Postitivismo ultrapassado

                                                                        Positivismo ultrapassado

                                                                                       22.VIII.2007 

 

        Da leitura de uma carta de Paulo Augusto Antunes Lacaz * ao reitor da PUC do Rio, advieram-me 2 reflexões:

         1ª – Qualificar-se o Positivismo de ultrapassado corresponde a uma confissão de ignorância. Pode-se considerar ultrapassado um programa informático, quando existe já outro, melhor do que ele; pode-se reputar ultrapassado um medicamento quando outro produz a cura mais rapida e eficazmente; pode-se reputar ultrapassada uma decisão quando ela não se aplica mais às circunstâncias que a motivaram.

               Não se pode qualificar o P. de ultrapassado porque o seu conteúdo não se sujeita a substituições, na medida em que ele contém: a)  uma análise histórica do conjunto da evolução humana, b) o reconhecimento das condições de existência das sociedades (a estática, ou teoria da ordem);  c) o reconhecimento das linhas gerais da evolução das sociedades (a dinâmica, ou teoria do progresso); d) a constituição do saber humano positivamente, e não mais como permeado de teologia ou de metafísica,  e) a definição teórica da positividade como método,  f)a proposição de uma religião humana, g) critérios de organização da propriedade, da riqueza, das relações de trabalho, de moralidade.

        Não se trata de formulações transitórias, destinadas a cumprir um papel em certo contexto, limitado no tempo e no espaço; trata-se de formulações de caráter permanente, até aqui indesmentidas e capazes de aplicação, do ponto de vista social e de utilidade, do ponto de vista intelectual.

        Tacham-no de ultrapassado os que consideram o Curso de Filosofia Positiva como um balanço da ciência contemmporânea de A. Comte. Ora, como a ciência avançou de 1857 a esta parte, então, o P. seria ultrapassado. Os que assim pensam, nunca leram o Curso e não sabem o que dizem: ele não corresponde ao balanço das ciências como elas se achavam ao tempo de Comte, e sim à constituição delas dentro da positividade, ou seja, combinando a sua realidade com a sua utilidade, ou seja, expurgando-as de teologia e de metafísica. Ele corresponde à criação da sociologia, à análise dos períodos históricos do feiticismo, do politeísmo, do monoteísmo, da idade média, da modernidade; corresponde à determinação da tendência das sociedade modernas, dentro da positividade.

        Tudo isto são lições riquíssimas. Nelas, Comte é um historiador que analisou o passado humano com uma amplitude notável, um cientista que criou uma ciência, um sociólogo que discerniu as linhas da evolução humana, um filósofo que constituiu  uma nova espiritualidade. Nada disto é anacrônico, obsoleto nem ultrapassado.

        A pecha de ultrapassado é mais uma das várias ignorâncias tipicamente brasileiras, em matéria de Positivismo. Digo tipicamente brasileiras, porque entre nós, certos livros e certos autores difundiram certas distorções acerca do P., e formaram, sobre ele, certos consensos inteiramente equivocados, a exemplo deste (a exemplo, ainda, de que o P. é autoritário, é uma ideologia burguesa etc. Isto, sem me deter na confusão grosseira que se faz nas escolas de direito, entre o Positivismo e o normativismo, impropriamente designado por positivismo jurídico. Mesmo professores falam de  um, a pensar no outro. Há quem diga que o "Ordem e Progresso" é um conceito jurídico!!  Um doutor em direito escreveu uma história do processo civil em que incorria em confusão semelhante, o que mostra que ser doutor não é garantia de conhecimento correto).

        A pensar na análise histórica de Comte, recordei-me de "O Jardim das Afliçoões" , de O. de Carvalho: o Jardim corresponde a uma análise histórica de grande amplitude; a de Comte à de uma amplitude ainda maior; a do Jardim, em concreto, à de Comte, em abstrato; a do Jardim vai parar à política brasileira; a de Comte, vai parar à política em geral; a do Jardim chega a certas conclusões a que Comte chegara 150 anos e que formulara dogmaticamente como princípios do Positivismo.

            Apesar de no Jardim só haver bobagens sobre  o Positivismo, algumas das suas conclusões são inteiramente positivistas, como o demonstrei no meu "A desinformação anti-positivista no Brasil".

        * Paulo Lacaz é um atuante Positivista brasileiro, cuja página recomendo:http://www.geocities.com/doutrinapositivista/ .

            

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