As paradas da diversidade e o cristianismo

 

As paradas gueis

30.VI.2008

  arthurlacerda@onda.com.br

 

            Correspondem as paradas da diversidade contecimentos do alto significado sociológico.

            Por séculos a fio, sobretudo nos últimos oitocentos anos, o  cristianismo criou um condicionamento cultural segundo o qual a única forma aceitável e correta de sexualidade consistia na heterossexualidade procriadora. Toda  atividade sexual diferente desta, era  reprovada, o que incluía a homossexualidade e a bissexualidade (também a masturbação, a pornografia e a prostituição), sobre as quais, por um trabalho persistente nas populações submetidas à doutrinação cristã, reiterado ano após ano, década após década, século após século, criou a homofobia e a lesbofobia, como uma repulsa pela sexualidade em geral e o tabu a seu respeito.

            Nas sociedades cristianizadas, a sexualidade tornou-se assunto proibido; a homossexualidade, objeto de horror e asco; os homossexuais, vítimas de discriminação e preconceito.

            Tardou demasiadamente até que principiasse a deixar de ser assim; mesmo nas famílias desvinculadas do cristianismo, prevalecia a mentalidade por ele constituída. No Brasil, cerca de trinta anos atrás, a rede Globo, por meio do Fantástico, promoveu uma campanha cujo mote correspondia ao de que “sexo não é tabu”: tratou-se de um primeiro passo no sentido da abertura das pessoas para a aceitação, sem reservas, de um aspecto crucial da natureza humana e da vida das pessoas.  Certos pais, entrevistados, declaravam que conversavam com os seus filhos sobre sexo, como exceções à maioria,  que evitava tal tema o mais possível. Passavam-se vidas inteiras, sem que a generalidade dos pais e mães tocasse nisto com nenhum dos seus filhos, ou, se o faziam, era superficial e envergonhadamente.

            Hoje, a sexualidade não corresponde mais a tema proibido; muitos pais conversam sobre ela, com os respectivos filhos, os jovens falam dela abertamente entre si e as escolas, com aulas de educação sexual, desempenham um importante papel, de esclarecimento e de informação.

            Desapareceu, em considerável medida, o tabu da sexualidade. Persiste, contudo, em proporção ainda alarmante, o estigma relacionado com a homossexualidade e com a bissexualidade.

            Os homossexuais correspondem a, pelo menos, 20% da população masculina; os bissexuais,  a, pelo menos, o dobro, considerada não a prática das pessoas, porém a sua inclinação, ou seja, os seus desejos e preferências, em regra ocultos ou frustrados, pelo temor do preconceito, causa, por sua vez, de infelicidades, dramas entre pais e filhos, frustrações e de neuroses; em suma, de sofrimento inútil.

            Embora a heterossexualidade corresponda a uma condição minoritária (40% face a 60% de homossexuais e bissexuais),  predomina, nos países ocidentais, o entendimento  de que a ela corresponde à única expressão correta e aceitável de sexualidade e de que a homossexualidade e a bissexualidade repugnam: o condicionamento cultural discrepa da realidade do ser humano; a mentalidade contraria a natureza.

            É impressionante que venha sendo assim por tanto tempo; que, por séculos a fio, perdurasse uma concepção da vida contrária à condição humana, resultado direto da influência do cristianismo, responsável, também,  pelas guerras de religião, pelo anti-semitismo, pelas fogueiras da Inquisição, em suma, por mortes, perseguições e discriminações que se foram sucedendo ao longo da história.

            Uma religião cujos efeitos são estes, é  maldita e odiosa, para mais de hipócrita, porquanto prega o amor entre os homens e produz o desprezo de muitos deles por outros.

            Dentro do condicionamento  católico e homofóbico, formou-se a mentalidade dos brasileiros. Por isto, o surgimento das passeatas homoafetivas, a sua multiplicação por inúmeras cidades do Brasil, a adesão, a elas, de milhares de pessoas (parcela ínfima da população não heterossexual), exprime a necessidade que sentiram as vítimas do estigma de protestarem contra ele, de pugnarem pelo  respeito em substituição ao preconceito:  ninguém é obrigado a ser homossexual ou bissexual, nem a gostar de que os outros sejam-no; quem não gosta, não o seja, porém respeite os outros na sua condição de ser e na sua liberdade de fazer.

            Destinam-se, as paradas, ao público não heterossexual, como seus participantes, e à sociedade, em geral, como sua espectadora: elas permitem que os homossexuais e os bissexuais retirem-se da sua (relativa) clandestinidade para uma certa exposição e, por meio, dela, afirmem a sua condição sexual. Busca-se afirmar à sociedade preconceituosa que outras formas de sexualidade existem e que os seus praticantes merecem respeito, como qualquer ser humano o merece.

            Em si próprias, as paradas  nada contém de extraordinário nem contribuem para com os “direitos” dos homossexuais; indiretamente, elas concorrem para a criação de um condicionamento cultural em favor do respeito por estes: a pouco e pouco, elas acostumam as pessoas em geral, com a existência do fenômeno da homossexualidade e da dos homossexuais, o que favorece a  transformação da mentalidade, de preconceituosa, em indiferente ou respeitosa.

            Neste sentido, muito mais do que as paradas, colaboram enormemente as telenovelas, os filmes, os programas humorísticos, com os seus personagens homossexuais ou lésbicas: eles habituam as pessoas a uma espécie de convivência com o homossexual e com a lésbica que, assim, por alguma forma, passam a integrar-lhes o mundo como as demais pessoas, sem os diferenciar destas. A presença de tais personagens com tratamento igual ao dispensado às pessoas quaisquer, corresponde a uma forma de combater o preconceito pelo seu desuso.

            Infelizmente, a Idade Média ainda existe, na psicologia homofóbica de muitas pessoas, portadoras de sentimentos desumanos de desprezo e ódio por certos dos seus semelhantes. Felizmente,  vem ela declinando, com uma aceleração de que constituem sintomas a instituição do casamento homoafetivo em vários países do mundo, a reivindicação, explícita, no Brasil e não só, de faculdades legais em favor dos homossexuais, o surgimento de uma juventude homossexual livre no seu modo de viver e, para finalizar, as paradas de fanchonos e tríbades justamente designadas por paradas da diversidade, por incluírem as expressões sexuais diversas da heterossexualidade. Nem é preciso acrescentar que tudo isto representa o desenvolvimento de costumes decorrentes de uma mentalidade  laica, inspirada no valor do respeito pelo ser humano e pela sua diversidade, e fora da teologia cristã.

                

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