza o discurso de quem sabe bem e bem usa o que todos devem saber e por cujo bom uso a todos compete zelar.
Membro da Humanidade, a cada um incumbem deveres de gratidão pelo quanto recebemos das gerações passadas, da infindável cadeia de milhares dos nossos antecessores que construíram o idioma. Está à altura da Humanidade e será digno de integrar a cadeia das gerações quem mantiver o bom, o belo, o útil, o veraz, e o engrandecer. Está aquém da Humanidade quem degrada, quem empobrece, quem depaupera o legado humano de que é herdeiro e beneficiário. O legado humano compreende, também, o idioma, a gramática, as suas regras, os seus recursos, as suas minúcias que o leviano combate, que o medícre verbera e que o preguiçoso desusa. Entre nivelar a si próprio por baixo ou por cima, é digno e desejável elevar-se, em vez de se degradar: eleve-se ao conhecimento meticuloso do idioma e use-o com qualidade. Leia os clássicos do idioma, estude a gramática, aplique o que aprendeu, evite os vícios do povo, imite os que sabem e não os que sabem menos ou ignoram.

[Gestos de assentimento da parte dos assistentes.].

Leiamos Machado de Assis, Aloísio de Azevedo e José Saramago; empreguemos as preposições corretas, a pontuação, a mesóclise; variemos o nosso vocabulário e o enriqueçamos; empreguemos corretamente os tempos verbais; desprezemos os erros e vícios onde eles se encontrem. Amemos a língua portuguesa !

[Aplausos. Finda o culto com o “sinal do livro” em que, quem deseja aprender pela leitura de bons livros, toca a própria testa com o dicionário. Todos efetuaram-no, no que foram sinceros. Retiram-se os lusófonos pela porta principal e os coristas pela portinha do coro. A seguir, vários dirigiram-se a alfarrabistas e a livrarias; outros, tornaram à casa, onde prosseguiram a leitura de livro].

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