Comte na memória de Laffitte.

Comte na memória de Laffitte.

Junho de 2011.

                                                               Arthur Virmond de Lacerda Neto (tradução, prefácio e notas).

                                               arthurlacerda@onda.com.br

            Normalmente, conhecem-se as celebridades pelas obras respectivas e por biografias que delas escrevem terceiros que,  freqüentemente, desconheceram-nas pessoalmente. São menos comuns os casos de indivíduos ilustres a cujo respeito os respectivos contemporâneos deixaram memória sob a forma de recordações, que deles tratem especialmente: é o caso de Augusto Comte, o célebre fundador do Positivismo, sobre quem escreveu algumas páginas Pedro Laffitte, seu discípulo e continuador  na direção do Positivismo, após a morte daquele.

            Nasceu Laffitte na França,  em 1823, e morreu em1903. Desenvolveu importante obra, quer como difusor do Positivismo, por meio de conferências,sobretudo em Paris; mercê da Revista Ocidental, que fundou, que existiu ao longo de décadas, cujos fascículos, reunidos, ao cabo de cada ano, somavam cerca de oitocentas páginas e que continham colaborações de positivistas ou simpatizantes do Positivismo  franceses, ingleses, brasileiros, chilenos, suecos, em artigos, ensaios e noticiários de alto nível; graças, finalmente, aos seus livros, em que alargou a obra de Comte, a saber, o Curso de Filosofia Primeira, a Moral Teórica, a Moral Prática, a Moral Positiva, O Catolicismo, O Fausto de Goethe, para mais de dezenas de contribuições, na Revista Ocidental, em cujo tomo 17 (de 1886), redigiu, intitulado  “Minhas relações com Augusto Comte”, conspecto da sua convivência com o próprio, em que dele revela particularidades pessoais, traços de caráter e hábitos cujo conhecimento perder-se-ia sem tal narrativa,  que enriquece as histórias do Positivismo e de um dos expoentes da Humanidade.

 No trabalho que empreendi sobre as confissões anuais de Augusto Comte[1], invoco implícita ou explicitamente as minhas relações pessoais com ele. É, então, útil  dar, delas, desde agora, uma noção geral. Outros motivos concorrem com este. As minhas relações pessoais com Comte foram, de fato, um elemento da sua vida moral, especialmente no período que precede 1848. A partir deste momento, com efeito, a fundação da sociedade positivista[2] criou, para ele,  novo elemento de vida íntima.

            Em 1842, no próprio momento em que ele terminava a sua grande obra, no mês de agosto[3], a senhora Augusto Comte afasta-se para sempre do seu domicílio conjugal, que tanto havia perturbado[4]. Augusto Comte obteve, disto,  grande consolo e mesmo  real felicidade, se a felicidade, como dizia Blainville[5], for a calma que se sente; “aquela, dizia sobre isto Augusto Comte, de quem obtive esta fórmula, que se experimenta após uma violenta dor de dente”. É elemento da felicidade, sem dúvida, porém ela não se acha completamente nisto. A partir deste momento, a solidão tornou-se crescente em torno de Augusto Comte. As suas relações privadas consistiam, então, nos jantares mensais de Blainville, a que ele comparecia[6]; na freqüentação de três amigos, os senhores Carlos Bonnin, Lenoir e Tales Bernard[7], e em algumas visitas a uma família inglesa, a do senhor Austin[8]. A manifestação de adesões de holandeses[9] e a do senhor Magnin[10], foram , verdadeiramente, os únicos incidentes que o ligaram ao mundo exterior. Augusto Comte levou sempre  vida isoladíssima; contudo, ela tendeu a tornar-se assim, cada vez mais, e, durante certo tempo, no período de 1842 a 1848, após as mortes da senhora Amadeu de Vaux[11] e do senhor Bonnin, e do esfriamento das suas relações com os senhores Lenoir, Tales Bernard e Blainville, Augusto Comte não tinha verdadeiras relações senão comigo. A sua vida interior achava-se reduzida, essencialmente, à amizade que tinha comigo.

            As minhas relações diretamente pessoais com Augusto Comte principiaram no domingo de carnaval do ano de 1844 e duraram ininterruptamente até a sua morte. Conservarei sempre a recordação desta primeira conversação. Um meu antigo correspondente em Paris, que fora aluno da Escola Politécnica, pediu a Augusto Comte uma audiência para mim. Eu jantava com uma família amiga e encaminhei-me, emocionadíssimo, para a casa do filósofo; subi, pela primeira vez as escadas do apartamento do número 10 da rua Monsieur le Prince[12]; Sofia[13] veio receber-me e foi com um verdadeiro tremor que fui introduzido na presença do grande filósofo. Ele se achava próximo da lareira, à direita, conforme o seu hábito; próximo dele achava-se Tales Bernard, a quem acabava de explicar algo da Divina Comédia, de Dante. Após alguns momentos, Tales Bernard despediu-se de nós e encontrei-me face a face com o filósofo. A simplicidade das suas  maneiras logo tranqüilizou-me e comecei, então, a exposição da minha situação mental e moral, e a análise sumária dos motivos que me conduziram a ele.

