Lesbianismo em Machado de Assis.

                                                                    Lesbianismo em Machado de Assis

                                                                        Arthur Virmond de Lacerda Neto

arthurlacerda@onda.com.br

18.XI.2010.

Josué de Sousa Montello nasceu no Maranhão, em 1917. Ao longo dos seus oitenta e oito anos de vida, escreveu vinte e cinco romances, peças teatrais, novelas e ensaios. Redigiu, também, de1952 a1995, um diário pessoal, de que publicou excertos em seis volumes.

No seu “Diário do Entardecer”, encontra-se esta anotação, de 24 de agosto de 1967:

Relendo os Papéis avulsos, aconteceu-me o que habitualmente ocorre nos meus regressos ao pequeno mundo de Machado de Assis: em vez de ater-me ao objeto da pesquisa, andei a ler um trecho aqui, outro ali, outro mais adiante, levado pela sedução da prosa do velho feiticeiro literário. De repente, nas emoções desse passeio, travei as sobrancelhas, redobrando de atenção. Seria possível o que eu estava lendo? E por que, até agora, ninguém atentara para a página erótica de Machado de Assis, no livro de 1882?

            Porque o que eu tinha diante de mim, espantado, era uma cena de homossexualismo feminino, transparente, perfeita, habilmente concatenada, sem deixar dúvida alguma quanto à sua natureza.

            Em Machado de Assis? No Machado de Assis que, em 1878, escrevendo sobre O primo Basílio, pedia contas a Eça de Queiroz pelas cenas ousadas do seu romance? Sim, é verdade. No  mesmo Machado de Assis.

            O episódio -nítido, claro, objetivo, sem deixar dúvidas- está no conto “D. Benedita”. A página reclama leitura atenta, dando mesmo a impressão de que o autor, intimidado pela escabrosidade do tema, sustem a pena, dando-lhe um desfecho que interrompe a narrativa, abreviando-lhe o fecho natural. Convém relê-la, devidamente alertado, redobrando de atenção quando se juntam as duas personagens do episódio: a d. Maria dos Anjos e a que dá nome ao conto.

            Em meio ao burburinho da casa cheia, eis como o narrador nos mostra a personagem:

D. Benedita fala, como as suas visitas, mas não fala para todas, senão para uma, que está sentada ao pé dela. Essa é uma senhora gorda, simpática, muito risonha, mãe de um bacharel de 22 anos, o Leandrinho, que está sentado defronte delas. D. Beneditanão se contenta de falar à senhora gorda, tem uma das mãos desta entre as suas; e  não se contenta de lhe ter presa a mão, fita-lhe uns olhos namorados, vivamente namorados.

A releitura do texto, com os olhos prevenidos, leva-nos a redobrar de malícia, sobretudo quando as duas saem de cena, para voltar à sala, onde se acham outras amigas:

 

            D. Benedita voltou nesse momento pelo braço de d. Maria dos Anjos. Trazia um sorriso envergonhado; pediu desculpas da interrupção, e sentou-se com a recente amiga (d. Maria dos Anjos), agradecendo-lhe o cuidado que lhe deu, pegando-lhe outra vez na mão.

 

Atente-se mais para o diálogo das duas, logo a seguir:

“Vejo que me quer bem”, disse ela. “A senhora merece”, disse d. Maria dos Anjos. “Mereço”, inquiriu ela entre desvanecida e modesta.

 

Por fim, eis o que diz o narrador, insistindo na feição amorosa do episódio, quando d. Benedita assume um ar modesto: “E declarou que não, que a outra é que era boa, um anjo, um  verdadeiro anjo; palavra que ela sublinhou com o mesmo olhar namorado, não persistente e longo, mas inquieto e repetido“.

            A cena erótica aí está, sem subterfúgios, transparente, muito clara. O que atualiza o velho Machado, numa hora em que tudo é permitido.

 

Josué Montello escreveu tais notas em 1967, quando as mentalidades eram, ainda, intensamente conservadoras em relação aos costumes e à liberdade sexual. Atente-se à sua observação final, de que a cena de erotismo atualiza o texto de Machado de Assis, de 1882, em uma  hora em que (referia-se a 1967) tudo é permitido. Tudo, então, era permitido ? Certamente, ao tempo desta anotação, os costumes eram relativamente soltos, em cotejo com o que tê-lo-iam sido cerca de oitenta anos antes, porém eram muito menos liberais do que, felizmente, são-no hoje. Assim, por exemplo, até aproximadamente trinta anos atrás, a mulher separada era chamada de “prostituta” e tratada como tal, ou seja, marginalizada, ao passo que, hoje, o divórcio é perfeitamente banal e ninguém mais discrimina as descasadas. Até2004, adefloração, antes do matrimônio, da mulher recém-consorciada, justificava-lhe a anulação, pelo marido que a desposara na convicção da virgindade da sua noiva, ao passo que, hodiernamente, rara será a moça que se case ainda virgem.

Da época de Machado para a de Josué Montello e da deste para a presente, há um acréscimo, lento, é verdade, porém constante, de liberdade individual em matéria de costumes, de afetividade e de sexualidade.

Também há personagens lésbicas em “O primo Basílio”, de Eça de Queiróz.

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