O general Carneiro e a Lapa.

                                                           O general Carneiro e a Lapa

 

                                                                       2009

                                                                                                              Arthur Virmond de Lacerda Neto.

 

                                                                                                                                                Distribuo estas notas todos os anos e, a cada um, acrescento-lhe informações: elas sempre são maiores do  que no ano precedente. Assim, de modo sempre enriquecido, rememoro uma das glórias do Brasil e um dos momentos cruciais da nossa vida cívica e militar.

                                                                                                                            

Aos 9 de fevereiro de 1894 morreu o general Antonio Ernesto Gomes Carneiro, na cidade da Lapa, no Paraná.             Nasceu na antiga cidade do Cerro Frio hoje Serro, em Minas Gerais, em 1846. Serro chamou-se, de começo, Vila do Príncipe; a Lapa, chamou-se, de começo, Vila Nova do Príncipe de Santo Antonio da Lapa. Ele nasceu na antiga Vila do Príncipe e morreu na antiga Vila Nova do Príncipe.

Foi comandante do então tenente Cândido Rondon, no estabelecimento das linhas telegráficas no Mato Grosso; morreu aos seus 48 anos de idade e tem descendentes em Curitiba.

Em 1893, verificou-se a Revolução Federalista, em que os maragatos (revolucionários) revoltaram-se, no Rio Grande do Sul, com forças que ocuparam aquele estado, o de Santa Catarina e o do Paraná, em que três cidades resistiram: Tijucas do Sul, por 3 dias, Paranaguá, por 4 e a Lapa.

Era intuito dos maragatos alcançarem o Rio de Janeiro e deporem o marechal Floriano, implantarem o parlamentarismo e, possivelmente, restaurarem a monarquia, abolida em 1889.

Dado o avanço das forças revolucionárias, Gomes Carneiro, então coronel, foi comissionado pelo marechal Floriano, como comandante da praça da Lapa, cuja importância estratégica para a revolução era insignificante.

Apesar desta insignificância, os revoltosos resolveram sitiá-la  e ocupá-la, em um cerco que, supostamente, duraria uma semana, se tanto, dada a desproporção de forças: havia 3mil sitiantes contra 900 sitiados.

Graças à bravura do coronel Carneiro e dos seus subordinados (Joaquim Lacerda, Serra Martins, Emílio Blum, Felipe dos Santos e outros), a cidade resistiu ao cerco, do dia 11 de janeiro a 14 de fevereiro.

No dia 7 de fevereiro, em um ataque de metralhadora, Carneiro foi atingido por um projétil no fígado e morreu dois dias depois.

No dia 11 de fevereiro, a Lapa rendeu-se, do que se lavrou uma ata, subscrita pelos chefes dos rendidos e dos ocupantes.

Mercê da resistência da Lapa, as forças governistas (chamadas de pica-paus) organizaram-se e debelaram a revolução, com  o que, o regime pode manter-se: a resistência da Lapa assegurou a manutenção do governo de Floriano e a da república.

Tratou-se de um dos episódios mais notáveis da história militar do Brasil e um dos três eventos pelos quais o Paraná adquiriu importância na história do país (os dois outros consistindo no ataque da fortaleza da ilha do Mel ao cruzador inglês Cormorant, em 1850, de que resultou a lei Eusébio de Queiroz que, em 1851, extinguiu a importação de escravos; a fundação da Universidade do Paraná, em 1912, que foi a terceira a ser criada no Brasil e é a mais antiga universidade brasileira).

Ao partir o derradeiro trem, da Lapa, para Curitiba, Carneiro ofereceu-o às mulheres da Lapa, para que partissem quantas desejassem evitar o perigo dos ataques de que a cidade foi o alvo. O trem partiu vazio: as mães, as filhas, as mulheres, as irmãs dos lapeanos quedaram-se na cidade, submetidas a todas as agruras do bombardeio e dos tiroteios que se prolongaram por vinte e seis dias.

Na resistência da Lapa sobressaíram a determinação de Carneiro em cumprir o seu dever (resistência a todo transe), a bravura da gente lapeana (civis destituídos de formação militar) e abnegação das mulheres lapeanas (que se mantiveram ao lado dos seus familiares).

