De mãos dadas

De mãos dadas

ou

E assim progridem os costumes           

6.III.2008

 

                                                                                                    Arthur Virmond de Lacerda Neto

                                                                                                               

                  Na tarde de quinta-feira, 6 de março de 2008, vi dois rapazes a caminhar, na rua XV, em Curitiba, de mãos dadas. Em si, o gesto é insignificante; ele é significativo como duplo sintoma, pela sua raridade.

                  É raro, raríssimo, observarem-se atitudes  públicas de afeto entre homossexuais, na sociedade brasileira, em geral, exceto  em locais muito específicos, como, segundo constou-me, a avenida Paulista, na cidade de S. Paulo.

                  Por outro lado, são comuns, comuníssimas, as atitudes públicas de afeto entre homens e mulheres, como andarem de mãos dadas e beijarem-se, o que as pessoas observam com indiferença ou curiosidade, em todos os casos, sem reprovação, que, no entanto, existia em décadas anteriores, em que um beijo entre um rapaz e uma moça, em plena rua, era tido por ato escandaloso, como hoje o é um entre dois homens.

                  A reação de escândalo e de censura, é irracional nos dois casos e preconceituosa em ambos: uma expressão de afeto entre pessoas corresponde, sempre, a um ato louvável, independentemente do sexo dos envolvidos e é estranhíssimo que eles fossem (no caso dos heterossexuais) e sejam (no caso dos homossexuais) estigmatizados.

                  Provavelmente, o estigma decorre da mentalidade anti-sexual, tão própria das sociedades cristãs, em que se instalou uma repressão à sexualidade em geral e, por extensão, às formas de expressão afetivas associadas, direta ou indiretamente, à sexualidade, por efeito, direto, dos dogmas do cristianismo, religião anti-sexual por excelência e que, neste particular, ocasionou, ao longo dos séculos, uma alta soma de infelicidade individual.

                  Do beijarem-se ou do darem-se as mãos, expõe-se  os envolvidos passar ao copular: a repressão deste, levou ao ocultamento daqueles, o que reputo imoral: é imoral a censura da expressão dos afetos simpáticos. É anti-humano inibir-se alguém de manifestar o seu carinho por outrem, em público, por temor à reação alheia, ainda que ela não se manifeste.

                  Felizmente, as mentalidades vão progredindo, e emprego este verbo na acepção que lhe atribuía A. Comte, criador do Positivismo (e do dístico Ordem e Progresso): o desenvolvimento humano consiste em tornarmo-nos mais ativos, mais inteligentes, mais simpáticos.

                  Há acréscimo de simpatia ali onde ela pode exprimir-se; há acréscimo de discernimento,  ali onde se reconhece a irracionalidade da repressão da simpatia e o benigno ou, quando menos, o indiferente, da sua manifestação. Em ambos os casos, há mitigação do preconceito, vale dizer, da recusa de uma forma de afetividade e de sexualidade própria do ser humano.

                  Destes aumentos e deste abrandamento, resultam as alterações das mentalidades e dos costumes que elas produzem. Há melhoramento de ambos na sociedade em que o amor romântico pode revelar-se em público, seja lá de quem, por quem for: ali onde as pessoas podem exprimir  o seu sentir, sem receios, há pessoas psicologicamente saudáveis, nisto, ao menos: são pessoas cuja afetividade, e, portanto, cuja natureza, o ambiente aceita e respeita; são pessoas integradas na sociedade, ao invés de serem por ela marginalizadas, em parte.

                  No Brasil, sobretudo nas grandes cidades, os costumes vem progredindo, no sentido da autonomia sexual e afetiva de cada um em relação à opinião alheia, ou seja, face aos preconceitos proibitivos: o que, antes, não se podia, agora, pode-se; o que não se pode, ainda, poder-se-á.

                  Antes, nenhum heterossexual podia beijar em público; hoje, ninguém mais se importa com a cena correspondente. Hoje, raro homossexual ousa beijar em público: muita gente importa-se com a cena correspondente. Todavia, em relação à cena dos rapazes de mãos dadas, em plena rua XV apinhada de gente, não observei que ninguém a fitasse com especial estranheza.

                  Para dois homossexuais beijarem-se em público ainda falta  muito; no entanto, a mentalidade dos brasileiros tende neste sentido. Há algumas décadas, desapareceu o antigo tabu acerca da sexualidade, pela qual correspondia ela a tema proibido; nos anos mais recentes, muitos homossexuais  moços (da geração nascida nos anos de 1990), exprimem a sua condição desinibidamente; de modo antes inexistente, certos políticos  ocupam-se dos direitos dos homossexuais e muitos juízes os reconhecem nos processos que julgam.

                  Trata-se de sintomas de que a mentalidade do brasileiro melhorou em relação à homossexualidade, e com certeza assim prosseguirá. O casal que observei de mãos dadas, encarna o primeiro que deparei: o primeiro de muitos.  

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