Curitibano furador de filas

Curitibano baladeiro de classe média, mal educado. Em balada de classe média de Curitiba a bicha era lentíssima; aumentava para trás e avolumava-se a meio: inúmeros indivíduos, ao invés de tomarem lugar no final da fila, por ordem de chegada, reuniam-se, no meio dela, a conhecidos seus e, com isto, entrava antes quem chegara depois. Furavam a fila. Furaram a fila inúmeros rapazes e moças bem vestidos (e falantes de gírias, que o seu vocabulário era paupérrimo).

Furar fila é prática desonesta. Furar fila é desonestidade. A desonestidade começa com a fila que se desrespeita, com o lugar do outro que se menoscaba, com a esperteza , com o jeitinho.

Gente civilizada, educada, dotada de senso de vida em sociedade, de respeito, a sério, pelo próximo, não faz isto e sim põe-se no seu lugar: no final da fila.

Muitos curitibocas falam da Curitiba européia, da Curitiba do Batel Soho, do Cabral Soho; calam a Curitiba das bichas tardígradas em muitas lojas (Renner e Mercadorama, por exemplo), de gente que não sabe aproveitar o seu tempo nem o de quem lhe sucede nas filas. Para o curitibano ser “europeu” não lhe faz falta sugerir nomes imbecis para os bairros da cidade (Batel Soho, Cabral Soho), que lhe revelam complexo de inferioridade em face do europeu. Faz-lhe falta ter educação, por exemplo, nas filas das baladas da juventude de classe média endinheirada.

Um monte de gente (para mim, era um monte de gente) chegou depois de mim e entrou antes de mim, porque se introduziu na bicha, junto de conhecidos e amigos, com o maior descaramento, sem o menor senso de auto-crítica, sem nenhum respeito por todos quantos aguardavam na fila. Os intrusos furaram-na para entrarem antes; porém, outros intrusos também a furaram, antes da posição dos intrusos anteriores, ou seja, os espertinhos eram vítimas de outros espertinhos; por sua vez, terceiros intrusos intruduziram-se antes da posição dos intrusos anteriores. A pouco e pouco, o volume de gente à espera aumentou, o tempo passou e a fila quedou-se quase imóvel: para cada indivíduo que ingressava no estabelecimento, surgiam dous, três ou quatro mal educados que se imiscuíam na fila: após 30 minutos, havia mais fila, mais imobilidade nela, mais gente fora do estabelecimento, mais impaciência e abundante falta de respeito.

Não era isto que eu esperava da classe média juvenil da “Curitiba européia”; o que encontrei, ontem, nela, foi costume incivilizado, primitivo, bárbaro, praticado por muitos e consentido, passivamente, pelos demais, porventura também usuários de furar a fila, quando lhes convêm.

Aliás, ser passivo é típico do curitibano: todos vêem o abuso e ninguém reclama dele (“ninguém fala nada”). Uns são mal educados; outros, suportam em silêncio o abuso de que são vítimas. O que fazer? O óbvio; o certo: ir para o final da fila; ninguém furar a fila; se alguém o fizer, os outros protestarem.

É a forma de todos se respeitarem mutuamente; de a fila deslocar-se; de poupar-se tempo; de logo aceder-se ao estabelecimento, de que se quer usufruir, ao invés de passar-se pela maçada da bicha lentígrada, quase imóvel. É incrível que seja preciso dizer às pessoas o que elas deveriam saber e, sobretudo, praticar. Curitiba européia. Européia ?! (A propósito da fila no bar do Simão, em março de 2014).

 Os curitibanos somente ou, também, os brasileiros em geral?

 

 

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