Vícios de linguagem.

VÍCIO DA DUPLICIDADE DOS BRASILEIROS.

Os jornalistas brasileiros, os autores de textos acadêmicos (monografias, dissertações, teses) e muitos de quantos redigem no Brasil, praticam o vício da duplicidade: repetem o sujeito e outros componentes da frase, como o complemento verbal ou o objeto. Usam, viciosamente, perífrases. Não sabem escrever sem ele, desaprenderam alternativas de construção de frases sem ele. São incapazes de usar os pronomes em lugar da repetição do sujeito ou de outros elementos da frase.

Por exemplo: “OAB divulga lista de faculdades recomendadas pela entidade.” (vício de duplicidade do sujeito: OAB e entidade.). Logo, a OAB divulga lista de faculdades recomendadas por alguma entidade, que não se especifica. Mas o autor desta péssima frase quis dizer que a tal entidade é a própria OAB. Muito melhor é: “OAB divulga lista de faculdades que recomenda.”.

“Suspeita de matar o filho não aceitava homossexualidade do jovem” (vício de duplicidade do complemento verbal: filho e jovem.).

Que jovem ?

Na frase, há “o filho” e “o jovem”. O filho é o jovem; o jovem era o filho, porém não se explicita que o filho fosse jovem: poderia ser criança, velho, maduro.

A redação contém o vício duplicidade do complemento verbal (objeto direto, ou seja, filho) que, na segunda oração, também é predicativo (jovem).

Agora sem a duplicidade: “Suspeita de matar o SEU filho não LHE aceitava a homossexualidade”. Isto é frase correta, perfeita, destituída de duplo sujeito.

Outra: ‘Produtores jogam tomate fora após queda do preço da fruta” (vício de duplicidade do complemento verbal: tomate e fruta.).
Tomate e fruta são o mesmo; não são dois (tomate; fruta), mas um: a fruta é o tomate.
É como escrever: produtores jogam tomate no lixo após queda do preço do tomate. Corretamente escrito: “Produtores jogam tomate fora após queda do preço deste”, em que o pronome demonstrativo (deste) indica o tomate e elide anfibologia relativa a quem corresponde ao preço, pois caso se redigisse “Produtores jogam tomate fora após queda do seu preço”, o pronome “seu” virtualmente suscitaria a dúvida relativa a se o preço se refere ao preço ou aos produtores.

Em revistas, gazetas, telejornais, é correntia tal construção viciosa.

É vícioso escrever assim; é redundante escrever assim; não é “estilo jornalístico”, é mau estilo pois induz o leitor ao equívoco de entender dois sujeitos onde há um só.
Na Gazeta do Povo, há tempos, o título era mais ou menos: “Cobra achada no Barigui; ofídio não é perigoso; vertebrado foi capturado; serpente foi levada embora”. (Vício da quadruplicidade do objeto). O leitor tem de saber que cobra é ofídio, que ofídio é vertebrado, que serpente é cobra.
Era muito melhor se o pedante (sim, pedante, porque isto de duplicidade é pedantismo) houvesse redatado: “Cobra achada no Barigui; não é perigosa, foi capturada e levada embora.”.
Outra exemplo: Galileu escreveu livros, sendo importantes os do astrônomo. O leitor tem de adivinhar que o astrônomo é Galileu; não é suposto que o saiba (duplicidade do sujeito). Perceba a diferença agora: Galileu, astrônomo, escreveu livros importantes. O astrônomo Galileu escreveu livros que são importantes. São importantes os livros do astrônomo Galileu.
Outro exemplo: “México se prepara para maior furacão da história do país”. Que país ? (Vício do duplo sujeito: México e país). Correto é: “México se prepara para maior furacão da sua história”. Excelente, corretíssimo, sem duplo sujeito.

Outro exemplo: “Segundo a assessoria de imprensa do Conselho Nacional do Ministério Público, o processo para apurar a conduta do promotor de Justiça foi arquivado. O Conselho teria considerado que os atos praticados pelo membro do MP […]”. O complemento verbal (objeto indireto) é “promotor de Justiça”; a seguir, é “membro do MP”. Não é suposto que o leitor saiba que promotor de Justiça é membro do MP.

Melhor é: “Segundo a assessoria de imprensa do Conselho Nacional do Ministério Público, o processo para apurar a conduta do promotor de Justiça foi arquivado. O Conselho teria que considerado que os atos praticados por ELE […]”.

Outra: na Casa de Juscelino Kubitschek, lê-se, junto de pia: “Não toque na pia. A peça está frágil”. É como se houvesse pia e peça e a peça fosse diferente da pia. Melhor é: “Não toque na pia. Ela está frágil”, em que se entenderia, inequivocamente, que a pia está frágil.

Outra: “Ao longo do texto, o tradutor quis destacar palavras e expressões de Nietzsche, objetivando compreensão do texto do filósofo.”. Que filósofo ? É Nietzsche ? Sim, é-o; cuida-se de livro da sua autoria (repare: usei o pronome; evitei o duplo sujeito); logo, é óbvio, pelo contexto, que filósofo = Nietzsche. Escrevesse:
a) “Ao longo do texto, o tradutor quis destacar palavras e expressões de Nietzsche, objetivando-LHE a compreensão do texto.”;
b) “Ao longo do texto, o tradutor quis destacar palavras e expressões de Nietzsche, objetivando a compreensão do SEU texto.”.
A construção “a” é castiça e corretíssima; a “b” é corretíssima. O escrevinhador praticou a pior.

Outra: “Casal que recebeu apoio de Ivete processa cantora”. O casal recebeu apoio de Ivete; mas Ivete é a cantora. O autor desta péssima frase supõe que o leitor saiba que Ivete é cantora; não é suposto que o leitor o saiba, embora muitos o saibam. E se ele não souber? Neste caso, entenderá que Ivete é uma pessoa; cantora é outra; logo: o casal que recebeu apoio de Ivete processa outra pessoa. A forma correta é: “Casal que recebeu apoio da cantora Iveite processa-a.”.

Um título dizia: “Oração pelos irmãos mexicanos: furacão atingirá o país hoje”. Que país? Nesta frase, o seu redator está viciado ao ponto em que, no entendimento dele, o complemento verbal (do México) acha-se oculto e como que presumido no adjetivo “mexicanos” (mexicanos = do México) e, sem que o haja enunciado, enunciou o complemento verbal (objeto direto), ou seja, “o país”, na segunda oração. Em suma: redigiu pessimamente.

Para evitar a repetição do sujeito, em lugar da sua repetição, use pronomes: eles existem para isto. Por exemplo: “Caracala governou Roma; Caracala foi importante”. Escreva: “Caracala governou Roma; ELE foi importante.”.

Evite: “Caracala governou Roma; o imperador foi importante”. Nesta péssima frase, Caracala = imperador, porém não é suposto que o leitor saiba que Caracala = imperador. O leitor desavisado pensará (com razão) que Caracala é um e que imperador, é outro.

Atente a isto: os pronomes ele, eles, ela, elas, destinam-se a evitar a repetição do sujeito. O uso de perífrases (rodeios de linguagem ou de substantivos) para referir-se ao sujeito constitui vício de duplicidade (do sujeito e não só).

Os redatores de gazetas e de revistas incorrem, sistemática, ou seja, viciosamente, no vezo da duplicidade; complicam desnecessariamente as frases; escrevem defeituosamente.
É sofismar dizer-se que o jornalismo tem estilo próprio, que escrevem assim para chamar a atenção do leitor, que o sujeito duplo ou plúrimo é próprio da técnica jornalística etc.. Pode-se (e deve-se) escrver com clareza e sem duplicidade, sejam textos jornalísticos, acadêmicos ou quaisquer outros.

Segundo alguns, praticam a duplicidade para evitar-se a repetição do sujeito. Ora, para evitar-se a repetição do sujeito existem pronomes. Pronomes ! Ele, ela, eles, elas, seu, sua, seus, suas, dele, dela, deles, delas !! Eles existem ! Sim, existem e servem exatamente para evitar-se a repetição do sujeito ! Use-os !!! Quem os usa, evita o duplo sujeito; cometê-lo importa supressão dos pronomes e involução lingüística.

Alguns redatores esmeram-se em multiplicar as perífrases. Pensam que fazê-lo é escrever bem. Não; é escrever mal.
E haja pachorra para, todos os dias, ter de ler e reler certos textos e títulos para perceber se há duplo sujeito ou se há dois sujeitos.

É vício, verbosidade inútil; é pobreza de qualidade do texto, é texto mal escrito, porcaria, carência de senso estético e de eficácia na comunicação, que já grassa entre outros escritores e não apenas entre jornalistas. Universitários, juristas, professores, sociólogos, autores de artigos acadêmicos, desafeitos à leitura, mal enfronhados nos bons escritores do idioma repetem o vício do duplo sujeito em monografias, dissertações, teses, artigos, livros, em que o duplo torna-se triplo, quádruplo, quíntuplo. O autor não percebe o grotesco da sua redação e, certamente, acredita praticar bom estilo. Ilude-se.

É inútil e redundante repetir o sujeito, contudo jornalistas, universitários e escrevinhadores em geral esmeram-se no vício do duplo sujeito e já desaprenderam a empregar os pronomes. Sequer sabem da existência de ele, eles, ela, elas ? É vício generalizado, no Brasil; suponha seja ensinado, por professores equivocados, para alunos ingênuos: professores ineptos e alunos crédulos, uns e outros destituídos de senso crítico e, presumo, de leitura de bons autores, pelo menos de autores melhores do que os formam os tais ensinantes, nos tais instruendos.

 

ATENTAR A E NÃO ATENTAR-SE A.

O verbo é atentar; não é “atentar-se” (não é reflexivo). Ninguém “se atenta” à data da prova: alguém atenta à data da prova.

Atentei a quanto dinheiro tinha e não “me atentei” a quanto dinheiro tinha.

Atentei ao problema e não “me atentei” nem “atentei-me” ao problema.

 

USO ERRADO DE VERBOS COM REGÊNCIAS DISTINTAS.

Há até cerca de 5 anos, era freqüente o erro de se escrevinhar (escrevinhar= escrever mal) dois verbos em seqüência, que exigem preposições diferentes. Por exemplo: “Vitrúvio se refere e comenta autores”. Refere-se A; comenta (autores). Logo: “Vitrúvio refere-se a autores e comenta-os”.

Outro: “Fuão participa e comparece a reuniões”. Participa-se DE; comparece-se A. Logo: “Fuão participa de reuniões e gosta delas.”.

É vício usarem-se dois verbos que exigem preposições distintas, um após o outro, com a preposição ou com a construção apenas do segundo. Isto é escrevinhar, é texto mal escrito.

    VÍCIO DE “ALGO”. A chuva é algo bom. Ler mais é algo desejável. Há corrupção e isso é algo negativo. Agora compare: a chuva é boa, ler mais é desejável; há corrupção, o que é negativo. 
O “algo” sobeja, é desnecessário e prolixo. Isto é prolixidade: acrescentar palavras inúteis, que avolumam o texto sem lhe adicionar conteúdo. Neste caso, é a sintaxe do inglês e é o vício da moda.

USO ERRADO DE “AQUELES”, “DAQUELES”. É galicismo (sintaxe do idioma francês) dizer-se, por exemplo, “aqueles que gostam de ler, sabem mais”, “todas aquelas que estudam aqui”. Não se trata de indicar aqueles, por diferença a estes ou a esses; não está em causa distinguir grupos de pessoas ou pessoas individualmente, em função da sua distância do locutor (estes=próximos; esses=menos próximos, aqueles=distantes). O francês fala assim. O francês.

Em bom português, dizemos “os que gostam de ler”, “todas as que estudam aqui”. Perceba a diferença: “todos aqueles que são pobres, gostariam de receber daqueles que são ricos”, “todos os que são pobres, gostariam de receber dos que são ricos”. A primeira sintaxe é do francês; a segunda, do bom português.

     O francês também usa “esse”, “esses”, “essa”, “essas”, em lugar dos pronomes, do português, o, os, a, as: “Maquiavel, esse autor de O Príncipe”, por “Maquiavel, o autor de O Príncipe”.

