Nudez na arte.

José e Jesus. Rick Herold.Expus esta gravura na minha linha do tempo, do Facebook, e pedi que as pessoas dissessem como a interpretavam.

Ela é da autoria de Rick Herold, que a intitulou “São José e seu filho”, em que o filho é (presumivelmente, na lenda cristã) Jesus. O menino não se parece, não de todo, com criança; até parece anão (como um ou dois comentadores observaram.). Talvez o seu autor haja, deliberadamente, afeado a criança, para evitar de incidir, nela, o olhar erótico; por outro lado, o pai é vistoso e atraente (para quem a quem atraem corpos que tais.).

Ambas figuras têm halo, elemento característico da iconografia cristã, o que caracteriza a gravura como religiosa. O halo do infante é cruciforme, ou seja, tem forma de cruz, o que corrobora a natureza cristã da gravura.

José, como judeu, é fanado; não assim o infante, embora, na lenda bíblica, Jesus haja sido circuncisado.

José é trigueiro; o infante é alvo, no que julgo haver erronia cromática, pois os judeus do tempo eram, na cor, como José e não brancos, ao modo europeu e como o artista representou a criança.

Nas costelas do varão, uma observadora identificou ideograma chinês, pormenor instigante: que significa ele ?

O aspecto que julgo mais interessante é o da nudez. Estão ambos pelados, em postura de nudez natural, sem malícia, sem excitação sexual (o pênis de José acha-se flácido), com naturalidade. Tal gravura não comunga da misofalia (censura do pênis), porém expõe os dois falos, como partes do corpo indiferentes, ou seja, sem os velar, reprovadoramente, como indecorosos.

No etos cristão, o pinto é inerentemente obsceno e é imperioso ocultá-lo (salvo nas seitas adamitas, correntes [heréticas] de nudismo cristão).

Nos comentários, dezenas de pessoas viram a gravura com inocência e viram, nela, inocência, dupla e manifesta evidência da dissociação entre nudez e sexo, e de associação entre nudez e naturalidade. Ninguém a increpou de pedofilia; duas ou três pessoas escandalizaram-se; abundantes reconheceram pai e filho, nas personagens.

O público que se me associou, no Facebook, é majoritariamente jovem e (presumo) laico, ao invés de religioso. As reações teriam sido certamente diversas e provavelmente hostis, se à gente religiosa se lhe deparasse a imagem: vê-la-iam com escândalo e repúdio.

A nudez nas artes é presente, há décadas, na Europa e em outros países; é ausente ou escassamente presente nos países católicos. Eis mais dois tabus por desfazer: o da nudez natural, o da nudez nas artes.

Saúdo quantos, na gravura, enxerguem naturalidade sem tabu, nudez sem malícia.

 

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