Universidade sem religião

 
          Universidade sem religião
28.X.2008
 
 (Carta a Carlos Ramalhete)
 Ilmo. Sr. Carlos Ramalhete: 
    Li o seu artigo "As raízes e seus ramos" , na Gazeta do Povo de hoje, 28 de outubro.
    As universidades apresentam, de fato, origem na teologia cristã, o que, todavia, nada significa em relação ao seu papel atual e à forma que devem ou podem adotar atualmente: de terem sido instituições teológicas, não resulta que devam adotar a teologia como credo.
   As universidades são instituições de ensino e de pesquisa, e não de doutrinação religiosa, de qualquer religião que seja. O lugar da religião é na igreja e no recesso do lar dos seus adeptos.  Não é papel do professor nem das autoridades universitárias, o de prestigiarem, enquanto agentes da universidade,  nem a sua religião nem nenhuma outra. São livres para fazê-lo, o quanto queiram, e na forma como entenderem, como privados, sem usar a sua condição funcional nem os recintos da universidade.
  Mesmo porque, a admissão da religião na universidade suscita a pergunta: qual religião admitir-se-á?
  Há inúmeros credos: o católico, o protestante, o batista, o evangélico, o judaico,o muçulmano, o budista, o positivista, o satanista, o politeico, o feiticista, o totemista.
   Todos eles serão professados na universidade ou adotar-se-á um ou mais de um? Haverá privilégio de religião  e discriminação? 
   Deve haver imagens religiosas e cultos nas universidades- cultos  xintoístas, budistas, ateus etc., desde que haja um único aluno ou professor ou funcionário adepto de qualquer um destes credos. Certamente , não é isto o que o senhor advoga: o senhor advoga, implicitamente, a adoção do cristianismo e, ironicamente, critica a "ditadura do laicismo", pregando a "ditadura do cristianismo".
  Não, definitivamente, não é isto que quero nem é isto que deve prevalecer, em universidade nenhuma, em Estado nenhum.
     Tais perguntas sequer devem-se formular, porque não se deve admitir nenhuma manifestação religiosa na universidade. Quem postula a religião na universidade, pretende, na verdade, impor a sua religião, presumivelmente, o catolicismo romano, sob o argumento de corresponder à confissão da maioria. E a minoria? Ela não existe, não conta?
    A nossa sociedade não é adolescente, não há revolta contra as origens do que dizemos prezar. Ao contrário, há um evidente sentido de maturidade na distinção dos papéis da universidade e da igreja; há um espírito de ensino e de pesquisa na primeira e de fé, na segunda, no exato sentido do dai a César o que é de César e a deus o que lhe pertence.
   Demais, se as pessoas prezam certos valores que por séculos estiveram ligados ao cristianismo, não são obrigadas a adotarem-no, por prezarem aqueles valores. Ninguém precisa de ser cristão para ser honesto, preferir a verdade, praticar a bondade, ser compassivo, fiel no casamento, não roubar, não matar etc., etc., etc.
  Os valores laicizaram-se, ou seja, passaram, felizmente, a prevalecer e a ser adotados pelo seu sentido humano, pelo seu resultado na vida social, e não mais em nome do sobrenatural e como dogmas do cristianismo.
 Laicidade; Estado sem religião; universidade sem religião; liberdade de religião; religião como assunto privado e a praticar-se na igreja e no lar: este é o caminho da maturidade e da concórdia sociais.
     
 
      Saúde e fraternidade.
   Arthur Virmond de Lacerda Neto.

               Leia aqui o artigo de Carlos Ramalhete:

             http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/opiniao/conteudo.phtml?tl=1&id=822190&tit=

 

 

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