Vício do duplo sujeito em textos.

ESCREVA BEM. EVITE O VÍCIO DO DUPLO SUJEITO. É PARA VOCÊ, QUE ESCREVE TEXTOS.

 

VÍCIO DO DUPLO SUJEITO DOS  BRASILEIROS.

Os jornalistas brasileiros, os autores de textos acadêmicos (monografias, dissertações, teses) e muitos de quantos redigem no Brasil, praticam o vício do duplo sujeito. Usam, viciosamente, perífrases. Não sabem escrever sem ele, desaprenderam alternativas de construção de frases sem ele. São incapazes de usar os pronomes em lugar da repetição do sujeito. Por exemplo: ‘Produtores jogam tomate fora após queda do preço da fruta”.
Tomate e fruta são o mesmo sujeito; não há dois sujeitos (tomate; fruta), mas um: a fruta é o tomate.
É como escrever: produtores jogam tomate no lixo após queda do preço do tomate.

Outra: “OAB divulga lista de faculdades recomendadas pela entidade”. Logo, a OAB divulga lista de faculdades recomendadas por alguma entidade, que não se especifica. Mas o autor desta péssima frase quis dizer que a tal entidade é a própria OAB. Muito melhor seria: OAB divulga lista de faculdades que recomenda.

“Suspeita de matar o filho não aceitava homossexualidade do jovem”.

Que jovem ?

Na frase, há “o filho” e “o jovem”. O filho é o jovem; o jovem era o filho, porém não se explicita que o filho fosse jovem: poderia ser criança, velho, maduro.

A redação contém o vício do duplo sujeito, sistematicamente praticado por todos os jornalistas que escrevem mal , no Brasil.

Agora sem o duplo sujeito: “Suspeita de matar o SEU filho não LHE aceitava a homossexualidade”. Isto é frase correta, perfeita, destituída de duplo sujeito.
Em revistas e gazetas, é sempre a mesma construção viciosa. Não sabem escrever: Produtores jogam tomate no lixo após queda do preço dele ou Produtores jogam tomate no lixo após queda do seu preço.
       É vícioso escrever assim; é redundante escrever assim; não é “estilo jornalístico”, é mau estilo pois induz o leitor ao equívoco de entender dois sujeitos onde há um só.
Na Gazeta do Povo, há tempos, o título era mais ou menos: “Cobra achada no Barigui; ofídio não é perigoso; verterbrado foi capturado; serpente foi levada embora”. O leitor tem de saber que cobra é ofídio, que ofídio é verterbrado, que serpente é cobra.
Era muito melhor se o pedante (sim, pedante, porque isto de duplo sujeito é pedantismo) houvesse redatado: Cobra achada no Barigui; não é perigosa, foi capturada e levada embora’.
Outra exemplo: Galileu escreveu livros, sendo importantes os do astrônomo. O leitor tem de adivinhar que o astrônomo é Galileu; não é suposto que o saiba. Perceba a diferença agora: Galileu, astrônomo, escreveu livros importantes. O astrônomo Galileu escreveu livros que são importantes. São importantes os livros do astrônomo Galileu.
Um título dizia: “Oração pelos irmãos mexicanos: furacão atingirá o país hoje”. Que país? Nesta frase, o seu redator está viciado ao ponto em que, no entendimento dele, o primeiro sujeito acha-se presente e, sem que o esteja, ele enunciou o segundo.
Agora compare com este: “México se prepara para maior furacão da sua história”. Excelente, corretíssimo, sem duplo sujeito. Haveria duplo sujeito se dissesse: “México se prepara para maior furacão da história do país”. Que país !!??

Outro exemplo: “Segundo a assessoria de imprensa do Conselho Nacional do Ministério Público, o processo para apurar a conduta do promotor de Justiça foi arquivado. O Conselho teria considerado que os atos praticados pelo membro do MP […]”. O sujeito é “promotor de Justiça”; a seguir, é “membro do MP”.

Melhor é: “Segundo a assessoria de imprensa do Conselho Nacional do Ministério Público, o processo para apurar a conduta do promotor de Justiça foi arquivado. O Conselho teria que considerado que os atos praticados por ele […]”.

Outra: na Casa de Juscelino Kubitschek, lê-se, junto de pia: “Não toque na pia. A peça está frágil”. É como se houvesse pia e peça e a peça fosse diferente da pia. Melhor seria: “Não toque na pia. Ela está frágil”, em que se entenderia, inequivocamente, que a pia está frágil.
Os redatores de gazetas e de revistas incorrem, sistematica, ou seja, viciosamente, no vezo do duplo sujeito; complicam desnecessariamente as frases; escrevem defeituosamente.
É sofismar dizer-se que o jornalismo tem estilo próprio, que escrevem assim para chamar a atenção do leitor, que o sujeito duplo ou plúrimo é próprio da técnica jornalística etc.. Pode-se (e deve-se) escrver com clareza e sem o duplo sujeito, sejam textos jornalísticos, acadêmicos ou quaisquer outros.

Alguns redatores esmeram-se em multiplicar as perífrases. Pensam que fazê-lo é escrever bem. Não; é escrever mal.
E haja pachorra para, todos os dias, ter de ler e reler certos textos e títulos para perceber se há duplo sujeito ou se há dois sujeitos.
É vício, é verbosidade inútil. É pobreza de qualidade do texto, é texto mal escrito, que já grassa entre outros escritores e não apenas entre jornalistas. Universitários desafeitos à leitura, mal enfronhados nos bons escritores do idioma repetem o vício do duplo sujeito em monografias, dissertações, teses, artigos, livros, em que o duplo torna-se triplo, quádruplo, quíntuplo. O autor não percebe o grotesco da sua redação e, certamente, acredita praticar bom estilo. Ilude-se.

 

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