Vícios de comunicação. Educação idiomática.

            VÍCIOS DE COMUNICAÇÃO. EDUCAÇÃO IDIOMÁTICA.

Arthur Virmond de Lacerda Neto. 29.7.2018.

 

ADVÉRBIO DE MODO é a palavra que indica o modo, a maneira, o como algo se dá. Por exemplo: veio de modo rápido = veio rapidamente; encontrou de maneira fácil = encontrou facilmente; fala de modo errado = fala erradamente; fala de maneira correta = fala corretamente.

Dizer-se “veio rápido” é diferente de dizer-se “veio rapidamente”, pois em “veio rápido”, o que veio, foi o “rápido”, ao passo que em “veio rapidamente”, algo ou alguém veio, o que fez com rapidez. Note a diferença, total, entre usar-se corretamente os advérbios de modo e não os usar; neles, usa-se a desinência “mente”: rapidamente, urgentemente, facilmente.

Se tu usas os adjetivos como se fossem advérbios de modo (por exemplo: “rápido” em vez de “rapidamente”), então escreves mal, na forma e no fundo.

“-Todo mundo fala assim”: se muitos falam assim, muitos falam mal. Você prefere o errado ao certo ?
“-Mas dá para entender.”: se dá para entender assim, também dá para entender se usar o idioma de modo melhor.

A negligência dos advérbios de modo (….mente) é mais um sintoma do empobrecimento do idioma, no Brasil.

O idioma faz sentido; nele, há certo e errado; a teminação “mente” nos advérbios é relevante, desempenha papel na eficácia da comunicação. Se tu usas o “mente”, dizes uma coisa; se o negligencias, dizes outra.

 

MANIAS BURRAS.

Mania burra de “está?”.

“Obrigado, [es]tá ?”.

“Desculpe, [es]tá ?”.

“Custa cinco, [es]tá?”.

Em primeiro, está errado pronunciar-se “tá”: a palavra diz-se “está”. Em segundo, é inútil perguntar “está?”: está o quê?

“Obrigado, está?”. Está o quê?

“Desculpe, está?”. Está o quê?

Mania burra do pronome:

“Brasília, ela é quente”.

“As pessoas, elas são simpáticas”.

“O coletivo, ele é importante”.

Os pronomes ele, ela, eles, elas, substituem o nome, o sujeito. Assim:

“Brasília, ela é quente” = Brasília, Brasília é quente.

“AS pessoas, elas são simpáticas” = As pessoas, as pessoas são simpáticas.

“O coletivo, ele é importante” = O coletivo, o coletivo é importante.

Diga:

“Brasília é quente”; “As pessoas são simpáticas”, “O coletivo é importante”.

É óbvio que o pronome, aí, está a mais, é inteiramente desnecessário e o seu uso é burro.

Dizer-se que o idioma muda, como se toda mudança fosse bem-vinda; que nem sempre o seu uso coloquial é racional, como se as irracionalidades fizessem sentido; que a linguagem popular vale tanto quanto a culta, redundam em criar-se mentalidade de deseducação lingüística e em coonestarem-se cacoetes, vícios, erros, como os que apontei.

Em idioma, há certo e errado; a norma culta deve servir-nos de inspiração, modelo e regra. A pessoa torna-se zelosa com as palavras quando lhes percebe o valor de comunicação, quando atenta em que uma preposição correta, uma vírgula bem colocada, um verbo corretamente conjugado, são vantajosos para ela comunicar com clareza e precisão o que pretende.

“ATENTE-SE” É ERRO ESTÚPIDO.

“Atentar em” e jamais o estapafúrdio “atente-se”: “eu me atentei”, “ele se atentou”, “atentem-se ao dia da festa” são ignorâncias.

Atentar-se é reflexivo: o sujeito exerce a ação sobre si próprio, atenta em si. Dizer “atente-se no dia da prova” equivale a dizer: “atente a si próprio no dia da prova”, quando se quer dizer: “tenha atenção relativamente ao dia da prova”, ou seja, a atenção não se volta ao próprio sujeito e sim a algo fora dele. Por isto, é absurdo dizer-se “atente-se no que ocorreu”.

