Saramago e os americanismos.

           Saramago e os americanismos

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

Decididamente, José Saramago encarnava talento, que se revelou no “Memorial do Convento”, que prosseguiu em “Todos os nomes”, que se reafirmou em  “A caverna”e se manteve no mimoso conto que é “A viagem do elefante”.

A merecida atribuição do Prêmio Nobel em 1997, guindou-o à posição de  máximo representante vivo da literatura do seu país e do idioma português no mundo. Hoje, se se pensa na língua portuguesa, fala-se em Saramago, que a partir da atribuição do prêmio, passou a concentrar a atenção do grande público, da imprensa, de editores, mesmo de cineastas interessados em transpor para a película o entrecho de seus romances. Solicitadíssimo, sua palavra era ouvida com interesse e suas idéias debatidas como as de um verdadeiro pensador.

Em sua excursão de lançamento de “A caverna”, por cidades portuguesas, africanas, brasileiras e não só, esteve em Curitiba, em 2000, perante público de quase duas mil pessoas, para o qual discursou de improviso durante cerca de uma hora.

Em meio ao muito que falou, referiu passar-se o entrecho do livro que lançava, em um centro comercial, “que, disse, vocês aqui [no Brasil] chamam de shopping center”. E acrescentou: ”Observando Curitiba, impressiona a presença do idioma inglês no seu comércio. Tenho a impressão de que em mais vinte anos, vocês estarão a falar inglês e não mais o português”.  Irrompeu então o público  em um aplauso intenso e prolongado, a apoiar o que, à guisa de averigüação de fato, fora também a crítica de um nosso (brasileiro e curitibano) vezo.

Porque é disto de que se trata, em matéria de americanismos em Curitiba e no Brasil em geral: de um vezo, de um mal, de um vício.

Criou-se a mentalidade pela qual o designativo ou o termo em inglês, uma vez empregado, alteraria para melhor a qualidade intrínseca do objeto a que se aplica ou do indivíduo que o utiliza, como se lhe pertencesse alguma propriedade mágica ou sobrenatural. É claro que pensar assim corresponde a ingenuidade que nada de racional justifica e que surpreende encontrar-se no ser humano, ente racional entre todos .

A cada vez em que o brasileiro vale-se de um americanismo com  exclusão do termo equivalente em português, renuncia a um elemento de nossa identidade cultural para adotar um exotismo que  em nada, absolutamente  em nada, refere-se aos nossos antecedentes históricos, à nossa formação étnica, ao que somos como nação, ao que nos falta para realizarmo-nos como coletividade.

Talvez  alguns assim julguem aproximar-se da cultura norte-americana, sem perceberem que, americanizando o nosso idioma, não nos enriquecemos patavina em virtude, em dedicação à coisa pública, em respeito pelo próximo, em cidadania,  todas qualidades que os norte-americanos praticam na pureza do seu próprio idioma. Se algo dos norte-americanos pode merecer-nos  admiração, são certos dos seus valores e o seu alto desenvolvimento, que se realizou no idioma seu próprio. Em nada engrandecermos a nossa cultura, os nossos costumes, os nossos valores, macaqueando qualquer língua que seja, ao invés de compenetrarmo-nos da nossa.

Até hoje o português serviu-nos e nada indica que deixe de servir, mesmo que novos objetos ou realidades inovadoras surjam:  sempre se pode, mesmo deve-se, traduzir ou adotar neologismos vernaculares. Se uma característica notabiliza o brasileiro,é a  sua imaginação para criar  expressões idiomáticas,  tão ligadas à nossa espontaneidade. Por que seríamos  incapazes de conceber expressões vernaculares para o que o estadunidense nomeia em seu idioma? Não nos falta riqueza lingüística nem capacidade; falta-nos vontade de o fazer e sobra-nos, é triste dizê-lo,  servilismo cultural.

Por isto tudo, foi imensa a minha vergonha como curitibano e como brasileiro, ao ouvir José Saramago expressar a sua perplexidade com a abundância de americanismos na cidade que se alardeia como de primeiro mundo, e vaticinar que em certo futuro teremos sucumbido em nossa identidade lingüística.

Se de Curitiba levou tal impressão  o maior representante do nosso idioma no mundo, ainda há tempo para redimirmo-nos  e  sobretudo em muitos brasileiros há indignação contra o abastardamento idiomático. Toca-nos combatê-lo, pelo emprego ubícuo e constante de uma só língua, a em que nascemos e que todo brasileiro entende. Neste sentido atuaram já o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal, mediante a despoluição dos seus  produtos e serviços. Por que Curitiba não toma a iniciativa de substituir a expressão “shopping center” pela que Saramago emprega  no romance que lá lançou e que corresponde à forma genuína do nosso idioma,  vale dizer, “centro comercial” ?

 

 

 

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