O casamento homo existiu.

                                   O casamento homossexual existiu

Arthur Virmond de Lacerda Neto

26.II.2008

Vários países, cidades isoladas e estados de países federativos (como as cidades de Buenos Aires e do México; a Espanha e o Uruguai: os estados de Nova Jérsei e do Oregon) adotaram, oficialmente, o casamento guei, ou seja, admitem a união marital entre pessoas do mesmo sexo, em situação de igualdade face ao casamento heterossexual. Outros países, cidades e estados reconhecem a convivência homossexual, sem lhe atribuir a condição matrimonial.

Ao longo da história, contudo, houve casamentos gueis, de que Marcial e Juvenal, na Antigüidade Romana,  citam diversos, celebrados com a presença das famílias dos envolvidos, dotes e contratos, na aristocracia como entre a plebe.

Em 342, o Código de Teodósio, imperador de Roma, proibiu casamentos entre homens, evidência de que eles existiam e, ao que parece, prosseguiram existindo. No seu cerimonial, invocavam-se vários pares de santos conhecidos ou reputados como casais cristãos do mesmo sexo, a exemplo de Sérgio e Baco, ambos soldados romanos do final do terceiro século, que, unidos por estreita amizade, terão coabitado. Terminaram executados por recusarem-se a abjurar da sua fé cristã.

O imperador bizantino Basílio I (867-886), antes da sua entronização,  participou de cerimônias desta natureza duas vezes, como nubente: na primeira, uniu-se a Nicolau; na segunda, a João.  Uma gravura medieval mostra-o, na sua boda com João, diante de um padre cristão e do evangelho aberto, em uma igreja.

No século XII, multiplicam-se as versões escritas dos rituais dos matrimônios homossexuais, vedados aos monges. Havia velas acesas, aposição das mãos sobre os Evangelhos, união das mãos direitas dos nubentes, cingimento das mãos ou das cabeças deles com a estola usada nas cerimônias heterossexuais, preces, comunhão, beijo e, por vezes, cirandas à volta do altar.

Em 1578, Montaigne testemunhou, na igreja de S. João da Porta Latina, uma cerimônia de união de portugueses: empregaram os textos nupciais e comungaram, após o que, cearam em comum e deitaram-se juntos. A cena foi testemunhada também pelo embaixador de Veneza.

Segundo Montaigne, especialistas romanos afirmavam que, desde que o sexo entre homem e mulher somente pelo casamento se legitima, parecera-lhes justo autorizarem-no entre homens, por igual motivo. Segundo Colin Spencer (Homossexualidade. Uma história; Record, 1999), ao longo dos séculos, realizaram-se milhares destas cerimônias.

Em Florença, condenou-se uma centena de homens cujas relações com outros eram reputadas como matrimoniais.

Eis o ritual empregado na Macedônia, no século XI:

Ordem para unir dois homens

            Colocando-os em frente ao altar, enquanto o diácono pronuncia estas preces:

            Em paz oramos ao Senhor pela paz celestial, pela paz de todos, para que os uma no amor e na vida, oremos ao Senhor, por estes servos de Deus Fulano e Cicrano, e pela sua união em Cristo, oramos ao Senhor.

            Para que o Senhor nosso Deus os una em perfeito amor e vidas inseparáveis oramos ao Senhor.

            Para que lhes seja dada a discrição e o amor sincero oramos ao Senhor.

            Pela dádiva presente do precioso corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo,para  que eles a recebam sem pecado e preservem sua união sem inveja, oramos ao Senhor.

            Para que lhes seja dado todo o necessário para a sua salvação, oramos ao Senhor.

            Para que sejam preservados do sofrimento, do perigo e da necessidade, proteja-os, salve-os, ó Senhor, sagrado e puro.

 

 

Fontes: Tríbades galantes, de Amílcar Torrão Filho; edições GLS, 2000.

Homossexualidade. Uma história, de Colin Spencer; Record, 1999.

           

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