O correto é e só pode ser “atente em” algo externo ao sujeito: “Eu atentei em que havia algo errado” ; “ele atentou no problema”, “atentaremos no dia da festa”.

O idioma faz sentido; nele, há certo e errado. O errado é errado ainda que muitos o cometam (e muitos cometem erros, em país em que a instrução do idioma é fraquíssima).

 

O VALOR DE SABER BEM O IDIOMA.

“Ligue na central de atendimento” significa o cliente ir à central e nela telefonar.

Quer-se dizer “Ligue para a central”. A preposição errada altera o sentido da frase.

Outra: “Obrigado por comprar conosco”. Errado: comprar “conosco” significa o comprador comprar com o vendedor e com mais alguém, ou seja, há três compradores, e não o comprador comprar do vendedor e o vendedor vender-lhe.

É óbvio que o comprador compra do vendedor e o vendedor vende para o comprador, o que se exprime de forma que enuncia tal obviedade: “Obrigado por comprar de nós” ou “Obrigado por comprar da Casa XYZ”.

Dizer “conosco” em lugar de “de mim” altera radicalmente o sentido da frase. É infantilidade objetar-se que “dá para entender”: não, não dá para entender; dá para adivinhar apesar da confusão a que induz o que se mal disse.

A eficácia da comunicação decorre, também, do emprego correto do idioma, da sua forma culta, que é valiosa, importante e bonita.

Saber bem o idioma e bem usá-lo faz diferença. Sabê-lo mal e usá-lo erradamente custa equívocos e confusões.

Em país em que a maioria sabe mal, quando sabe, os erros grassam como epidemia. Em idioma, há, sim, certo e errado; é justificável que a forma culta seja considerada a correta e padrão, no sentido de modelar, que serve de modelo por usar e como critério por que se avalie a correção e a incorreção das “variantes”.

“VAI QUERER ?”. ATENTAR E NÃO “ATENTAR-SE”.

O estado do idioma no Brasil é de achatamento crescente, em que, nas últimas décadas, as pessoas foram se tornando cada vez mais vulgares na sua expressão, ao mesmo tempo em que deixaram de aprender os recursos do idioma e de usá-los.

Há 3 ou 4 anos, o brasileiro médio já não sabe diferenciar, no uso, os tempos presente e futuro: as pessoas dizem, por exemplo, no comércio: “Não vai ter”, para significarem “Não tem”; “Vai querer ?” para exprimirem “Quer ?”, ou seja, usam o futuro para expressar o presente.

Como fariam para exprimir o futuro ?

Não leva a nada o lero-lero conformista, populista e sociolingüísta de que o idioma muda, de que as alterações são inevitáveis, de que isto é português brasileiro etc. É discurso fatalista, redutor, empobrecedor e pobre.

O idioma muda: pode mudar para melhor ou para pior. Quando quem deveria saber os tempos verbais não os sabe, então, mudou para pior, o que não é evolução: é retrocesso que não se pode aceitar e que urge contrariar, pelo ensino, a sério, do idioma, e pela sua valorização.

Saber bem o seu idioma é vantajoso na comunicação: quem o sabe bem, comunica-se melhor.

O vulgo confunde o presente com o futuro; desusa o pronome “se” onde ele é obrigatório (casar-se, divorciar-se, apaixonar-se, aposentar-se, arrepender-se, assustar-se); mete-o onde ele não existe: é o diabo do “atentar-se”, como “atente-se ao dia correto”.

Atente-se, qual o quê ! Atente no dia, sem o raio do “se” !

PAGAR POR E NÃO PAGAR EM.

“Paguei X na calça”; “pagamos X no livro”: ERRADO.

Ninguém paga “no” livro, “na calça”: ninguém entra no livro e, dentro dele, paga; ninguém entra na calça e, dentro dela, paga.

Paguei pela calça; pagamos pelo livro.

O idioma faz sentido; as preposições têm a sua razão de ser, como instrumentos de clareza e de precisão: é importante usar as preposições corretas.

O uso popular muitas vezes não faz sentido e é irracional. O errado é errado ainda que muitos o usem.

Use o certo, orgulhosamente.

Mais, no tópico “Vícios de linguagem”, neste blogue (procure na coluna, à direita, embaixo.).

 

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