Preconceito lingüístico I

“Preconceito lingüístico”: miséria, terrorismo e falácias

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                                                                       Arthur Virmond de Lacerda Neto   arthurlacerda@onda.com.br

                                                                                      2003

 

 

I-                   Considerações gerais.

II-                Exemplos da miséria.

III-              O terrorismo pedagógico.

IV-             O decálogo da falácia.

V-                As razões do êxito.

VI-     Uma interrogação

 

I- Considerações gerais

 

                        O opúsculo intitulado “Preconceito lingüístico” pretende invalidar o que reputa  oito mitos concernentes ao português no Brasil e proclama como forma pior de preconceito em termos de idioma, o conjunto de prescrições de que se constitui a gramática tradicional, que, segundo o seu autor, representa um instrumento ideológico de legitimação das classes dominantes no poder.

                        Cuida-se de mais uma mistificação ideológica, de intuito confessadamente político, em que o autor não trata do tema como cientista em busca da verdade, porém na condição de ativista que emprega o conhecimento para desautorizar as regras do idioma em sua forma culta, em  lugar deles enaltecendo-lhe o  uso vulgar.

                        Segundo o livro, inexiste erro de português, haja vista que todo falante da sua língua materna, por natureza, usa-a corretamente, na medida em que este uso é necessariamente inteligível.  O erro achar-se-ia na discrepância entre a utilização e as regras da gramática que, segundo o prof. Bagno, representam o prolongamento do colonialismo português e encarnam algo obsoleto, carecedor de imediatamente dobrar-se à fala  coloquial.

                          Ora, se a gramática inclinar-se à expressão vulgar, não haverá mais regra que as pessoas devam seguir para entenderem-se dentro de um critério homogêneo, desde que cada qual tornar-se-á livre para exprimir-se a seu modo e constituir a sua gramática pessoal. Tudo vale, ensina o livro. Logo, valem todas as simplificações, as perdas das preposições, a abolição dos plurais ( “as duas máquina está parada”,  “veio muitas pessoa”), a confusão dos tempos verbais, as gírias, o desleixo, a lei do menor esforço, a preguiça, os modismos, os estrangeirismos.

                        É lindíssimo pregar-se aos oprimidos que a gramática não presta porque os oprime e que, livrando-se dela, libertam-se de uma parte da sua opressão, tanto quanto é odioso persuadir-se aos desinstruídos de que a ignorância corresponde a um estado normal do ser humano e não a um mal por erradicar.

 

II – Exemplos da miséria

 

            No livro em análise abundam as falsas generalizações, os primarismos, as mistificações, as irracionalidades, mesmo certos absurdos flagrantes, de que passo a mencionar alguns, colhidos ao acaso, ilustrativos da  miséria intelectual  porque se distingue ele:

 

1)           Dedicado aos supostos mitos de que os brasileiros “não sabem português” e de que  em Portugal apenas fala-se bem o vernáculo, pretende o capítulo segundo persuadir o leitor de que a forma brasileira da língua portuguesa equivale em qualidade à sua análoga de além-mar, ou seja, de que ela é intrinsecamente tão boa quanto esta.

            Como argumentos em favor desta tese, o livro invoca, na página 31, a preeminência territorial e demográfica do Brasil face a Portugal, bem como a sua maior relevância político-econômica, em âmbito internacional.

            Ou seja, o português falado no Brasil seria comparável em qualidade ao lusitano por existir em um país maior, mais populoso, mais rico e mais poderoso do que Portugal. Aos olhos de “Preconceito lingüístico”, o critério decisivo repousa no da quantidade de povo, de riqueza, de poder e de extensão, elementos apenas muito secundariamente associados à qualidade de qualquer idioma, ao mesmo tempo em que, para a aferição da qualidade do nosso português, em nada ele considera aquilo que diretamente condiciona o desempenho lingüístico de qualquer povo: o seu grau de escolaridade, de instrução e de cultura, a presença do hábito da leitura e o zelo pelo idioma, fatores todos três de longe mais intensos em Portugal do que entre nós.

            Ora, se o desempenho idiomático dos brasileiros equivale ao dos portugueses, então a incultura e a cultura tornam-se sinônimas, uma multidão de indivíduos desinstruídos vale tanto quanto um culto; um povo leitor, estudado e zeloso do seu falar e do seu escrever rebaixa-se ao nível  de um que não lê, estuda pouco e em nada se esmera ao falar nem ao escrever.

