“Guia politicamente incorreto da história do mundo”

O “Guia politicamente incorreto da história do mundo”

 

 

                                                                                  Arthur Virmond de Lacerda Neto.

                                                                                                          Agosto de 2013.

 

            Com interesse e proveito li o  “Guia politicamente incorreto da história do mundo” (editora Leya, 2013), de Leandro Narloch que, à exemplo dos seus dois livros precedentes (“Guia politicamente incorreto da história do Brasil” e “Guia politicamente incorreto da América Latina”), contribui, louvável e oportunamente, para desfazer equívocos que se tornaram cediços no meio cultural brasileiro e no senso comum dos brasileiros.

            Tal livro merece, contudo, segundo penso, categórica censura, quanto à forma: usou e abusou do linguajar prosaico e coloquial; repetiu palavras demasiadamente; praticou o infinitivo repetida e duvidosamente; empregou vários galicismos e ingresias; errou as preposições inúmeras vezes.

            Valeu-se de vocábulos e expressões como “perua”, “sacanagem”, “casinho”, “turma”, “quebrar a cara” e muitos outros, usuais, certamente, nas comunicações orais de certas pessoas, das menos dotadas de riqueza de vocabulário, menos instruídas, menos elegantes na sua elocução e, certamente, menos educadas. Gente educada não fala assim, ao menos, não tanto: contei 52 vulgaridades ao longo do texto.

            Talvez o autor haja adotado tal linguajar intencionalmente, como forma de tornar o seu texto atraente ao grande público, quero dizer, fácil, por se identificar com a oralidade (aliás, com a mais vil oralidade). Se assim foi, tratou-se de ardil inteiramente desnecessário em face do interesse intrínseco do quanto escreveu: o livro atrai porque desmente os lugares-comuns mentais coevos, porque elucida e esclarece. Não necessitaria de atrair pelo reles da redação. Não é a baixeza do estilo que engrandece um livro, ao contrário.

            Talvez se haja deixado levar pelo estilo jornalístico da revista Veja, useira e vezeira em combinar o coloquial com o culto.  Se foi assim, escreveu como jornalista da Veja e não como escritor; mesmo o estilo dela não desce ao mau gosto com que, vezes várias, exprimiu-se.

            Talvez haja-o escrito assim por incapacidade de fazer melhor, caso em que revela limitações acentuadas. Penso, contudo, que é capaz de escrever com mais qualidade e que poderia haver produzido obra de bom gosto e esmero, se o quisesse haver feito assim.

            Mantivesse padrão literário elevado, sem exceções; evitasse os plebeísmos, os coloquialismos, as vulgaridades e o livro somaria o mérito do fundo à forma que, se não fosse elegante, ao menos não seria desabonadora. Poderia não somar; não diminuiria. Não somou; diminuiu.

            Dos dois livros homólogos e anteriores para este, nota-se a diferença, para acentuadamente pior. Nivelou por baixo, ao optar pelo coloquialismo, pela gíria, pelo estilo de conversa popular demais. Poderia ter feito melhor. Sendo livro que instrui e esclarece, poderia ser, igualmente, livro que educa o gosto e que exprime a beleza do idioma. Infelizmente, não é assim. Parece que se esforçou pelo chato, pelo desleixado. Contribuiu para degradar o gosto literário e para tornar o livro interessante pelo conteúdo e ignóbil pela forma, para deseducar o público.

            Digo deseducar porquanto a atividade do escritor não é indiferente como influência. Ao contrário, não apenas o conteúdo é capaz de modificar as pessoas no âmbito das idéias em circulação, como a expressão as pode induzir, pelo exemplo que lhes fornece. É óbvio que o autor é cônscio do primeiro tipo de influência; não percebeu a segunda ou é-lhe indiferente.

