Adriano e Alberto

                                                Adriano e Alberto: duas viagens

28.I.2006

 

                                                                                  Arthur Virmond de Lacerda Neto                                                                            

 

           Aos 27 de janeiro de 2006 compareci a uma ágape, de bota-fora do meu primo Alberto, que partia, como partiu, dois dias após, para o exterior, a fim de trabalhar, como aprendiz, em uma empresa da Austrália, remunerada e planejadamente, por um ano.

Desfrutei da companhia dos circunstantes e, ao final, vim-me, algo entristecido, a pensar no Adriano, que partira em 5 de outubro de 2005, para Palma de Maiorca, no intuito de laborar como jardineiro e empregado de um seu amigo, em princípio por um ano e que ao Brasil regressou aos 13 de fevereiro de 2006.

           O Adriano partira; o Alberto partiria.  O Adriano, para a Espanha; o Alberto, para a Tasmânia. O Adriano, para trabalhar; o Alberto, para desenvolver um estágio profissional. O Adriano, com passagem paga por um amigo, a quem deveu reembolsar a quantia correspondente; o Alberto, com passagem paga pelos seus pais, a quem devia nada. O Adriano, para tentar amealhar algum recurso; o Alberto, para capacitar-se profissionalmente. O Adriano, porque, desamparado em muito, necessitava de ganhar a vida, sozinho; o Alberto, porque, amparado em muito, podia ganhar a vida com o auxílio de outrem. O Adriano decidira subitamente viajar, por falta de opção na vida; o Alberto, longamente madurara a decisão de fazê-lo, como uma opção na vida. O Adriano regressou às custas de um amigo; o Alberto, às próprias, ou dos pais, ou da empresa em que fora estagiar.

           Aquele bródio representara um momento de alegria para o Alberto, que sorria muito, em meio aos seus parentes, que lhe votavam felicidades. Correspondia-lhe, de fato, a uma oportunidade preciosa, na sua vida e para a sua carreira, estagiar como aprendiz no exterior, durante um ano, a acumular experiências profissionais que beneficiá-lo-iam futuramente, no seu regresso, além do enriquecimento pessoal que propiciar-lhe-ia a permanência na Austrália.

           O embarque do Adriano, haver-lhe-á, porventura, representado um momento de alegria, por lhe corresponder à obtenção de trabalho, com que não contava  em Curitiba.

           O Alberto partia porque contara com pais que sempre o acarinharam, que lhe propiciaram estudos, que orientaram-no; em suma, com bons pais. O Adriano partira porque jamais contara com o pai, embora sim com a mãe, que o amava e cujo apoio, entretanto, pouco excedia o moral. O primeiro partiu porque  adminculado pela família e não só; o segundo partiu porque adminculado por um amigo, e só.

           Antes de partir o Alberto, abracei-o. Ao partir o Adriano, não o pude abraçar.

           Não me preocupava  o futuro do Alberto: ele contava com bons pais, que zelassem por isto. Preocupava-me  o futuro do Adriano: ele não contava um  pai que zelasse por isto, embora, sim, com uma boa mãe, que, conquanto  preocupada com ele, escassamente podia beneficiá-lo a respeito.

           Alegrei-me com a perspectiva da viagem do Alberto, destinada ao êxito, toda planejada e segura nas suas várias etapas. Entristeci-me com a viagem do Adriano, toda precipitada na decisão de empreendê-la, e fracassada.

           Desejei que o Alberto permanecesse na Austrália pelo ano que pretendia: tal permanência evidenciaria o proveito da sua estada lá. Desejei, de começo, que o Adriano regressasse em breve, antes do ano que pretendia: apertavam-me e a apertavam-lhe as saudades; desejei, a seguir, que regressasse quando houvesse entesourado o suficiente para reiniciar a sua vida no Brasil e enquanto isto, suportaríamos  a dor sem remédio que são as saudades.

           Na partida do Alberto, achava-se uma vida que progredia; na do Adriano, uma vida que tentava progredir.

           Desejei que a viagem do Alberto resultasse bem e alegrar-me-ia se assim fosse; desejei que a viagem do Adriano resultasse bem e entristeci-me porque não foi assim.

           Antes de partir, recebera o Alberto um jantar dos pais, que reuniu-lhe parentes e  amigos; ao partir, nada recebera o Adriano. Na ágape do Alberto, presenteara-lhe o seu genitor com um rico anel de engenheiro; o Adriano, prenda nenhuma recebera de formatura, porque não tinha estudos.

            Conquanto desfrutasse do jantar e da companhia, embora risse-me e parolasse animadamente, no meu íntimo, achava-me triste, por causa do Adriano, por ponderar que, encontrando-se no exterior, ele ansiava por regressar e chorava de saudades, de angústia, de ansiedade, que a sua viagem correspondera a uma ilusão e a um drama. Alegrei-me por o meu primo Alberto usufruir do quanto usufruía (família, bons pais, estudos, facilidades, conforto) e desejei que o meu amigo Adriano houvesse usufruído e viesse a usufruir de mais do que o mínimo de que usufruía.

           Lembrei-me do Alberto, durante a sua ausência, ocasionalmente; pensei no Adriano, durante a sua ausência, em todos os dias, invariavelmente: do primeiro, com serenidade fleumática; do segundo, com um misto, intenso, de várias formas de sentir.

           O Alberto regressou da sua viagem, e vive. O Adriano regressou, e morreu ano e meio mais tarde, após vários infortúnios.

           Assim são os contrastes da vida, as desigualdades entre as pessoas, as diferenças das respectivas existências e da reação individual aos fatos alheios.                                

 

O Adriano Roberto Magri morreu aos 2 de outubro de 2007, em Ivaiporã (Paraná), aos 24 anos de idade. Deixou uma filha, Camila.

 

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