São os méritos da incultura, graças aos quais o “Preconceito lingüístico” inverte valores e cria o preconceito contra a forma culta do idioma e desvaloriza quem a adota. Quando menos, fomenta um arrogante desprezo por ela e um sentido de parificação cultural entre realidades qualitativamente desiguais ao extremo, o que traduz a perda do sentido de realidade, a incapacidade de discernir o mérito do seu contrário e suscita um novo preconceito, contrário ao julgamento das coisas segundo a sua qualidade intrínseca. O bom e o mau, o medíocre e o elevado, o esmerado e o negligenciado passam a equivaler-se, o que implica a desvalorização extrema de qualquer esforço pessoal e social de aprimoramento, o que reputo profundamente degradante, socialmente funesto e pessoalmente mediocrizador.

A tese em apreço  revela já um traço permanente do livro: a sua completa indiferença pela instrução dos brasileiros.  Afinal, se saber menos é tão meritório quanto saber mais, mal não há em que quem sabe menos, continue assim.

 

2)         Entre o português luso e o nosso há em comum apenas a escrita formal (página 25), fora dela não nos entendendo os portugueses e não os entendendo nós a eles, falsidade que, corroborando a distinção falaciosa entre o “nosso” português e o “deles”, serve para legitimar todas as distorções que sofra a língua entre nós. Afinal, temos que proclamar a nossa independência lingüística, doutrina o livro, ao mesmo tempo em que as mudanças idiomáticas são fenômenos, lá diz ele, assim como a lepra e a sida (“aids”) também o são, cá digo eu, vale dizer, os fenômenos lingüísticos não são  positivos por inerência.

Assim como as enfermidades encarnam acontecimentos negativos, que a ação humana busca evitar ou eliminar, de igual modo representa um fenômeno negativo a deterioração do idioma a que há décadas se assiste no Brasil (para a qual o combate aos tais “preconceitos lingüísticos” presta um serviço impagável), deterioração que o livro lindamente enfarpela de evolução própria do português no Brasil.

                        Entre o português daqui e o e Portugal mais não há mais diferença  do que a de duas modalidades equivalentes no uso de um mesmo idioma, o que absolutamente não autonomiza a forma brasileira em língua própria nem a torna qualitativamente comparável à lusitana. Asserir em contrário é apenas um modo de justificarem-se todas as modificações idiomáticas, desde, claro, que provenham elas das “vítimas” dos  tais “preconceitos”.

 

3)         Lê-se na página 39: “Ora, não é a “língua” que tem armadilhas, mas sim a gramática normativa tradicional, que as inventa precisamente para  justificar sua existência e para nos convencer de que ela é indispensável” (itálico do original).

                        Corresponde a  gramática normativa tradicional a um conjunto de observações e de preceitos, e não a uma pessoa. É então indevidamente que o livro a  personaliza, conferindo-lhe a capacidade volitiva, exclusiva dos animais e dos seres humanos, e não dos conceitos teóricos.

                        Semelhante personalização faz sentido apenas se atribuída aos indivíduos em quem ela se manifesta, aos gramáticos e aos autores de livros e audio-visuais explicativos da gramática, que, segundo o “Preconceito lingüístico”, seriam diabólicos fautores de sutilezas vernaculares em verdade inexistentes, cuja falsa existência impingiriam aos incautos, para justificarem perante estes o seu papel de gramáticos e de explicadores gramaticais, submendo-os a uma dependência artificial,  graças à qual produzem livros que, claro,  rendem-lhes lucros.

                        Isto é levar a fantasia longe demais, ao ponto de perder-se todo o senso de realidade. É necessária uma temeridade intelectual perplexante para expor-se aos leitores com uma extravagância desta ordem, equivalente a afirmar-se que os médicos inventaram as moléstias para justificar a sua função curativa e convencer-nos de que necessitamos deles, o que é evidentemente  falso.

 

4)             Na página 109 o livro desautoriza a censura da norma culta que reputa errada a expressão “outra alternativa” pois em latim, alter significava “outro”. “Mas desde quando nós falamos latim no Brasil?” interroga-nos.

                        Desde nunca, obviamente, nem teria sido preciso que em algum momento tivessemo-lo falado para, com base no próprio português, perceber-se o acerto da censura gramatical.