            A partir de 1842 comecei o estudo do Positivismo. Recordo-me de que, nesta época, li o quinto volume da Filosofia Positiva, então o único disponível na biblioteca real da rua Richelieu. A apreciação do catolicismo produziu-me no espírito uma espécie de efeito fulminante; eu acabara de ler O papa, de de Maistre,[14] e achava-me, por assim dizer, predisposto. Contudo, remontemos mais longe. Além de estudos científicos, matemáticos e físicos, eu entregava-me com grande ardor às meditações filosóficas e havia, mesmo, no meu torrão, devorado um grande número de obras históricas, notadamente várias de Bossuet[15], relativas à polêmica com os protestantes. Por outro lado, fortemente republicano,  apaixonara-me pelas questões políticas, pelas quais interessava-me ao meu modo. Todos os elementos de uma síntese mental e social, com uma base científica, existiam, desta forma, em mim, contudo incoerentemente e sem coordenação: eu procurava-a em diferentes lados e havia, notadamente, me ocupado com os escritos de Pedro Leroux[16]. Contudo nada disto me satisfazia. Fizera violentos esforços por constituir uma doutrina pessoal, contudo, sem resultados. Recordo-me, notadamente, de certa teoria abstrata, a do possível, de que usei indicações  em meu curso de filosofia primeira[17]. Compreende-se, desde então, qual deveu ser o efeito, em 1842, da minha primeira leitura da teoria do catolicismo na Filosofia Positiva[18]. Durante cerca de dois anos, até 1844, entreguei-me ao estudo desta grande obra. Achava-me, assim, bem disposto para entrar em contacto com Augusto Comte, que me provocava a mais profunda veneração: por natureza, sou essencialmente disposto ao respeito e à admiração; mesmo o desprezo pelos tolos pretenciosos surgiu em mim excessivamente tarde.

            A partir de 1844, as minhas visitas a Augusto Comte aumentaram e tomaram, por fim, um caráter de grande fixidez; finalmente, três vezes por semana, serões me foram consagrados exclusivamente, nas segundas-feiras, nas quartas-feiras e em outro dia da semana, que era, freqüentemente, o sábado. Mais tarde, ocupações profissionais fizeram-me renunciar absolutamente ao sábado; a criação da Sociedade Positivista, em 1848, retirou-me, finalmente, as quartas-feiras; contudo, até a morte de Augusto Comte, não cessei, jamais, de passar o serão da segunda-feira com ele, de hábito estritamente a sós. Havia, como interrupção, somente as minhas estadas na Gironda[19], no outono, de um mês e meio a dois. Eu chegava cerca de sete e meia e levantava-me da minha cadeira quando o relógio de pêndulo de Augusto Comte soava nove horas, porém, por vezes, prolongávamos a conversação, ainda por muito tempo, de pé. Por vezes, nas minhas visitas hebdomadárias, encontrava-me com os senhores Lenoir e Tales Bernard. Augusto Comte tinha, nas suas relações pessoais, uma extrema simplicidade, nenhum traço do que, atualmente, chama-se de pose, o charlatanismo dos homens em evidência, de que Bonaparte deu o primeiro exemplo, que jamais foi ultrapassado. Havia, mesmo, em Augusto Comte, nesta época,  tendência a dar às nossas relações caráter amistoso e mesmo fraternal, ao qual me foi, sempre, impossível, entregar-me, porque, à minha profunda afeição, associava-se um incomparável respeito. Quando, mais tarde, Augusto Comte tomou, sistematicamente, a posição de mestre em relação ao discípulo, as nossas relações conservaram, no fundo, a mesma simplicidade e, se, por vezes, ele acreditou dever fazer-me observações, malgrado a forma sistemática e, de conseqüência, um pouco rígida e tensa, não houve nele, jamais, traço de azedume. Ele cumpria um dever;  porém,  jamais procurou ferir; ele era um superior que, sem dúvida, não abrandava as suas idiossincrasias, porém que, apenas, cumpria um dever social.

            A minha correspondência com Augusto Comte começou em 1845; ela compõe-se de setenta cartas: a primeira é de 4 de janeiro de 1845 e a última, de 18 de Gutenberg de 69  (30 de agosto de 1857)[20], ou seja, seis dias antes da sua morte; ela é, sem dúvida, a derradeira, talvez, ou, pelo menos, uma das derradeiras que ele escreveu. Na primeira, Augusto Comte remete-me um bilhete para ocupar uma poltrona nos Italianos[21]. Foi a primeira vez em que fui lá; a ópera de que se trata era O Pirata, de Bellini; havia, efetivamente, no terceiro ato, uma parte em que Mário cantava de maneira incomparável Tu vaidrai la sventurata.

            Augusto Comte tinha a sua poltrona nos Italianos nas terças-feiras, nas quintas-feiras e nos sábados, ou seja, em três dias, o que era muito raro entre os assinantes que, ordinariamente, tinham apenas um dia; porém Augusto Comte era insaciável de música e, demais, fazia largamente os seus amigos aproveitarem a sua poltrona. Ela ficava na primeira fila de poltronas da orquestra, à direita, olhando-se o palco. Augusto Comte colocava-se lá para receber  ar fresco, ao erguer-se a cortina. Demais, ele travara conhecimento não apenas com os seus vizinhos, como também com os músicos, com quem conversava familiarmente, e um deles visitou-o várias vezes com a sua jovem mulher. Entre os assinantes encontrava-se o famoso Hahnemann[22], homem de espírito e bom conhecedor de música; Augusto Comte viu-o somente por pouco tempo, mas ele continuou as suas relações até o fim da assinatura dos Italianos, com a viúva dele, muito mais jovem do que o seu marido; a orquestra dos Italianos era, então, um verdadeiro ponto de encontros. Augusto Comte narrou-me, então, um singular equívoco, ao conversar com a senhora Hahnemann, no emprego do vocábulo especulação. Augusto Comte entendia a dos filósofos e a senhora Hahnemann a da bolsa. Esta, encantadora, era médica, formada em uma faculdade dos Estados Unidos da América, homeopática, é certo.