“SE…” FRASES INCOMPLETAS. Muitas pessoas, em Curitiba, pronunciam frases no condicional, sem a respectiva conclusão. Quando alguém diz “Se você vier”, deve completar a frase com o resultado da hipótese que formula: “se você vier, então conversaremos.”. “Se quiser guardar, pode fazê-lo”; “se puder me dizer, então me diga.”Mas algumas pessoas proferem o primeiro hemistíquio e omitem o segundo; por exemplo: “Se quiser dizer…”, “Se puder telefonar…”. Não completam a frase, cujo complemento fica implícito ou não; caso negativo, o interlocutor deve adivinhá-lo, ao passo que a forma completa é “Se quiser dizer, então diga”, “Se puder telefonar, então aguardo a sua chamada”. A pouco e pouco, a fórmula “Se…” acabou por equivaler a autorização, licença: “Se…”=”você pode”. Por exemplo: “Se você quiser telefonar…” = “você pode telefonar”.
O idioma muda? Se muda para pior, se se perdem elementos de comunicação, se se empobrece a comunicação, se se nivela por baixo, se se deixam conteúdos implícitos, se se diz uma coisa para dizer outra, inteiramente diversa, então mudou para pior. Mudou para pior, no caso, porque as pessoas cessaram de exprimir completamente o que deveriam explicitar; atribuíram à adivinhação ou ao contexto parte da sua comunicação; alteraram o modo condicional para equivalente a autorização. Condicional é uma coisa, autorização é outra.

 

SER, POR HAVER. “Em novembro, foram dez dias de chuva”; “No Brasil, foram dez mil mortes por enfarte”. Não foram – houve. Houve dez dias de chuva, houve dez mil mortes. Demais, se se empregam as conjugações “foi”, “foram”, surge ambigüidade: foram aonde ? O verbo, além de errado (trocou-se ser por haver), permite a interpretação de que se trate do verbo ir. São verbos diferentes, com significados diversos. “Mas o idioma muda.” E quando muda para pior, quando a alteração éproduto do desconhecimento, da fraca instrução, da ausência de leitura, da burrice, então, a alteração deve ser corrigida.

 

FILÃO E NÃO FÍLON. BOSÃO E NÃO BÓSON. ELETRÃO E NÃO ELÉTRON. PLATÃO E NÃO PLATON. Os prenomes podem traduzir-se , como Charles = Carlos, Elizabeth = Isabel, Charlotte = Carlota. A desinência “on”, no francês e no inglês, corresponde a “ão” no idioma português. Leon = Leão. Bóson = bosão. Elétron = eletrão. Fílon é pronúncia do inglês. Em francês, escreve-se Filon; em inglês, pronuncia-se “fílon”. Escrever “Fílon” é homólogo a escrever “Máiquel”, “Djon”, “Tcharles”.

Islam se traduz por Islão, Afeganistam se traduz por Afeganistão.
Em Português, que é um só idioma, no Brasil e em Portugal, traduz-se por Filão, que não me parece que fique feio nem que seja pior. Os brasileiros é que não aprenderam,em geral, a traduzir os nomes e imitam, passivamente, as formas do inglês e do francês, tal como os encontram nos livros e nos meios de comunicação, ao passo que, em Portugal, faz-se questão do idioma e as pessoas aprendem os equivalentes vernaculares dos nomes estrangeiros e os usam. Assim, Filão não é português de Portugal; é a grafia usada em Portugal, não porque lá o idioma apresente forma própria, mas porque lá se usa o vernáculo com mais qualidade do que no Brasil.

Se para alguém Filão “fica feio”, fica feio para ele, por não estar acostumado; não o fica para mim nem para outrem, nem a estética pode ser critério superior ao correto uso do idioma.Ninguém reputa feio Platão e lhe prefere Platon, Cípion a Cipião, Éstrabon a Estrabão, Cáton a Catão. Platão, Cipião, Estrabão, Catão, Filão, Dião, Fedão, Solimão, Salomão correspondem às formas vernaculares, corretas, castiças, destes nomes.

É só o caso de estar acostumado ou não com uma grafia e não com a outra. Então, aprenda que os prenomes podem ser traduzidos e a tradução da desinência “on”, do francês e do inglês, corresponde a “ão” do Português.

 

ROUPA BÁSICA E CASUAL. “Basic”, do inglês= lisa. Roupa lisa (sem estampas). “Casual” (“quêizual”) =  informal. Roupa informal.
Básico ou básica e casual são anglicismos, palavras traduzidas literalmente do inglês por desconhecedores do Português. “O idioma muda, você não pode querer que ele pare no tempo” etc.. E por isto é justificável que se introduzam estrangeirismos onde já existem vernacularismos perfeitamente compreensíveis e úteis? É justificável apagar os termos próprios do Português e usar más traduções exóticas? “Show” – já nem sabem o que isto significa. Significa espetáculo, exibição. Sim, há tradução de “show” !!! Oh!, maravilha !

 

TRADUÇÃO CORRETA DE MOHAMMED. Mafoma ou Mafamede são as traduções corretas de Mohammede. Em francês, Mahomet, que se traduziu, mal, para Maomé. Em português, é Mafoma ou Mafamede, assim como Charles é Carlos, Elizabeth é Isabel, Carl é Carlos. Mafoma, Mafamede, Mafamede, Mafoma, Mafoma, Mafoma, Mafamede, Mafamede, Mafoma. Agora que já se familiarizou com os nomes, passe a usá-los sem estranheza !

“Soutien-gorge”, que o brasileiro chama de sutiã ou “soutien” tem tradução. Em português chama-se de estrófio. Estrófio. Estrófio. Estrófio. Estrófio. Certa feita, uma professora-doutora em Lingüística, pela USP, disse-me que sem as palavras “soutien” e “abat-jour” não teríamos forma vernacular de exprimir os objetos respectivos. Ela é doutora em Lingüística pela USP, arrota o seu título e é ignorante em Português. “Soutien”= estrófio. “Abat-jour”= tapa-luz, quebra-luz, bandeira, pantalha (mas pantalha é indesejável, por ser espanholismo, de “pantalla”). Antes de pensar que não há tradução, procure informar-se. Geralmente há; se não houver, pode-se criar (os neologismos servem para tal).

PISO NÃO É ANDAR. Em alguns centros comerciais e prédios, vejo letreiros em que constam as expressões “Piso térreo”, “Primeiro piso”, “Segundo piso”. Piso é o chão,o pavimento, o que pisamos. Em todos os andares há piso; todos os andares contém piso. Por outro lado, os diferentes níveis de uma construção chamam-se de andar: primeiro andar, segundo andar. Chama-se de térreo o andar que se situa ao nível da rua, cujas portas dão para o exterior. O térreo contém piso; o primeiro andar contém piso; o segundo andar contém piso. Se usarmos o critério dos pisos para designarmos os níveis da construção, então, o térreo é o primeiro piso, o primeiro andar é o segundo piso, o segundo andar é o terceiro piso. Contudo, leio, nas placas: “Piso térreo”. Isto não existe. Isto está errado. Isto é ignorância. O térreo é térreo; não é piso térreo. O primeiro andar é primeiro andar; não é primeiro piso, porque o primeiro piso subjaz-lhe, ou seja, o primeiro piso é o do térreo. Assim, o mal chamado “primeiro piso” é, na verdade, o segundo piso. Perceba a lógica das coisas: a lógica (pois há lógica) na nomenclatura térreo, primeiro andar, segundo andar etc. Perceba a ilógica da nomenclatura piso térreo, primeiro piso, segundo piso. /// Se o povo faz a língua, instrua-o, informe-o, esclareça-o, mostre-lhe o porquê dos recursos do idioma, ensine-lhe que há, sim, certo e errado em idioma.

 

QUE ISSO ? No Brasil (pátria educadora) o idioma se depaupera continuamente. Décadas atrás, o brasileiro médio, o homem comum, sabia mais o seu idioma e falava-o melhor do que hoje. Atualmente, o brasileiro, em geral, já desaprendeu os plurais (é dois; as pessoa veio; acabou as férias; comprei um lote de azulejo português). Também desprendeu as preposições e alguns advérbios (como cujo, cuja, cujos, cujas, de que, para que, em que). Também o pronome reflexo, como em suicidar-se, aposentar-se, esquecer-se, assustar-se. Agora, é o verbo que se perdeu, na expressão “Que isso?”. É óbvio que falta o verbo: que é isso?. Com a retórica de que o povo faz a língua, de que ela é dinâmica, de que a gramática tem de ouvir o empírico e mais blá-blá-blá só não se fala em ensinar mais, em acrescentar conhecimento e estudo, em valorizar o idioma, em elevar o padrão de conhecimento e uso. Quanto mais coloquial, mais o falante estranhará o escrito (se bem escrito) e tanto mais preferirá livros reles, fáceis (à exemplo do escabroso “1808”) e evitará os realmente bem escritos. É o caminho da ignorância, vulgo “burrice” que se calcorreia na pátria educadora, com a benção dos lingüistas (eu uso trema!) da USP.

 

O QUE ABRE E O QUE FECHA NO FERIADO. LOJA QUE “FECHA” NO SÁBADO, NÃO FECHA NO SÁBADO.

Errado. O que abre e o que não abre.

Perceba a ilógica da frase “Esta loja fecha no sábado”. Com ela, quer-se dizer uma coisa e diz-se outra. Quer-se dizer que ela NÃO ABRE no sábado, o que é diferente de dizer que ela FECHA no sábado: se ela fecha no sábado, é porque ela ABRE no sábado, mas se se quer dizer que ela NÃO ABRE no sábado, deve dizer-se que ela NÃO ABRE ao invés de que ela FECHA no sábado.

Se “fecha”, é porque abre. No feriado ele não abre; abriu na véspera e fechou na véspera. No feriado, não abre, mesmo porque, o que “abre” no feriado, “fecha” no final do dia feriado. Então, qual a lógica em distinguir-se entre o que “abre” e o que “fecha” no feriado ? O que “abre” no feriado, “fecha” no feriado.

É tão óbvio que uma coisa é diferente da outra, mas raros percebem a obviedade de que dizem uma coisa para exprimir o seu contrário.
Não é “pegadinha de português”. Não há “pegadinha” nenhuma; há o uso errado do verbo e o vício de expressão. E não me venham com a balela de que é metáfora (quem mo diz, sequer sabe o que é metáfora).
Esta do “fecha no sábado” acontece com brasileiros em Portugal e não só; o brasileiro pergunta se “fecha no sábado”, o lojista responde-lhe o que ele lhe perguntou: que não, não fecha. Para o brasileiro, é “óbvio” que o português é burro, mas é incapaz de perceber que a burrice está na sua, de brasileiro, pergunta. O brasileiro não percebe que pergunta uma coisa e exprime outra; não percebe que o interlocutor não é obrigado a adivinhar que ele pergunta uma coisa para dizer outra; o interlocutor responde dentro do que ouviu. A pergunta do brasileiro contém um pressuposto, implícito, oculto, oposto ao que formulou explicitamente. Que é o errado na história?

 

“PEGUE A SUA SENHA”. Isto não existe; isto está errado: a senha só pertence a alguém depois de que ele a pega (senha, aqui, significa um papelote ou cartão numerado). Antes de alguém pegá-la, ela não pertence a ninguém; logo, não faz sentido dizer-se “pegue a SUA senha” porque ela ainda não pertence a ninguém e não é “sua” nem “minha”. O anúncio correto deve dizer “Pegue UMA senha”; quando alguém pegá-la é que ela será sua, dele, minha.

 

VÉU ISLÂMICO. Já disse: véu islâmico. Ou bioco. Bioco, do idioma português.

LEI ISLÂMICA. “Sharia”? Não. Lei islâmica. O que é  “sharia”? É lei islâmica.

LIVROS EM “BOX”. CAIXA. CAIXA ! OH, CAIXA ! Considero esquisito e muito brega “box” em vez de caixa. É caixa; caixa, mesmo, retangular, de guardar os livros dentro. Caixa é caixa, não é “box”. Cada uma que o pessoal inventa…eis, em ação, o célebre complexo brasileiro de vira-lata: na mente de alguns, é sofisticado, requintado, superior, dizer “box”. Para mim, é ridículo. Não considero que seja lá o que for torna-se melhor por ser chamado em inglês ou em idioma estrangeiro, se há vocábulo em português; se não houver, traduza-se, adapte-se, aportuguese-se.
Há necessidade de se inventarem neologismos de mau gosto, se há vernacularismos ? Faz sentido encher o Português de extravagâncias terminológicas, para posturar de norte-americano, de sofisticado, de primeiro mundo, e desdenhar do rico, belo, preciso e precioso Português ? Sei que este comentário suscitará as objeções de costume: “já está dicionarizado” (o dicionário não abona as palavras, mas apenas as arquiva), “todo mundo entende em inglês” (e não entenderão em português?), “o uso já consagrou esta palavra” (e por que o uso não pode consagrar outra, em português?).

Artigo sobre neologismos e idioma:

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-14281998000100004&script=sci_arttext

AFRO-DESCENDENTE OU BRASILEIRO ? Esta coisa de afro-descendente é pura tolice. O cara é brasileiro. Brasileiro. Nasceu no Brasil. É descendente de pretos africanos e de brancos portugueses; é mulato. Mas o movimento negro inventou a condição de afro-descendente, em que ele é qualificado pela sua origem africana, o que nega ou subalterniza a sua condição de brasileiro.