                        Com efeito, uma alternativa corresponde a uma opção entre dois elementos, à escolha que se faz de um com a exclusão do outro. Se há alternativa, pode-se eleger A em lugar de B, ou o contrário disto.

                        Se alternativa  significa uma dupla de elementos (A ou B), “outra alternativa” supõe a  existência de outros dois elementos entre os quais se pode escolher (C ou D). Há, portanto, duas duplas de elementos e duas escolhas a fazer-se, uma em cada par.

                        Ora, quando alguém desavisado da gramática emprega a expressão em análise, não se  reporta a duas duplas de elementos (A e B, C e D) e a duas escolhas, e sim à própria opção, à B, em face de A. Ora, B em face de A, não representa uma outra alternativa e sim uma alternativa.

                        Haverá outra alternativa diante de C, que se possa eleger em lugar de A, se, antes, preteriu-se B: B representa a alternativa e C, a outra alternativa.

                        A norma culta aplicável ao caso procede e é mediante um sofisma, artifício freqüente no livro,  que  ele a menospreza.

      

                       5)                Na  página 126 encontra-se: “Em relação à língua escrita, seria pedagogicamente proveitoso substituir a noção de erro pela de tentativa de acerto” (itálicos do original).

                        Eis mais um caso de sofisma, em que o verossímil encobre o falso.

                        De fato, cumpre discernir entre tentativa de acerto e erro.

                        Tentativa de acerto é o ensaio, a experimentação, a prática do indivíduo que atua sob o ânimo de fazê-lo a preceito, que busca um resultado a ser confirmado ou negado mediante confronto com o ideal a que aspirou. Ao mesmo tempo em que ele almeja um resultado perfeito, há incerteza quanto à adequação do seu procedimento e à obtenção da resultância. São duvidosos os seus meios e os seus fins, aqueles na sua aptidão, estes na sua consecução, motivos porque cuida-se de uma experimentação de cuja falibilidade o seu autor acha-se cônscio.

                        Erro é o fracasso da atuação, o resultado incorreto ou diverso do almejado.

                        Tenta-se acertar quando delibera-se proceder a uma tentativa; erra-se quando a ação fracassa, quer tenha ela decorrido de uma tentativa, quer de um desempenho que se pretendia perfeito nos seus meios ou nos seus fins, ou em ambos. Qualquer tentativa pode resultar em um erro, não obstante nem todo erro provenha de uma tentativa.

                        Se alguém, ao grafar certa palavra, fê-lo sob a deliberação de submeter a sua redação a prova, pela consulta a um dicionário ou a quem a conheça, terá praticado uma tentativa de acerto. Se, no entanto, este mesmo indivíduo grafar a mesma palavra sem o propósito de confrontar a sua grafia com a forma padrão, e se aquela discrepar desta, então ele não terá fracassado na sua tentativa de acerto, porquanto não terá tentado acertar: ele terá errado pura e simplesmente.

                        Pretender substituir a noção de erro pela de tentativa de acerto é aceitável  somente nas ocasiões em que há experimentação para posterior verificação (como nos exercícios de aprendizagem dos idiomas), fora das quais tal substituição deixa de funcionar como instrumento de aprendizado e portanto como uma forma de aprender-se a grafia correta e de evitar-se a repetição do erro, para se converter em uma desculpa fácil ao cometimento deste, produto, por sua vez, da ignorância ou da incúria, por cujas erradicações o “Preconceito lingüístico”  revela uma indiferença total, indiferença que também evidencia quanto ao  que é decisivo e crucial na “tentativa de acerto”, a saber, o seu resultado: não basta que o indivíduo tente acertar, cumpre que ele  acerte e que o faça tão maximamente quanto possível. Louvar o erro embelezando-o com o título nobiliárquico que lhe confere o livro, ilude a questão fulcral e implícita: a de que é imperativo habilitar as pessoas a acertarem, e louvar o acerto, mediante a promoção perseverante e maciça da escolarização, da introdução do hábito da leitura e do prestigiamento do rigor  no uso do idioma. Quem erra, fá-lo porque não conseguiu acertar, porque não o soube fazer, e não porque assim se determinou.

