O idioma nivelado por baixo.

                              Mentalidade: o brasileiro sabe mal o idioma, usa-o mal, fala-o mal, escreve-o com crescente desleixo e libertinagem. Tudo pode: é dois, naum, véio, fio, caráleo, aki, brasil, maria santana, kaza. No Facebook ou fora dele, por “divertimento” ou não, é indiferente: a pessoa pode divertir-se e grafar corretamente as palav…ras. Da parte de muitos, há ignorância (a juventude, sobretudo, é subletrada; com aprovação automática, com a doutrina das variantes linguísticas, com o facilitismo nas escolas, aprende-se menos); da de outros, há desleixo (escreva como quiser, fale como quiser, vale tudo); para a maioria, o idioma não é um valor; é-o a liberdade entendida como falta de limites. Os limites e a educação não são só na vida de relação; também são no uso do idioma. Para mim, o que as pessoas estão fazendo com o idioma é uma forma de retrocesso, de primitivismo, de incultura, de infantilismo (as crianças mal letradas escrevem assim; os adultos ao nível da sua condição adulta escrevem sabem distinguir o certo do errado e preferir o primiero). Sei que o que estou dizendo é POLITICAMENTE INCORRETO: para a mentalidade em voga, reclamar da barbarização do idioma é ser chato, fazer patrulhamento etc. Faz parte da “mentalidade” a ausência de autocrítica, a afirmação do “direito” de escrever como cada um quer: o kra naum tá nem aí prá língua e axa uma maravia eskrevê açim. Também eu tenho o direito de não gostar do que vejo e de criticá-lo; tenho o direito de achar ridículo “naum”, “trabáio”, “é eu”; tenho o direito de sentir-me incomodado com abreviações, simplificações, letras indevidas, pronúncia errada (“tacavó”: está com a avó), falta de concordância; tenho o direito de preferir que se nivele por cima; tenho o direito de reputar perniciosas certas doutrinas que os doutores divulgam; tenho o direito de lamentar as práticas a que leva a “mentalidade”; tenho o direito de não ser igual aos outros, no que eles praticam de inferior; tenho o direito de optar entre o que eleva o meu idioma e o que o rebaixa; tenho o direito de ter outra mentalidade, outros valores, outros critérios, outras práticas e de afirmá-los. Tenho o direito de dizer tudo isto, como tenho a coragem de dizê-lo, contra o politicamente correto da barbarização do idioma, que amo e que faço questão de bem saber e de bem usar. Não sou obrigado a comungar da babaquização geral da língua.

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Uma resposta para O idioma nivelado por baixo.

  1. João disse:

    Sim, Arthur, reconheço todos estes seus direitos, que também são os meus e de todo indivíduo tentando se fazer entender. Mas já li em Sírio Possenti que, no Brasil, falar (e portanto escrever) com um mínimo de correção equivale a assumir uma feminilidade, uma vez que quem precisa falar bem são as mulheres, mais ocupadas com a educação das crianças do que os homens. Assisto na TV programas portugueses que estão longe de preconizar semelhante asneira. Os portugueses belos ou não falam belamente o nosso idioma, o sétimo mais falado do mundo. E nossa luta continua por aqui. Ai esta terra ainda vai cumprir seu ideal. Abraços do teu novo leitor.

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