            Não é apenas o mau gosto dos plebeísmos que afeia o  livro; é, também, o caráter “datado” de muitos deles, talvez de todos: com eles,  o seu autor usou, em parte, a elocução corrente na fala de 2013; empregou palavras que o vulgo emprega, hoje, e entende, hoje, que não empregará sempre e não entenderá sempre. Serviu-se, até certo ponto, de sistema de comunicação efêmero, que passará: dentro de um, dois, cinco anos, em certa medida, o seu texto tornar-se-á ultrapassado. Se em 2013 é livro de fácil compreensão para o leitor comum, o de 2023 estranha-lo-á, em alguma medida. O seu estilo traz, por demais, a marca deste tempo.  À custa de ser, em parte, texto “atual”, “moderno”, “vivo”, logo será inatual, arcaico, morto e ultrapassado.

            É diferente, por exemplo, de Machado de Assis que, antigo de um século, lê-se em todos os tempos, porque acima dos modismos do seu tempo; porque, não obstante dotado de escasso vocabulário, usou-o com elegância e destreza. Vocabulário pouco, plebeísmos nenhuns, bom gosto invariável. Machado de Assis dura sempre. E Leandro Narloch, quanto durará ?

            Em alguma medida, é como se houvesse escrito para pessoas toscas, incultas, familiarizadas com um padrão de linguagem reles, desafeitas a bons livros, acostumadas, apenas, com os plebeísmos do momento. Nem todos os leitores são, presumo, incultos nem estimam a fealdade; o autor tratou-os como se o fossem e a apreciassem; senti-me tratado desta forma. É o que o vulgo chama de “ofender a inteligência” alheia.

            O autor escreveu em reação ao politicamente correto em voga hodiernamente, como reverso de certos lugares-comuns que, cedo ou tarde, sairão da forma mental do brasileiro. Quando houverem passado, o “Guia” perderá a atualidade; sem jamais perder as virtudes de informar e de esclarecer os temas que lhe constituem o objeto, deixará de corresponder, em sinal oposto, ao presente mental. Neste sentido, a atualidade do seu interesse é transitória, ao mesmo tempo em que, como realização literária, não merece perdurar. Quanto ao fundo, será livro momentoso; quanto à forma, é desejável que fosse melhor.

            Há, no texto, vários cacoetes, a saber: duplo sujeito, infinitivos duvidosos, repetições de palavras, preposições erradas, sobre outros solecismos e reparos, no todo, 578.

 

                Duplo sujeito.

            Chamo de duplo sujeito a fórmula de redação em que se viciou o jornalismo brasileiro, em que se nomina o sujeito da frase, a que o texto se refere, a seguir, por um aposto ou por expressão que substitui o nome, o que induz o leitor a distinguir dois sujeitos ao invés de identificar o primeiro com o segundo. É fórmula de estilo defeituosa porque confunde o leitor e defeituosa, novamente, porque repete o sujeito, ao invés de empregar os pronomes ele, eles, ela, elas, o, os, a, as, lhe, lhes que permitem identificar o sujeito sem possibilidade de ambigüidade e sem prolixidade: o duplo sujeito confunde (ao menos, expõe o leitor à confusão) e é verboso, ao invés de ser inequívoco e lacônico.

             Por exemplo: “Galileu deu um jeito de manter a versão […] O papa decidiu repreender o astrônomo” (p. 80). Primeiro, nomina Galileu; a seguir, refere-se ao astrônomo, sendo que o astrônomo é Galileu. Dissesse “Galileu deu um jeito de manter a versão […] O papa decidiu repreendê-lo” e seria mais simples, mais compreensível e evitaria a duplicidade de entender-se Galileu e o astrônomo como pessoas distintas: Galileu de um jeito de manter a versão; o papa repreendeu o astrônomo. Galileu é uma figura; o astrônomo, outra.

            Demais, repetiu exatamente as expressões Galileu – o astrônomo cinco vezes (nas páginas 79,80,81,83).

                        Outro exemplo: “Gandhi e seus seguidores foram presos. Semanas depois, já em liberdade, o líder escreveu”. Em primeiro, nomina o personagem a que se refere, a seguir, por “o líder”, o que confunde o leitor, passível de distinguir entre Gandhi e o líder. Antes redigisse “Gandhi e seus seguidores foram presos. Semanas depois, já em liberdade, ele escreveu”.

            Na página 120 ficou pior (“O psicólogo e linguista canadense Steven Pinker”; “o professor de Harvard”. O texto não explicita se o primeiro corresponde ao segundo ou não. Dado que pratica o vício do duplo sujeito, adivinhei que sim, mas texto de qualidade não sujeita o leitor a adivinhações).

