O curitiboca

O curitibóca

28.III.2004

Arthur Virmond de Lacerda Neto* arthurlacerda@onda.com.br

* Sou curitibano da gema, descendo dos fundadores de Curitiba, onde nasci e criei-me, o que me confere toda a autoridade moral para dizer, bem ou mal, dos meus conterrâneos. Falo de cadeira. Ao caracterizar o curitibóca, coligi observações próprias e alheias, de curitibanos e de forâneos; o seu julgamento e as explicações psicológicas são-me originais.

I-Definição

II- Caracterização

III- Explicação

IV- Julgamento

I- Definição Curitibóca é o apelativo de uma espécie particular de curitibano, famigerada na cidade de Curitiba e fora dela, pelo seu temperamento anti-social.

 

Segundo constou-me, surgiu a palavra em Curitiba há cerca de quarenta anos e talvez resulte da associação de “curitibano” com “bobóca”; seja-lhe esta a origem, seja qualquer outra, a sua conotação é merecidamente pejorativa: ela designa um tipo humano assinalado pelos seus individualismo e egoísmo e pelas suas introversão e frieza, em suma, pelo apoucamento da sua sociabilidade.

Cuida-se de uma modalidade humana das piores que se pode encontrar, conclusão que facilmente permite um seu cotejo com outros temperamentos, encontradiços alhures, no Brasil e no mundo.

O curitibóca é habitualmente ensimesmado; possui sentimentos altruístas em grau mínimo e raramente os demonstra, não se solidariza com o seu semelhante, pouco se extroverte, fracamente cultiva amizades, não é alegre nem espontâneo no trato com o próximo, mingua-lhe a simpatia.

Nos seus relacionamentos, ele padece de permanente escassez em intensidade e de pobreza em manifestações: o seu viver com o próximo é superficial e distante, caracteres que lhe custa um largo tempo substituir por alguma aproximação.

Ao cumprimentar, ele reduz-se ao aperto de mão, formal e frio, destituído de qualquer cordialidade, ou seja de qualquer conotação de simpatia. Muitas vezes, sequer a isto chega e saúda com um simples nuto, como se lhe custasse um esforço instransponível exibir, minimamente que fosse, um sorriso ou simpatia. Na verdade, ele não sorri porque, de fato, na sua introversão e na sua pobreza afetiva, a cordialidade encarna um atributo que lhe é estranho. Ele passa pelo seu conhecido na rua, fita-o e o ignora, ou seja, não o cumprimenta; se se cruzam dois curitibócas, cada qual aguarda a iniciativa do outro, e nenhum a toma.

Sabedor da moléstia de alguém, pouco se lhe dá o estado do paciente, junto a quem não manifestará interesse, a menos de tratar-se de relacionamento antigo de anos e mesmo neste caso, possivelmente a sua atitude será idêntica, que ele justificará alegando haver tencionado telefonar ao enfermo ou visitá-lo, porém “acabou passando”.

Somos também o que priorizamos e o que julgamos secundário: para o curitibóca, o seu semelhante é secundário. Ele é reservado face aos estranhos, com quem abstém-se de iniciar qualquer conversação, por mais que as circunstâncias favoreçam-na, como achar-se em uma fila demorada, aguardar atendimento em um consultório, vizinhar no lugar que ocupa em um ônibus. Se entre ele e o estranho o diálogo porventura estabelecer-se, versará sobre generalidades banais, preferentemente o tempo meteorológico, tema obrigatório quando o curitibóca deseja inaugurar a conversação com o estranho. No entanto, ele evitará cuidadosamente qualquer comentário mais pessoal, a cujo surgimento, da parte do interlocutor, reagirá com o silêncio ou tergiversando, o que se verifica mesmo entre conhecidos, amigos ou em família.

Dois curitibócas que freqüentem por meses a fio o mesmo estabelecimento desportivo, recreativo, cultural ou similar, dirijir-se-ão a palavra mutuamente apenas caso inevitável ou mercê de alguma casualidade. Após este contato, preferirão ignorarem-se ou limitar-se-ão, em regra, a um simples cumprimento. Dependerá de uma boa vontade especial desenvolverem, a partir disto, um relacionamento regular. Por isto, quando, em Curitiba, um estranho fala a alguém, toda a probabilidade atua no sentido de que o autor da iniciativa seja não-curitibóca ou, mais provavelmente, forâneo.

