“Chame-me pelo seu nome”. Tradução brasileira.

 

“CHAME-ME PELO SEU NOME”, TRADUÇÃO BRASILEIRA.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

18.III.2018.

Intitula-se, na sua versão brasileira, Me chame pelo seu nome, o romance de André Aciman (editora Intrínseca; 287 páginas; 2018; tradução de Alessandra Esteche), ambientado na Itália, dos anos de 1980, em que um pesquisador de filosofia antiga (Oliver) hospeda-se na casa campestre de família, cujo filho, Élio, por ele se interessa, sexualmente, e vice-versa.

Compõe-se de quatro partes o livro, em que se nota diferença abrupta entre as três iniciais e a derradeira: naquelas, péssimo tratamento da psicologia do protagonista; superficial exploração de lances interessantes; medíocre entrecho; uma analepse que ocupou espaço sem nada acrescer.

A contrapelo, a quarta secção é (a única) interessante, com lances dotados de alguma fineza psicológica e de beleza de sentimentos, em considerações que as personagens enunciam; no diálogo de Élio com seu pai (que, mesmo assim, mereceria tratamento mais desenvolvido); no reencontro dos protagonistas, vinte anos depois.

O desfecho da narrativa é belo e o conjunto da secção final marca abrupto desnível, para melhor, em cotejo com o quanto o antecede. Dir-se-ia haver dous autores: um, nas três primeiras partes, um tanto desorientado no encadeamento dos fatos e de imaginação limitada; outro, na final, em que expõe a capacidade do autor, que a descurou nas precedentes (hipótese nada fantástica, à vista da existência de logógrafos, redatores ocultos que redigem livros, por encomenda, e que terceiros publicam com os seus próprios nomes, como seus pseudo-autores ou parcialmente autores.). Dir-se-ia, também, valer a pena a leitura apenas do capítulo derradeiro, se o leitor exigente pudesse se poupar dos três capítulos iniciais.

Em suma: eis livro sofrível em três capítulos, e bom, em um.

Talvez no afã de manter fidelidade ao original, a tradução brasileira empregou redação coloquial, muitas frases-feitas, vulgaridades e tabuísmos, a exemplo de pau, cu, duro, dar umazinha. Não que me escandalize a presença de semelhante vocabulário; o tom geral de vulgaridade do texto, todavia, em considerável medida empana o efeito de sinceridade que elas surtem.

Sobre isto, padece da ausência de pronomes indispensáveis, há nenhuma mesóclise, repete-se o verbo colocar em lugar de vestir, empregaram-se adjetivos em jeito de advérbios de modo, ocorrem anglicismos sem aspas nem itálico, faltam vírgulas; é permanente a coloquialidade: lê-se o que fala o homem brasileiro médio, ou talvez o homem brasileiro abaixo da média desejável, em termos de habilidade e de acurácia idiomáticas, na sua pobreza vocabular, na sua incúria lingüística, no seu desconhecimento de vários recursos de comunicação, na forma inferior como sabe o vernáculo e o usa.

Neste sentido, a tradução testemunha o triste estado do idioma, no Brasil hodierno, e sofre da desvirtude de ser totalmente “datada”: dentro de breves anos, abundantes leitores já se haverão olvidado dos coloquialismos hoje correntes e, à medida em que o tempo passar, cada vez menos o leitor futuro entenderá, comodamente, o texto de 2018, nas suas inúmeras passagens imitantes da oralidade, de certa, e ruim, oralidade.

Certamente, a versão atende ao interesse editorial e, possivelmente, não aspira à perenidade, sequer à durabilidade. Interessa que ao vulgo nosso coevo depare-se-lhe texto equivalente a como fala e ouve, ao ponto do desleixo, com que se sentem à vontade os sub-instruídos no idioma.

Há incúria na tradução “Falou sobre os dois filhos que naquele instante estavam brincando na sala com minha mãe, oito e seis […]” (página 267). Em inglês, indica-se a idade das pessoas por números (como 8, 6); em português, escreve-se o número respectivo e se lhe acrescenta a informação “anos de idade”. A tradutora cingiu-se a imitar o inglês, sem obter o equivalente vernacular, que seria: “de oito e seis anos de idade”. Ainda que na redação jornalística eventualmente se posponha número ao nome (por exemplo: Floriano Peixoto, 40), aliás, por imitação de uso (norte-) americano, no Brasil, entre brasileiros, em literatura de língua portuguesa, não há tal. As traduções para o português devem manter-lhe fidelidade aos usos. Vertesse “Falou sobre os dois filhos, de oito e seis anos de idade, que naquele instante […]” e tê-lo-ia feito com propriedade. Ao invés, mecanicamente e com inépcia.