            A insistência neste sestro percorre todo o livro, com uma ou duas exceções, o que me parece demonstrar que o autor desaprendeu a escrever sem ele. Não sabe usar os pronomes retos nem os oblíquos (ele, eles, ela, elas, o, os, a, as).

            Na página 265, nas segunda e terceira linhas, de baixo para cima, foi ainda mais esquerdo: “Dias depois, sua mulher se suicidou, provavelmente por causa da participação do marido na guerra”. O parágrafo trata de Fritz Haber; a mulher é a dele; se sua mulher se suicidou por causa da participação dele na guerra, é óbvio que a participação foi a do marido, do marido dela. Isto já demonstra incapacidade de redigir sem o duplo sujeito, que ocorre 32 vezes.

             

                Infinitivos duvidosos.

            Vulgarizou-se, nos últimos meses, no Brasil, o uso do infinitivo nos meios jornalísticos, seja porque se os jornalistas se lembraram da sua existência, seja como alternativa ao gerúndio (banalizado entre nós), seja por mera mimese, seja por originalidade.

            Dezesseis vezes empregou o infinitivo, em situações que me parecem duvidosas na sua correção e que lhe constituem outro cacoete, porquanto construções diversas seriam mais compreensíveis, parecem-me mais corretas e elegantes.

            Assim, por exemplo, na página 21, décima de baixo para cima: “apontou Nero como o primeiro imperador a perseguir os cristãos”. Nero e as perseguições aconteceram no passado; logo, o verbo deve estar no passado: “apontou Nero como o primeiro imperador que perseguiu os cristãos”.

             Na página 167, undécima linha: “O Brasil foi um dos poucos países a manter o trabalhismo fascista”. Facilmente, em pensamento, o brasileiro substituiria “a manter” por mantendo: “o Brasil foi um dos poucos países mantendo o trabalhismo fascista”, quando, nos dois casos, fica melhor melhor “que manteve”.

            Na página 92, quarta linha: “Enterrar um filho, hoje provavelmente o ato mais triste a se fazer durante a vida”. Não se percebe exatamente o sentido do verbo: que se pode fazer? Que se deve fazer? Que se fará?

 

                Repetições.

            Vinte e cinco vezes (ou mais) repetiu (no todo) o substantivo gangue (na mesma página) e os verbos cair, ganhar e seguir, quando poderia, facilmente, substitui-los por sinônimos. A repetição demonstra escassez de vocabulário ou preguiça de buscar alternativas. 

            O verbo seguir no sentido de prosseguir, continuar, perdurar, é espanholismo. Seguir, em bom Português, é diferente de seguir em espanhol.

            O espanhol diz “segue siendo”; nós dizemos “prossegue”, “continua”, “mantem-se”. Dizemos “siga aquele carro” e “prossigo estudando” e não “sigo estudando”.

            Por exemplo: na página 30, quarta linha: “a capital do Império Romano do Oriente seguiu por mais mil anos”, por perdurou por mais mil anos, continuou por mais mil anos, subsistiu por mais mil anos. Na página 282, segunda linha: “Voltaram com o acordo de que seguiriam como um protetorado inglês”. Prosseguiriam sendo protetorado, continuariam sendo protetorado.

 

            Preposições erradas.

            Contei 107 preposições erradas ou ausentes, como na página 93, linha 19: “mais que”; na mesma página, 25, “pior que”. Mais do que, pior do que.

            Empregou a sintaxe do inglês, com a preposição “para” ao invés de “por”, junto do verbo esforçar-se. Dizemos esforçar-se por, esforços por, e não esforçar-se para, esforços para.

            Aderiu, já, ao emprego da preposição “com” em situações em que ele descabe[1], como na página 284, linha 2: “prestação de contas com”. Prestam-se contas a.

           

 

            Estrangeirismos.

            Usou estrangeirismos que poderia, facilmente, haver substituído por vernacularismos: “show” (espetáculo, apresentação, atuação, concerto), “apartheid” (discriminação, racismo, segregação), sobre os vários galicismos e ingresias (greve, líder, elite), gangue por bando ou quadrilha.