GOL ANUNCIA TRABALHO “HOME BASED”. -Trabalho o quê? — -“Home based”. -Não dá para traduzir? – Trabalho em casa.  Mais um lixo lingüístico à solta.

Por que “frames”? Por que não traduzir? Não estamos no Brasil? Não temos idioma próprio? “Frames” ou “freimes” (!) = molduras. Era costumeiro traduzir-se por quadros. Quadros ou molduras, é melhor do que “frames”. Outros podem achar bonito, sofisticado, elegante, culto empregar americanismos. Eu acho cafona, pobre culturalmente, bitolado idiomaticamente, de mau gosto, dispensável e desnecessário. Todo o meu apoio para quem traduz.

EMPOBRECIMENTO DO IDIOMA. No Brasil (pátria educadora) o idioma se depaupera continuamente. Décadas atrás, o brasileiro médio, o homem comum, sabia mais o seu idioma e falava-o melhor do que hoje. Atualmente, o brasileiro, em geral, já desaprendeu os plurais (é dois; as pessoa veio; acabou as férias; comprei um lote de azulejo português). Também desprendeu as preposições e alguns advérbios (como cujo, cuja, cujos, cujas, de que, para que, em que). Também o pronome reflexo, como em suicidar-se, aposentar-se, esquecer-se, assustar-se. Agora, é o verbo que se perdeu, na expressão “Que isso?”. É óbvio que falta o verbo: que é isso?. Com a retórica de que o povo faz a língua, de que ela é dinâmica, de que a gramática tem de ouvir o empírico e mais blá-blá-blá só não se fala em ensinar mais, em acrescentar conhecimento e estudo, em valorizar o idioma, em elevar o padrão de conhecimento e uso. Quanto mais coloquial, mais o falante estranhará o escrito (se bem escrito) e tanto mais preferirá livros reles, fáceis e evitará os realmente bem escritos. É o caminho da ignorância, vulgo “burrice”.

 

-Tomei um vôo de Curitiba para Lisboa.
Existe isto? Alguém toma um vôo ou um avião?
-Perdi o vôo.
Existe isto? Perde-se o vôo ou o avião?

Emprega-se “vôo” por metáfora, desnecessária, por se poder empregar avião, sem sentido próprio.

APÓS DOIS PONTOS, não principia frase nova, pelo que, após dois pontos, a palavra seguinte vai em minúsculas. Por exemplo: o que acabei de escrever.
DENTRO DE PARÊNTESES a primeira palavra a seguir ao parênteses que se abre não constitui frase nova e, por isto, vai em minúscula, a menos que o parêntese seja precedido por ponto, caso em que se trata de frase nova que, por isto, principia por maiúscula. Achou difícil ? Por exemplo: (esta palavra começa por minúscula). (Mas esta, com maiúscula).
CONCORDÂNCIA. É proibido postagens – errado. São proibidas postagens. Veio pessoas – errado. Vieram pessoas. É dois – errado. São dois (esta do “é dois” é o cúmulo da ignorância). A maioria das pessoas são boas – errado. A maioria das pessoas é boa (a maioria é e não a maioria são.). O pessoal foram embora – errado. O pessoal foi embora. A caixa de sapatos estavam vazias – errado. A caixa de sapatos estava vazia. O uso de calças e sapatos é permitido e não o uso de calças e sapatos são permitidos. A maioria das pessoas é gentil e não a maioria das pessoas são gentis. Acabaram as férias e não acabou as férias. Comecem os ensaios e não comece os ensaios. Vieram pessoas e não veio pessoas.
USO ERRADO DE MAIÚSCULAS. Usam-se as maiúsculas em nomes próprios (Curitiba, Miguel, Casas Bahia). Não se usam maiúsculas em nomes comuns, substantivos que não constituem nomes de pessoas, cidades, instituições. É errado o uso das maiúsculas, por exemplo,em: “As Eleições serão realizadas no Prédio central da Faculdade, em que, a qualquer hora do Dia, os Eleitores, de Título em mãos, poderão exercer o seu Direito de Sufrágio, a menos que esteja dispensado pela Lei Eleitoral”. Exceto a primeira palavra (As) todas as demais vão em minúsculas.  Ou: “O Autor pretende que o Réu cumpra o Despacho da folha 33”. Exceto as primeiras palavras (As; O) todas as demais vão em minúsculas. Autor, réu, sentença, juiz, apelação, petição etc., tudo vai em minúsculas. Somente se usa maiúscula em início de frase (preciso explicar o que é isto?) e em nomes próprios (Curitiba, Miguel). Este vício é típico do pessoal jurídico (bacharéis, advogados, promotores, juízes, professores, estudantes); eles cometem-no em textos jurídicos e não jurídicos. Quando se me depara texto escrito assim, não falha: o seu autor formou-se em direito e deformou-se em escrever direito.
VÍCIO DA PREPOSIÇÃO “de” EM MAIÚSCULA. Arthur de Lacerda e não De Lacerda; dos Santos e não Dos Santos; rua da Faísca e não Da Faísca. Todas as preposições onomásticas vão com a letra “d” em minúscula: dos Santos, de Almeida, do Amaral e nunca Dos Santos, De Almeida, Do Amaral. O sistema informático dos computadores, produzido para funcionar nos EE. UU. AA. altera, automaticamente, a letra em questão, de minúscula para maiúscula, sempre que a preposição se encontra entre palavras que principiam com maiúsculas, como é o caso dos nomes próprios. As pessoas lêem a maiúscula porque o “corretor” automático perpetrou erro e passaram a grafar com maiúscula. Os programas informáticos produzidos para corrigir nos EE. UU. AA. introduziram ERRO no Brasil; os desavisados, supondo que a “correção” é correta, imitam-na ou adotam-na. Assim, os computadores, ajustados nos EE. UU. AA. e desajustados para corrigirem lapsos de grafia do Português, adulteram os nomes próprios dos brasileiros e não só, e muitos brasileiros incorporaram a grafia errada como se fosse a correta.

DEUS É COM MINÚSCULA. A palavra deus não é nome próprio,não nomina ninguém. É nome comum; escreve-se com minúscula: deus e não Deus. Mas Baco, Apolo, Hermes, com maiúscula, por serem os nomes de deuses. O deus cristão tem nome: Jeová, Iavé, Javé e não “Deus”.

 

“SENIOR” E “JUNIOR”.
“Senior”, do latim, significa o mais velho, o anoso em comparação com o “junior”, do latim, que significa o moço, o jovem. Do “junior” latino, originou-se o perinome Júnior, aplicado ao filho homônimo do pai. De “senior” originou-se senhor.

Quando há pai e filho homônimos, é ERRADA a nomenclatura “Fulano de Tal Senior” ou “Fulano de Tal Sênior”: 1- se usar em latim, é “senior”, entre aspas ou itálicos; 2- se usar em português, é sênior; 3- nos dois casos, não se pode grafar com “s” maiúscula porque não é sobrenome; 4- por não ser sobrenome, não pode seguir ao nome pura e simplesmente, tem de ser separada por vírgula ou ir entre parênteses.

O correto é: Fulano de Tal (sênior); Fulano de Tal, sênior; Fulano de Tal (júnior), Fulano de Tal, júnior. É melhor entre parênteses, pois isola o aposto do nome. Em bom português, em português de lei, de qualidade, de gente que sabe, empregam-se, tradicionalmente (e os curitibanos adoooooram “tradições”, mesmo as que surgiram ontem; mas esta é antiga) as locuções “o velho” e o “o moço”. Por exemplo: Fulano de Tal, o velho; Fulano de Tal, o moço.
Mas você nunca ouviu dizer disto? Todo o mundo conhece sênior, no mundo empresarial? É indesejável “o velho”, porque ser velho é “ofensivo”? Então, se o seu nível de percepção, de entendimento e a sua prática são estes, lamento. Você usa o errado e dá o mau exemplo.

 

TRINETO E TETRANETO. Filho, neto, bisneto, trineto, tetraneto, pentaneto, hexaneto, heptaneto, octoneto, nonaneto, decaneto. “Trisneto” e “tataraneto” não existem. Mas todo o mundo fala assim ? O povo faz a língua ? Então, tudo mundo ignora o certo e pratica o errado. Escolha.

ASCENDÊNCIA E DESCENDÊNCIA.  Ascendentes são os pais, avós, bisavós. Descendência são os netos, bisnetos, trinetos. Quando alguém diz “Tenho descendência alemã porque os meus avós vieram da Alemanha” está errado. Ele tem ascendência alemã; se tiver filhos e netos, nados no Brasil, tem descendência brasileira.

 

NÃO TEM COMO. NÃO HÁ COMO. Muitas pessoas usam o bordão “não tem como” para indicar impossibilidade. É expressão correta, de uso legítimo, cujo uso, todavia, tornou-se vicioso, em jeito de cacoete, ou seja, certas pessoas avezaram-se a usá-la em inúmeras ocasiões em que outros dizeres seriam mais ricos de informação e mais elegantes de estilo. É vício que mesmo o pessoal “letrado” emprega, com a diferença de, enquanto o homem comum diz “não tem como”, o “letrado”, para diferenciar-se, substitui o verbo e, em lugar de “ter”, usa “haver”. 
Certamente haver é melhor do que ter (há muitas pessoas; tem muitas pessoas), porém, neste caso, o bordão é igual e é bordão pernóstico de quem, sendo “culto” na verdade não o é: fora-o e exprimir-se-ia sem o vício disfarçado. Vício disfarçado é vício. Por exemplo: o meretíssimo senhor doutor juiz de direito que sentencia “não há como deferir o pedido”. Vá ler Machado de Assis, excelência. 

 

PESSOA ENTRE 30 E 40 ANOS.
Pessoa entre 30 e 40 anos. Existe isso? Alguém é pessoa entre tal idade e tal idade? Fulano é entre tais idades? Não. É pessoa de idade entre 30 e 40 anos. Alunos de idade entre 12 e 15 anos. 
Escola para alunos entre 14 e 16 anos. Alguém é aluno entre duas idades? Não. É aluno de idade entre 14 e 16 anos.

 

MEIO-DIA E MEIO. Meio dia são doze horas. Meio dia e meio é meio dia mais meio dia: 12 + 12=24. Meio dia e meio é meia noite.
Meio dia e trinta minutos é meio dia e meia hora. Meia hora. Logo, meio dia e meiA. Meio e dia e meio é meia noite. Meio dia e trinta minutos é meio dia e meia.

 

25.7.2017.”A GENTE”.

“A gente” é locução equívoca, pois exige a compreensão da frase ou do contexto para perceber-se se ela equivale a eu, a tu, a nós, a vós, a eles, ao passo que os pronomes retos (eu, tu, ele, nós, vós, eles) são inequívocos: identificam imediatamente a quem se refere o discurso (a mim, a tu, a eles, a nós, a vós, a eles.).

A gente ora indica eu, ora indica tu, ora indica nós, ora indica eles, ora indica a instituição a que se pertence. Ela empobrece o idioma porque apaga a identificação exata e precisa do sujeito do discurso e dificulta que se entenda, desde logo, a quem a frase se refere. Eu vim, ele veio, nós viemos, eles vieram; tudo isto se empobrece com “a gente veio”: a gente quem ?

Atenção agora:
A expressão a gente **sempre** enseja a pergunta e a dúvida: a gente, quem ?
Os pronomes retos **nunca** ensejam a dúvida e a pergunta sobre quem é o sujeito da frase.
A gente é expressão equívoca e pobre; os pronomes retos são precisos e, por isto, linguisticamente superiores à “a gente”. Percebeu a desvantagem de “a gente” ?

A gente significa as pessoas; gente significa as pessoas, os demais, os outros. A expressão a gente refere-se, indeterminadamente, às pessoas.

“A gente” ou “a gênhtchi” é expressão coloquial, tempos atrás empregada pela gente desinstruída, de escolaridade primária ou por jovens descuidadosos do vernáculo (jovens, por exemplo, ignaros das palavras ignaro e vernáculo).

Quem tinha estudos sabia distinguir as pessoas do discurso e empregar os pronomes, segundo as circunstâncias: eu, tu, ele, nós, vós, eles, e dizia eu sou, nós somos, eles são. Agora, mesmo as classes A e B empregam a gente ao invés de eu, de nós, de eles.

Enunciada a locução “a gente”, muitas vezes não se entende a quem o falante se refere: a gente quem? É você? São os outros? São pessoas indeterminadas ? Qual gente?    Tal expressão subtrai exatidão do discurso e mal acostuma as pesssoas a não usarem as conjugações dos verbos: quem se vicia em a gente desaprende a dizer eu vou, nós vamos, eu seria, nós seremos, eles venderão, eles estariam.