Ele resiste a admitir no seu círculo de amizades alguém novo, o que lhe reduz sensivelmente o número de relacionamentos, motivo porque forma amigos com acentuada dificuldade e freqüentemente não os forma, o que resulta na solidão de muitos curitibócas; ele raramente constitui amizades com não curitibanos, motivo porque estes relacionam-se entre si, porém não com os curitibócas, o que gera duas espécies de círculos, imiscíveis, de relacionamento: os dos curitibócas e os das pessoas de outras origens, realidade particularmente observável no ambiente estudantil e não só.

Onde se acha um curitibóca falam os outros, riem-se os outros, divertem-se os outros: ele conserva-se recolhido ao si próprio, antes ouvinte que interveniente. Enquanto nas demais modalidades humanas há extroversão, no curitibóca há ensimesmamento; enquanto o não curitibóca abre-se ao seu semelhante, ele reserva-se.

O curitibóca gesticula acanhadamente, o que permite discerní-lo de quem não o é: enquanto os demais desdobram-se em gestos, ele escassamente movimenta o seu corpo. Um observador atento distinguirá os não curitibócas dos curitibócas pela diferença de expressividade física entre ambos. Ele toca parcamente o seu semelhante como expressão de afetividade, mesmo os seus amigos ou aqueles que lhe inspiraram alguma simpatia: ele não aprendeu a exprimir as suas afeições, mesmo porque elas são-lhe deficientes, e porque adota o preconceito de que tocar denuncia inclinações homossexuais, notadamente entre homens, ainda que o gesto se revista de uma absoluta inocência, qualidade que, neste caso, acha-se acima da perspicácia do curitibóca.

O curitibóca da geração supra 40 é homofóbico e confunde, toscamente, a atração sexual com a expressão dos afetos, o que, por sua vez, é perfeitamente peculiar a quem, sofrendo de mediocridade afetiva, não lhes compreende a externização. Na estupidez de tal mentalidade revela-se o primarismo do entendimento do curitibóca, a sua insensibilidade pelo próximo e a sua ignorância da natureza humana.

Escassamente afetivo e, por isto, incapaz de compreender a afetividade alheia, ele permite-se lançar suspeitas sobre o próximo, que propala como tema predileto de mexericos. Por isto ele inibe-se de abraçar os seus amigos, ainda mais os estranhos e amiúde considera que “homem não abraça homem”, aforisma em que a simpatia, a ternura, a bondade, o carinho, a solidariedade, a fraternidade, se enfraquecem ou ocultam-se às custas de supor-se a carnalidade onde ela não intervém, preconceito cuja nocividade traduz-se em negar-se o que os seres humanos apresentam de mais espontâneo e de mais belo, a saber, os sentimentos de uns pelos outros.

O curitibóca é reduzidamente capaz de praticar gestos de desprendimento, raramente os pratica e freqüentemente sequer os concebe; quando lhos propiciam, suspeita de que envolvam segundas intenções, ainda que singelos (como a dona de casa oferecer à vizinha uma parte do bolo que cozeu ou alguém presentear fora das datas natalícia ou natalina), máxime se espontâneos e se entre os envolvidos não houver relacionamento antigo. Quando menos, a atitude provoca-lhe estranheza e eventualmente prejudicará as relações com o benfeitor, porquanto, suspeitoso, o curitibóca possivelmente afastar-se-á dele por defesa contra intuitos que fantasiará, ou, na hipótese melhor, adotará, de então por diante, uma desconfiança que provocar-lhe-á as conjecturas mais variadas. Ele interrogar-se-á: “Por que o Fulano teve-me esta atitude? O que ele quer?”. Não concebe o curitibóca a generosidade pura e simples, gratuita.

O curitibóca desconhece a solidariedade e a fraternidade, sentimentos que pressupõe o altruísmo e a bondade: egocêntrico, ele importa-se predominante ou exclusivamente consigo próprio. Ele não se sabe preocupar com o seu semelhante, acudí-lo, oferecer-se, dar e dar-se. Sabedor do infortúnio alheio, ele não se solidariza, não consola, não demonstra apoio, carinho nem amizade: ele exercita a sua indiferença. Afinal, os problemas dos seus semelhantes são da conta deles.