O cúmulo do achatamento da tradução consiste em dois “por causa de que”; o cúmulo da incúria da tradução (ou sinal da ignorância da tradutora) manifestou-se em duas ocorrências de “vinho do porto” (obviamente, trata-se de Porto, cidade.). Houve descuido no emprego de regências distintas para o mesmo verbo; houve negligência na construção de frases, de que alguns elementos omitem-se.

Há solecismo sintático no título, com próclise. Ainda que, no texto traduzido, se praticasse próclise, em vez da ênclise possível, o título não constitui citação (caso em que deveria levar aspas), senão oração autônoma. As traduções francesa e espanhola empregaram ênclise, como, aliás, o próprio original (Call my by your name): seguisse, nisto, a tradução brasileira, o original, e teria andado melhor. Possivelmente, ela lhe pretendeu fidelidade, na adoção da oralidade, também no título, devido ao uso corriqueiro de próclise em início de frases.

Aguardo a tradução portuguesa, para eventual cotejo. Não vá Portugal cometer o erro de publicar a versão brasileira: envileceria o seu acervo literário.

Em três palavras: porcaria de tradução. Ainda que o original acompanhe a coloquialidade (o que me pende por averiguar), o fato é que a tradução o faz, não apenas nos diálogos (o que é natural), bem como na narrativa, o que não é necessariamente natural nem edificante, e que a destina a logo perecer. A loqüela coloquial de muitos brasileiros medianos é tacanha, defeito que a tradução incorporou magistralmente. Será este o seu único mérito ou “mérito”.

Objetar-se-me-á, acaso, que a tradução logrou êxito e cumpriu com a sua função, pois transpôs o original fielmente, com toda a sua coloquialidade. Admito que possa ser assim; em simultâneo, a qualidade do texto, não como transposição, porém como redação em vernáculo, é mui descuidada.

Traduções e tradutores brasileiros, primorosos, de alta qualidade, houve-os, vários, até fins dos anos de 1970, quando principiou o declínio perceptível do esmero nos textos. A tradução em causa exprime o estado atual de tal desqualificação crescente.

Leiam-se os contos de Machado de Assis, que os estampava em diários cariocas e os destinava ao público em geral (e não especialmente a leitores eruditos ou cultos): revelam, na sua redação, apuro de linguagem, emprego exato da pontuação, escorreição do texto.

O brasileiro médio, da altura, alfabetizado e leitor de diários, era capaz de aceder ao talento de concepção e à escorreição da redação de Machado de Assis. Sirvam-nos os abundantes contos de Machado (bem assim os romances de Aluísio de Azevedo) de testigos do estado do idioma, no Brasil, cerca de cento e quarenta anos atrás (mais década, menos década): bem melhor do que o que se nos depara em Me chame pelo seu nome, cujo original, se reproduz a coloquialidade a que, porventura, se acha afeito o seu autor, constitui peça de má literatura, e cuja versão brasileira constitui, deveras, peça de sub-literatura.

Elevemos o nível da produção literária nacional; saibamos distinguir o que nos engrandece do que nos rebaixa; aprendamos a louvar o bom, o melhor e o ótimo, e a desdenhar dos seus opostos.

Urge aprimorar o conhecimento e o uso do português no Brasil à altura dos seus recursos, da sua riqueza vocabular, da sua exatidão de comunicação, da sua pontuação correta, da construção de frases dotadas de todos os elementos do discurso. À oralidade e à coloquialidade não são inerentes a baixeza: elevemo-las.

Ao filme, não assisti; todavia, notei-lhe uma incongruência: a personagem Oliver, no livro, conta 24 anos de idade; no filme, aparenta bem mais.

 

Mandei impressa e por via eletrônica.

Ilmo. Sr. Diretor da editora Intrínseca.