É mais fácil usar a gente, em lugar dos pronomes retos ? Sim – e também medíocre.

Que o iletrado fale assim, é próprio de quem não teve escola, de quem é carente de leitura, de quem não zela pelo rigor da comunicação, mas que pessoas estudadas falem assim, considero evidente rebaixamento da qualidade do idioma, que se nivela por baixo.

Evoluímos ou involuímos? Nivelamos por baixo ou por cima ? O povão aprendeu ou as classes “estudadas” desaprenderam? O culto propagou-se ou propagou-se o coloquial ?

Não leva a nada alegar que com esta locução “todo o mundo” se entende, que o importante é comunicar-se, que o idioma evolui e modifica-se. Todos entender-se-ão melhor, comunicar-se-ão com mais eficácia, se a evolução mantiver-lhe a precisão e a qualidade, virtudes ausentes da expressão em causa. Evoluir e modificar-se é diferente de melhorar.

 

MÁ PRONÚNCIA. Ortoépia.

A antiga pronúncia dos curitibanos, em que se ouviam, distintamente, todas as sílabas, que originou o “leite quente” (que não é “leitê quentê”, ao contrário do que muitos pensam, nem “leiti quenti”) substituiu-se por abreviações na fala de muitas palavras, como “cabô” por acabou;

“cavó” por com a avó;

“tôca” por estou com a;

“tá” por está; “dé” por dez (“déreal” por dez reais, pronúncia que considero especialmente primária); “brigado” por obrigado, “nada” por denada;

Monsenhor Celso esquina “caquinze” por com a Quinze, aliás, com a rua Quinze.

Evidentemente, houve retrocesso: há retrocesso quando ao invés de se pronunciarem as letras todas, pronunciam-se algumas e contraem-se as palavras. Não leva a nada alegar-se que tal fenômeno existe em todos os idiomas. Existir não é justificar.

No comércio, em Curitiba, os balconistas e demais funcionários mantêm vícios de linguagem e proferem a impropriedade de usar o verbo no tempo futuro, para indicar o presente: “Não vai ter” ao invés de “Não tem” (aliás, melhor seria “Não há”).

Não vai ter é diferente de não há; se o balconista diz “não vai ter”, depreende-se que, então, “tem”, quando ele pretendeu dizer exatamente o oposto disto, ou seja, que não há. Uma lojista chegou ao absurdo de dizer-me “não vai ter neste momento”: não vai ter – é futuro; neste momento – é presente. Falou mal e erradamente.

Não leva a nada alegar que o povo faz a língua. Instrua-o para elevá-lo ao invés de convencê-lo que a ignorância é aceitável.

Constituem vícios terminar as frases com “daí” ou com “tá?”. Por exemplo: “Custa dez, daí”; “Amanhã não abre, daí”; “Só tem pequeno, tá?”, “Obrigado, tá?”, “O freguês já veio, tá?”.

 

“Força-tarefa” é expressão traduzida literalmente do inglês. Ela não existe em Português. O que é uma força-tarefa?? Força e tarefa? Por que força? Por que tarefa? Vocês, jornalistas, eu disse vocês, jornalistas, são responsáveis pela dissiminação de esquisitices como esta. Existe a expressão grupo de trabalho. É grupo de trabalho. Força-tarefa é nos E.U.A.; aqui, no Brasil, em Português, é grupo de trabalho. Força-tarefa é esquisito e brega. Brega.

 

ERRO DE CONCORDÂNCIA. Vício de que se propagou e que as pessoas cometem sem perceberem o erro.

ERRADO:
A caixa de sapatos estão vazias.
O livro de folhas brancas foram perdidos.
O álbum de fotografias são caros.
O tempo deles passaram.

CORRETO:
A caixa de sapatos está vazia.
O livro de folhas brancas foi perdido.
O álbum de fotografias é caro.
O tempo deles passou.

 

PRONOMES.
“Procuro interessados em administrar o grupo, respeitando a Linha Editorial.
Interessados deixar o nome em comentário.

“1) Que linha editorial ?
2) Que nome, nome de quem ?

Compare com esta redação:
Procuro interessados em admininistrar o grupo, respeitando-lhe a Linha Editorial.
Interessados, deixem o seu nome em comentário.

Os pronomes existem, são úteis e fazem diferença.

 

PARA E NÃO PRA. De tempos a esta parte, vulgarizou-se a grafia pra e pro, ao invés de para o e para a. Muitas pessoas pronunciam pro e pra, mas a pronúncia correta, clara, a boa prosódia, evidentemente, é p a r a a e p a r a o , para o, para a e não pro, pra, que correspondem a más pronúncias. Agora, é moda (moda, imitação, mimese, macaquice) escrever pro e pra.
Tenham algum zelo pelo idioma; tenham algum critério na pronúncia e na grafia; tenham senso de qualidade. Senso de qualidade: porque redigir pro e pra é não a ter e achar muito bonito introduzir , na escrita o que se deve corrigir na pronúncia. Tenham sensatez e não me venham com a lengalenga de que “a língua é dinâmica” etc..A língua é dinâmica, o que não justifica toda e qualquer modificação sua, notadamente se é para pior. Dizer que “todo mundo usa” assim é outro argumento ignóbil: não é porque “todo mundo” envilece e opta pelo pior que o pior se legitima. Tenha senso de valores.Parte superior do formulário

 

DIÁLOGO.

– Gostaria de ver roupas amarelas.
– Só vai ter no branco.
– Vai ter ou já tem ?
– Já tem. Só no branco.
– No branco…No Rio de Janeiro, na Espanha, no branco…branco não é lugar, é cor.
– ???
– Só vai ter branca, roupa de cor branca?
-Sim, só branca. No tamanho grande.
-No tamanho grande…No Rio de Janeiro, na Espanha; tamanho grande não é lugar; é tamanho.
– ???
– Só de tamanho grande ?
– Sim, só de tamanho grande e básica.
-Básica, do inglês “basic”; em inglês, é “basic”. Nós dizemos lisa. Roupa lisa.
-????
-Roupa lisa.
– E casual.
– Em inglês, eles dizem “casual” , para informal, esportivo. Roupa informal, esportiva, ao passo que , no Português, casual é inopinado, fortuito, não planejado.
– ???
– Roupa informal, lisa, de cor branca e tamanho pequeno.

 

PACK. Em um posto de gasolina, vi propaganda de cerveja: “R$…por unidade no pack.” No “pack” ??!! No pacote.

 

NOMES DE EDIFÍCIOS. The tower; Batel Trade Center; Gardens Free; Best Residence. Muitos acham tudo isto maravilhoso, sofisticado e requintado. Eu considero pobre de espírito, pobre de imaginação, pobre de alta cultura, pobre de identidade cultural, pobre de tudo, exceto de ridículo.

 

COMO SE DIZ EM INGLÊS.
Na colônia lingüística que são os E.U.A., correm algumas palavras inusitadas. Lá, dizem mistura ou mescla para “mix”; dizem caixa para “box”; dizem roupa lisa para roupa “básica” (estrangeirização de “basic”=liso, quanto à roupa); dizem espetáculo, atuação, apresentação para “show”. Dizem -novidade!!!- pau de auto-retrato ou cabo de auto-retrato para pau de “selfie”. Também dizem “home schooling” para ensino doméstico e prospecto para “folder”.
Muitos desconhecedores do inglês julgam ser maravilhoso estrangeirar o idioma rico e exuberante que é o deles; outros, possuidores de dicionários e de critério no uso do idioma, usam-nos a ambos.
“mix”= mistura, mescla.
“Box”= caixa.
Roupa básica= roupa lisa.
“Folder”= prospecto.
Pau de selfie= neste caso, a palavra pau não é erótica, não significa pênis, porém cabo. O que está mau é o raio do “selfie”. Cabo de auto-retrato.
Aliás, é um pouco infantil o narcisismo dos auto-retratos para postar no Facebook. Pouca gente está interessada na sua carinha de sorriso artificial, emque você finge que na sua vida tudo vai bem.

 

“KIT” TEM EQUIVALENTE VERNACULAR.

“kit” de livros = jogo de livros.
“kit” de primeiros-socorros = conjunto de primeiros-socorros; objetos de primeiros-socorros.

Nas lojas, vendem-se “jogos de cama e mesa”. Jogos e não “kits”.

 

GALICISMOS.   Há estrangeirismos, dentre os quais, há galicismos, palavras de origem francesa que se imiscuiram no português, como vocábulos bastardos e para que há equivalentes vernaculares. Por outra: ao invés de se usar palavras de origem alienígena, por que não usar as castiças, próprias do português ?

– Mas tudo mundo usa, já está incorporado etc.

Por que, então, não usar também o que é castiço, o que é legitimamente português ?

Gravata, do francês “gravate” diz-se GONILHA.
“Soutien”, “sutiã”, diz-se ESTRÓFIO.
Matinê, do francês “matinée”, espetáculo de dia, diz-se MATINADA ou VESPERAL.
Massacre, do francê “massacre”, diz-se CARNIFICINA , TRUCIDAÇÃO.
Todo o mundo, do francês “tout le monde”, em que “monde” significa gente, pessoas, diz-se TODA A GENTE.
Imãn diz-se magnéto ou ferro magnético.
Garantir, do francês “garantir” diz-se AFIANÇAR.
Isolado, do francês “isolé”, diz-se INSULADO.

Os nomes com desinência em “on”, em francês e inglês dizem-se com desinência “ão”: Catão, Estrabão, Dião, Platão e não Cáton, Éstrabon, Díon, Pláton. Da mesma forma, Filão, eletrão, protão, bozão, neutrão, pião, ao invés de Fílon, elétron, próton, bósão, píon.

Use o idioma com qualidade.

 

 

VÍCIO DA PREPOSIÇÃO “COM”.  Agora, o brasileiro substitui certas preposições por com. Em várias construções, certas pessoas usam com, por ignorarem as outras preposições e por imitarem a ignorância alheia.

Por exemplo: a balconista que diz “Pague comigo”; o consumidor que diz “Vou reclamar com o seu chefe”, o livreiro que diz “Obrigado por comprar conosco”.
Não é comigo, não é com o seu chefe, não é conosco. Pague para mim; paga-se para alguém e não com alguém. Reclame para o chefe; reclama-se para alguém. Não é comprar conosco; é comprar de mim ou de nós; compra-se de alguém e não com alguém.
Pense um pouco, pense por 5 segundos na lógica dos verbos e compreenderá que a preposição não se usa em certas situações, porém se usa em outras, como: eu vim com ele; café com mistura; arroz com feijão.

O sujeito convida outro: “Vamos comigo a tal parte? “. Vamos comigo significa vamos você e eu, comigo – vamos você e eu, comigo, não faz sentido. Faz sentido “venha comigo”.

“Fazer com que” é locução viciosa, em que o “com” é supérfluo. “Fazer que” é  o correto.

“Obrigado por comprar conosco” não faz sentido. É equivalente a “obrigado por comprar com o vendedor”. Ora, o vendedor não compra com o freguês: ele vende para o freguês. Logo, “obrigado por comprar de nós” e não “obrigado por comprar conosco”.

Não leva a nada objetar que o idioma falado não é necessariamente lógico nem rigoroso e que o povo faz a língua.

Instrua-o, ensine-lhe, explique-lho, mostre-lhe as incoerências, exponha-lhe a lógica do funcionamento do idioma. Eleve-lhe o nível, ao invés de convencê-lo de que a ignorância é o estado normal e aceitável do uso do idioma e da inteligência humana.

 

CRESCER. CRESCER ?

“Cresce o número de nascimentos”, “Cresceu a quantidade de compradores” e frases semelhantes, são comuns em textos jornalísticos.
É evidente a metáfora, e tola. O número de nascimentos cresce ou aumenta ? Aumenta.
A quantidade de compradores cresce ou aumenta ? Aumenta.
Crescer é verbo dotado de sentido próprio, denotativo. As metáforas justificam-se, na ausência de verbos apropriados ou para obter-se efeito estético. No jornalismo, que transmite informações, descabem metáforas.
É mau o uso de crescer, como os jornalistas costumam fazer. É metáfora desnecessária e impertinente. Se a empregam, devem aspar o verbo: “Cresce” o número de nascimentos”, “Cresceu” a quantidade de compradores.

 

“ESTOU AQUI”.

Em conversas por telemóvel (telemóvel, que celular é a tecnologia dos aparelhos. Há telefones celulares fixos): “Estou aqui, em tal lugar”.

Sempre se está em algum lugar; sempre se está “aqui”; ninguém está aqui, lá. Logo, “Estou em tal lugar”.