            Ainda que o erro encarnasse uma tentativa de erro, segundo entende o “Preconceito lingüístico”, uma vez praticado o erro, esgotar-se-ia a tentativa, não fazendo sentido reproduzir-se uma tentativa gorada ao invés de corrigir-se o erro, mediante a capacitação do indivíduo a um resultado positivo na oportunidade subseqüente, o que alcançar-se-á mediante a instrução dos que erram e jamais mediante a consagração dos seus erros. 

            Contudo e lamentavelmente, dentre os vários argumentos do livro, não há nenhum em favor da elevação do nível de instrução das pessoas, única forma de habilitá-las a acertarem a cada tentativa.

 

6)         Na mesma página, à frase criticada no item precedente, segue-se esta: “Afinal, a língua escrita é uma tentativa de analisar a língua falada” (itálico do original).

            A língua escrita é uma tentativa de analisar a falada! Há portanto, duas línguas, a escrita e a falada, das quais a primeira consiste em examinar a segunda.

            Que asneira, que extravagância!!!

            Não, não há duas línguas, uma escrita e uma falada. Há duas formas como as dezenas de idiomas se manifestam: por escrito e oralmente, ou seja, aquilo que se tenciona exprimir, pode ser expresso por palavras pronunciadas ou lançadas em algum suporte material.

            Em segundo lugar, a modalidade escrita não é uma tentativa de analisar a falada. A análise da língua falada, ou melhor, da forma oral de expressão, corresponde a uma destinação ou a um emprego que se pode conferir ao idioma, dentre um sem número de outras. Pode-se, com efeito, utilizá-lo  para ensinar, para poetar, para prosear, para filosofar, para iludir etc, e para analisar-se o uso oral que dele se faz.

            Neste passo, o livro profere duas falsidades em uma só frase.

 

7)         Na página 127 encontram-se estes dizeres: “Quanto à língua falada, fica óbvio que o rótulo de erro é aplicado a toda e qualquer manifestação lingüística…que se diferencie das regras prescritas pela gramática normativa, que se apresenta como codificação da “língua culta”, embora na verdade seja a codificação de um padrão idealizado, que não coincide com a verdadeira variedade culta objetiva”.

            Assim, tudo quanto se capitula de erro equivale, na verdade, à “codificação de um padrão idealizado, que não coincide com a verdadeira   variedade culta objetiva”.

            Atente-se ao enunciado: “verdadeira variedade culta objetiva”.  Então porventura existe alguma variedade culta falsa ou subjetiva?!

            A “variedade culta” acha-se constituída nas gramáticas, de modo escrito, portanto objetivo, e verdadeiro, haja vista as gramáticas documentarem a norma culta como ela efetivamente existe e não ao contrário.

            Os dois adjetivos (verdadeira e objetiva) são inteiramente dispensáveis e propiciam um exemplo de algo mal pensado e pior redigido.

            Consoante  o “Preconceito lingüístico”, aquilo que se reputa erro encarna a “codificação de um padrão idealizado”. Assim, quando alguém profere “déi” (ao invés de “dez”), tal expressão codifica um padrão idealizado.

            Se se cuida de um padrão idealizado, é porque na sua concepção interveio a vontade humana de criar um ideal, a deliberação consciente de alguém ou de um grupo  de pessoas, de falar daquele modo.

            Ora, quem seria o criador deste padrão? Tal indagação o livro, cautelosamente, abstém-se de formular, pois a resposta a ela é esta: ninguém. Não há criador nenhum de padrão idealizado pois nada se idealizou, nada se concebeu no mundo das idéias.

            Ao contrário, foi por ausência de reflexão, por incultura, por negligência, por comodismo, por imitação, que aquela “variedade” surgiu e propagou-se, sem que os seus usuários tivessem noção nem intenção  de codificarem patavina e de idealizarem fosse o que fosse.

            Não posso atinar em como o “padrão idealizado” que equivale ao erro, seja “codificado” e comparável à codificação representada pela gramática. Esta sim é uma codificação, pois compreende um acervo escrito de observações, de distinções e de prescrições organizadas pela inteligência humana. Há codificação porque há método, organização e redação, precisamente o que falta nos erros, que se vão formando ao sabor da negliência e da ignorância de uns e da imitação dos demais.

            Para além disto, é contraditória a expressão “codificação de padrão idealizado”: se algo acha-se em estado ideal, ainda não se constituiu na realidade, ainda é pura concepção mental, vir a ser. Ora, um código já existe, já é, já se constituiu materialmente. Logo, é impossível uma “codificação de padrão idealizado”: ou trata-se de uma codificação e  não há idealização, ou há idealização e não se trata de uma codificação. Ambos simultaneamente é que não pode ser, a exemplo do quadrado redondo e do morto vivo.