Curitiba, 23 de fevereiro de 2018.

A editora Intrínseca acaba de publicar “Me chame pelo seu nome”, título que corresponde à derradeira oração do livro assim nomeado.

Entre, contudo, a oração final do livro e o título, há uma diferença: a de que não se principia, em bom português, frase com pronome oblíquo, embora possa-se usá-lo a meio de frase. O pronome oblíquo, no caso, é “me”, corretamente anteposto ao verbo chamar, no meio da frase final do livro e que, no caso do título, jamais poderia, em bom português, anteceder o verbo.

O título gramaticalmente correto é e só pode ser “Chame-me pelo seu nome”, o que, aliás, corresponde à forma do próprio original. Com ênclise traduziu-se em francês (Apelle-moi par ton nom), em italiano (Chiamami col tuo nome), em espanhol (Llámame por tu nombre): para além do original, três idiomas correlatos ao nosso empregaram, corretamente, a ênclise. Inexiste, ainda, tradução em Portugal, do livro, porém os anúncios do filme nomeiam-no Chama-me pelo teu nome.

Até aqui, somente a tradução brasileira incorreu no solecismo de praticar a próclise em lugar em que ela é indevida e errada. O título não corresponde a excerto da frase final do livro e sim frase autônoma, pelo que, consoante regra elementar de gramática, a sua forma deve ser “Chame-me”, a menos que ele se redigisse como citação: […] me chame pelo seu nome.” Não é assim nem seria de esperar que fosse assim. Era de esperar a construção Chame-me.

De nada vale alegar-se que a próclise é correntia, no Brasil; que “todo o mundo” fala assim; que o livro “destina-se ao grande público”; que ele “não é acadêmico”; que “a língua é viva e muda”. São subterfúgios que não justificam o desacerto e que contribuem em nada para educar o público leitor.

Pratique, a editora Intrínseca, o bom vernáculo. Dê, a editora Intrínseca, o bom exemplo. Use, a editora Instrínseca, os seus livros como veículos de educação. Corrija, a editora Intrínseca, o título do livro, em próxima impressão dele; nada lhe custa e ser-lhe-á prestigiante.

Com meus votos de saúde e prosperidade.

Arthur Virmond de Lacerda Neto

 

 

 

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Uma resposta para “Chame-me pelo seu nome”. Tradução brasileira.

  1. O blogue francês Gay cultes publicou breve análise do romance (que qualifica de bom) e do filme:
    “Appelle-moi comme tu veux (nouvel épisode)

    Je comprends pourquoi le film de Luca Guadagnino a reçu l’Oscar de la meilleure adaptation.
    J’ai lu le roman d’Aciman pendant mes trop courtes vacances et je vais même jusqu’à dire – ce qui n’est que mon avis, on n’en déclenche pas une polémique ! – que le film parvient à gommer les aspérités de l’œuvre originale, laquelle ne parvient qu’à de très rares moments à émouvoir.
    D’emblée, le simple fait d’avoir laissé la Toscane balnéaire à ses touristes pour situer l’action dans un petit patelin de la campagne lombarde est une excellente idée.
    Pour le reste, la virée à Rome des deux amants (leur ultime partage) est gâchée par l’arrivée de personnages qui présentent fort peu d’intérêt.
    Ivory le ressent, qui “délocalise” avec bonheur les derniers jours/nuits d’Elio et Oliver à Crémone, à Bergame et autres lieux de l’Italie du nord.
    Les trivialités douteuses semées ça et là dans le texte original ont de toute évidence déplu à James Ivory (à moi aussi). Ainsi, l’adaptateur parvient à éviter les écueils, y compris dans la “fameuse” scène de la pêche que le roman détaille inutilement, non sans vulgarité.
    L’épilogue, enfin, bouleversant au cinéma (presque tous en conviennent) s’étire interminablement dans le roman que l’on pourrait apprécier mieux, d’ailleurs, s’il était allégé d’une bonne cinquantaine de pages.
    Il m’apparaît donc judicieux d’avoir adapté au cinéma un bon roman (resté sans écho lors de sa première parution) pour le sublimer ; c’est toujours mieux que d’assassiner des chefs-d’œuvre.”.

    Original em https://gaycultes.blogspot.com.br/?zx=fae151eb4c02f106

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