Aula de inglês para brasileiros

 

             Aula de inglês para brasileiros

2011

                                                                       Arthur Virmond de Lacerda Neto

arthurlacerda@onda.com.br

Muitos brasileiros estudam o idioma inglês, ainda que comumente ele  sirva-lhes apenas para enriquecimento curricular e  não para a leitura de livros nem para uso profissional e ainda que o seu estudante esqueça a maior parte do quanto aprendeu logo após o término das aulas respectivas. O seu estudo resulta, assim, amiúde, em perda inútil de tempo.

Uma aula, no entanto, falta nos cursos de inglês: concerne ela ao uso do vernáculo, da parte de brasileiros, entre brasileiros, para brasileiros, no Brasil, por mais que conheçam eles o idioma saxão. Ela consiste em afirmarem-se os equivalentes vernaculares dos americanismos, quer por tradução, quer por adaptação livre.

Circulam, entre nós, muitos termos em inglês, empregados sem nenhuma necessidade, na medida em que dispomos de equivalentes em Português. Se existe uma palavra em Português que designe o objeto, a ação, a qualidade ou que desempenhe a função lingüística de que se necessita, não faz sentido nenhum substitui-la por outra, em inglês. Não há nada mais ridículo,  mais grotesco,  mais caricato, do que, por exemplo, uma loja vender “cookies” ao invés de bolachas ou biscoito ou escrever “sukrilhos ou  uma empresa ter um “chairman” e não um presidente.

Alguns empregam os estrangeirismos por acreditarem que  tornam o seu discurso requintado e sofisticado mercê deles ou mercê da anglicização das palavras e dos nomes próprios, como “sukrilhos”,  “Karlos” ou “Karowlayne”.

Torna sofisticado e requintado o seu discurso quem conhece bem o seu próprio idioma e usa-o corretamente, com o vocábulo próprio para cada necessidade e não quem lhe introduz termos exóticos, em que se inverte o valor do cultivo do idioma pelo da ostentação pedante. Porque se trata de valores: o Brasil é um dos poucos países do mundo em que o idioma não representa um valor de civilização nem um elemento da identidade nacional. Daí que, pertencendo-nos um idioma riquíssimo, belo de ouvir-se, quando bem falado, e de ler-se, quando bem escrito, vai se descaracterizando também a cada americanismo que se introduz e que substitui os equivalentes que nos são próprios. Substitui, eu disse, porquanto as pessoas aprendem o estrangeirismo e esquecem-se do vernacular (por exemplo: porque alguém,que conhecia mal o Português, passou a empregar “slogan”, os outros passaram a imitá-lo e hoje, mal há quem conheça lema, dístico,divisa, palavra de ordem).

No comércio, os americanismos e a anglicização da grafia existe porque os comerciantes desejam incrementar as suas vendas (o que é compreensível) e porque o público sente-se atraído pelos americanismos e pelas palavras grafadas com “k”, “w” e “y”. Trata-se do feiticismo das palavras, em que se atribui qualidade superior aos objetos que se nominam desta forma, como se o nome alterasse-lhes a substância, como se a palavra fosse dotada de algum poder de intervenção na matéria. Nem é preciso mencionar que se cuida de uma forma mental profundamente irracional e inteiramente fictícia. Se o vulgo (e não só) raciocina assim, acha-se fora da realidade e abaixo da racionalidade humana.[1]

Nada justifica a introdução de um termo estrangeiro se existe um equivalente próprio.

Idêntico fenômeno se passa em relação aos galicismos, termos originários do francês.

O (mau) gosto da imitação já descaracterizou a grafia dos nomes de família originários dos idiomas de origem latina: em Português, Francês, Italiano e Espanhol, todas as preposições onomásticas escrevem-se em minúsculas: de Lacerda, dos Santos, das Neves, du Guay, de Maistre, de Bonald, da Fontoura. Em Inglês, contudo, tais preposições figuram, algumas vezes, unidas a nome que se lhes segue, ambos em maiúsculas, como DosPassos. Quer por isto, quer porque os programas informáticos transformam, automaticamente, o “d” minúsculo em maiúsculo, grassa, como epidemia, o erro de grafar-se De Lacerda, Dos Santos, Pão De Queijo, Casa Das Massas.

Se os programas informáticos atribuem caixa alta, automaticamente, à letra “d” das preposições onomásticas, trata-se de programas defeituosos, que alteram, indevidamente os nomes, o que exige a atenção do usuário do computador, para corrigir a deturpação. É inaceitável que os nomes pessoais e de certos objetos se alterem devido a isto e devido à imitação do inglês. Foi especialmente lamentável o título do livro “O Código Da Vinci”, que propiciou o mau exemplo a milhões de brasileiros. Recentemente, a editora Companhia das Letras passou a chamar-se Companhia Das Letras. Isto tem dois nomes: desleixo e ridículo.