 

“NÃO VAI TER”.
No comércio, os atendentes respondem ao freguês “Não vai ter”, para dizerem que não há.

Não há (não tem, no falar coloquial) indica fato no presente. Preste bem atenção: “não há” é no presente. “Não vai ter”, é no futuro.

Se o freguês pede no presente (“Tem tal coisa?”) e o atendente responde-lhe no futuro (“Não vai ter”), depreende-se que, no presente, há, ou seja: “Não vai ter” é implicitamente igual a “Tem”, ao passo que o atendente quer dizer exatamente o oposto disso: na cabeça dele, “Não vai ter” é igual a “Não tem”, o futuro é igual ao presente, porém o presente indica fato atual e o futuro indica fato vindouro (é óbvio, não ?).

Demais, se ele usa o futuro para indicar o presente, como exprimirá o futuro?

Os tempos verbais (presente, pretérito, futuro) servem para precisar-se o momento da ação e para clareza do discurso. É totalmente irracional e errado dizer-se “Não vai ter” como sinônimo de “Não tem” ou “Vai querer ?” como sinônimo de “Quer ?”.

Uma atendente chegou ao absurdo de dizer-me “Não vai ter neste momento”. Não vai ter: futuro. Neste momento: presente.
Vai querer, vai fazer, vai falar, vai comprar: ação no futuro.
Quero, faço, falo, compro: ação no presente.

 

JURO – JUROS. Vulgarizou-se o erro de dizer-se “juros”, como se não houvesse singular e plural desta palavra. No singular, juro; no plural, juros.

Não é como lápis, pênis, tênis. É o juro; são os juros. Paguei juros altos; não há juros; juro é a remuneração do capital; juro baixo e juro alto.

“O juros de dez por cento” está errado; diga “o juro de dez por cento” ou “os juros de dez por cento”.

 

PREÇO E NÃO VALOR. Nas lojas, muitos dizem: “O valor deste artigo é tanto”. Valor é o quanto vale; a quantia monetária a que o artigo equivale. Possivelmente, ele é vendido pelo seu valor; possivelmente, é vendido por mais ou por menos. A quantia que se cobra, na venda, não se chama de valor, chama-se de preço. Vende-se por preço e não por valor. Logo, “o preço deste artigo é tanto”.

 

“VAMOS COMIGO?”.

O sujeito convida outro: “Vamos comigo a tal parte? “.

Vamos comigo significa vamos você e eu.

Vamos comigo = vamos você e eu; vamos [você e] eu, comigo, não faz sentido. Não vou “eu”, comigo. Vai alguém, comigo.

O correto é “Venha comigo” ou “Vamos ?”.

 

“OBRIGADO, TÁ?”.

No comércio e não só, algumas pessoas agradecem ou despedem-se destas formas: “Obrigado, tá? [está]”, “Tchau, tá? [está]”.

Está o quê? Quem agradece, diz obrigado e mais nada. Quem se despede, enuncia a fórmula de despedida e mais nada. Não faz sentido o “tá?”.

É vício.

 

USO ERRADO DA PALAVRA ABSURDO. Está se propagando o uso errado da palavra absurdo, como sinônimo de grande, enorme, desproporcional, imenso.

Absurdo é o que é destituído de sentido, de racionalidade. É absurdo lotear a Lua, contratar serviço de apagar o Sol, rezar para ressuscitar Napoleão, pretender privar as mulheres do direito de votar.

Algumas pessoas vem usando absurdo em contextos como “tal coisa é absurdamente cara”, “a população brasileira é absurda”.

Não: a coisa é muito cara, enormemente cara, desproporcionalmente cara; a população brasileira é enorme, é populosa, é numerosa, é numerosíssima.

As palavras têm sentido próprio, que convém preservar, para exatidão da comunicação e para evitarem-se ambigüidades. Se se cria polissemia, torna-se o sentido da palavra dependente do contexto. Pior: no caso do uso errado de absurdo, ela exclui as palavras apropriadas.

Absurdo não é sinônimo de muito, bastante, demasiado, exagerado, desproporcional e outros.

Ainda que o uso errado seja metafórico, ele habitua as pessoas ao sentido figurado, cria polissemia desnecessária e sujeita a confusões quem, conhecendo-lhe o sentido metafórico e não o próprio, ouça-a ou leia-a em sentido próprio.

Esta metáfora condiciona a percepção do sentido (próprio ou figurado) ao contexto, ao passo que o uso em sentido (exclusivamente) próprio permite-lhe a compreensão imediata e inequívoca, o que considero vantajoso em relação ao seu emprego (também) metafórico: é vantajoso para a compreensão da comunicação empregarem-se as palavras em sentido próprio e não também figurado. No caso do uso em sentido próprio, a acepção da palavra é a mesma, em qualquer contexto; no caso da metáfora, reconhecer-se-lhe o sentido denotativo ou conotativo depende do contexto. Demais, na escrita, as metáforas aspam-se, porém raras pessoas lembrar-se-iam de escrever, por exemplo: tal coisa custa preço “absurdo”, o que indicaria sentido (ilusoriamente) conotativo.

Não há vantagem para a comunicação na introdução de metáforas desnecessárias, pois elas sujeitam-lhe a compreensão ao contexto, o que não ocorre com o sentido próprio, como porque, ao usá-las, deixa-se de usar a palavra cabível, em sentido denotativo. Não há vantagem na substituição do sentido próprio por figura de linguagem. Não há vantagem no uso metafórico da palavra absurdo; trata-se de metáfora indesejável.

 

ACESSAR. ACEDER A.

Há séculos -séculos ! – existe, em português, o verbo “aceder a”, que significa:

1) aceitar. Acedo a convite: aceito o convite.

2) ter acesso a. Acedo ao lugar, acedo à versão eletrônica da gazeta; acedi ao Facebook; acedo-lhe, aceda-lha, acedi-lhe, aceder-lhe-ei, aceder-lhe-emos.

Por desconhecimento léxico, propagou-se “acessar”, como tradução direta do inglês “to access”. Porém há, na língua portuguesa, verbo que indica a mesma ação.

Quem usa o verbo aceder a, usa português castiço, do bom, do ótimo, com qualidade.

Quem usa acessar usa português ruim, usa anglicismo, coisa improvisada, coisa que resultou do desconhecimento do idioma.

Muitos conhecem o verbo “acessar” e usam-no. Agora, que já conhece “aceder a” e lhe conhece a qualidade, também pode usá-lo.

 

“SOU UM ESTUDANTE”, “SOU UMA ATÉIA”.
“O que ler para ser um conservador”; “Fulano era um político”.
Nestas quatro frases, o artigo indefinido um descabe, está de mais.
É-se estudante, atéia, conservador, político e não um estudante, uma atéia, um conservador, um político.
O artigo indefinido (um, uma, uns, umas) é de rigor, nestas situações (anteposto ao substantivo ou ao adjetivo) em francês e em inglês, porém não faz sentido em português.
Trata-se de artigo e não de numeral. Ele, aí, não indica quantidade, não está a informar que se trata de uma pessoa e não de duas, três, quatro.
       Ainda que se cuidasse de numeral, quem diz “sou um político”, refere-se a si próprio, ou seja, a uma pessoa; obviamente cuida-se de uma pessoa e não de duas ou mais. Se se tratasse de duas ou mais, dir-se-ia: “somos dois políticos”, “O que ler para serem conservadores”. Se se trata uma pessoa, escusa de se enunciar o numeral um ou uma para se exprimir a obviedade de que se trata de uma pessoa e não de mais de uma.

 

“Deixa eu ver”.

Pode melhorar um pouco, não ?

Deixe-me ver.

 

“O Fulano, ele é meu amigo”.

Ele = o fulano.

O Fulano, ele é meu amigo = O Fulano, o Fulano é meu amigo.

O Fulano é meu amigo. O Fulano é-me amigo.

 

Tolice (sim, tolice) das editoras, de fornecerem “box” de livros. “Box”, do inglês = caixa. Caixa de livros. Simples assim.

 

 

ADVÉRBIO DE MODO. RÁPIDO; RAPIDAMENTE.

O adjetivo qualifica o objeto, a coisa de que se fala. O advérbio de modo qualifica a ação que se produziu.

Os advérbios estão para o verbo, qualificam-no.

Os advérbios de modo indicam o modo como se produziu a ação. Por exemplo: “alguém entendeu de modo rápido” ou seja, ele entendeu rapidamente.

“Entendeu rapidamente” é diferente de “entendeu rápido”, pois rapidamente refere-se à ação de entender, a como ele entendeu; rápido é adjetivo, é qualidade de coisa – no caso, não há coisa. Rápido, aqui, é adjetivo, é qualidade do objeto, de algo, e não a maneira como ocorreu a ação.

Para se especificar como ocorreu a ação, usa-se o sufixo “mente”, cuja função consiste em qualificar a ação e não o objeto.

Rápido é adjetivo, como em avião rápido, trem rápido; o adjetivo não é advérbio de modo, ele não exprime a maneira como a ação aconteceu. Exprime a maneira como a ação aconteceu o advérbio rapidamente.

Outro: “Venha urgente”. Melhor diremos: “Venha urgentemente”. Urgente é a qualidade de algo, cuja realização urge, que exige prontidão, que se deve realizar já, em curtíssimo prazo. Urgente é qualidade da situação em que alguém deve vir.

Urgentemente é o modo como alguém deve ir: deve ir com urgência e não com lentidão, com preguiça, com tardança.

Rápido e rapidamente, urgente e urgentemente semelham ortograficamente, porém diferem quanto à respectiva função na oração. Rápido e rapidamente, urgente e urgentemente têm valores diferentes, não se equivalem. Não é a mesma coisa usar rápido em lugar de rapidamente, ainda que se entenda o sentido da frase – má frase, mal construída.

Na língua portuguesa, adjetivo e advérbio de modo são figuras inteligentes, bem pensadas, que fazem sentido. O sufixo “mente” não é aleatório nem inútil, ao contrário.

Contentar-se com a substituição do advérbio pelo adjetivo porque “se entende” a oração, corresponde à mentalidade mediocrizadora. Empregar-se o advérbio de modo, cônscio da sua função, corresponde à mentalidade cultivadora do idioma. Entre a mediocridade e o cultivo, cada um escolhe.

Fulano bateu forte > Fulano bateu fortemente.

Decida, independente disto > Decida, independentemente disto.

O pagamento cai automático > O pagamento cai automaticamente.

Educação para a valorização do idioma.

“CLICHÊ”, do francês “clichè”. Em francês, “clichè” nomina a chapa metálica que, antanho, servia para imprimirem-se fotografias em gazetas e revistas. No Brasil, por metáfora, tornou-se nome de idéias ou chavões que se repetem, ou seja, lugares-comuns ou frases feitas. Em bom português, em português de qualidade, dizemos lugar-comum ou frase feita, ao passo que clichê é galicismo, estrangeirismo. Agora que você conhece a origem de “clichê” e os seus equivalentes em bom português (lugar-comum e frase feita), já os pode usar.

USO ERRADO DE ESSE, ESSA, AQUELE. Em francês, muitas vezes pode-se usar “esse”, “essa”, “aquele”, “aquela” como artigo. Por exemplo: “Lacerda, esse escritor de livros”. Tal sintaxe é típica do francês, ao passo que a sintaxe típica do português é: “Lacerda, escritor de livros”. Outra: “Aqueles estudantes que faltarem, levarão falta.”. Tal sintaxe é típica do francês, ao passo que a sintaxe típica do português é “Os estudantes que faltarem, levarão falta.” Nas duas frases afrancesadas, não se indica Lacerda como escritor que esteja perto;  não se indicam estudantes que estejam distantes. Em português, ESTE indica o que nos está próximo; ESSE indica o que nos está relativamente próximo; AQUELE  indica o que nos está distante. Em bom português, este, esse e aquele não funcionam como artigos.

 

PREPOSIÇÕES (algumas.).

Pessoa que você convive, não. Pessoa com quem você convive.

Perceba: convive-se com alguém; não se convive alguém.

O idioma faz sentido; as suas regras têm razão de ser.

Cidade que nasci, não. Cidade em que nasci.

Perceba: nasce-se em uma cidade; não se nasce cidade.

O idioma faz sentido; as suas regras têm razão de ser.

Antes que seja tarde, não. Antes de que seja tarde.

Depois que seja tarde, não. Depois de que seja tarde.

Perceba: antes de algo ou depois de algo; e não antes algo ou depois algo.

O idioma faz sentido; as suas regras têm razão de ser.