            Mais tarde, Augusto Comte suprimiu a poltrona das quartas-feiras e conservou, somente, a das quintas-feiras e a dos sábados, mas tomava duas poltronas vizinhas para este último dia; ele chamava esta segunda poltrona, do sábado, de a minha poltrona do próximo; ela permitia-lhe pessoalmente conduzir alguém até ela ou de a elas enviar duas pessoas amigas[23]. Foi assim que pude, uma única vez, ir aos Italianos com Augusto Comte e ouvir, com ele, a grande obra prima Norma, tão maravilhosamente cantada por Júlia Grisi[24]. Comte e eu estávamos instalados, Comte sendo em tudo de uma estrita exatidão, quando veio colocar-se, não longe de nós, um senhor, ligeiramente manco, que se apoiava em uma bengala; Augusto Comte trocou com ele algumas palavras de polidez e, depois, disse-me: “Observou a pessoa que acabou de entrar; é o barão d´Holbach”. Era, efetivamente, o neto do célebre filósofo do século XVIII. Naquela época, absorvido por estudos científicos e de filosofia positiva, porém, ocupando-me mais das idéias do que das pessoas, não aproveitei em nada esta indicação. Lamentei-o, mais tarde, porque teria podido, talvez, obter do senhor d´Holbach interessantes informações sobre o seu ilustre avô[25]. Demais, ocupei sozinho, pessoal e freqüentemente, a poltrona de Augusto Comte. Deixavam entrar no teatro mercê da apresentação de um pequeno bilhete, em parte impresso, que Augusto Comte assinava, escrevendo, de próprio punho, a data da representação com que ele desejava agraciar a pessoa a quem cedia a sua poltrona. Destes bilhetes conservei um curiosíssimo exemplar, o único, talvez, que existe. Augusto Comte, na segunda-feira de noite, deu-me a sua poltrona, para a quinta-feira, 24 de fevereiro de 1848; a revolução impediu-me de que eu dela me servisse, e escrevi sobre ele, alguns dias depois: anulado por causa da revolução[26]. Para estar mais perto de Augusto Comte, no começo de 1844, eu havia deixado o bairro do Pântano, onde habitava  na rua Saint-Gilles, para instalar-me na rua Monsieur-le-Prince, número 45. Necessidades profissionais fizeram-me habitar, durante algum tempo, a avenida Poissonière; depois, vim instalar-me na margem esquerda do rio Sena, não distante de Augusto Comte e do seu apartamento, no número 10, da rua Monsieur-le-Prince. Além das minhas vistas regulares a Augusto Comte, eu acompanhava-o, na saída do seu curso, no domingo[27]; frequentissimamente ele voltava para casa fazendo longos desvios e passávamos, por vezes, nas Tulherias[28], outras vezes, nos Inválidos[29]; a conversa era simples e amistosa. Deste modo, ele contou-me a sua viagem, quando veio a Paris, em 1814, para entrar na Escola Politécnica[30]. Ocasional, porém rarissimamente,  tomávamos um sorvete, no pequeno café, situado nas Tulherias, que Grimm e Diderot[31] freqüentaram.  

            Em uma carta do mês de outubro de 1845, eu assinalava a Augusto Comte o desuso crescente do teologismo nas classes populares, como, também, o retorno crescente das classes cultivadas ao teologismo e mesmo ao catolicismo. Não lhe dissimulei as minhas inquietações a respeito; na sua resposta da quarta-feira, 15 de outubro de 1845, Augusto Comte tranqüilizou-me e considerou este fenômeno social como de pouca importância[32]. Vê-se aqui, de maneira precisa, a ilusão em que estava Augusto Comte, por conseqüência da sua higiene cerebral, que consistia em não se inquietar com o movimento contemporâneo, de que ele se mantinha sistematicamente afastado. Sem dúvida,  foi graças a tal higiene que ele pode construir um sistema científico de uma tão poderosa homogeneidade; contudo, isto expunha-o à ilusão na apreciação dos fenômenos sociais imediatos, o que, demais, não apresentava inconvenientes sérios na sua construção filosófica. Assim, neste caso, é incontestável que o retorno ao teologismo e mesmo ao catolicismo, das nossas antigas classes diretoras, não impedirá a evolução humana de atingir a destinação que Augusto Comte traçou-lhe conforme a sua profunda teoria do passado; contudo, se se considera a política contemporânea e os fatos contingentes  que o homem de Estado deve considerar, é diferente. Este regresso ao passado desempenhou, sem dúvida, o papel útil de conter as aberrações democráticas; porém, por outro lado, ele constitui, na França, o principal obstáculo ao advento de uma república construtora e progressista[33]. Augusto Comte parou no tempo, por um lado, da burguesia esclarecida da Restauração; por outro, no do catolicismo de de Maistre e de la Mennais[34]. Ora, o catolicismo, usando as considerações de de Maistre, constituiu-se, cada vez mais, como um partido político e, por outro lado, nas suas massas profundas e inferiores (ao menos intelectualmente, em face da sua posição), ele organizava um regresso a um tipo de politeísmo, no fundo, realmente grosseiro. Jesus, Maria e José, tais são, atualmente, os objetos verdadeiros do culto católico; o Jesus de que se trata não é a combinação de humanidade e de divindade, imortal tentativa de idealização, porém o Jesus claramente material e de coração que sangra. Quanto a José, o seu culto cresce e nas mais modestas igrejas das nossas vilas, se se vê, habitualmente, à esquerda do altar-mór a capela da Virgem, vê-se, quase tão freqüentemente, à direita, a de José. Quanto ao próprio José, ele é aproximado, cada vez mais, da Virgem; marcha da virgindade na direção da imaculação; a ela chegará. Pode-se fazer uma idéia da importância crescente do culto de Jesus, Maria e José, observando-se que, além do mês de maio, consagrado ao culto especial de Maria, março é consagrado a José e junho ao Sagrado Coração de Jesus. Ao contrário, na parte superior e elevada do mundo católico, as pessoas estudadas vincularam-se às idéias de le Play[35] e, pela cultura da ciência social concebida de certa maneira, eles vinculam-se à evolução moderna. Proponho-me a publicar, em breve, uma apreciação desta escola importante e que merece sê-lo. De qualquer maneira, toda ação sobre o mundo católico, se pretende ser precisa e verdadeiramente a sério, deve considerar a apreciação que acabo de fazer.

