A “defesa” da família.

A “DEFESA” DA FAMÍLIA.
Sempre me deu o que pensar a insistência, multi-secular, da igreja cristã, na família, não somente no discurso (atual) da sua “defesa”, como na sua organização ao modo teológico (entenda-se: cristão, vale dizer, bíblico. Atenção que a Bíblia contém várias modalidades de casamento, de que a dogmática elegeu um dentre vários. Por exemplo: casamento poligâmico; outro: o do estuprador com a sua vítima.).

No século 16, ao Lutero proclamar o protestantismo, introduziu o divórcio, que inda hoje a igreja católica rejeita (por extensão, recusa a comunhão aos divorciados.).

Em 1977, ao se aprovar o divórcio no Brasil, houve alarido dos “conservadores”, entenda-se, dos católicos, cujo pânico moral consistia no perigo de fim da sociedade brasileira, incentivo à leviandade, desordem social. Nada disto se passou: as pessoas continuam a casar-se e, algumas, a divorciar-se.

Presentemente, há pânico moral fomentada pelos religiosos, à volta do casamento homossexual e, recentemente, do que eles apelidaram de ideologia de gênero. Sincera ou hipocritamente, aspiram a manter o modelo “tradicional” de família (cis-hetero-normativa-monogâmica-procriadora), como se o casamento homossexual representasse-lhe perigo. Não representa: tal é a experiência deste e de outros países, apesar da qual os religiosos insistem na exaltação do modelo tradicional-cristão de casamento.

A família importa, como lugar de aconchego, proteção, empatia, simpatia, colaboração, educação. Nenhum divorcista, nenhum pró-casamento homossexual, nenhum adepto da teoria “esquisita” colima desmanchar as famílias nem aboli-las, na legislação ou nos costumes. Bem entendido que há famílias e famílias: há-as autoritárias e libertárias, harmoniosas e conflituosas, coesas e as que não o são; patriarcais e feministas. Em suma: há matizes na forma de os seus integrantes relacionarem-se, desde as que constituem motivos de felicidade até as em que a felicidade encontra-se em livrar-se delas.

Provavelmente, minoria dos cabeças religiosos realmente crê na sua pregação; a maioria dela usa o discurso do pânico para as igrejas terem algum discurso, para poderem sustentar uma causa, que diz emocionalmente ao seu público, mormente composto pela gente sub-instruída, até ignara e, de conseqüência, sugestionável.

Por que as igrejas promovem a família tradicional e combatem o casamento homossexual ? Porque lhes interessa incutir medo nas suas hostes e posturarem de defensores dos seus fiéis diante de ameça: cria-se o perigo, de que se oferece a defesa. Observassem a realidade dos países ocidentais, em que o casamento homo existe há anos e tranqüilizar-se-iam; porém é exatamente isto que lhes desinteressa e que evitam: observar as realidades.

Recentemente, o motivo de pânico moral passou a incidir na teoria “esquisita” (vulgo teoria “queer”), consoante a qual o papel de gênero é constructo social. É-o, pelo menos em proporção perceptível: é a lição da história e da sociologia. Tomai tento, novamente: é a lição da observação humana que assim nos esclarece. Ora, desinteressa às igrejas a observação sociológica, ao menos às mais toscas: interessa-lhes proclamar as verdades bíblicas e promover o medo de que as meninas tornem-se em meninos e vice-versa.

Divórcio nos anos de 1970; casamento homossexual até recentemente (e inda agora); “ideologia” de gênero, presentemente: são discursos com que a maioria das igrejas proclama perigos e ameaças, incute o medo, anunciam-se como as defensoras da família “tradicional”, da moral e dos bons costumes.

Parte da pregação é, creio, sincera; parte maior, creio mais, é estratagema de mobilização do seu público: é forma de ter o que lhe dizer, de ter discursos relevantes que lhe comunicar, de lhe oferecer proteção perante as “ameaças” da modernidade. Eis também porque o discurso religioso do Brasil contemporâneo, nestes capítulos, é alarmista, artificial e tolo, para mais de arcaizante. A mim, não me engana.

Pregassem as igrejas altruísmo, empatia, solidariedade; invocassem o sermão da montanha, em vez de se arrogarem a condição de juízes da liberdade e da intimidade alheia, dos costumes alheios. Incutam os valores da harmonia familiar, para a compreensão entre esposos, para a paternidade responsável; colaborem para a erradicação dos desvalores do machismo, da homofobia, do sexismo: tais pregações merecem-me aplauso, malgrado a sua matriz bíblica e teológica que recuso e sempre recusei. No entanto, malgrado a fundamentação sobrenatural deste tipo de pregação, ele contém utilidade humana e é por isto (por isto apenas) que o reputo meritório.

As igrejas podem influenciar para o bem e para o mal, como formadoras de etos, que sempre foram. Ninguém nem povo nenhum necessita de igrejas arcaizantes e exploradoras, financeiramente, da credulidade da massa desinstruída, como é o caso da maioria das que vicejam no Brasil e que compõem a retrógrada bancada evangélica.

(São ponderações sujeitas a incremento com dados de pormenor, que reservo para ocasião posterior.).

 

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