            Diante disto, o mínimo que se pode concluir, é que “Preconceito  lingüístico” emprega pessimamente os vocábulos e concebe ainda mais pessimamente os conceitos com que argumenta.

 

8)         Na página 124 depara o leitor a afirmação de que “a língua materna…é adquirida pela criança desde o útero, é absorvida junto com o leite materno”.

            Atenção: o texto é mesmo assim: a língua é adquirida desde o útero e absorvida juntamente com o leite materno.

            Confesso que li e reli tal passagem, que de começo percebi como seria natural, mesmo inevitável que a percebesse, à maneira de metáfora.

            Ao considerá-la novamente, e com imensa perplexidade, averigüei não haver o “Preconceito lingüístico” empregado, neste trecho, nenhuma figura de linguagem e sim  haver falado em sentido próprio.

            Desta forma, na fase uterina de formação do embrião e do feto, esta criatura, que sequer falar sabe, já lá anda a aprender o idioma da sua genitora!  Recém-nascido, analfabeto ainda, ela já adquiriu, no caso dos brasileiros, a língua portuguesa! Isto é que é prodígio!!!

            Durante a sua infância, ao sugar o seio da mãe, juntamente com o alimento liqüido, a criança bebe o idioma!

            Não se trata de metáforas: ambas asserções seguem a em que o autor nega ao idioma o caráter de “saber secundário, obtido por meio de treinamento, prática e memorização”. Não se aprende, pois, o idioma por treinamento da pronúncia das palavras,  nem pela prática dos tempos verbais nas diferentes pessoas, nem pela memorização da acepção das palavras e dos ditames gramaticais. Ele aprende-se por via oral, como bebida que é, e por via umbelical, como o que não sei. E tanto assim é, que o parágrafo prossegue com a prova do enunciado: “Por isso qualquer criança entre os 3 e os 4 anos de idade (se não menos) já domina plenamente a gramática da sua língua”. Pudera! Bebeu-a desde recém-nascido e absorveu-a antes de nascer!

            É inacreditável, é escandaloso, é mesmo monstruoso que uma asneira desta gravidade se encontre lançada, palavra por palavra, em um livro de que já se venderam cinquënta mil exemplares! A que ponto chegamos!!!!

 

 

9)                    Na sua página 116, “Preconceito lingüístico” preconiza aos professores lançarem dúvidas na mente dos seus alunos quanto à validade da gramática. Por que os estudantes iriam disperdiçar tempo em aprender e aplicar regras que os próprios docentes reputam duvidosas e verberam como indesejáveis? Por que então aulas de português? Claro, nas aulas ensina-se  o que não se sabe e deve-se saber; se o saber gramatical  é preconceituoso, não se compreende que ele seja objeto de ensino, caso em que o melhor é pura e simplesmente não se ensinar gramática e, de conseqüência, não se ensinar nada em termos de Língua Portuguesa, pois não se haveria de, em lugar da gramática, inculcar as formas coloquiais de uso idiomático, ou seja, aquilo que os alunos já sabem por conhecimento próprio.

                        Se alguém suspeitar de que com isto abriu-se o caminho à anarquia e aos guetos lingüísticos, acertou em cheio: o professor Bagno confessa preferir a barbárie do cada um por si, ao regramento da norma culta.

            Semelhante predileção é de uma gravidade enorme e sem precedentes: ela despreza os padrões tradicionais de uso lingüístico, cuja constituição resultou da obra lenta de séculos e de gerações, graças aos quais,  havendo homogeneidade de formas de expressão, há possibilidade de pronta compreensão e, pois, de eficiente comunicação, utilidade precípua e razão de ser de todo idioma.

           A difundir-se tal preferência, cada qual  falará como quiser, sobretudo como puder, e os outros que entendam o que puderem e como puderem: o falante (ou escrevente) estará no exercício dos seus “direitos lingüísticos”, conceito encontradiço no opúsculo em foco. Regressaremos à Idade da Pedra, em que, se havia já dominantes, dominados, preconceituosos e suas vítimas, ao menos – que consolo!- não havia gramáticas!!      

 

 

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2 respostas para Preconceito lingüístico I

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