            Os jantares mensais de Augusto Comte cessaram, creio, quase imediatamente após a morte de Bonnin, em 1846; e, depois, Augusto Comte deu, tanto quanto me recordo,  um só jantar, a que compareci, com Profumo,  Littré e Carlos Robin[36]. Augusto Comte dava estes jantares mensais nos dias em que o seu velho amigo Bonnin, que habitava Bourg-la-Reine[37], vinha a Paris receber os atrasados de uma pequena pensão. Fui admitido de modo mais ou menos habitual a estes jantares, que me são uma recordação das mais doces, não apenas por causa de Augusto Comte, como também pelo caráter amável, fácil e encantador destas reuniões. Augusto Comte, que não falava muito, era, aí, de uma simplicidade perfeita; os convivas habituais eram: Lenoir, Bonnin e Tales Bernard; eles representavam três épocas da nossa história: o século XVIII, a Revolução e a época contemporânea. Lenoir, íntimo amigo do famoso Ampère[38] e de Ballanche[39], fora, sob a Restauração[40], um dos membros ativos do Ateneu[41], onde Augusto Comte expôs a filosofia positiva; foi, provavelmente, lá que a relação entre ambos formou-se. Lenoir tinha toda a graça polida e amável de um homem do século XVIII; contudo, também, muita fraqueza nas suas decisões e nas suas opiniões. Bonnin oferecia um contraste absoluto; ele viera a Comte por preocupações políticas e sociais; amigo do grande Carnot[42],  partilhara de todas as terríveis emoções da Revolução e dela conservara o ardor e a energia um pouco feroz. Recordar-me-ei sempre com que tipo de furor concentrado ele falava dos Girondinos[43]; podia-se julgar, por ele, o que foram as paixões vigorosas que permitiram à Convenção[44] o grande esforço que salvou a França. Augusto Comte, com a sua amável benevolência, serenava, por vezes, o regresso violento de Bonnin aos seus ardores revolucionários, notadamente quando este lamentava que não se houvessem arrasado as Tulherias. Quanto a Tales Bernard, que era, como eu, moço, sem ser positivista,  aceitava as principais opiniões de Augusto Comte, que combinava com as da filosofia alemã, segundo um sincretismo então freqüentíssimo. Demais, ele era cheio de espírito, de erudição e de amabilidade, com um gosto e um conhecimento extensos da arte. Augusto Comte e eu representávamos o Positivismo. Era o mundo moderno à volta de uma mesa, com uma tolerância e uma simpatia mútuas e a aproximação por aspectos comuns, o que facilita o alto caráter relativo do Positivismo[45]. Ademais, consagrarei na Revista Ocidental um trabalho especial a cada um destes três convivas habituais dos jantares de Augusto Comte.

            Além desta freqüentação habitual com Augusto Comte, eu fazia com ele, de tempos em tempos, no verão, passeios solitários em Sceaux, em Chatenay e nos bosques de Verrières[46], por vezes com um ou dois dos seus outros discípulos, de que não cabe falar agora. Sceaux e os seus arredores eram, desde a Restauração, o lugar habitual dos passeios campestres de Augusto Comte; após o seu casamento, ele havia, mesmo, alugado um quarto lá, para o verão. Ele contou-me, freqüentemente, que um dia, sob a Restauração, surpreendido pela chuva,  abrigou-se sob as árvores e viu um lobo que fez o mesmo; não se molestaram um ao outro. Foi Augusto Comte que me mostrou, em Vale de Lobos, a pequena propriedade de Chateaubriand[47], em que terminou este Os mártires. A conversação não findava; de noite,  jantávamos no restaurante contíguo à estação ferroviária e, em seguida, entravamos pacificamente em Paris. Por vezes, detinhamo-nos simplesmente em Fontenay das Rosas[48]. Publico, nos documentos, um pequeno bilhete que se refere a uma destas excursões[49]. Organizei uma peregrinação com os membros das bibliotecas populares das seçoes 14 e 15[50], a Sceaux e aos seus arredores. Em uma conferência preliminar, expus todas as recordações que se ligam a estes lugares encantadores: Colbert, Voltaire, Chateaubriand, Condorcet[51], que morreu em Bourg-la-Reine; acima de todos estes homens, grandes a tão diversos títulos, plana a grande figura de Augusto Comte. Os meus discípulos e os meus amigos positivistas, para celebrar o vigésimo quinto aniversário da minha direção, tiveram a feliz idéia de organizar  uma peregrinação a estes lugares, tão cheios de lembranças. Percorri, com eles, os caminhos que, habitualmente, eu freqüentava com Augusto Comte; eles conservaram-lhes a lembrança, que se transmitirá, sem nenhuma dúvida, e estes lugares serão, para as gerações futuras, o objeto de constantes peregrinações.

