Relacionamento aberto. Namoradinhas.

 

                                                       Relacionamento aberto

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

20.I.2017.

O relacionamento aberto é forma de relacionamento tão legítima e boa quando o fechado, e mesmo melhor do que este, desde que os envolvidos consintam nele, ou seja, se os dois envolvidos aceitam que um deles ou ambos possam manter relações sexuais ou afetivas (ou ambas) com terceiros, exercem a sua liberdade na sua privacidade.

É da conta deles e não da conta alheia o modo como vivem a sua deles privacidade, afetividade e sexualidade. Isto, à luz da liberdade; à luz da felicidade, o relacionamento aberto pode ser vantajoso se o envolvimento passageiro ou permanente, sexual ou afetivo com outrem acrescentar bem estar a quem se envolve e ao casal.   Segundo alguns observadores (W. Reich, em “A revolução sexual”) o casamento “tradicional”, com virgindade pré-conjungal obrigatória (abstinência dos solteiros; masturbação como única expressão do solteiro), com fidelidade obrigatória, é extremamente infelicitador na maioria dos casos. Daí a banalidade dos divórcios nos países protestantes, e a sua banalização nos católicos que o instituíram, o que inclui o Brasil em que as pessoas viviam (até os anos 1980-90) solidões a dois e casamentos hipócritas. Também havia a famigerada moral dupla: o marido podia (na nossa sociedade e na Europa) ter amantes e ser bordeleiro (ir às putas); era esperado que assim fosse, ou seja, mesmo no regime cristão (porque a matriz desta forma era religiosa), admitia-se, por via travessa, o relacionamento aberto, em favor do marido (e não também da mulher), em favor da felicidade dele e da sua melhor convivência com a mulher (que suportava, submissa, maus casamentos ou se divorciava).

Além disto, o relacionamento fechado (cassamento monogâmico) é construção social, de origem religiosa (hoje, está em voga atacarem-se alguns modos de ser por conta da sua origem como construção social.). O casamento monogâmico é, sim, culturalmente dado; não é inerente à natureza humana.

Comparo o relacionamento aberto ao casamento homo: ambos são formas de expressão da liberdade e da natureza humana. Proibir um e outro resultam de condicionamentos culturais, nos dois casos, da mesmíssima origem: a religião. No caso da recusa do relacionamento aberto, a recusa advém, tambeém, de outra fonta: o ciúme, como sentimento de posse, para contrariar o qual alguns indivíduos, ao longo dos séculos, propuseram relacionamentos abertos e coletivos (na idade média; nos E.U.A. nos anos de 1830, nos anos de 1950. Vide “A mulher do próximo”, de Gay Talese).

Em suma: penso que o r. a. é bem-vindo, se os envolvidos aquiescem nele; pode ser vantajoso para os envolvidos; pertence à privacidade dos envolvidos; não é novidade, historicamente considerado; a sua recusa decorre da religião e do ciúme.

                                                                     Namoradinhas.

                                                                   20.I.2017.                                                                                                                                                                      Arthur Virmond de Lacerda Neto.

 

Você deve ter muitas namoradinhas, diz a senhora ao rapaz.

É pergunta dotada de alguns pressupostos e que indica certo etos típico.

No imaginário dela, supõe-se que o rapaz tenha namorada, e muitas. É frase que contém, implicitamente:

1) hetero-normatividade (espera-se que o rapaz sinta atração por mulheres);

2) moral do predador (machista): supõe-se que o rapaz tenha várias namoradas, como se os namoros ocorressem por atacado, quando eles ocorrem entre duas pessoas e não entre uma, de um lado, e várias, do outro. Ela certamente não admite o relacionamento aberto, porém o casamento “tradicional” (monogâmico e cristão). Repare: neste tipo de mentalidade, supõe-se a pluralidade de namoradas, porém não o casamento aberto e sim o casamento monogâmico.
3) a pergunta foi formulada por uma senhora, mulher, de certa idade: ela foi formada na mentalidade de que o homem deve ser hetero-normativo e predador.

É este tipo de imaginário que vai mudando: as pessoas atualizadas dirão:

1) que o rapaz tem namorado ou namorada, ou seja, decai a hetero-normatividade a admite-se a homossexualidade e a bissexualidade;

2) não se referirão a namorados nem a namoradas (no plural), ou seja, decai o etos machista do homem-predador;

3) supõe-se a pluralidade de derriços ou derriças se se admitir o relacionamento aberto, ainda não inveterado nos costumes brasileiros.

A autora da pergunta é típica do etos machista, hetero-normativo, de casamento monogâmico, avesso ao relacionamento aberto.

Na indagação, o verbo “deve” não exprime obrigação, porém expectativa: espera-se, supõe-se, presume-se que o mancebo tenha várias namoradas.

Porém esta própria expectativa é produto cultural e faz sentido na sociedade em que o casamento é esperado, como dever social (mentalidade da família compulsória, de matriz cristã). Ela não faz sentido onde o casamento não corresponde a dever social, em que as pessoas não se casam por costume, para atender à expectativa alheia. Ninguém “deve” (nos dois sensos, de obrigação social e de expectativa alheia) ter nem derriço ou derriça, nem noivo ou noiva, nem marido ou mulher: tê-lo-á ou tê-la-á se quiser.

 

 

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