            A nada leva alegar que certos vocábulos importados já se incorporaram ao linguajar corrente e que as pessoas entendem-nos; que, sem eles, não nos comunicaríamos. Quando há equivalentes em Português, não se justificam os estrangeirismos. Por que dizer elite, se dispomos de escol? Por que líder, se há chefe, cabeça, cabecilha, cacique? Por que show, ranking, best seller ?

            Os estrangeirismos são cafonas. Há palavras melhores e outras, piores. Considero melhores as do meu idioma; considero piores as estrangeiras, no meu idioma. Elas não o enriquecem; poluem-no, desfiguram-no. Não são necessárias  nem indispensáveis. Na opulência vocabular do Português, há equivalentes para todas as necessidades de expressão; quando, porventura, não os há, sempre se pode traduzir, criar neologismos ou empregar metáforas. A pureza do idioma é valor de civilização.

            Contei 130 ocorrências de termos estrangeiros, ingresias ou galicismos (várias delas repetidas).

 

            Em termos gerais, a Leandro Narloch faltou familiaridade com os bons textos do nosso idioma; fez-lhe falta espontaneidade em escrever com esmero. A facilidade com se deixou levar pela incúria, pelas repetições de palavras, pelo chavão jornalístico do duplo sujeito, pelos erros de preposição, pelo infinitivo a desoras, pelos galicismos, pelos americanismos, são demonstrações de que necessita de aderir mais à língua culta e retirar-se do comodismo de quem prefere reproduzir a fala e contenta-se com fazê-lo, defeito que transmite impressão de desleixo generalizado, de tacanhice vocabular, de bom gosto intermitente.

            Se adotou o tom coloquial para tornar o texto fácil e popularizar o livro, foi expediente desnecessário: o interessante do conteúdo basta para atrair-lhe público. Se o adotou como estilo próprio, fez má escolha. Se o empregou por incapacidade de escrever com esmero, demonstrou sobejamente as suas limitações.

            Descreio na terceira hipótese. Seja como for, ao contrariar a mentalidade do politicamente correto e às suas expressões concretas, negligenciou  oportunidade de contribuir para a afirmação do esteticamente elevado, do gramaticalmente correto, do literariamente recomendável. Havendo podido esclarecer e elevar, esclareceu e envileceu.

            Li o “Guia da história do Brasil”, de que reli alguns capítulos na segunda edição e que recomendei a várias pessoas, o que não tenciono repetir com o “Guia da história do mundo”, cuja leitura lembrou-me, pesarosamente, de Machado de Assis:

                Não é raro ver intercalado em bom estilo os solecismos da linguagem comum, defeito grave, a que se junta o da excessiva influência da língua francesa. […] alguns caem naqueles defeitos por ignorância ou preguiça […] A influência popular tem um limite; e o escritor não está obrigado a receber e dar curso a tudo o que o abuso, o capricho e a moda inventa e fazem correr. Pelo contrário, ele exerce também uma grande parte de influência a este respeito, depurando a linguagem do povo e aperfeiçoando-lhe a razão.  Machado de Assis, A língua in Crítica literária.

            No que toca ao conteúdo, há, no “Guia”, algumas frases de efeito que me pareceram artificiais e tolas, mesmo algo infantis (p. 110, linha 8; p. 110, sub-título; 144, sub-título; 234, linhas 19 a 21;242, sub-título; 258, a expressão “Idade das Trevas”; 265, título).

            Quatro vezes (nas páginas 124, 149, 239 e 266) atribuiu obsessões a pessoas, o que se me afigurou exagerado e artificial. Se empregou o adjetivo obcecado e o substantivo obsessão conotativamente, andou mal: deturpou-lhes o sentido e banalizou-os indevidamente.    

         No caso das frases como no da palavras, umas e outras pareceram-me antes recurso bombástico de estilo do que descrição de realidades. Nestas passagens, ao livro faltou seriedade e auto-crítica.


[1] Pague comigo ao invés de pague para mim; compre com as Casas Bahia ao invés de compre das Casas Bahia; discordo com ele ao invés de discordo dele.

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