A prostituição

 

                                   Sobre a prostituição

                                               Fevereiro de 2004

 

 

                        É  fato averigüado sempre haver existido a prostituição: onde existem homens, no sentido masculino, e mulheres, lá existe ela.  Houve mesmo quem (Rémy de Gourmont) considerasse-a conseqüência estrita da monogamia e portanto realidade inevitável onde não se adote a poligamia, como é o caso das sociedades ocidentais.

            Que fazem os homens nela ? Satisfazem a um instinto, atendem a uma necessidade fisica tão normal e natural quanto as da alimentação e da respiração.

            O instinto sexual existe, manifesta-se, preme o homem (no sentido masculino)  e o impele à sua satisfação, o que se verifica por dois meios: ou o solitário (a masturbação) ou com mulheres, sejam meretrizes, seja a esposa,a namorada, a noiva, uma amiga ou mesmo uma desconhecida, vale dizer, com uma profissional ou com quem calhar.

                        A castidade é excepcional e dificilmente praticável,  sob a forma de abstenção de masturbação ou de coito. Ela encarna, em verdade, uma prática anti-natural, porquanto não se pode exigir nem esperar que os homens voluntariem-se à abstenção absoluta de satisfações sexuais, quando o seu organismo funciona em sentido contrário. Bem entendido que a castidade pode verificar-se espontaneamente, e com efeito verifica-se, nos indivíduos de fraca libido, de premência sexual menor, que, por isto, necessitam menos de satisfazerem-se, o que lhes resulta em períodos, quer dilatados, quer exíguos, de abstenção.

            Se o indivíduo dispõe de namorada ou de um relacionamento feminino que lhe ofereça a possibilidade de satisfazer a sua luxúria, escusa-lhe recorrer à prostituição; daí porque a liberdade sexual favorece os contatos entre as pessoas, por decisão mútua e livre, ao passo que a repressão sexual, inibindo as mulheres de entregarem-se aos homens, leva a que estes pouca alternativa disponham mais do que as mulheres públicas. Os homens procuram-nas, assim, por falta de alternativa, quer ocasional, quer permanente.

                        No homem, em regra, a libido aperta, o instinto manifesta-se continuamente ao longo da vida e  a necessidade de alívio é incessante: o macho dotado de higidez física e psíquica carece de aliviar-se; à sua natureza fisiológica é inerente a necessidade de copular ou de  masturbar-se, em suma, de ejacular, o que, em razoável medida, condiciona a sexualidade masculina, a despeito das variações individuais relacionadas com a freqüência do alívio.

            Diante disto, a prostituição apresenta  uma verdadeira  utilidade social: ela alivia a pressão sexual dos homens, o que os favorece física e psicologicamente. Facilmente compreende-se o quanto perturba o instinto insatisfeito e o quão  reconfortante é tê-lo apazigüado. 

                        Como o instinto no homem preme constantemente, ao longo da vida, a sexualidade  acaba, amiúde,  por lhe representar um problema, se aguda ao ponto de que ele não se satisfaça com a abstenção ou com as práticas solitárias. Se tem namorada, noiva, esposa ou uma amiga  (a amante, porventura), provavelmente aliviar-se-á com ela; se casado, com a esposa. Caso contrário, ou masturba-se ou freqüenta os prostíbulos.

            Porém, mesmo os casados necessitarão, possivelmente, de freqüentá-los: basta imaginar as situações, decerto corriqueiras, em que a mulher recusa-se ao marido, em que a este já não apetece a mulher (que engordou, envelheceu, é flácida, afeou-se), em que o marido deseja experimentar um corpo diferente do que já conhece há anos, em que o casamento acha-se em mau estado e o marido constrange-se de possuir a mulher. Tudo isto inibe o marido face à sua consorte, porém não lhe inibe a libido e portanto, cria-lhe um problema, que ele resolve, ou masturbando-se, ou procurando fora do lar o que não encontra nele.

            Compreende-se, desta arte, que os homens casados (e com mais razão , os solteiros) procurem as prostitutas, o que porventura ser-lhes-á altamente problemático pois:

a) a mulher  possivelmente descobrirá as escapadelas do marido e reagir-lhes-á mal; o casamento fracassa e  resulta em divórcio ou no fim da união afetiva que ele deve encarnar, o que, por sua vez, resultará eventualmente em que a mulher negue-se ao marido, induzindo-o a ainda mais recorrer às prostitutas;  

  b) o marido não se satisfaz com a prostituição, nem com a sua esposa, pelo que virtualmente constituirá amantes como expedientes sexuais.