 

PRONOMES CONTRAÍDOS.
Vendo-lhe isto = vendo-lhe o = vendo-lho.
Digo-lhe isto = Digo-lho.
Dei isto para ti = Dei-te isto = Dei-to.
Digo para vocês = Digo-vos.
Já disso isto para vocês = Já vos disse isto = Já vo-lo disse
É de vocês = É vosso.
Recomendo isto para vocês = Recomendo vos isto = Recomendo-vo-lo.

Venderei isto para você = Vendê-lo-ei para você = Vendê-lo-ei lhe = Vender-lho-ei.

É difícil ou você é que não está familiarizado com tais recursos ? Eles existem e são usáveis; existem para serem usados.

Perceba a economia de palavras nas contrações.
Isto não é “lusitanismo”: isto é a sua língua; sua, de brasileiro.

Escola que não ensina isto, é escola que falha. Professor que não sabe isto, é professor despreparado. Professor segundo quem isto “é só na escrita”, é professor desorientado e desorientador.

Tornou-se fácil para mim = Tornou-se-me fácil.
Fica difícil para ele = Fica-lhe difícil.
A corda enroscou-se na perna dele = A corda enroscou-se-lhe na perna.
O guarda dirigiu-se para mim = O guarda dirigiu-se-me.
Falou para mim = Falou-me.
Entendi ele = Entendi-o.
A situação ficou complicada para mim = Complicou-se-me a situação.
Agravou-se o estado de saúde dele = Agravou-se-lhe o estado de saúde.
Desculpa: melhor é “Desculpe-me”.

 

PAGAR POR E NÃO PAGAR EM.

Paga-se tanto POR algo e não EM algo.
Mora-se em Curitiba, em Paranaguá, no Rio de Janeiro (no = em + o).

Dizer que se paga no livro, é igual a dizer-se que o comprador entrou no livro, que está nele e, dentro dele, pagou.

Paguei tanto pelo livro; pagaria tanto pela camisa; pagar-lhe-ei tanto pelo telemóvel; pago-lhe tanto pelo serviço. Moro em Curitiba, vivo em Antonina, resido no Amazonas, estive em Palmeira.

O idioma faz sentido; as suas regras têm razão de ser.

 

ATENTAR A e não ATENTAR-SE.
Ninguém “se atenta” a algo. Alguém atenta a algo.
Por exemplo: atento ao fato, atentei ao pormenor.
“Atentar-se a algo” é igual a prestar a atenção a si próprio e a algo, o que é impossível e ilógico.
As regras têm sentido; o idioma tem lógica. Não fazem sentido nem têm lógica os vícios de linguagem.
Atentar: prestar atenção; cometer atentado.

Sonhar: sonha-se COM algo. Sonho com isto; sonhamos com nos formarmos; sonho com um mundo melhor.
Contribui-se COM algo. Contribuo com a minha profissão; contribuirás com o teu capital.

 

VERBO GANHAR, palavra-ônibus do momento. Ele ocorre em várias situações: Curitiba vai ganhar um restaurante; tal fato precisa de provas para ganhar credibilidade; o polo norte ganhou mais gelo.  “Para os que acreditam que a Bíblia ou a Torá contêm a verdade e se bastam, a história de Moisés é plenamente aceitável. Para os que acham que é preciso algo mais, a travessia ainda carece de alguma comprovação para ganhar veracidade.” (Duda Teixeira, revista Veja).

É palavra-ônibus, que substitui, desvantajosamente, outros verbos e vocábulos empregáveis. O seu uso é desvantajoso pois, em geral, é metafórico (raramente é empregado em denotativamente) e, por ele, elide-se o uso de outros, apropriados. O seu emprego, em jeito de cacoete, também revela pobreza lexical: por desconhecer outros verbos, de uso específico, o escrevinhador serve-se deste, em que a metáfora o acomoda a diversas situações. Sobretudo em textos jornalísticos, deveria (deve) ser aspado, para frisar-se-lhe o uso metafórico; alias, em textos jornalísticos, devem-se evitar as metáforas.

“OLAVETTE”. OLAVINHO.

Existe a palavra “olavette” (discípulo do escritor Olavo de Carvalho), grafada com duplo “t”, forma “oficial” do vocábulo, presente, por exemplo, no título da página do Facebook , “Olavettes”.

A desinência “ette” é própria do francês e indica diminutivo feminino: “garçon”, “garçonette”.

Etimologicamente: olavette = olavinhA.

Assim, “olavette” é galicismo feio e desnecessário. A rigor, “olavette” = olavinhA.

Em bom português: olavinho.

Talvez a palavra se origine da aglutinação de Olavo com  tiete, em que se lhe duplicou a consoante “t” (Tiete, antigo hipocorístico de uma admiradora de Ney Matogrosso e que se trivializou como sinônimo, coloquial, de admirador entusiasta de algum cantor ou celebridade.). Assim, olavete = Olavo + tiete.  Se a etimologia for esta, não se compreende o porquê da duplicação da letra “t”. Bastaria escrever-se olavete.

O vocábulo, todavia, redige-se com duplo “t”, o que o caracteriza como galicismo brasileiro, pelo que é, de todo, preferível a forma olavinho. Se se cuidasse de brasileirismo (Olavo + tiete) seria, de todo, admissível a forma (praticada por muitos, aliás) olavete (com um só “t”).

A putativa origem afrancesada torna olavette equipolente de olavinho e galicismo desnecessário; a forma olavete torná-la-ia brasileirismo, livre da pecha de galicismo (se proviesse da aglutinação que expus).

Alguém concebeu a má idéia de criar galicismo desnecessário, que afeia o vernáculo e me parece ridículo, lingüisticamente (abstenho-me de ajuizar da adesão às idéias do escritor epônimo e de os seus seqüazes intiularem-se com o neologismo em causa).

Também há olavismo (na locução “olavismo cultural”), que subentende o substantivo olavismo.

”Kilt”, em inglês. Em português, saias escocesas ou saias da Escócia. 

Os escoceses vestem saias que, no idioma deles, chama-se de “kilt”. “Kilt”, saias masculinas, em inglês da Escócia.

Em português, dizemos saia, independentemente de se quem as usa é homem ou mulher.

Se quiser nominar, especificamente, o que o escocês chama de “kilt”, pode chamá-las de saias escocesas ou de saias da Escócia.

Os demais tipos de saias usadas na Escócia são saias comuns, saias sem adjetivos; logo, são…saias, saias quaisquer, saias em geral.

É admissível e louvável que, quando o brasileiro fale em saias, refira-se a saias quaisquer; quando aluda a saias escocesas ou saias da Escócia, refira-se especificamente ao tipo de saia usada pelos homens na Escócia.

A locução saias escocesas é correta, é em Português, é prestigiante da nossa cultura e do nosso idioma, é bonita e torna dispensável e desnecessário dizer “kilt”.

Não se cuida de traduzir, literalmente, “kilt” por “saia escocesa”; cuida-se de nominar em bom vernáculo o que se pode nominar em bom vernáculo e elidir-se a circulação de estrangeirismo desnecessário e dispensável.

Interessam (-me) menos as sutilezas semânticas relativas à maior ou menor propriedade com que a palavra “saia” equivale ao termo “kilt” (ou seja, se “kilt” designa roupa, alguma roupa, saia, dado tipo de saia); interessa (-me) o equipolente vernacular do que o brasileiro médio, o brasileiro em geral, o brasileiro na sua generalidade, associa ao objeto que este mesmo brasileiro conhece por “kilt”.

As locuções (sinônimas) “saias escocesas” e “saias da Escócia” coadunam-se com outras, típicas da língua portuguesa, a exemplo de “mal francês”, “folha de Flandres”, “cravo da India”, “dança flamenca”. Há outros males na França, outras folhas em Flandres, outros cravos na India, outras danças na Andaluzia, porém usam-se tais expressões para designar não todo e qualquer mal da França, não toda e qualquer folha de Flandres, não todo e qualquer cravo da India, não toda e qualquer dança da Andaluzia, porém dado mal, dada folha, dado cravo, dada dança. O mesmo em relação a tigre de Bengala, pastéis de Belém, castanha do Pará, pimenta do reino, figos turcos.

Analogamente, saia escocesa ou saia da Escócia são locuções legítimas com que se nomine não toda e qualquer saia usada na Escócia, porém a que lhe é típica que o brasileiro conhece por “kilt”.).

 

“FAZER COM QUE”. Na locução “fazer com que”, a preposição “com” é supérflua. O correto é “fazer que”. Fazer que. Fazer que. Fazer que.

“Abat-jour”, do francês, originou abajur, porém há e sempre houve, em português, tapa-luz, quebra-luz e bandeira. Isto mesmo: em português, chama-se de tapa-luz, quebra-luz e bandeira.
“Soutien”, do francês “soutien-gorge”, sustenta-mama; em português, estrófio. Estrófio.

“MOUSE”. RATO.
É ingenuidade pensar que os estrangeirismos são necessários ou inevitáveis. Vários já se incorporaram, porém muitos deles podem e devem ser evitados, sempre que se possa traduzir, aportuguesar ou criar. Por exemplo: “mouse” = rato. Rato é como se diz em Portugal. “Mas é coisa de português”. Em todos os países de língua espanhola, se diz “ratón”; ou seja, traduz-se. Só no Brasil é que os brasileiros, no seu país, usam (também) este estrangeirismo. Por que não usar português, no Brasil, entre e para brasileiros ? O objeto chama-se rato: é como os norte-americanos o chamam, no idioma deles.

 

BREVE: rápido, conciso, sem demora. Por exemplo: ser breve na explicação.
EM BREVE: logo. Por exemplo: acontecerá em breve.

Se tenciona dizer “O fato acontecerá breve”, para exprimir que acontecerá logo, então deve dizer “O fato acontecerá em breve”.

VERBO DIALOGAR MAL EMPREGADO.

Na academia, é-se “inteligente” no modo burocrático: conta a quantidade e não a qualidade. E quando “teorizam”, em que diversos “marcos teóricos” “dialogam”, com “releituras” (jargão acadêmico) no texto, por aplicação das suas elocubrações aos fatos, então, surgem as interpretações, as divagações, a liberdade intelectual que, em si, é valiosa, certamente; é no seu âmbito que se produzem o bom e o ótimo e os seus opostos.

O verbo dialogar é pessimamente usado para referir-se à invocação de idéias ou argumentos de dois autores ou mais, pelo autor que os invoca. Eles não dialogam: 1) por que o diálogo, evidentemente, supõe a reciprocidade e a interação, o que inocorre nos textos; 2) não há diálogo, porém o uso de idéias ou argumentos de um autor, que o autor do texto combina, justapõe, opõe, aos de outro ou outros, o que não é diálogo. Isto não é diálogo; é invocação de autoridades.
Na academia, prima-se (?) pelo rigor. O emprego do verbo dialogar no sentido acima é metafórico e não próprio, o que antagoniza com o rigor acadêmico, que deve ater-se ao senso denotativo. Logo, em textos, máxime nos acadêmicos, é de rejeitar-e este MODISMO desnecessário e até ridículo.

 

Adquira o seu exemplar”, “Pegue a sua senha” são frases erradas. Isto não existe.

Ninguém adquire o “seu” exemplar: antes de adquiri-lo, ele não é da pessoa e portanto, não é “seu”; é meu, do vendedor. Forma correta: “Aquira um exemplar”. Adquira um exemplar; após havê-lo adquirido ele passa a ser o “seu exemplar”, de quem o comprou.

Ninguém pega a sua senha; pega-se uma senha; quando alguém a pega e porque o faz, ela se torna sua; a senha é “sua” quando ele a pegou e naõ antes. Forma correta: “Pegue uma senha”; após havê-la pegado ela passa a ser a “sua” senha, de quem a apanhou.

 

Palavras que muitos empregam como palavras-ônibus:

1- verbo ganhar. Curitiba ganhou mais habitantes. O livro ganhará notoreidade com a próxima edição. A epidemia ganhou força.

Ganhar não é isto: é receber de presente. Os seus mais usos são metafóricos; é a vulgaridade atual.

2- verbo dialogar. O passado dialoga com o presente, a reabilitação de prédios antigos. Tal autor dialoga com Marx e Comte. O diálogo entre a ciência e a fé.

Dialogar não é isto: é pessoas falarem-se. Os seus mais usos são metafóricos; é outra vulgaridade atual.

3- verbo descartar. Descartei a opinião dele. É melhor descartar os maus profissionais. Descartei tal cidade, do meu itinerário.

Descartar é desfazer-se de carta, em jogo de baralho. Os seus mais usos são metafóricos; foi vulgaridade até recentemente.

4- verbo atrelar. Fulano está atrelado ao Positivismo. Tal doença está atrelada a tais sintomas. A decisão está atrelada a vários fatores.

Atrelar é pôr trela em animal. Os seus mais usos são metafóricos; foi vulgaridade até recentemente.