Como toda guerra, como todo cerco, o da Lapa foi sanguinolento. Morreram, no recinto assediado, cerca de oitenta pessoas, cujos corpos jaziam, muitas vezes, mal sepultos, por falta de condições de se lhes propiciar uma inumação em condições.

Da violência do assédio, deixou um depoimento o dr. Felipe Maria Wolf, médico que serviu na cidade, durante ele, em primeiro de fevereiro de 1894: “Isto não é mais guerra! É um extermínio, uma caça às feras. Onde aparece uma cabeça, um peito, onde alguém faz um movimento, onde um homem se deixa ver, em sua direção é feita a pontaria e o tiro”.

Na sua mensagem de 3 de maio de 1894, Floriano, que atribuiu a Carneiro a missão de deter o avanço dos revolucionários na Lapa, aludiu à “gloriosa auréola de um morto – a heróica defesa da cidade da Lapa…onde o bravo general Gomes Carneiro escreveu a página mais admirável, talvez, da história militar de um povo”, ao menos do brasileiro…

Miguel Lemos, chefe, ao tempo, do Apostolado Positivista do Brasil, julgou-o como “tipo eminente da dignidade militar e do devotamento cívico”.

O dr. Wolf qualificou Gomes Carneiro de “homem de ferro” e dele escreveu: “Cada vez  me convenço mais  de que Carneiro era um monstro heróico. Apesar de não existir qualquer esperança em resistir por mais de dois ou três dias, ele não renunciou, obstinando-se em não se entregar”.

Médico baiano, o dr. Ângelo Dourado, federalista que se achava em Curitiba durante o cerco, escreveu: “O coronel Carneiro pode ser considerado um dos homens mais valentes que temos tido. Mereceria uma estátua pela sua bravura e constância”.

E Lima Barreto, no seu “Triste fim de Policarpo Quaresma”, consignou: “No Sul, a insurreição chegava às portas de São Paulo, e só a Lapa resistia tenazmente, uma das poucas páginas dignas e limpas de todo aquele enxurro de paixões. A pequena cidade tinha dentro das suas trincheiras o Coronel Gomes Carneiro, uma energia, uma vontade, verdadeiramente isso, porque era sereno, confiante e justo. Não se desmanchou em violências de apavorado e soube tornar verdade a gasta frase grandiloqüente: resistir até à morte”.

De fato, ferido e já desenganado, ao pedido de ordens que lhe dirigiam os  seus oficiais, respondia-lhes: “Há uma ordem só: resistência a todo transe”.

Na Lapa visitam-se a igreja, de 1784, dois museus de armas (um deles, situado na cadeia velha), o Panteon dos Heróes (mesmo assim, com “e”), monumento em que jazem Carneiro, Lacerda, Amintas de Barros, Dulcídio Pereira e dezenas de combatentes; a Casa Lacerda, de 1841, museu de época, além do casario antigo do centro da cidade.

É passeio agradável, instrutivo e cultural.

No medíocre museu que se instalou na casa, na Lapa, em que morreu o gen. Carneiro, exibe-se uma espada que ali se identifica como havendo-lhe pertencido. Tal informação é falsa: aquela espada não lhe pertenceu. A que lhe pertenceu era outra, que se exibia no desfeito Museu David Carneiro. E assim se falsifica a história.

 

 

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5 respostas para O general Carneiro e a Lapa.

  1. Ana disse:

    Que belo artigo! A Lapa é uma cidade linda! Cheia de história e emocionantes relatos de vida. Visitem esta cidade, e saibam mais sobre a história do Brasil e do Paraná.

  2. boa tarde, gostaria se saber mais , inclusive sobre a arvore genealogica.

    Abraço Leonardo N.Gomes Carneiro

  3. Olá, Arthur.
    Belo post. Os feitos dos combatentes lapeanos são comparados, por alguns historiadores, às resistências militares ocorridas nas Termópilas e no Alamo. Grandes heróis.
    Abraço
    Arildo

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