Doutor é quem tem doutorado. Mas…

DOUTOR É QUEM TEM DOUTORADO. MAS…

Doutor é quem tirou doutoramento, diz-se. De fato.
Mas o doutor (em sentido coloquial) não é expressão, por inerência, de soberba. Aliás, em 50 anos , jamais percebi que algum médico ou advogado o usasse ou pretendesse por soberba, o que não exclui que algum médico ou advogado estivesse nesta situação, que seria excepcional e não o usual (noticiou-se que um juiz, em 2005, processou um porteiro por causa disto e os doutores do STF deram ganho de causa ao porteiro).

O usual é que por costume, por imitação, chamam-se os médicos e os advogados assim, com naturalidade e sem soberba. A campanha que se vem movendo com o mote de que “doutor é quem tem doutorado” parte de quem enxerga no “doutor” arrogância e opressão, soberba e desigualdade, mais imaginárias do que reais.

Tal campanha porta o etos de que tal tratamento é odioso por exprimir desigualdade, justificado com o argumento, aliás correto, de que doutor é o portador do título.

Será que se exprime alguma invejazinha, algum ressentimentozinho, algum despeitozinho, alguma instauração de animosidade entre o pessoal acadêmico ou entre a classe dos médicos e dos advogados e a restante população ? Ou inspira-se apenas no amor da igualdade? Ou um ou outro, conforme o ativista ? Ou nada disto ?

“Você” não cai bem em todas as situações. Há situações de formalidade, de distância, de desigualdade de estatuto, de idade, em que cai melhor o senhor ou senhora.

Nos tempos que correm, muitos moços desusam ou usam menos o senhor e senhora para os mais velhos, sem ânimo desrespeitoso.

A rigor, pode-se usar, sem ânimo desrespeitoso, o você, mas há situações em que respeitoso é o tratamento formal e o “você” pode ser ou parecer deseducado.

Por outro lado, com doutor ou sem ele, julgo insuportável a soberba, a arrogância, a altanaria, seja lá de quem for, doutor em sentido coloquial ou com doutorado. E, aliás, deter o título favorece a soberba e as “carteiradas”. Ser doutor (com doutorado) pode exalçar (ou degradar?) alguns a falarem do que ignoram porque conhecem a partícula de conhecimento a que corresponde o seu doutoramento. Ou, acaso, digo inverdade ?

“Doutor” não é pronome de tratamento, mas título acadêmico; fora do meio acadêmico, ele não faz sentido. Faz sentido você e senhor ou senhora. Fora do meio acadêmico, faz sentido o doutor em sentido coloquial.

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