Atente à fala do homem comum e também da gente supostamente culta. Se notar três ocorrências da mesma palavra, suspeite de que se trata de palavra-ônibus ou de vulgaridade.

Frase feita.

É frase feita “o que está sendo dito”, “o que foi dito”. O que se está dizendo. O que se está a dizer. O que se diz. (Não que seja errada a forma aspada: ela é viciosa, por ser a única forma como certas pessoas conseguem exprimir-se). Suspeito muitíssimo de que se trata de vício de origem no inglês (anglicismo de construção.).

ACADÊMICOS MAU REDATORES.

Na academia brasileira, contemporaneamente, escreve-se mal. Mestres e doutores em ciências humanas, como história, filosofia, psicologia, economia, escrevem mal; são escritores canhestros; ignoram, mais do que ocasionalmente, o sentido lídimo das palavras; empregam metáforas tolas, por ignorância dos vocábulos que empregar em sentido próprio; desacertam no emprego de preposições, constroem com deselegância. Por último, porém não por derradeiro: jamais leram Machado de Assis e incorrem no vício do duplo sujeito. (Refiro-me à forma, ao estilo, à escorreição.).

 

“GOSTARIA DE […] UM BRIGADEIRO ?”.

É cediço que o ensino público brasileiro é ruim; é cediço que se ensina mal o idioma, no Brasil, e que não se educa para a valorização do idioma. É difundido a idéia errada de que o importante é comunicar-se e não como se comunica. Daí a propagação de erronias e de vícios, de que um consiste no vício do sujeito plúrimo, em que incorrem jornalistas e mais escreventes ineptos; outro, novo, consiste na elipse de verbo, na construção “Gostaria de um brigadeiro?”, “Gostaria de um queijo?”.
Falta um verbo, correspondente ao de que se gostaria: “Gostaria de [provar, experimentar, ver, degustar, comprar, trocar] um brigadeiro?”.
As pessoas usam a primeira formulação, sem lhe perceberem a incompletude; o falante médio, na sua mediania, já está abaixo desta percepção.
Outra: “Que isso?”. É tão óbvia a ausência do verbo, é tão óbvio faltar o verbo ser, porém o usuário sub-instruído ou desinstruído ou desleixado ou tudo isto em conjunto está abaixo de tal percepção.

 

ANGLICISMOS.

Traduzem, erradamente, do inglês, “inconsistent”,como inconsistente. É falso cognato, por incoerente. Incoerente. (Inconsistente entrou no uso, por imitação do inglês. Incoerente é que é.). Note como inconsistente entrou em circulação e excluiu incoerente.

 

Traduzem, erradamente, do inglês, “evidence”, como evidência (do crime). É falso cognato, por prova. Prova.

 

Traduzem (?), erradamente, do inglês, “massif”, como massivo. Sequer é falso cognato; é anglicismo, por maciço. Em português, diz-se maciço. Maciço.

 

Premonição, de “premonition” = pressentimento.

Acessar: porcaria de verbo, inventado, anos atrás, por ignorantes do equivalente português “aceder a”, existe há cerca de 9 séculos. Aceder a = ter acesso a; aceitar (convite). Por exemplo: acedo ao Facebook; aceda à página eletrônica, em lugar de acesse o Facebook, acesse a página. Porém “todo mundo” usa “acessar” e “ninguém conhece” aceder a ? Então comece você a usar o certo e dê o bom exemplo: os exemplos propagam-se. Cultive o certo e o elevado; evite o errado e o medíocre.

CACETE.

Cacete, em chulo, em calão, é sinônimo de pênis; em linguagem educada, cacete significa aborrecido, enfadonho, chato. Não é linguajar arcaico; pode-se empregar, legitimamente,o termo cacete, com a reserva de alguém pode entendê-la em sentido chulo, o que dependerá do ambiente e do nível cultural do interlocutor, semelhantemente às palavras caralho, cu, porra, pica e boceta que, todas, detêm sentido lídimo e não obsceno. A obscenidade abundante no dizer do brasileiro e´mais um sintoma da herança católica em que, dada a repressão sexual, o pudor vitoriano, o silêncio acerca da sexualidade, as pessoas passavam a referir-se aos orgãos do corpo mediante metáforas e sucedâneos, na impossibilidade de os nominarem abertamente. Vocabulário vil, de conotação sexual; tabuísmos sexualmente orientados são sinal de povo católico e moldado pelos tabus do catolicismo.

Já, agora, caralho=parte superior do navio, em que se situa a gávea; cu=orifício da agulha; porra=clava, maça (com acento átono na primeira sílaba, ou seja, “máça” e não maçã); pica=lança; boceta=escrínio, caixa de jóias.

TRADUÇÕES.

No Brasil, desde meados dos anos de 1980, as traduções tornaram-se ruins ou muito ruins; a contrapelo, antes disto havia-as boas, ótimas, exemplares. Em Portugal, eram e são corretíssimas. Muitos tradutores brasileiros, em vez de obter o equivalente vernacular do original, consoante a sintaxe e as características do português, traduzem literalmente, palavra por palavra e, destarte, reproduzem a sintaxe e as características do idioma original.
Por exemplo: em espanhol, diz-se “Todo lo contrario”, que nos equivale a “Ao contrário”; um mau tradutor traduziu como “Todo o contrário”, o que não faz sentido em português.
Outra: uma doutora com doutorado traduziu livro de Direito Romano, do espanhol, em cujo original se lê “El hombre, es ello solo”, o que ela verteu, pessimamente, como “O homem, ele é sozinho”, em vez de  “O homem está sozinho”.
Outro: o francês diz “Ça était notre affaire à nous”, que a besta do tradutor verteu como “Isto era nosso negócio a nós”, em vez de traduzir “Isto era o nosso negócio”.
Traduzir não é imitar; exige fidelidade ao original e vernaculidade no idioma para que se traduz. Tradutores ineptos sacrificam o segundo, a pretexto de rigor quanto ao primeiro; daí as traduções grotescas, erradas, inadequadas e a sensação de estranheza do leitor afeito ao vernáculo.

VÍCIO DA DUPLICIDADE

Os pronomes existem para evitar-se a repetição do sujeito; em lugar deles, maus escreventes empregam perífrases, que alongam o texto e o tornam obscuro.

Esta coisa de vício da duplicidade já passou do tempo de existir. Está mais do que na hora de os brasileiros pararem com isto: é defeito de redação, ainda que muitos o reputem virtuoso. É defeito, e feio; indica prolixidade, pedantismo e ignorância no uso dos pronomes. Se o sujeito desconhece que eles existem para evitar-se a repetição do sujeito, então, ignora o elementar e quer “sofisticar” o seu texto, da pior maneira. A frase da legenda ficou rebuscada e pernóstica; é no que dá o vício da duplicidade. Considero surpreendente que este defeito se haja inveterado e tanta gente o cometa, sem ter noção de que o é.

 

VÍCIO DE MESMO.

A construção “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo está no andar” é errada.
A construção “Os alunos devem manter silêncio. Os mesmos ouvirão a aula.” é errada.

A construção “João celebrou contrato; o mesmo o cumpriu.”.

“Mesmos” não se destina a repetir o sujeito nem é pronome; não serve para designar o sujeito; serve para evitar repetições como em: “Leu o livro? Li. Gostou do livro? Gostei. De que livro gostou? Do mesmo [que li].”.
Correto: “Antes de entrar no elevador, verifique se ELE está no andar”; “Os alunos devem manter silêncio. ELES ouvirão a aula.”; João celebrou o contrato; ELE o cumpriu.”.

Use os pronomes ele, eles, ela, elas. Eles existem ! Oh, maravilha ! Oh, surpresa ! Oh, louvores aos pronomes !

 

ROTUNDA.
Logradouro redondo, em redor de que os veículos trafegam, chama-se de rotunda. Rotunda é-lhe o nome, em vez de rotatória, que usa quem ignora o nome correto. Não é porque “todo mundo usa” rotatória, que este é o nome correto, sobretudo se “todo mundo” ignora o realmente correto.

Rotatória foi dicionarizada, o que nada significa: os dicionários registram as palavras, não lhes abonam o uso; não é porque a palavra está no Aurélio ou no Houaiss, com este ou aquele significado, que o uso em questão é correto.

 

TRADUÇÃO DE PRENOMES.
Os prenomes podem ser traduzidos; são traduzíveis; em décadas passadas, no Brasil, em Portugal, na Argentina, na Espanha, em outros países, eram traduzidos. É pura convenção atual, pretender-se que só se pode e deve-se empregar os prenomes na forma endômina, como dizer-se e grafar-se Karl Marx e não Carlos Marx, rainha Elizabeth e não rainha Isabel.
Consulte livros brasileiros, franceses, italianos, espanhóis, argentinos, portugueses, de vinte anos para trás – constam os prenomes nos respectivos idiomas e não no tal de original (por exemplo: em livro publicado em francês: François de Assis e não Francesco de Assis; em livro publicado em espanhol Francisco de Assis e não Francesco de Assis.).

Em inúmeros países, inclusivamente no Brasil, traduziam-se os prenomes, ainda que no registro de batismo ou civil constasse Karl e Elizabeth.

Assim, Miguel Ângelo e não Michelangelo.
Rainha Isabel = rainha Elizabeth.
Jeremias Bentham = Jeremy Bentham.
Carlos Marx = Karl Marx.
Frederico Nietzsche = Friedrich Nietzsche.
João Sebastião Bach – Johann Sebastian Bach.
Augusto Comte = Auguste Comte.
Jesus Cristo=Josué Cristo.
Carlos Magno = Chale  Magne.
Diana (“díâna”) = Diana (“dáiane”).
Filipe = Philip.
Aristóteles, Platão, Demócrito, Papiniano, Justiniano, César, Moisés e outros, nominamo-los em Português.

 

PROVA CONTUNDENTE E ROBUSTA.
Jargão jurídico.
O pessoal jurídico, para mais de muitas vezes ser rebuscado e prolixo, usa de certos lugares-comuns. Por exemplo: prova contundente e prova robusta.
Ambos são metafóricos. O texto técnico deve evitar metáforas; ao invés, certos juristas abundam nelas: pensam, quiçá, que florear o texto, com lirismos inúteis é “escrever bem”.
A prova é convincente, principal, secundária, importante, menos importante; não é contundente nem robusta.

 

“A minha amiga, ela viajou.”.
“O curso que eu faço, ele dura cinco anos.”.

Compare:
A minha amiga viajou.
O curso que faço dura cinco anos.

O pronome, nestes casos, está a mais: evite-o (nestes casos).

Atentar em algo; jamais “atentar-se” em algo (jamais “me atentei que hoje é sexta-feira”; jamais “atentem-se ao prazo”.). Em país de instrução sub, de ensino sub, os vícios são supra.

 

 

A correção da linguagem, a sua escorreição, o que inclui a ortografia, é valiosa e é meritório zelar-se por ela. Ainda que o fundamental seja a comunicação, a correção importa; a comunicação como valor fundamental não desvaloriza a importância da correção. Erros que se cometa eventualmente devem ser corrigidos, como quaisquer erros, o que é diferente de se atacar a pessoa do interlocutor a propósito da sua expressão (falácia “ad hominem”) e de discriminá-lo (vulgarmente chamado de preconceito linguístico).

Há que se ensinar as pessoas a bem saberem e a bem usarem os recursos do idioma, o que inclui ortografia, acentuação, pontuação, pronomes, tempos verbais, mesóclise. Texto bem escrito, corretamente escrito, devidamente pontuado, escoimado de solecismos, é valioso pela sua forma; a forma correta é valiosa, em si, independentemente do fundo, que representa outro aspecto da comunicação.

Como se comunica é importante, independentemente do que se comunica.  Ainda que a comunicação haja sido eficaz, a norma culta é de rigor; valorizá-la não equivale a nenhum preconceito; ao invés, muitos mantêm preconceito contra a norma culta, por preguiça, ignorância e até arrogância.

 

 

VERBOS E PREPOSIÇÕES.
É defeito de redação usarem-se dois verbos (ou mais) que exigem preposições distintas, um em seguida ao outro. Por exemplo: ” Fulano gostava e preferia chocolate”.  É horrível construção. “Gostava DE chocolate e preferia-o A doce de leite.”.

PRONÚNCIA DE NOMES ESTRANGEIROS.

Muitas pessoas pronunciam os nomes estrangeiros com a sua (suposta) pronúncia no idioma original: Descartes, dizem “de cart”; Macron, dizem “macrron”; Marietti, dizem “marieti” (e não “marietchi”), George W. Bush dizem “djorge dâbou bâch”.