                        No caso dos solteiros, tudo é mais  fácil: o indivíduo usufrui de liberdade sexual, pode desfrutar de tantas raparigas quantas se lhe entreguem e pode freqüentar as meretrizes tanto quanto lhe aprouver (e puder pagá-las), sem dramas de consciência, sem perigos conjugais, sem dever satisfações a ninguém…salvo se já se comprometeu com a sua namorada ou noiva a ser-lhe fiel.

                        É claro que a prostituição pode satisfazer perfeitamente se o homem desejar  nela apenas descarregar a sua tensão genesíaca: ele procura a prostituta, ejacula, alivia-se, paga-a e vai-se embora.  Neste caso, ele exerce a sua sexualidade no que ela contém de puramente bestial, diria, animalesco. Ele copula como os animais o fazem, sem diferença nenhuma.

             Possivelmente não será assim; verificar-se-á, talvez, que o marido (ou o homem solteiro) busque, ao aliviar-se, não apenas um corpo, senão também uma pessoa; que ele deseje satisfazer-se com alguém com quem desfrute de um mínimo de relacionamento, não digo afetivo, porém humano,  o que poderá levá-lo a errar de mulher em mulher, até encontrar uma que o agrade, tornando-se cliente habitual dela. Todavia, talvez ele não encontre a “prostituta ideal” ou, mesmo que a encontre, talvez não se contente com ter de copular com este tipo de mulher. Assim, resolvido o problema físico de aliviar-se, poderá consitiuir-se o problema psíquico, afetivo, emocional, de achar-se descontente com a forma como atende à sua sexualidade.

            Tudo isto é deveras relativo: um homem pode aliviar-se com as prostitutas, livre de problemas de consciência, e ser bordeleiro  a vida toda, porque, por exemplo, ele jamais viu na sexualidade senão a ejaculação e o alívio, enquanto outro  criará certa amizade com a prostituta e entenderá que a usa com alguma humanidade e com uma bestialidade minorada ou nula, ao passo que um terceiro sentir-se-á culpado por trair a sua mulher; um quarto  entenderá que não a trai porque a traição é moral e não física, um quinto sofrerá uma necessidade sexual tão imperiosa que a mulher o compreenda e lhe aceite a freqüentação do meretrício, etc.   Há casos e casos.

            Seja como for,  tanto quanto possível,  a sexualidade deve encarnar uma função da afetividade, ou seja, o ato sexual deve representar um encontro de pessoas mediante a posse recíproca dos respectivos corpos, um dar-se e um compartilhar, um momento que se passa em comum, mediante a entrega espontânea no âmbito das relações afetivas, enquanto com a prostituta o contacto é puramente mecânico e animalesco.  Com a mulher que se ama, há (ao menos, deve haver) uma comunhão, um compartilhamento em que o ato sexual encarna, propriamente, um ato de amor; com a meretriz, há uma sensação física e o ato sexual traduz  o alívio pela ejaculação e nada mais.

            Uma educação sexual que de fato o seja, vale dizer, que informe e forme, deve acentuar a conotação afetiva da sexualidade, o sentido de partilha e de comunhão; deve atribuir-lhe um valor moral, em que a carnalidade serve ao amor, o que talvez nem sempre se obtenha porquanto, a libido apertando os homens e também as mulheres,  é natural que ambos desejem satisfazer-se, e que o façam, sem entrarem, muitas vezes, em demasiadas considerações morais.

            Entre as mulheres com quem entendo legítimo que um homem possa copular, incluo as irmãs dele e portanto em nada censuro o incesto, sobre o qual recai uma condenação moral irracional. Que mal há em um irmão satisfazer-se com a irmã, e vice-versa, se ambos assim o consentem? Não será preferível que se aliviem um com o outro, a que o irmão limite-se à masturbação, vá às prostitutas e a que a irmã passe necessidade?

            É educativo que todo homem, uma vez ao menos na vida, fornique a dinheiro, para conhecer que o ato sexual pode ser  de amor  (e não por acaso “fazer sexo” é sinônimo de “fazer amor”)  como pode não o ser, distinção útil para o amadurecimento pessoal dos homens. Uma, ao menos, experiência sexual com as prostitutas representa um fator de educação moral e de preparação para o casamento, não no sentido de aprender-se a copular, porém no de o homem entender que sexo com amor é algo muito diferente e muito superior do que sem ele.

            Recomendo “O casamento e a moral”, de Bertrando Russell e “Educar para a a amizade”, de Gerardo Castillo, ambos traduzidos no Brasil. São  altamente educadores.

 

           

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