Costumes dos anos 50 e 60.

 

 

                           COSTUMES DOS ANOS 50 E 60.

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

14 de abril de 2016.

 

São reflexões motivadas por um octogenário curitibano que louvou os costumes brasileiros dos anos 50 e 60.

Nos anos 50 e 60, em Curitiba e no mais Brasil, o lugar típico de existência da mulher era o lar, como mulher do seu marido e mãe dos seus filhos, e nada mais. São belos e nobres papéis, que admito, gostosamente; reprovo o adendo “nada mais”.

Mulher desquitada era tratada como prostituta e marginalizada como “fruta caída do galho” (marido desquitado também padecia do mesmo estigma, conquanto em grau minorado). O divórcio era proibido. O concubinato era objeto de desprezo público. A virgindade pré-marital obrigava às mulheres, porém não aos homens. Prevalecia formalidade do traje (malgrado o calor tropical). Havia pudor, recato e gimnofobia (horror da nudez). Havia hetero-normatividade, com homofobia, casamentos infelizes de homossexuais que desposavam mulheres e mulheres que desposavam homens para satisfazer à expectativa dos seus pais, das suas famílias, dos seus amigos e da sociedade. Também havia teo-normatividade católica, com a hipocrisia dos muitos que se declaravam católicos não praticantes, ou seja, nominalmente católicos e realmente indiferentes. Os homens solteiros eram bordeleiros (a prostituta, desprezada, era imprescindível para salvaguardar a virgindade das moças de família). Os maridos mantinham amantes. Havia dupla moral: da mulher exigia-se recato e domesticidade; para o homem, autorizava-se a satisfação da sua lascívia, fora do casamento. Havia distância entre gerações, assuntos que se calava diante das crianças e dos adolescentes ou que se lhes sonegava. Os pais tratavam os seus filhos autoritariamente. Fiscalizava-se a vida alheia, pelo que havia acentuada preocupação com “o que os outros vão pensar” ou com “o que os outros vão dizer”: subalternizavam-se as preferências individuais, a autenticidade e a singularidade individuais em favor da sujeição ao controle alheio. (Parente meu observou-me que, antanho, os homens tinham filhos naturais e os assumiam materialmente (ou seja, concorriam para a sua mantença, apesar do seu caráter clandestino ou discreto) e que, hoje, os rapazes procriam e dissociam-se das mães e dos filhos.).

De homossexualidade, casamento homo, poliamor, mesmo divórcio, nada digo: seria demasiada modernidade para mentes de 50 ou 60 anos atrás, salvo para gente esclarecida e despreconceituosa, raríssima ou nenhuma, então. Seria demais esperar que a houvesse no ambiente brasileiro, já recatolicizado e, notadamente, curitibano.

Eu teria detestado viver então. Prefiro hoje, em que as pessoas vivem com (mais) liberdades, cada qual a seu modo, sem (tanto quanto dantes) a injunção social de satisfazer às expectativas alheias. E quanta repressão, quanta caretice, quanta proibição, décadas atrás ! Muito conservadorismo de mentalidades devido, em substancial parte, à herança católica e à presença do catolicismo como afirmador da centralidade da família cis-hetero-normativa-procriadora-monogâmica-patriarcal e da intensa repressão sexual e de costumes.

Os tempos mudaram; eles sempre mudam. Os valores de sessenta anos atrás prescreveram; o valioso em uma geração não o é necessariamente em outra. O que é sólido padrão ético em dado tempo, é, porventura, desdenhável no que o antecede ou sucede, motivo porque improvavelmente as netas  mantêm os padrões das suas avós, notadamente as netas de 2016 em relação às respectivas progenitoras, especificamente no Brasil de hoje, em que são presentes a liberdade sexual, a contracepção, o feminismo, a igualdade com os homens, o divórcio, o acesso das mulheres à instrução superior e às profissões em geral, a sua delas emancipação da subserviência em face dos homens, o casamento lésbico.  Em suma, mentalidade outra a que correspondem costumes diversos.

A sociedade brasileira mudou, de então a esta parte, para melhor: desvencilhou-se dos padrões de então, repressores, preconceituosos, tacanhos.

Para as gentes formadas nos anos 50 e 60, a liberdade atual afigura-se libertinagem, confusão que contém um pressuposto oculto, o de que se deve limitar a liberdade feminina (notadamente sexual) para ela não se deteriorar-se em descomedimentos censuráveis (ou coisa que o valha). Antes, o normal e o moral eram extremamente repressores; hoje, não mais. No sentir de quem adere ao modelo mental de décadas atrás, o presente é libertino e o condicionamento da liberdade era virtuoso; no sentir de quem se põe neste tempo, o passado era repressor e é virtuoso o exercício da autonomia individual. Na mentalidade antiga, o mote consistia em “não pode”; na mentalidade atual, o lema inverteu-se: “pode”, sem sinonímia com “pode tudo”.