Não me oponho a que se pronunciem nomes estrangeiros consoanate o respectivo idioma; ao mesmo tempo, não considero depreciativo nem sinal de ignorância que se pretira (verbo preterir) tal pronúncia: não é suposto que se saiba os nomes nos seus idiomas, porém é natural e aceitável que os pronunciemos ao nosso modo e que traduzamos os prenomes. Sim, traduzirem-se-lhes os prenomes (que são traduzíveis) como se fez em inúmeros países, inclusivamente neste, por décadas: João Stuart Mill, Jeremias Bentham, Carlos Marx, Frederico Nietzsche, assim como João Paulo II, Carlos Magno, Aristóteles, César.

Digo “macrôn”, “marietchi”, “nítche”, “dêcarte”, “bêntam”, “conte”; falo assim, orgulhosamente, com a pronúncia do meu idioma, embora eu fale francês, espanhol, italiano (quanto ao inglês, é irregular na sua pronúncia, em que há surpresas). Os franceses pronunciam os nomes estrangeiros com prosódia do francês: fazem bem.

Saussure e Dürkheim nenhum brasileiro está obrigado a pronunciar em francês e alemão. “Sôssir” e “durcáim” já ficam bem: é como digo; mais não é preciso e sabe a (metáfora gustativa) pedantismo fonético (Emílio Dürkheim era francês, de sobrenome alemão. Pronunciá-lo-á com prosódia do alemão ou do francês ? O francês di-lo ao seu modo.).

Parece-me um pouco pedante, com o seu quê de ridículo, o brasileiro que afeta as pronúncias estrangeiras. Haverá opiniões antagônicas (dos que assim pronunciam, certamente.).

Houve um que dizia “pláto”, para Platão; certo autor de artigo acadêmico sobre Frederico Nietzsche grafou “August Comt” para Augusto (Auguste) Comte: escreveu como fala e desconhece a grafia correta do nome: ignorância é isto.

 

Por que certos erros e vícios se propagam como epidemia ? Porque, como diz Marcos de Castro, “ninguém sabe nada” (passe o exagero: ele quis dizer que o brasileiro médio sabe mal o vernáculo); alguém (sub-instruído) comete o erro uma vez; os outros atentam na novidade e a tomam pelo correto; imitam-na, em processo que se difunde. Rapidamente, um sem-número de sub-instruídos repetem o solecismo como se fosse correto, o ruído como se fosse harmonia

 

 

Saber e saber bem o idioma, saber falá-lo corretamente e escrevê-lo com escorreição, é o mínimo que se pode esperar de alguém minimamente à altura da civilização; quem não o sabe, está aquém dela. É imperioso afirmar tal princípio, incuti-lo como elemento da cosmovisão, repeti-lo para novos públicos, formar-se opinião pública e criar-se nova geração, que valorize a norma culta do idioma. A atual é altamente despreparada, neste capítulo.


DEVIDO A isto, devido ao outro e não: devido isto, devido o outro.
IGUAL A este, igual a aquele e não: igual este, igual aquele.
ATENTEI EM algo, atentei nisto e não: me atentei em algo, me atentei nisto.

Que diferença faz uma letra? A distância que vai do português com qualidade do reles, a de quem sabe bem o seu idioma de quem o sabe mal, a de quem fala “como todo mundo” de quem fala corretamente. Pormenores assim fazem a diferença.
Na comunicação, também importa a qualidade da forma como se comunica; a correção da forma, aliás, contribui-lhe para a eficácia: é redutor e estreito pensar-se que  importa, unicamente, que o destinatário da mensagem a compreenda; ao invés, é enaltecedor que se lhe transmita a mensagem com correção e até beleza. Aliás, a correção favorece a compreensão. Texto mal escrito, dito mal falado é texto e dito sujeito a ser incompreendido ou menos bem compreendido.
Saber bem o idioma, respeitar-lhe a gramática, usá-lo com rigor são valores, são virtudes, são vantagens.

 

VÍCIO DE TIPO.
“Hoje tipo é quinta-feira dia de aula tipo de matemática tipo não gosto muito porque tipo acho difíciu tipo com as equação (sic) do primeiro grau.”
O falante repete “tipo” a torto e a direito.
Outros findam as suas frases com o tosco “[es] tá ligado?”. É vulgaridade, plebeísmo, coisa reles.
Quer usá-los, use-os; que é feio, lá isto é.
Não saber a flexão de número (plural) nem usar corretamente os tempos verbais, para mais de feio, é pobre: pobre culturalmente, pobre de civilização, brega, cafona.
“Dois minuto”, “chegou as pessoa”, “acabou as férias”, “é dois”, “é eu” – dá vergonha.

 

FALE BEM, FALE COM QUALIDADE.

É lamentável que muitos brasileiros já não saibam o mínimo do idioma.
Concordância. Se o sujeito é feminino, o verbo será no feminino. Se o sujeito é masculino, o verbo será no masculino. Por exemplo: a aula foi dadA e não a aula foi dadO. A conexão foi estabelecidA e não a conexão foi estabelecidO. Empresa chamadA Telepar e não empresa chamadO Telepar. Foi feitA a correção e não foi feitO a correção.
O carro foi consertadO. O amigo foi internadO. Os livros foram vendidOS (com s , por ser plural).
Um é. Dois são. São dois. É um.
Duzentos minutos e não: duzento minuto.
Nós somos. Somos nós e não: é nós.
Camisa branca e não: camisa no branco. Camisa pequena e não: camisa no pequeno.
Pague para mim e não: pague comigo.
Compre de nós e não: compre conosco.
Reclamei para ele e não: reclamei com ele.
Quer que eu vá? e não: Quer que eu vou?
Quer que eu encomende ? e não: Quer que eu encomendo?
Menos pessoas e não: menas pessoas.
Pôr e não: ponhar.
Eu trouxe e não: eu trusse.
As crianças e não: as criança.
Os dedos e não: os dedo.
O tempo deles passou e não: o tempo deles passaram.
A estante de livros é bonita e não: a estante de livros são bonitas.
A maioria das pessoas é bonita e não: a maioria das pessoas são bonitas.
A maioria das pessoas faz e não: a maioria das pessoas fazem.
As pessoas gostam e não: as pessoas gosta.
Os meninos sabem e não: os meninos sabe.
Os alunos estudam e não: os alunos estuda.
Eles foram felizes para sempre e não: foram feliz para sempre.
Há muitas flores e não: tem muitas flores.
Há maçãs e não: Tem maçãs.
Nós somos e não: a gente é.
Eu sou e não: a gente é.
Eles são e não: a gente é. (Note o caráter polissêmico e sempre equívoco da expressão “a gente”, que pode indicar eu, tu, ele, eles, nós, vós,eles, ao passo que os pronomes retos [eu, tu, ele, nós, vós, eles] indicam inequivocamente de quem se trata, motivo porque ela é pobre lingüísticamente e depende do contexto, ao passo que os pronomes retos independem dele e propiciam comunicação de compreensão sempre induvidosa.).

Dá vergonha ter de ensinar estas coisas. Dá vergonha o brasileiro ter de aprendê-las. Dá vergonha não ensinarem o idioma. Dá vergonha o desleixo e a ignorância elevados à condição de norma. Sociolingüística: populismo lingüístico.

 

 

VÍCIO DE “O QUE”.

É viciosa e errado este tipo de construção: “Ler livros é hábito. O que propicia cultura.”; “Vieram muitas pessoas. O que me contentou.”; “Leônidas venceu a batalha. O que salvou a Grécia.”.

Esta construção é evidentemente errada: não se pode insular o compemento verbal, do verbo. Ela é deselegante e manifesta inépcia na arte de redigir.

Ela grassou nos anos de 1990. Que um inepto a usasse, denuncia-lhe despreparo; que se difundisse, evidencia o quão despreparados se encontram os escreventes brasileiros.

Nos três exemplos, separam-se em frases componentes que não podem ser separados. Assim: “Ler livros é hábito, o que propicia cultura.”; “Vieram muitas pessoas, o que me contentou”; “Leônidas venceu a batalha, o que salvou a Grécia”.

Alguns empregam “e isso” em lugar de “o que”: “Ler livros é hábito e isso propicia cultura.”. É correto usá-lo; é vicioso saber somente usá-lo.

 

VULGARIDADES DE REDAÇÃO.
Há vulgaridades de redação, ou seja, locuções e expressões corretas e de uso correto, que se tornam vulgaridades devido ao excesso do seu uso, ao seu uso como expressões-ônibus ou palavras-ônibus. São corriqueiras em textos também acadêmicos; formam até uma espécie de gíria; denotam ausência de estilo próprio, ou seja, de autonomia estética: as vulgaridades existem por imitação: alguém usa dada palavra, repete-a (ou não); a palavra soa a nova, a diferente, talvez a elegante; outros passam a repeti-la.
Algumas vulgaridades tornam-se em cacoetes: o escrevinhador já não sabe escrever sem elas.
Por exemplo:

1) O macabro, prolixo, feio, redundante e ambíguo VÍCIO DA DUPLICIDADE. É urgente os escrevinhadores brasileiros convencerem-se de que quem o comete, escreve MAL. Por exemplo: “Augusto Comte, criador do Positivismo, escreveu livros; são bons os livros do francês”. Agora, sem o vício: “Augusto Comte, criador do Positivismo, escreveu livros, que são bons.”.
Outro: “A UFPr tem vários professores que lecionam na entidade com 20 horas.”. Sem o vício: “A UFPr tem vários professores que nela lecionam com 20 horas.”.

2) Vício de “algo”: “Ler é algo bom”. Sem a vulgaridade: “Ler é bom.”.

3) Vício de “registro”: “Tenho registro fotográfico” por “Tenho fotografia”; “O contraste entre imagens e texto esclarecem aspectos. Nestes registros, há boas informações.”.

4) Vício de “projeto”: “Fulano lançou um livro; é o seu primeiro projeto”.

5) Vício de “todo um”: “No Brasil há todo um contexto de crise.”.

6) Vício de “bem claro”: “Deixei bem claro o que pretendo”.

7) Vício de “a gente”: “A gente quer.”

8) Vício de “o que”: “Possuo muitos livros. O que me alegra.” Forma correta: “Possuo muitos livros, o que me alegra”. Não se pode separar um elemento da frase, do outro, no caso.

9) Vício de “possuir”: “Possuo dor-de-cabeça”, “O brasileiro possui virtudes”, por “Tenho dor-de-cabeça”, “O brasileiro tem virtudes.”.

10) Vício de “ganhar” (é o campeão, em artigos, livros e na Gazeta do Povo): “Curitiba ganha mais um restaurante”, “Fulano ganha respeito”, “Tal partido tem ganhado eleitores”. [Vulgaridades plebéias: “Fulana ganhou nenê”; “A aluna ganhou um ponto do professor”. As mulheres não ganham bebês: elas concebem.].

Em país em que rara gente lê, em que se sabe mal o vernáculo, os vícios propagam-se e as vulgaridades trivializam-se e manifestam-se, também, no alto pessoal acadêmico: há mestres, doutores, pós-doutores, professores-doutores e professores-pós-doutores que os escrevem: este pessoal redige por obrigação funcional e, parte dele, sem haver adquirido familiaridade com os bons escritores do idioma ou, pelo menos, não adquiriram estilo próprio. Ao invés, escrevem por imitação dos outros; eis porque se disseminam os erros, os cacoetes, os vícios e surgem vulgaridades de estilo.
Certo pessoal acadêmico, supinamente titulado, escreve defeituosamente, com cacoetes, para além de usar metáforas infelizes, empregar mal certos vocábulos, ser prolixo, confundir os tempos verbais (por exemplo: “Aristóteles vai dizer que […]”. Não: Aristóteles DISSE.), errar os pronomes (por exemplo: “Quero agradecê-lo”), produzir frases obscuras e anfiguris.
É óbvio que Machado de Assis não incorria em inépcias que tais; aliás, em inépcia nenhuma. Tampouco Aluísio de Azevedo, Raul Pompéia, Eça de Queiroz, José Saramago – e nenhum deles era doutor nem pós-doutor, sem desdouro, evidentemente, dos doutores e pós-doutores que escrevam bem.
Em certos meios, há jargões, ou seja, dado léxico próprio, que designa categorias específicas da respectiva área do conhecimento. Não é disto que se trata, porquanto nenhuma das palavras acima constitui jargão.

Certos artigos “científicos” são decididamente ruins (malgrado da autoria de doutores e de pós-doutores): o sujeito percebe mal, explora mal o seu tema, descreve-o mal, conclui mal, e depois publica o seu artigo em coletâneas. Por exemplo: “História do corpo no Brasil”, de onde extraí os exemplos de vícios acima, encontradiços nos meios letrados e universitários, brasileiros, da atualidade.

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