            Reservadíssimo, porém preciso nos seus conselhos, Augusto Comte incitara-me, desde 1845, a prosseguir os meus estudos biológicos, ao que eu me achava espontaneamente disposto. Eis o que ele me escreveu, na sua carta de 15 de outubro de 1846: “Ao aproximar-se o seu regresso a Paris, devo repetir-lhe, como a um dos meus mais judiciosos e mais dóceis alunos, o conselho filosófico sobre  que insisti diretamente, por ocasião da sua partida:  consagrar os seus estudos, durante o ano próximo, às sãs especulações biológicas, primeiro anatômicas, depois fisiológicas, que faltam ainda à sua sã educação científica”. Os conselhos de Augusto Comte foram exatamente seguidos; os meus estudos biológicos repousaram, como sua base, na freqüentação regular dos cursos de Blainville, que segui estritamente até a morte deste, em 1850; completei os meus estudos químicos acrescendo-lhes, mesmo, o trabalho de laboratório.

            É com  verdadeira emoção que a minha recordação se reporta a tal época; eu tinha uma família, de que nenhum dos membros essenciais  havia, ainda, desaparecido, e tal qual eu havê-la-ia escolhido se a própria natureza não ma houvesse dado. Em Paris mesmo, eu possuía amizades íntimas e relações afetuosas, que somente a morte pôde dissolver; pois, fora da minha vida pública, somente a morte pode romper as minhas amizades privadas. A minha alma vivia, assim, com pessoas boas, inteligentes e afetuosas. Eu prosseguia, por outro lado, com energia e perseverança, difíceis estudos científicos e profundas meditações filosóficas. Desfrutava da freqüentação habitual de um dos maiores gênios de que a humanidade se possa honrar e, malgrado uma situação material freqüentemente difícil, desfrutava com plenitude de uma vida que me era plena de encantamento. Assim, em meio aos amargores da vida, o  meu coração e o meu espírito regressam, amiúde, a este verdadeiro paraíso, que, para mim, pelo aspecto privado, acha-se bem mais no passado do que no futuro.

            Pierre Laffitte.

            Cadillac do Garona (Gironda), em 5 de maio de 1886.

             (13 de César de 98), dia de Políbio.

             (Revista Ocidental, 1886).


[1] As confissões anuais de Augusto Comte corresponderam a textos da sua autoria, que ele leu, em voz alta, junto do túmulo de Clotilde de Vaux, uma vez por ano, de 1847 a 1856. Elas contém o relato sumário dos acontecimentos significativos concernentes ao Positivismo e à vida do próprio Comte.

[2] A Sociedade Positivista de Paris foi fundada por Augusto Comte em 1848, congregou os seus discípulos que residiam em Paris e existiu por décadas, com sede na própria casa dele, na rua Monsieur- le-Prince, número 10. Teve por presidente Comte e, após a sua morte, sucessivamente,  Pedro Laffitte, Fabiano Magnin, Isidoro Finance, Carlos Jeanolle e Emílio Corra. De escopo opinativo e não partidário, destinou-se a manifestar-se a respeito dos acontecimentos momentosos, pela aplicação do Positivismo. No ano da sua fundação, compunha-se de 43 membro.

[3] O Curso de Filosofia Positiva, publicado em seis volumes, de 1830 a 1842, depois reintitulado Sistema de Filosofia Positiva, obra em que criou a sociologia.

[4] Comte desposou Carolina Massin em 1826, casamento que ele qualificou de a “única falta grave” da sua vida. Ela traiu-o sucessivas vezes com Armando Marrast (diretor da gazeta O Nacional)  e deixou a convivência do seu marido em 1826, em 1833, em 1838 e em 1842 , até que, na última, ele advertiu-a de que não a admitiria novamente, se ela se retirasse, o que se verificou.

[5] Henrique Maria Ducrotay de Blainville (1777-1850), zoologista francês, autor de inúmeros livros, dos quais A. Comte recomendava a leitura do primeiro tomo (único publicado) de “A organização dos animais” (1822).

[6] Os jantares na casa de Blainville aconteciam  no primeiro domingo de cada mês (A.Comte, Correspondance, IV, 229).

[7] Tales Bernard (1821 – 1873) foi poeta francês, autor de inúmeras obras, dentre as quais duas histórias do politeísmo grego. Do grupo de comensais, era o mais moço, porquanto contava vinte e dois anos quando Laffitte conheceu-o, em casa de Comte que, por sua vez, conheceu Bonnin e Lenoir graças ao seu opúsculo de 1822, o “Prospecto dos trabalhos científicos necessários para reorganizar a sociedade”, publicado,no Brasil, em edição popular, sob o título “Reorganizar a sociedade”, pela editora Scala. Discípulo de Comte desde 1829, o primeiro deles foi uma das primeiras pessoas a quem o filósofo confidenciou o seu amor por Clotilde.  Bonnin morreu em maio de 1846, após Comte haver-lhe feito, em 25 daqueles mês e ano,  uma visita de despedida, em Bourg-la-Reine.  Lenoir, antigo diretor do Ateneu, em outubro de 1846 escreveu a Comte uma carta em que afirmava que a este, as sua visitas não agradavam  mais, ao que Comte respondeu-lhe que “desde algum tempo, as nossas relações não são as mesmas” (carta de Comte a Lenoir, de 11 de outubro de 1846), em conseqüência dos desentendimentos que houve entre A.Comte e a família de Clotilde, a cujo respeito Lenoir emitiu opiniões que desagradaram  o primeiro que, por sua vez, em abril daquele ano, logo após a morte de Clotilde, aceitou o papel de intermediário entre Comte e os representantes do irmão de Clotilde, Maximiliano Marie, que exigia satisfações do filósofo, por conta de declarações deste acerca dele, formuladas perante terceiros. Os representantes de Maximiliano Marie foram o médico de Clotilde, o dr. Cherest, proprietário do apartamento em que morreu ela,  e um português, J. N. de Aguiar.