Objetivamente, há diferença entre um e outro tempos, a da menos liberdade anterior, o da mais liberdade coeva. Se se tomar a liberdade como critério, então, o tempo anterior era ruim, em comparação com o atual; se se tomarem como critério os convencionalismos de 60 anos atrás, então o tempo passado era bom e este, nem tanto.

A expressão “sólidos padrões morais e éticos”, afirmada por quem foi plasmado nos anos de 1950 e 60, sabe-me a apego a padrões já ultrapassados e a desdém pelos atuais, como se estes não fossem virtuosos nem sólidos. Deveras não o são, para quem julga sólidos apenas os seus próprios, na incapacidade de perceber que em outros tempos vigem outras mentalidades.

Os valores e os costumes não se cristalizam, porém são dinâmicos: alteram-se. Cristalizam-se as mentes de algumas pessoas que, por assim dizer, estacionam no tempo: estes são os velhos, os que envelhecem, os cuja axiologia e cuja cosmovisão mantêm-se no etos da altura em que se lhes plasmou a consciência, e não souberam ou não quiseram adaptar-se às inovações, naturais e inevitáveis.

Velho, para mim, é quem se deteve no tempo, quero dizer, quem cuja mentalidade resiste a pelo menos entender  evolução da sociedade em que vive, ainda que não participe dos novos costumes.

Neste sentido, percebo sintoma de velhice em o anoso que se ufana dos seus “sólidos padrões morais e éticos”, para indicar que mantém padrões de comportamento antigos de 50 ou 60 anos, em que ele constituiu as suas verdades axiológicas. Julgo ridículo e ingênuo asserir que as suas filhas e netas conservam tais padrões: o avô construiu a sua forma mental décadas atrás; as netas fazem-no neste e diferente tempo. O avô julga que as netas dele pensam como ele: é ingênuo. Não percebe em que mundo elas vivem: no delas e não no dele.

Os anos 50 e 60 do século XX acabaram. Alguém foi feliz neles? Foi-o dentro do que, então, era possível ser. Não nego a legitimidade nem a sinceridade da felicidade de quem a experimentava então. Mas comparo a forma de ser ou de poder ser feliz então com a forma de sê-lo ou poder sê-lo agora e concluo que, hoje, as pessoas dispõem de mais liberdade e, nela, de mais opções de serem felizes ao seu modo, com mais autenticidade, menos repressão, mais verdade, mais singularidade, mais naturalidade, mais espontaneidade, menos padronização, menos imposição, menos caretice, menos preconceito.

A “confusão” entre liberdade e libertinagem é típica do etos arcaico, da mulher “direita”, da “moça de família”, que se casa virgem, vive no lar e para ele, não se divorcia, não cursa faculdade e se exerce labor externo, é em funções subalternas e “femininas” (como enfermeira, secretária, professora primária, costureira). Este modo de ser, de estar, de entender, prescreveu.

Os jovens de 2016 (máxime na sua parcela feminina) sentem a liberdade, querem-na, vivem-na e não julgam a sua liberdade como libertinagem. Nem eles nem eu. Entre a caretice dos anos 50 e 60 e o presente, reconforta-me saber que vivo neste.

Algum velhote leva-me a mal estas ponderações, porque as leva para o lado pessoal? Paciência. Cada um reage como pode.

Nos anos 30, Estefano Sweig visitou o Brasil e redigiu o seu “Brasil, país do futuro”. Notou manterem-se, então, ainda, no Brasil, costumes já obsoletos e desusados na Europa há cerca de duas gerações, ou seja, aproximadamente cinqüenta anos. Em 1930, o brasileiro das grandes capitais achava-se, mentalmente, como os europeus de cerca de 1880.

Em 2016 o fenômeno se repete – menos mal que apenas residualmente e ainda bem que os jovens, especialmente na sua parcela feminina, aderem, em geral e conscientemente, aos costumes de liberdade, de oportunidades, de igualdade, em que se abrandaram preconceitos, sujeições, desigualdades, mitigou-se o espaço de frustrações pessoais e alargou-se o âmbito das possibilidades de realização pessoal.

Para perceber a evolução do etos e dos costumes brasileiros no sentido da liberdade, sugiro “Histórias íntimas”, de Mary del Priori, que os descreve nas suas metamorfoses, com ênfase no século XX.

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