“Theus”, romance homoafetivo.

 

 

                                          “Theus”[1].

Arthur Virmond de Lacerda Neto

Fevereiro de 2017.

Intitula-se “Theus” o romance de Fabrício Viana, ficção relacionada com vivências e experiências  do seu herói, prenominado Prometheus  (o que originou, por aférese, o título do livro e o alcunho do personagem), que passa por inúmeras situações peculiares ao meio homoafetivo brasileiro contemporâneo.

Trata-se de narrativa realista, com descrição de aspectos da vida de incontáveis indivíduos no Brasil, jovens (porém não somente eles), dos quais muitos filhos de famílias evangélicas ou de pais refratários à sua condição homoafetiva.

“Theus” vale como testemunho de parte dos costumes nossos coevos, volátil na medida em que, dada a transmutação incessante do etos e do patos de toda população, os comportamentos cambiam e, com eles varia o tipo de experiências e de vicissitudes porque passam as pessoas e os jovens de que Theus representa exemplar. Malgrado a sua relativa circunscrição ao nosso presente (termos em que “Theus”, em parte, é livro “datado”) é meritório pela sua fidelidade como retrato de época.

O entrecho detém-se em várias particularidades típicas do público homoafetivo, com que Fabrício Viana havém-se com serenidade, até com instinto edificante e, ocasionalmente, à guisa de (bom) conselheiro, por meio dos personagens. Toca em pontos como a intolerância dos pais evangélicos; o pai evangélico que elicia o seu filho de casa, ao sabê-lo homossexual (drama tão freqüente, máxime em anos anteriores, e causa, direta ou indireta, do número avultado de suicídios na juventude homossexual vítima da prepotência paterna); a estigmatização do sexo pelos setores mais extremistas do cristianismo; os casamentos de aparência, os relacionamentos abertos, o poliamor, o consumo de drogas em baladas, o malogro da famigerada “cura-gay”, os centros religiosos de “cura-gay”, a homofobia internada, a transfobia, a hipocrisia de religiosos moralistas; a vida dupla de muitos homossexuais, em condições de homofobia ambiente; o contágio pelo vírus IVH. Vai tudo tratado sem tabu, com verdade e bom senso.

Em cada aspecto, quer a palavra do narrador, quer os diálogos, expõem fatos ou formulam reflexões que descortinam aspectos da vida potencialmente menos conhecidos do público estranho ao meio homoafetivo e com que, em contrapartida, o público homoafetivo tende a se achar familiarizado. Para aqueles, “Theus” provavelmente é revelador; para estes, exprime sentimentos, experiências e avaliações partilhadas (em diferentes medidas) entre leitor e personagens.  Daí as impressões por vezes intensas que ele é suscetível de infundir em quem atravessou situações similares às do herói, conhece-as em terceiros ou acompanha a narrativa com empatia pelo protagonista, nas situações que este vive, similares ou iguais às de muitas pessoas.

Escusa de o leitor integrar o grupo homoafetivo para experimentar empatia ou simpatia: independentemente da condição afetiva do leitor, todas as pessoas somos igualmente humanas e é graças à condição humana do protagonista que o livro transcende o público exclusivamente homo, notadamente nos tempos atuais, em que minguam preconceitos e as pessoas abrem-se para a diversidade, ao menos dentre a gente esclarecida, já preponderante na classe média e nas gerações jovens.

A imaginação do autor atuou engenhosamente na aparente monomania da personagem Gabriel, que criptografava numericamente o seu diário, cujo conteúdo se revela (em parte) nos lances finais da história, tragicamente encerrada com a sua morte. Final feliz ou, ao menos, destituído do seu passamento, permitiria ao leitor findar a leitura com impressão amável ao invés de amarga.

A sobrevivência de Gabriel e, conceptivelmente, a sua união (amorosa e ou conjugal) com o protagonista exprimiria a forma de realização de incontáveis casais que se felicitam na companhia, no amor e na amizade amorosa. Vivesse Gabriel e o autor teria podido acrescentar desenvolvimentos e reflexões, sem que o “final feliz” constituísse vulgaridade literária.