[8] João Austin era inglês, conheceu A. Comte semanas antes de  23 de dezembro de 1843, por meio de João Stuart Mill, e escreveu uma única obra, em 1832, “A determinação do campo da jurisprudência”, que A. Comte leu e que lhe elogiou em carta. A mulher dele, Sara Austin, enalteceu a doutrina do Positivismo relativa às mulheres, em carta que A. Comte reproduziu, parcialmente, no prefácio do tomo primeiro do seu Sistema de Política Positiva (1850).

[9] Os discípulos holandeses de Comte eram o conde de Stirum, o barão de Constant-Rebecque e  Carlos Capellen. O barão de Constant-Rebecque chamava-se Carlos Teodoro João de Constant-Rebecque (1805 – 1870) e não Guilherme, equívoco devido a que  usava o título de “Willem”, anteposto ao seus sobrenomes, correspondendo Willem não ao prenome Guilherme, e sim a uma ordem militar holandesa, que recebeu em 1831. Oficial da marinha holandesa, Comte instituiu-o como um dos treze executores do seu testamento. Em 1860 publicou uma paráfrase positivista da Imitação de Cristo, e era parente sanguíneo do célebre Benjamin Constant, francês. O conde de Stirum (1786 – 1855) chamava-se Wigbold Alberto Guilherme; o seu título completo era o de conde de Limburg Stirum Noordwijk. Oficial do corpo de engenheiros, foi barão do Império (título francês outorgado por Napoleão I). Carlos  Capellen era adido militar da Holanda em Paris, também executor do testamento de Comte.  O barão e o conde propiciaram, a Comte, espontaneamente, em maio de 1848, a quantia de oitocentos francos, destinada à publicação do Discurso sobre o conjunto do Positivismo, o que se realizou.

[10] Fabiano Magnin (1810 – 1884) foi marcineiro, um dos treze executores do testamento de A.Comte e presidente da Sociedade Positivista de Paris, cuja presidência transmitiu, em 1880, a Isidoro Finance. Fundou o Círculo de proletários positivistas e escreveu vários ensaios relativos a questões de interesse dos trabalhadores.

[11]  A senhora Amadeu de Vaux era Carlota Clotilde Josefina Marie (1815 – 1846), por quem A. Comte apaixonou-se em 1845 e a quem ele consagrou um verdadeiro culto, após a morte dela. Era mulher de Amadeu João Batista le Porquier de Vaux.

[12] A. Comte residiu, por aluguel, no segundo andar do número 10 da rua Monsieur-le-Prince, de 15 de julho de 1841 até a sua morte, em 1857. Ali funcionou a Sociedade Positivista de Paris, desde a sua criação, em1848. Em 1893 Laffitte adquiriu o imóvel, em nome de uma pessoa jurídica, “Pedro Laffitte & Companhia”, constituída em sociedade com outros positivistas e que, em 1953, se transformou em “Casa de Augusto Comte. Associação Internacional”,  por iniciativa do positivista brasileiro Paulo Estevão de Berredo Carneiro, seu curador de então até a sua morte.  Em 1928 a residência de Comte adquiriu o estatuto de Monumento Histórico e é visitável pelo público em geral, encontrando-se como ao tempo em que nela habitou o A. Comte.

[13] Sofia Bliaux (1804 – 1861) , senhora Martin Thomas  (1804 – 1867), foi, de 1842 por diante, empregada doméstica de Augusto Comte,  que a tratava, de público, por filha adotiva. Ela residia na própria casa do filósofo, com o seu marido e os dois filhos do casal, Henrique e Augusto Paulo Thomas, dos quais o segundo nasceu na  casa de Comte, em 1848.

[14] Pensador e escritor católico, crítico da Revolução Francesa, o conde José de Maistre (1753 – 1821)  advogava a monarquia como regime político e o catolicismo como religião de Estado. Influenciou a gênese da sociologia de A. Comte, que recomendava a leitura do seu livro Do papa. 

[15] Tiago Benigno Bossuet (1627 – 1704) foi bispo de Meaux (França) e autor de várias obras, das quais A. Comte recomendava a leitura de Discurso sobre a história universal, História das variações das igrejas protestantes,  A política tirada das próprias palavras da escritura santa, Resumo da história da França, Exposição da doutrina católica.

[16] Pedro Leroux (1797 – 1871) foi político republicano e socialista, autor de inúmeras obras.

[17] O curso de filosofia primeira tratava do que A. Comte designou de Filosofia Primeira, quinze princípios que correspondem às leis naturais comuns a todos os fenômenos. Laffitte professou tal curso em 1858 e 1859, como preâmbulo a um seu curso de matemática; repetiu-o,  em 1869 e 1870, em 1873 e 1874, em 1877 e 1878. Publicou-o  na Revista Ocidental, a partir de 1878; houve nova edição,  em dois volumes,  em 1928. Corresponde a outra das suas importantes contribuições ao Positivismo e ao  pensamento  humano que, à semelhança dos seus cursos de Moral Teórica e de Moral Prática,  merecem (boas) traduções para o português.

[18] A teoria do catolicismo na Filosofia Positiva encontra-se no quinto volume do Sistema de Filosofia Positiva, destinado à parte histórica relativa à preponderância da teologia e da metafísica. Segundo A. Comte, o catolicismo representou um fator de progresso até o século XIII, quando se tornou  retrógrado.

[19] A Gironda corresponde a um departamento no sudoeste da França.

