Homens de livros. Littré. Positivista.

                                  

Homens de livros. Littré

29.III.2009

 

 

Arthur Virmond de Lacerda Neto

arthurlacerda@onda.com.br

   (São ligeiras notas e reflexões, muito aquém

 do que merecem o tema e o personagem)

 

 

 

            Cada ser humano corresponde a um mundo próprio, constituído por interesses individuais,  inclinações,  anseios,  perspectivas, sensibilidade, sentimentos,  reações, atividade, valores de cada qual. A combinação destas características nas mais variadas proporções, associada com as circunstâncias em que se desenvolve a vida de cada pessoa, singulariza-a em face das demais.

            A medida desta singularidade varia, conforme entre os indivíduos haja coincidências, em proporção maior ou menor, entre cada um e dos demais. Há pessoas semelhantes entre si, em que, observada uma, é como se se houvessem observado várias, por repetirem-se umas às outras. Em alguma medida, todas as pessoas, sem exceção, se encontram sob imitação recíproca: viver em sociedade implica em uma certa homogeneidade na maneira de ser.

            Em algumas pessoas, contudo,o grau da imitação em face do de autenticidade, é menor: há pessoas mais autênticas, em que o componente de originalidade individual excede o da imitação, o que as diferencia em comparação com os demais, em certos aspectos, ao menos.

                        Nisto radica, talvez mais do que em qualquer outra particularidade, a diferença entre o vulgo e quem se acha acima e fora dele: enquanto o comum dos homens pauta-se pelos padrões de interesse, de sentimento, de entendimento, de atividade, disseminados pela sociedade, diferença do  vulgo e a ele sobreleva quem apresenta um conteúdo humano mais sofisticado, interesses mais profundos, exige de si próprio mais do que os outros, apresenta um rendimento pessoal maior.

            Há vida vulgar e vida excelsa, como as distinguiu Ortega y Gasset; há homens-massa, que repetem em si um tipo humano genérico e sentem-se confortavelmente instalados na vida por se identificarem com os demais. Há, por outro lado, os homens seletos: antes de tudo, diferem dos demais, com quem não coincidem, em alguma medida e que, espontânea ou sistematicamente, conferem às suas pessoas um conteúdo e atribuem às suas vidas um sentido de elevação que as torna invulgares.

            É o caso dos homens de letras, daqueles cuja delícia existencial radica no convívio com os livros, do lê-los ao redigí-los.Literatos, eruditos, historiadores, filósofos, poetas, intelectuais, leitores assíduos de livros, são pessoas em cujo mundo se encontra,  inerentemente, o livro, como companhia e como  índice de um verdadeiro estado de espírito: o dos interesses culturais superiores aos do vulgo.

            Nenhum deleite lhes excede ao da leitura de um bom livro e ao das horas que transcorrem em companhia dele. É um prazer que o homem tosco não percebe, que o ignorante não conhece, que o medíocre despreza.

            Houve, ao longo dos tempos, notadamente a partir da introdução da imprensa,  homens cuja vida transcorreu em meio aos livros e que neles encontraram parte da sua realização existencial. Em meio aos livros, e, por eles, em meio à cultura, ao que de melhor a Humanidade produziu e transmitiu de geração em geração.

             Foram (e são, que os há; serão, que os haverá) homens que destoavam, em parte, ao menos, do meio humano em que existiam: Augusto Comte; Aristóteles; Bossuet e Tomás de Aquino; Dante e Walter Scott; Teófilo Braga e Bertrando Russel; Júlio Dantas e Matias Aires; Machado de Assis e Euclides da Cunha, e tantos outros cujas obras compõe uma parte preciosa do patrimônio espiritual da Humanidade que deve se achar à disposição de todos, para elevação do nível do homem médio.

            Nem sempre a vida social, os contactos mundanos, o freqüentar e o ser freqüentado, o palestrar, representam uma necessidade ou um prazer: podem representar um fardo desagradável, se constituída por um ambiente em que não nos sentimos à vontade, que não nos faz sentido ou com que não sentimos afinidades. Será este, certamente, o destino dos homens superiores pela sua cultura e pela sua qualidade humana, em face do ambiente que os cerca; é este o destino dos homens de livros, do culto em face dos incultos.

            Foi o caso, também, de Emílio Littré (1801-1881), o célebre positivista, autor do dicionário do francês antigo e de dezenas de artigos em que resenhou livros que leu e que lhe mereceram extensos comentários, relacionados com Positivismo, medicina, astronomia, história, literatura, política: viveu em meio aos livros, a que se dedicava talentosamente.

             Aquilo de que os outros gostavam, a ociosidade, os prazeres lúdicos, as viagens, as atividades fúteis, tudo isto pouco o atraía. O seu, era um mundo outro que o dos outros e, por isto, vivia em  um certo isolamento que lhe foi pronunciadíssimo durante os onze anos que lhe durou a redação do seu colossal dicionário.

            Graças à uma série de seis artigos seus publicados na gazeta Nacional, em 1844,  o Positivismo (desconhecido, até então) se notabilizou na França, sentido no qual Littré prestou um serviço assinalável no âmbito das idéias e cujas conseqüências foram as mais amplas, mercê da influência que aquela doutrina passou a exercer na França e alhures.

            Embora criticasse, por motivos contestáveis e contestados, a Política Positiva, segunda grande obra de A. Comte,  conservou-se, sempre, adepto do Positivismo, condição na qual é lembrado, tanto como lexicógrafo e erudito de que não há equivalente no Brasil atual e, certamente, tampouco na própria França.

           

 

           

 

           

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Uma resposta para Homens de livros. Littré. Positivista.

  1. João disse:

    Prezado Sr. Arthur. Não me ocorrera, antes de encontrar este seu blog, consultar no Google a fim de encontrar textos de sua autoria. Acabo de fazê-lo e localizei este blog tão abundante em conhecimento e que já incluí em meus favoritos. Conheço seu texto desde que, em iniciação científica, meu professor recomendou a leitura de uma sua análise do livro do falacioso Marcos Bagno. Essa sua análise foi, senão o melhor texto, o primeiro que me liberou e me fez acreditar o quanto ainda se pode filosofar em língua portuguesa. Parabéns pelo seu estilo tão limpo, tão puro. Gostaria de conhecer obras suas impressas. Seriam livros que eu manteria no melhor lugar de minha casa. Um forte abraço. Se puder responder a este comentário, meu e-mail é joaorosak@hotmail.com, meu nome é João Rosa de Castro.

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