O quinze de novembro

O quinze de novembro. Desinformação impatriótica

                                                                                             2003

                                                                       Arthur Virmond de Lacerda Neto

 

            Embora data crucial da história brasileira, a  de quinze de novembro corresponde a uma efeméride da qual muita gente já se deslembra,  que muita outra ignora e que alguns mesmo desprezam.

            Nas últimas três décadas, a mentalidade do brasileiro médio sofreu processo de intensa transformação, a revolução cultural, ideada por Antonio Gramsci e executada em todos os âmbitos do ensino pátrio. A revolução cultural consiste em introduzirem-se novos conceitos e valores, por modo a, lenta e gradualmente, tornar as pessoas receptivas ao socialismo, enquanto visão de mundo e forma de organização social.

            Na revolução gramsciana, o saber serve a objetivos políticos e não à busca da verdade, e o ensino, não à transmissão de conhecimentos, porém ao doutrinamento  da juventude, submetida a uma interpretação ideológica da história, da filosofia, do direito, da gramática e de tudo o mais.

            Detentores natos de uma audiência que se renova ano após ano, os docentes gramscistas incutiram nos moços os conceitos  de luta de classes e a convicção de que a história, tal como vem sendo transmitida, é “oficial”, ou seja, narrada consoante o ponto de vista dos opressores, padecendo, pois, de uma parcialidade que impõe-se denunciar e desfazer.

            Não nego que muitas vezes prevaleçam as vistas dos que preponderaram socialmente e que a narrativa histórica mereça completar-se, por amor da verdade, com a voz, com o sentimento, com o pensamento, de todos os grupos sociais de cuja coexistência resulta o desenvolver histórico. Tal representa uma exigência de justiça e de verdade, que não deve ser empregada como instrumento de persuasão ideológica.

            Porém é exatamente neste último sentido que a revolução gramsciana apropriou-se da história  nacional, descrita como o desenrolar miserável da opressão e da injustiça de alguns sobre os demais. À consciência desprevenida do estudante, ensina-se a odiar e a desprezar  a colonização portuguesa e os vultos históricos nacionais, a suspeitar-se da intenções destes, a em todos os momentos enxergar-se estratagemas de dominação.

            O resultado desta pedagogia que se prevalece da ingenuidade e da credulidade natural do discente no docente, é o  sentimento de que o passado nacional, sendo odioso, é desprezível e que, portanto,  merece desprezo e esquecimento. Ensinando-se um povo a desprezar a sua origem, debilita-se o senso de dedicação à coisa comum, a abnegação em favor da pátria, o orgulho  que devemos ter do que de melhor, de honroso, de generoso, em homens e em fatos, legou-nos nosso pretérito, como patrimônio coletivo que deveria inspirar atitudes e motivar valores, educando pelo exemplo.

            Muitos dos nossos compatriotas ignoram o que se passou em 15 de novembro de 1889. Há quem o confunda com a independência, com a abolição, com a abertura dos portos e quem não faça nenhuma idéia da efeméride, a evidenciar um grau de ignorância cuja existência escandalisa e alarma.

            Há quem nele vislumbre apenas a substituição de camarilhas nas classes dominantes, a que as massas teriam assistido alheias ao que se passava,  “bestializadas” na especiosa e célebre expressão de Aristides Lobo.

            Há quem no quinze de novembro enxergue o que a proclamação apresentou de digno, de nobre, de exemplar: uma alteração política radical, operada pacífica e ordeiramente, sem derramamento de sangue, que atendeu a uma aspiração generalizada do povo brasileiro.

            De fato, a partir de 1870, o anseio pela república desenvolveu-se em todos os quadrantes do país, em que multiplicaram-se grêmios e gazetas identificados com aquele ideal, cuja concretização aguardaria, no máximo, o óbito do imperador, cuja pessoa merecia respeito de muitos de quantos ansiavam pela extinção do trono que ele ocupava.

            Miguel Lemos e Teixeira Mendes, oráculos do Positivismo, aconselharam reiteradamente ao monarca a  proclamar ele próprio a república, por modo a evitar um ato de força que o depusesse e a  satisfazer ao clamor dos seus governados: teria sido um fecho patriótico e digno de um longo reinado. Como seria natural,  foi-lhes porém surdo o monarca, que terminou deposto.

            Resultante de uma conspiração articulada pelo Tenente-Coronel Benjamin Constant Botelho de Magalhães e concertada com vários republicanos civis e militares, a deposição, efetuada pelo Marechal Deodoro da Fonseca, operou-se respeitando quer a vida, quer a segurança do imperador e da sua família, ou seja, pelo modo mais honroso aos conspiradores e aos Bragança, ao mesmo tempo em que atendia a uma aspiração nacional generalizada. Note-se que a iniciativa da proclamação foi precipitada pelos  cadetes da Escola Militar do Rio de Janeiro, mocidade entusiasta que de certo modo induziu Benjamin a liderá-los em direção à república.

             A importância da transformação política verificada em quinze de novembro de 1889, o modo pacífico porque aconteceu ela e o papel nela representado pelo exército, são motivos que tornam aquela data justamente memorável na história pátria, que honram a força armada e que fazem dos articuladores  da república brasileira nomes  que dignificam nosso passado.

             

           

           

           

 

 

 

 

 

 

 

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