[20]  A. Comte criou um calendário de treze meses de vinte e oito dias cada, em que atribuiu os nomes daqueles ao dos trezes indivíduos que considerou historicamente mais importantes no desenvolvimento humano.  Gutemberg nomina o nono mês e o ano de início da contagem corresponde a 1789 (ano 1).

[21]  O Teatro Real Italiano, assim designado em 1814, dedicava-se à representação da dramaturgia italiana. Conhecido popularmente, desde 1825, por Teatro Italiano, ocupou, de 1841 a 1878, a sala Vantadour, na segunda secção  de Paris, em que  A.Comte o freqüentava, hoje pertencente ao Banco da França, que nele instalou os seus serviços sociais. Contudo, segundo Paulo Estevão de Berredo Carneiro (Auguste Comte.Correspondance générale, vol II), ocupava o teatro Odeon, nas imediações da casa de Comte. Assinante de uma poltrona do  teatro, desde 1840,  em  7 de abril de 1841 Comte escreveu ao diretor do teatro, no intuito de assegurar, para si, uma poltrona, em três representações hebdomadárias, com  preferência pela posição central, na primeira fileira, dada a sua extrema miopia.

[22] Cristiano Frederico Samuel Hahnemann (1755 – 1843) foi médico, criador da homeopatia. A sua segunda mulher era francesa, Melanie d`Hervilly-Gohier.

[23] Como,  por exemplo, ofereceu, em 11 de novembro de 1842, a Tales Bernard, um ingresso da representação de Don Pasquale, que se realizou  no dia seguinte. Em 28 de outubro de 1844 ofereceu-lhe outro, relativo a Os puritanos.

[24] Júlia Grisi (1811 – 1869) foi  soprano italiana.

[25] O barão de Holbach (1723 – 1789), Paulo Henrique Dietrich de Holbach, era alemão e viveu em Paris. Foi um dos escritores do Iluminismo, crítico do cristianismo e ateu.

[26] A revolução de 24 de fevereiro de 1848 depôs Luis Felipe e proclamou a república.

[27] De 1830 a 1848, A. Comte professou  curso de astronomia popular, na sede do bairro dos Pequenos Padres, hoje bairro da Bolsa. As suas aulas principiavam ao meio-dia e duravam duas horas, com assistência de duzentas a trezentas pessoas. Em 1844, ele publicou o seu curso sob forma de livro, que intitulou Tratado filosófico de astronomia popular.

[28] As Tulherias era palácio real imenso, situado em Paris, cuja construção datava de 1564, incendiado criminosamente em 1871 e cujas ruínas foram arrasadas em 1883.

[29] Os Inválidos corresponde a  enorme residência e hospital destinados a militares que se tornaram inválidos mercê das guerras. Construído no século XVII, contém uma igreja, museus militares e, dentre outras, a tumba de Napoleão I.

[30] Comte estudou na Escola Politécnica de 1814 a 1816, ano, este, em que todos os alunos foram dispensados por determinação governamental,  motivo porque não se chegou a formar. Fundada em 1794, a Escola Politécnica destinava-se a formar engenheiros e tornou-se escola militar de engenheiros em 1805.

[31] Tiago Grimm (1785 – 1863), alemão, exerceu funções diplomáticas em Paris, de 1814 a 1816. Com seu irmão Guilherme (1786 – 1859), escreveu uma gramática e parte de um dicionário da língua alemã. Denis Diderot (1813 – 1784) foi pensador e escritor do iluminismo francês, co-diretor da Enciclopédia. Da sua autoria, Comte recomendava a leitura de Interpretação da natureza, Dissertação sobre os surdos e os cegos e Ensaio sobre o belo.

[32] Extrato da carta de A.Comte a Laffitte, de 15 de outubro de 1845: “Li, com interesse, as suas judiciosas observações sobre as disposições fundamentais das classes iletradas, bem assim, do interior das nossas províncias, como do centro de Paris; não se assuste com a aparente recrudescência teológica que lhe mostram lá, como aqui, as classes letradas, e sobretudo os nossos mestres atuais, os juristas. Segundo as suas próprias observações, não há nisto nenhum tipo de verdadeiras convicções religiosas, porém, somente, a extensão do maquiavelismo vulgar e ridículo, fundado na pretendida necessidade social ilimitada de tal  regime mental; ora, tanto mais esta hipocrisia sistemática se propaga, tanto menos ela conserva de consistência: ela não foi perigosa senão enquanto esteve concentrada em uma classe de escol, como acontece ainda na Inglaterra. Aqui, esta rotina apresenta apenas um valor negativo,  para opor-se às tendências anárquicas do único partido progressista que se organizou até agora. Que a opinião progressista dê verdadeiras garantias de ordem, tornando-se positiva ao invés de permanecer metafísica, e todas estas pretensões retrógradas perderão, imediatamente, o seu valor social”.

[33] De fato, na França contemporânea de A. Comte e durante todo o século XIX, os aristocratas e os católicos permaneceram, amiúde,  fiéis à monarquia e hostis à república. Em regra, os monarquistas professavam o catolicismo, enquanto os republicanos aderiram também e sobretudo, ao socialismo, à maçonaria, ao ateísmo, ao livre-pensamento e, claro, ao Positivismo.

[34] Hugo Felicidade Roberto de la Mennais (1782 – 1854) foi padre, amigo pessoal de Comte e pioneiro do catolicismo liberal, do catolicismo social e da democracia cristã. Escreveu vários livros e advogava a separação entre a Igreja e o Estado, princípio cardeal do  Positivismo.

[35] Pedro Guilherme Frederico le Play (1806 – 1882), economista francês.

