W. Naphy.Cristianismo e homossexualidade.

                                              W. Naphy. Cristianismo e homossexualidade.

 

Arthur Virmond de Lacerda Neto.

19.IX.2016.

Uma das mais interessantes história da homossexualidade é “Born to be gay. História da homossexualidade”, de Willian Naphy, infelizmente ainda inédito no Brasil, porém já pubicado em Portugal (edições 70, Lisboa, 2006), com primorosa tradução de Jaime Bueno). Dado o ineditismo da obra entre nós e o interesse das suas conclusões, reproduzo-as na sua totalidade:

            O que este livro demonstra é que em toda a história e em todo o mundo a homossexualidade (a atracção e os actos sexuais entre pessoas do mesmo sexo) tem sido uma componente da vida humana. Nesse sentido, não pode ser considerada antinatural ou anormal. Não há qualquer dúvida de que a homossexualidade é, e sempre foi, menos comum do que a heterossexualidade. No entanto, a homossexualidade é claramente uma característica muito real da espécie humana no seu todo. A existência de pessoas homossexuais é, por outras palavras, uma componente natural da humanidade –é uma característica normal da condição humana. A maioria das sociedades  ao longo da história tem aceite este facto com diferentes graus de tolerância – mas também com uma desaprovação igualmente variada. A maior parte das culturas encontrou uma maneira de construir a interacção entre pessoas do mesmo sexo de um modo que permitisse alguma margem para a actividade sexual e a verdadeira ligação afectiva. Isso ocorreu normalmente no contexto de uma expectativa de que os indivíduos, independentemente dos seus “gostos” e “preferências”, continuariam a participar na actividade procriadora da sociedade em geral – de que teriam filhos. No entanto, cumprida essa obrigação, a grande maioria dessas sociedades ao longo da história mostrava-se pouco interessada nas outras actividades sexuais dos indivíduos. Com efeito, algumas sociedades incluíram a atracção e os actos sexuais nos processos pelos quais um indivíduo passava a adulto. Nessas culturas, os actos homossexuais não eram apenas tolerados; eram encorajados ou mesmo esperados e exigidos.

            Onde deparamos com uma diferença acentuada, historicamente, nesta reacção humana universal à homossexualidade é nas três grandes religiões monoteístas: judaísmo, cristianismo, islamismo. Como já vimos, porém, a reacção islâmica tem sido menos inflexível e mais complacente pra com a atracção e os actos homossexuais, exigindo no entanto que o requisito de procriar seja cumprido. Esta atitude resulta sobretudo da grande preocupação do islamismo com a segregação dos sexos – na realidade, o compromisso implica que alguma actividades homossexuais sejam ignoradas para permitir a reclusão sexual das mulheres. O judaísmo e o cristianismo, por outro lado, adoptaram uma atitude muito menos conciliadora para com a homossexualidade. A realidade, contudo, é que durante quase dois milénios o judaísmo não esteve em condições de regulamentar a vida de indivíduos e, nessas circunstâncias, coube em grande parte ao cristianismo regulamentar a sexualidade no “mundo judaico-cristão”. Contudo, o que é importante salientar na avaliação da reacção cristã à homossexualidade é que o cristianismo sempre teve uma atitude muito negativa para com o sexo em geral. Por causa da dicotomia cristã entre o espírito e a carne, além do desejo explícito de “mortificar” a carne, a resposta cristã às actividades sexuais não procriadoras tem sido (e continua a ser) mais severa, historicamente, do que a de outras religiões no mundo. Uma vez que o cristianismo defende que as relações sexuais devem ser apenas para a procriação e não para o prazer e que o único contexto aceitável para o sexo é o de uma relação monógama para toda a vida, a sua reacção a outras formas de expressão sexual (homossexual e heterossexual) tem de ser mais drástica.

            Este “extremismo” cristão deve ser colocado num contexto histórico e global mais vasto. A maioria das outras culturas humanas não tem valorizado a procriação com exclusão do prazer. Outras sociedades deram mais importância à procriação do que ao prazer mas, de um modo geral, sustentaram uma estrutura social em que a procriação era “realizada” e o prazer “desfrutado”. O sexo, histórica e universalmente, tem tido um fim duplo – fazer aumentar a raça (procriação) e proporcionar satisfação emocional e física (prazer). O cristianismo rejeitou este último a favor do primeiro. Com o tempo esta atitude negativa para com o prazer sexual foi adoptada, assimilada e “naturalizada” pela maioria das culturas não ocidentais que, implícita ou explicitamente, associaram as normas sexuais cristãs (sexo só no casamento para fins de procriação) ao “êxito” sociopolítico e econômico do Ocidente. Assim, a adopção em todo o mundo dos costumes sexuais “ocidentais e cristãos” é apenas um exemplo extremo da propagação imperialista da cultura e valores ocidentais em geral. Ao adoptar esses costumes, as culturas que durante toda a história construíram o sexo e a sexualidade num contexto mais amplo de procriação e prazer, com diferentes graus de aceitação de expressões menos comuns da atracção sexual (a homossexualidade), acabaram por consentir a ocidentalização das suas culturas. Ironicamente, esta atitude tem sido parte integrante do programa político de movimentos pós-coloniais que alegam estar a “proteger” – ou a expurgar – as suas sociedades de influências ocidentais.

            Quando olhamos para o vasto leque de abordagens históricas e construções socioculturais do sexo e da sexualidade em geral e da homossexualidade em particular, ficamos impressionados com a grande variedade de “métodos” adoptados para acomodar os actos e as preferências sexuais menos comuns na comunidade mais vasta. Percebemos também a esmagadora “uniformidade “ do resultado final – as atracções e actos homossexuais são tolerados, aceites e até, por vezes, enaltecidos. A maioria das culturas, em toda a história, concedeu um “espaço” à homossexualidade para que ela pudesse existir em público, enfrentando pouca ou nenhuma intolerância. A prática de actos homossexuais podia, nessas sociedades, atrair a indiferença ou a irrisão e, quando realizada com exclusão da procriação, enfrentar a reprovação. A realidade, porém, é que a vasta maioria das culturas reconheceu que a atracção homossexual é apenas uma faceta da condição humana. O cristianismo, por outro lado, optou por construir o sexo, os actos sexuais e a sexualidade de uma maneira totalmente contrária ao padrão adoptado por quase todas as culturas humanas durante toda a história registada. Por outras palavras, no contexto da história e cultura humanas, é a resposta judaico-cristã à homossexualidade que se afigura anormal  e antinatural.

 

 

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