Também é ridícula outra  imitação do inglês: usar-se a cerquilha (ou octothorpe, sinal de quadrado ou de jogo da velha:  #)  em substituição da palavra número, como em edição # 5 em lugar de edição de número 5 (não é errado o uso da cerquilha; ao contrário, é sinal que indica número; o que censuro é a macaquice do brasileiro que resolveu usá-la porque a observou em publicações norte-americanas e não por conhecimento da finalidade própria do sinal. Ele não o passou a usar por saber-lhe a destinação, porém por imitação do norte-americano). Outra, ainda, imitação, consiste na forma de uso dos apelidos, em que ele vai entre aspas, intercalado entre o prenome e o primeiro sobrenome (José “Zé” Correia), ao passo que, em português, enunciamos o nome completo ou abreviado, seguido, entre parênteses, do apelido, como José Correia (Zé). Mais outra macaqueação consiste em datar-se as casas de comércio, escolas, hospitais, escritórios de advocacia e mais instituições pela palavra “Desde”, seguida do ano de criação (por exemplo: Desde 1966), ao invés de “Fundado em tal ano”, como tradicionalmente faz-se no Brasil. Outra: o zero cortado: o zero indica-se pelo sinal “0”; o norte-americano traça-lhe uma retilínea diagonal, o que entre nós, jamais se usou, mas alguns imitadores passaram a fazer.

São influências e elas são normais, argumentará alguém. De o serem, não se justifica que devamos adotar todas as que nos expomos, indiscriminadamente, fora de qualquer critério.

Também não se trata de xenofobia. Xenofobia significa o ódio, a hostilidade, a aversão ao estrangeiro. Não se trata de repudiar o exótico e sim de prestigiar o próprio. Afinal, temos ou não temos identidade cultural ? Temos ou não temos língua própria, rica e bela ? Somos ou não somos capazes de traduzir, de criar, de imaginar ? Se temos identidade cultural, se temos língua própria, rica e bela; se somos capazes de traduzir, de criar e de imaginar, não o fazemos porque não o queremos, porque muitos brasileiros adotam um espírito de mimese, em  que funciona um certo complexo de inferioridade em face dos Estados Unidos da América, que se compensa pela imitação do seu idioma e dos seus usos: no entendimento deles, imitá-los eleva-os à uma condição semelhante à daquele país; mediante tais imitações, tais indivíduos sentem-se identificados com o que admiram e os impressiona. Assim como o brasileiro pobre sente-se engrandecido por atribuir aos seus filhos nomes como Kathlyn, Karowlayne, Jhepherson e al, outros sentem-se engrandecidos pela adoção do vocabulário do inglês e de certas práticas norte-americanas. Em ambos os casos, trata-se de brasileiros pobres: pobres de espírito.[2]

 

(Informo os equivalentes vernaculares tal como eles eram usados alguns anos atrás, pelo que são suscetíveis de alguma variação de então a esta parte, bem como era suscetíveis de alguma variação de uso em diferentes pontos do Brasil e por diferentes pessoas. Não exponho necessariamente as traduções das palavras, porém os seus equivalentes vernaculares, o que implica, geralmente, nas respectivas traduções. Para ostentar inglês, tudo valia: o seu uso “adequado” ou não. Por isto, porventura, alguma tradução estará “errada” – penso, contudo, que errado é usar em inglês no Brasil.).

“Acessar”: aceder a; acedo ao Orkut; acedi à sala de aula.

“Baby”: criança, bebê.

“Baby-doll”: camisola de dormir.

“Baby-sitter”: cuidadora de crianças.

“Back” : defesa.

“Background”: base, opinião política, tendência.

“Bacon”: toicinho.

“Bar”: botequim.

“Básica”: (roupa) lisa.

“Barman”: empregado de bar.

“Best-seller”: livro de grande êxito.

“Black-out”: apagão.

“Black-tie”: laço preto.

“Blaser”: casaco.

“Blue-jean”: brim azul.

“Bookmaker” : corretor de apostas.

“Bookstore”: livraria.

“Boss”: patrão, chefe.

“Box”: caixa, compartimento.

“Boxe”: pugilismo.

“Boy”: menino, garoto, prostituto.

“Briefing”: conferência, reunião.

“Building”: edifício.

“Business school”: escola de negócios.

“Cameraman”: técnico de televisão, filmador.

“Camping”: campismo, acampamento.

“Canyon”: vale.

“Carter”: protetor.

“Cartoon”: caricatura.

“Cash”: pagamento em dinheiro à vista.

“Casting”: elenco.

“Casual”: informal.

“Caubói”: vaqueiro, pegureiro, boieiro.