[36] Benedito Profumo  era comerciante de massas em Gênova e escreveu a Comte em 1849,  declarando-se “um dos seus maiores admiradores”. Comte apelidou-o de Vermicelle. Emílio Paulo Maximiliano Littré (1801 – 1881) foi um dicionarista francês, autor do célebre Dicionário Littré e de vários livros de coletâneas de ensaios de história, literatura, medicina, ciência. Discípulo de Comte, a obra deste passou a tornar-se conhecida graças a seis artigos seus, publicados na gazeta Nacional, de Paris, em 1844.  Por motivos políticos, Littré dissentiu de Comte em 1850, quando se afastou dele; coligado à mulher de A. Comte, de quem este achava-se separado, malquistaram-se ambos. Littré aceitava a parte intelectual do Positivismo (que consiste no Sistema de Filosofia Positiva) e recusava a religião da Humanidade, atitude designada por littreísmo. Carlos Felipe Robin (1821 – 1885) foi um médico francês, professor de Histologia, área do saber de que encarnou o mentor, na França. Senador em 1876, produziu abundantemente, em medicina.  Em colaboração com Littré, escreveu um Dicionário de Medicina.

[37] Município do departamento de Altos do Sena, situado nas imediações ao sul de Paris.

[38] André Maria Ampère (1775 – 1836), foi  físico francês.  Dedicou-se ao eletromagnetismo,  inventou o telégrafo e o seu sobrenome nomina a unidade de intensidade da corrente elétrica (ampére).

[39] Pedro Simão Ballanche (1776 – 1847), ensaísta francês.

[40] Restauração significa o período de 1815 a 1830, em que, destronado Napoleão,  se repôs na França a dinastia de Bourbon, na pessoa de Luis XVIII, a quem sucedeu Carlos X.

[41] Comte expôs, a partir de dezembro de 1829, no Ateneu Real de Paris, sob a forma de lições orais e públicas, o seu Curso de Filosofia Positiva, que professara, em janeiro do mesmo ano, na sua residência, para uma audiência selecionada. Lenoir, amigo de Comte, fora diretor do Ateneu.

[42] Lázaro Nicolau Margarida Carnot (1753 – 1853), de alcunha o Grande Carnot, foi  general e homem público francês, partidário de Napoleão I. Co-responsável pela criação da Escola Politécnica, deixou obra poética e matemática.

[43] Os girondinos corresponderam a  agrupamento político da Revolução Francesa, assim designados porque vários dos seus deputados  provinham das imediações do rio Gironda.

[44] Chamou-se de Convenção a assembléia constituinte que governou a França de setembro de 1792 a outubro de 1795. Durante a sua existência proclamou-se  a república na França e, no seu período final , instaurou-se o período  chamado de Terror, em que se executaram centenas de pessoas, por motivos políticos.

[45] O caráter relativo do Positivismo consiste na relatividade que  reconhece no conhecimento humano: tudo quanto conhecemos acha-se relacionado com  a capacidade humana de conhecer,  e com a fase da evolução histórica da Humanidade em que o conhecimento ocorre, o que permite compreender as diferentes crenças que prevaleceram em momentos distintos da história (Comte, Sistema de Filosofia Positiva, VI, página 618 e seguintes. Trata-se, aliás, de  trecho dos mais sugestivos e ricos de Comte, que, por si só, merece atenção e estudo, na obra luminosa em  percepções e  imensa em  esclarecimentos a que correspondem os três tomos finais da Filosofia ).

[46] Sceaux, Chatenay-Malabry e Verrières correspondem a municípios situados  nos arredores de Paris.

[47] Francisco Renato de Chateaubriand, visconde de Chateaubriand (1768 – 1848) foi político e escritor francês, autor das Memórias de além-túmulo e, dentre outras obras, de Os mártires, cuja leitura A. Comte recomendava. Vale de Lobos situa-se a três léguas do centro de Paris, atualmente no município de Chatenay-Malabry.

[48]  Fontenay das Rosas corresponde a município, propínqüo de Paris.

[49] Diz o bilhete: “Meu caro senhor Laffitte, Esqueci-me, antes de ontem, de propor-lhe, para depois de amanhã, quinta-feira, passeio campestre, análogo àquele do último mês. Amanhã falaremos disto; contudo, pensei que dele facilitaria a execução anunciando-lho desde hoje. Se estiver disponível, bastará, como da outra vez, encontrar-se na minha casa na manhã daquele dia, às 11 horas, salvo contratempo. Todo seu, Augusto Comte. Terça-feira, 15 de junho de 1847”.

[50] A cidade de Paris é dividida em seções numeradas.

[51]  João Batista Colbert (1619 – 1683), importante homem público francês. Voltaire, pseudônimo de Francisco Maria Arouet (1694- 1778) foi proeminente escritor do Iluminismo francês.  Maria João Antonio Nicolau de Caritat, marquês de Condorcet (1743 – 1794) foi matemático, político durante a Revolução Francesa e pensador que produziu abundantemente. Dentre as suas obras, A. Comte recomendava a leitura de Meios de aprendar a contar com segurança e facilidade, Os elogios dos cientistas e o Quadro dos progressos do espírito  humano.  Ao contrário do que se propala ignorantemente, foi Condorcet, e não Saint-Simon, o “pai espiritual” de A. Comte, como o próprio o qualificava.

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2 respostas para Comte na memória de Laffitte.

  1. João disse:

    Olá, Arthur.

    O que faço se tenho muito material em papel para ler, não tenho muito gozo nem tempo o bastante de ler pela Internet e estes seus textos deliciosos estão em eletrônico? Preciso te ler em papel.

    Abraços.

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