O realismo do livro manifesta-se também por meio da loqüela dos personagens, que  se comunicam em coloquial: os diálogos testemunham o estado da língua tal como é vulgarmente falada no presente: documento lingüístico por um lado e, a contrapelo, texto parcialmente desatualizável a curto ou médio prazo, na medida em que a redação adotada pelo autor nos diálogos e pelo comum das pessoas nas suas dicções, no Brasil, altera-se com alguma rapidez. Em alguns anos ele terá deixado de reproduzir, como o faz agora, os falares de muitos leitores que, possivelmente, identificam-se com ele também graças à coincidência entre o que leram e como falam. Eis porque maior adesão do narrador (não necessariamente dos personagens) ao clássico em vernáculo tenderia a assegurar perenidade ao texto e acrescentar-lhe graça e elegância.

O capítulo quarto narra libidinagens executadas à socapa e descritas com crueza nas expressões dispensavelmente chulas com que dialogam os personagens. Todo o contexto da cena poderia ser outro, expungido de algum excesso chocante em atitudes e verbalidade. Ainda que ela seja verossímil e realista, a verossimilhança e o realismo não constituem necessariamente virtudes nem se alinham, necessariamente, com o bom gosto: é o caso. Reputo-a a única parte do livro merecedora de revisão.

Romances outros centram-se na temática homossexual: incidentalmente, o clássico Satiricon, de Petrônio, do século I (com recomendável tradução brasileira de Marcos Santarrita); diretamente, o brasileiro O Ateneu (brilhantemente executado por Raul Pompéia) e, ainda mais abertamente, O bom crioulo (de Adolfo Caminha). Theus alinha-se com eles quanto ao assunto e inova em relação a eles pela sua atualidade.

É previsível a animadversão com que o recusem os grupos religiosos, máxime os militantes da malfadada “reorientação” sexual e os adeptos intransigentes da “família tradicional”. Ambos constituem a parcela mais arcaica e primária da sociedade brasileira.  É compreensível o interesse com que o lê o pessoal homoafetivo, que nele (em alguma medida) se reencontra; é instrutivo que o leia quem deseje conhecer parte do ambiente que é o do Brasil coevo ou apenas acompanhar a ficção brasileira hodierna, nos seus livros marcantes.

Theus ocupa lugar interessante na ficção voltada ao público principal porém não exclusivamente homoafetivo, sentido em que se me afigura (a) oportuno em tempos em que a homoafetividade afirma-se com liberdade crescente; (b) útil, pelo teor construtivo de várias das suas observações; (c) bem-vindo, porquanto sem tabus reflete acerca de temas que, de perto ou de longe, entendem com a vida e com os costumes de milhares de brasileiros. Na fidedignidade com que o faz reconheço-lhe quarta virtude, que o torna (já agora, quinta qualidade) exitoso romance de costumes.

[1] Editora Bons Livros, São Paulo, 2016, quarta edição,162 páginas.

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3 respostas para “Theus”, romance homoafetivo.

  1. Obrigado pelas palavras meu querido. Você é uma das pessoas que eu acompanha, e vez ou outra, também me acompanha há anos. Queria realmente que tivesse esta experiência literária com o Theus. Cada leitor se identifica ou não com algumas partes, gosta ou não de outras. Fico feliz que, de um modo geral, tenha gostado do Theus: um livro de ficção mas com vários temas sérios sendo abordados. Mais uma vez, meu muito obrigado! 🙂

  2. Ops, uma das pessoas que eu acompanhO 🙂

  3. Marcio Murilo Tesserolli disse:

    Uau.
    Curti muito o texto.
    Me achei. Depois me perdi. Depois me achei de novo. Rsrsrs
    Inteligente!
    👏🏻👏🏻👏🏻👏🏻

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