“Chairman”: o homem da cadeira, presidente.

“Charter”: fretado.

“Chack-list”: lista de documentos.

Check-up”: exame geral.

“Cheeseburger”: sanduíche de queijo.

“Cherry”: cereja.

“Cí én én”: cê ene ene.

“Close up”: aproximação.

“Cockpit”: carlinga.

“Coke”: carvão de pedra.

“Conteiner”: contentor, cofre-de-carga.

“Cookie” bolacha.

“Cool”: fresco.

“Cooper”: caminhada.

“Copydesk”: mesa de trabalho.

“Copyright”: direitos de autor.

“Corner”: escanteio.

“Cow-boy”: menino-boi, vaqueiro.

“Crack”: famoso, notável, excelente.

“Daiana”: Diana.

“Dancing”: discoteca.

“Dandy”: janota, peralta.

“Delivery”: entrega em domicílio.

“Derby”: competição.

“Designer”:desenhador.

“Destroyer”: destruidor.

“Display”: exibição, postura.

“Doping”: estimulação.

“Drink”: bebida.

“Drops”: bala.

“Drugstore”: farmácia.

“Éfe bí ái”: éfe bê í.

“Em tí ví”: ême tê vê.

“E-mail”: endereço eletrônico.

“Fair-play”: honestidade no desporto.

“Fast-food”: comida rápida.

“Feed-back”: retorno, reciprocidade.

“Ferry-boat”: navio de passagem.

“Fest-food”: comida rápida, colação.

“Fitness center”: ginásio.

“Flash”: clarão, luminoso.

“Flash-back”: retorno ao passado.

“Flat”: apartamento, escritório, recinto.

“Flyer”: folheto.

“Folder”: prospecto.

“Fone”: telefone.

“Free”: gratuito.

“Free lance”: autônomo.

“Freezer”: congelador.

“Full-time”: em período integral.

“Geyser”: esguicho.

“Ghost-writer”:  autor verdadeiro.

“Gin”: genebra.

“Hall”: vestíbulo, átrio, saguão.

“Hacker”: pirata eletrônico.

“Handicap”: compensação.

“Happy-hour”: fim de expediente.

“Hardware”: ferramenta, componente.

“Hi-fi”: de alta fidelidade.

“Hobby”: passatempo.

“Holding”: grupo.

“Home page”: página eletrônica.

“Home care”: tratamento doméstico.

“Home theater”: exibição doméstica.

“Hot dog”: cachorro-quente.

“In”: na moda.

“Insight”: intuição, rendimento.

“Jamboree”: reunião de escoteiros.

“Joint ventury”: consórcio.

“John”: João.

“Know-how”: conhecimento; técnica.

“Kid”: criança.

“Kitsch”: de mau gosto.

“Kôssovo”: Cozôvo.

“Layout”: esboço.

“Light”: suave.

“Living-room”: sala de estar.

“Link”: ligação.

“Lobby”: grupo de influência.

“Loft”: apartamento de pé direito elevado; apartamento alto.

“Look”: aspecto, aparência.

“Manager”: empresário, gerente.

“Marine”: fusileiro naval.

“Marketing”: propaganda, publicidade.

“Merchandising”: comércio, mercatura, comercialização.

“Mix”: mistura.

“Mixer”: misturador.

“Mouse”: rato, controlador.

“New look”: nova moda.

“Note-book”: computador de mão.

“% off”: % de desconto.

“Office”: escritório.

“Office-boy”: menino-escritório, contínuo.

“Offset”: transporte, pois, no caso da composição tipográfica, esta é transferida de uma folha de metal para o papel por meio do cilindro.

“O.K.”: tudo bem, de acordo.

“On line”: em linha.

“On the rocks”: com gelo.

“Open”: aberto para profissionais e amadores.

“Overdose”: superdose.

“Overnight”: de um dia (negócios).

“Paper”: relatório, resumo, resenha.

“Parking”: estacionamento.

“Penalty”: penalidade.

“Performance”: desempenho, atuação, exibição.

“Play-boy”: pândego, folgazão.

“Play-off”: disputa extraordinária.

“Pocket-book”: livro de bolso.

“Pool”: agrupamento, grupo, consórcio.

“Poster”: cartaz.

“Puzzle”: jogo de montar.

“Ranking”: classificação, lista.

“Relax”: descanso, relaxamento, repouso.

“Remake”: nova versão, refilmagem.

“Replay”: repetição.

“Ring”: tablado.

“Rum”: aguardente.

“Rush”: hora de rush: hora de ponta.

“Sale”: à venda.

“Scanner”: copiador.

“Score”:  contagem, marcação, resultado.

“Self-service”: auto-serviço.

“Sexy”: sensual, erótico, atraente.

“Shopping center”: centro comercial.

