Bolsonaro e os valores humanistas.

AS MANIFESTAÇÕES “ELE NÃO”. POSITIVISTAS.

Em 29.9.2018, em 62 cidades brasileiras e em várias do exterior, milhares de mulheres e de homens, manifestarem-se, nas ruas, em oposição à candidatura de Jair Bolsonaro, à presidência da república. A elas associei-me, em Curitiba; foi-lhes mote “Ele não”.

Foi importante as mulheres e os homens – em suma, as pessoas, manifestarem-se e afirmarem o que pretendem e o que não pretendem, e quem não pretendem, como seu governante.

Foi expressão do grau de consciência política das pessoas; mais em relação a valores e comportamentos do que em relação à política: o etos de parte dos brasileiros afirmou-se em oposição à faceta desumana do candidato repudiado e, por extensão, do etos de que muitos comungam na sociedade brasileira.Criou-se consciência coletiva ou ela já existia, sem se comunciar coletivamente, o que ontem se verificou. Vejo na parcela manifestante a adesão a valores que reputo positivos; vejo no discurso “com deus acima de tudo e pela família”, a manutenção de mentalidade teológica e do patriarcado, com os seus pressupostos e corolários: a) a identificação entre moralidade, valores, princípios de comportamento à teologia cristã, ao transcendente; b) a aceitação do sobrenatural como fonte de prescrições, proibições e de valorações; c) a desigualdade entre homem e mulher, com a subalternização desta; d) de conseqüência, o machismo típico de certo enfoque cristão; e) o fortalecimento das igrejas evangélicas; f) a hostilidade à homossexualidade e, portanto, homofobia.

Na homenagem de Bolsonaro ao coronel Ustra e na sua declaração de que o erro do regime militar foi apenas haver torturado, em vez de matar, enxergo: g) a valorização da violência do Estado na forma de tortura; h) o apoio ao assassínio em nome dos valores do homicida; i) a negação mais bárbara da convivência democrática de antagonistas políticos.

Opor-se à corrupção que se entranhou nos últimos vários anos, na vida política, é correto e bem-vindo, porém não justifica, de forma nenhuma, os males de que o discurso de B. é vetor.

Há que haver educação cívica, formação de valores: a) honestidade; b) espírito público; c) respeito para com mulheres e homossexuais e não só; d) recusa do sexismo, do machismo, da homofobia, da misoginia; e) secularização do etos e do patos (mentalidades e comportamentos). Tudo isto é-me óbvio; preocupa-me que não o seja para parcela significativa dos brasileiros ou, ao menos, não ao ponto de lhes determinar o sentido de voto. Conforta-me que, para outra parcela, é importante ao ponto de ela haver afirmado, de público, o seu pensamento e o seu sentido de voto.

Quanto à honestidade em geral e na vida pública, e ao espírito público, houve-os em prolongados períodos da vida nacional, notadamente no segundo império e nas primeiras décadas da república.

Os positivistas, discípulos de Comte, de presença marcante nos fins do império e nas primeiras décadas da república, sobremaneira encareciam-nas, como também as liberdades políticas e civis, de pensamento, de expressão, de manifestação, de participação cívica. Muitos deles eram militares, do exército e da marinha (a exemplo de Benjamin Constant, Tasso Fragoso, Peri Bevilacqua, Henrique de Melo Batista, Américo de Viveiros, Luis Hildebrando Horta Barbosa, Rondon, Alfredo de Morais Filho, Henrique Batista da Silva Oliveira, Ruyter Demaria Boiteux), porém militares não-militaristas (ao contrário: pacifistas) e libertários. Creio que jamais sufragariam o militar Bolsonaro, assim como eu, positivista, lhe repudio os valores e os repudio por ser positivista.

Bolsonaro se acha nos antípodas dos valores humanistas que é importante afirmar e propagar; até é urgente fazê-lo, no meio brasileiro, em que a sua pregação nega-os e, com a sua negação, deseduca incontáveis dos seus compatriotas.

Precisamos de mais Voltaire, contra a mentalidade teológica;
de mais Augusto Comte, Bertrando Russell e Frederico Nietzsche, pelo espírito positivo;
de João Stuart Mill, pela liberdade;
de Voltaire e de João Locke, pela tolerância;
de Simone de Beauvoir, pelas mulheres;
de história greco-romana, de sociologia, de biologia, pelos homossexuais.

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