“Show”: espetáculo, concerto, exibição, apresentação.

“Show room”: exposição, amostragem.

“Skate”: tábua de rodas.

“Slide”: diapositivo.

“Snooker”: bilhar.

“Software”: programa de computador.

“Spot”: alocução.

“Spray”: de borrifo, borrifador.

“Staff”: equipa.

“Stand”: expositor.

“Stand by”: em suspenso.

“Teen”: adolescente, juvenil.

“Ticket”:  bilhete.

“Top-model”: modelo de prestígio.

“Trailer”: atrelado (veículo), fragmento, excerto, amostra.

“Trainee”: aprendiz.

“Up-grade”: sofisticação.

“Warrants”: direitos de subscrição.

“Workshop”: estação de trabalho.

“Xerox”: fotocópia.

“Yes”: sim.

O glossário acima deve reger-se por  critérios, de natureza cívica alguns, de ordem linguística outros,  de que todo aluno de  inglês deve compenetrar-se, bem como todo cidadão natural do Brasil ou estrangeiro aqui residente, à inclusão dos de naturalidade norte-americana.

Os critérios de natureza cívica são estes:

1)    Não se envergonhar da sua condição de brasileiro nem se sentir inferior aos demais povos da terra.

2)     Não  reputar os E.U. A.. um modelo de civilização e de cultura, a imitar-se, às custas de nosso própria identidade cultura.

3)     Não imitar o idioma inglês como uma suposta forma de adquirirmos as virtudes norte-americanas.

4)     Valorizar o idioma português como um de nossos melhores patrimônios culturais, digno de orgulho e de respeito.

Os critérios de ordem linguística são os seguintes:

1)    Conhecer a língua portuguesa de modo a saber usá-la em todos os momentos.

2)    Conhecer os equivalentes vernaculares dos termos inglês mais correntes.

3)    Empregar o idioma português em todas as ocasiões, evitando os estrangeirismos

4)    Traduzir os vocábulos em inglês ou inventar equivalentes em português.

Por fim, dispor de um dicionário inglês-português e consultá-lo sempre que necessário.


[1]   Nomes de pobres. São os pobres vezeiros nestas deturpações onomásticas: eles preferem nomes que inventam, com extravagância, ou americanos ou americanizados, de que os exemplos são abundantes: Geonildo, Jamaik, Joice, Kamilla, Thaysa, Ketle, Franciellen, Jhonny, Jhoni, Chrislayne, Rhaysa, Jheniffer, Suellen, Walmir, Claudinéia, Valdinei, Adilson, Heleine, Idinei, Ingridi, Micheli, Nayanne, Keisci, Kevlin, Rhian, Uillian, Rullian, Dieley, Dirlene, Divanor, Enderson, Ramão, Jivanildo, Gesiane,  Osney, Onei, Aldinei, Valdisnei (adaptação de Walt Disney), Joelcio, Lindadir, Jazomar, Jocemar, Dean, Cleston, Roseld, Edilso. Há um verdadeiro traço de identidade do pobre, uma nota da sua psicologia: nas classes pobres admite-se a liberdade de criação onomástica, sem nenhum critério de bom senso nem de bom gosto. Os nomes americanos ou americanizados decorrem da influência dos personagens dos filmes televisivos de origem norte-americana. Há, suponho, o intuito de o pobre aceder, ainda que psicologicamente, ao que assiste na televisão, ou seja, não podendo usufruir, de fato, dos prazeres e do conforto que os filmes lhe exibem, ele compensa esta privação e a respectiva frustração mercê da atribuição, aos seus filhos, dos nomes que encontra nestes filmes; é como se, desta forma, o pobre participasse, em alguma medida, do que usufruem os personagens cujos nomes adota. Por sua vez, os nomes inventados caracterizam-se pela sua extravagância, singularidade e mau gosto, em que, quiçá, mediante eles os pais compensem a sua frustração existencial por sentirem-se nada e ninguém, indivíduos obscuros e anônimos: ao menos os seus filhos serão notados, pelos seus nomes inusitados. Nas classes remediadas ou que usufruem de conforto material que as satisfaça, não se adotam nomes que tais; o fenômeno é singular e próprio dos pobres.

[2] Quem vestir a carapuça e sentir-se retratado nesta descrição, não racionalize, não se justifique, não me objete, não me venha com os mil argumentos com que se intenta justificar o injustificável. Reconheça, intimamente, o seu modelo mental e adote outro, à altura da inteligência humana. Não me venham dizer que  estou “ofendendo” os brasileiros com a alegação da sua (de alguns) pobreza de espírito. Acaso a mimese da língua inglesa é o quê? É grandeza de espírito, elevação cultural, afirmação da nossa identidade, prestígio do nosso idioma?

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