O curitibóca personifica uma criatura limitadíssima em termos de desprendimento, que limita aos seus familiares e a alguns amigos; para além disto, desprendem-se (aliás exemplarmente) os portugueses e outros, não o curitibóca, com quem, portanto, não se pode contar.

O curitibóca é taciturno: raramente o seu semblante demonstra contentamento por encontrar um conhecido ou amigo, ou provocado por algum motivo de felicidade do próximo. Ele não partilha das alegrias alheias, não se felicita com a felicidade do seu semelhante. Ele não sorri. Sorrir, olhos nos olhos, equivale a fraternizar com a fisionomia: “os olhos são a janela da alma”, sentenciou Ortega com verdade. Sorrir enquanto mira-se nos olhos corresponde a confessar-se àquele a quem se sorri que sente-se por ele simpatia, benevolência, carinho, receptividade, reciprocidade. Nesta expressão silenciosa de palavras porém eloqüente de significado, tocam-se duas almas, dois corações, duas intimidades em que movimenta-se uma em direção uma à outra e porventura vice-versa. Na sua simplicidade extrema, nada custa o sorriso além da espontaneidade: embora tão simples, raramente um curitibóca sorri enquanto mira o seu semelhante no fundo dos olhos (ou quando o depara, sem o mirar nos olhos): é porque lhe falece a afetividade necessária para alegrar-se com a presença do outro.

O curitibóca desconhece o sentido profundamente humano do sorriso porque desconhece o sentido profundamente humano da simpatia.

O curitibóca não convida terceiros para irem-lhe à casa e provavelmente desagrada-se de visitas. Quando despede-se recomendando ao interlocutor “Apareça” (em casa), pratica uma insinceridade.

O curitibóca é ingrato: se recebe um favor ou um gesto de altruísmo, logo olvida-se do benefício e do benfeitor.

O curitibóca surpreende-se com o feitio dos indivíduos de outras terras, ao descobrí-los espontâneos, generosos, alegres, expansivos, amistosos e simpáticos, tão diversos de si próprio: é o que a experiência confirma face aos cariocas, matogrossensses, pernambucanos, baianos, lisboetas etc. e mesmo face aos paranaenses do norte do estado.

O curitibóca apresenta  âmbito de privacidade assaz alargado, ou seja, a esfera do que ele reserva face a terceiros envolve o que, em outras gentes, pertence à intimidade do indivíduo, bem assim o que elas revelam com desinibição. A intimidade do curitibóca é maior, não no sentido de que a sua vida interior se desenvolva mais, apresente mais meditação, mais experiência, mais vivência, mais sentimento, porém no de que ele mais oculta do que expõe o quanto lhe seja pessoal, vale dizer, relacionado com a sua pessoa, ainda que não propriamente íntimo. Daí o curitibóca desenvolver as suas conversações em termos preferentemente impessoais e distantes, e confidenciar-se com dificuldade, o que, por sua vez, resulta na sua dificuldade de formar amizades íntimas: as suas amizades tardam a alcançar a intimidade ou jamais a alcançam.

 

O curitibóca da geração de cerca de 50 anos para mais (em 2016) padece ou padecia de uma fixação sexual: ele julga “vagabunda” a mulher extrovertida e suspeita de uranista o homem afetuoso e o solteiro; ao menos, tratava-se de juízos típicos até os anos 90 do século XX, que se minoraram com a liberdade de costumes e que revelam o machismo e a homofobia do curitibóca, vezos que sem lhe serem exclusivos, no ambiente brasileiro, revela que ele não é ou era melhor do que os seus compatriotas, em termos de abertura de mente, evolução de costumes, compreensão do ser humano e ausência de preconceitos. Ao contrário, o curitibóca e mesmo o curitibano é ou era, neste capítulo, tão mesquinho quanto qualquer outro que o seja, machista e homofóbico.

A censura recai não sobre a forma como o indivíduo trata o seu semelhante, porém sobre a sua (suposta) vida privada, ou seja, não sobre aquilo que poderia molestar aos terceiros, porém sobre o que não interfere com eles e diz respeito apenas aos que sofrem tal estigma. Assim, o curitibóca atenta à sexualidade alheia mais do que ao que os indivíduos apresentam de especificamente humano, ou seja, ele prioriza, no julgamento de terceiros, o que o ser humano apresenta de instintivo, em detrimento do que ele contém de social. Ao curitibóca não importa predominamente como o indivíduo se conduz face ao seu semelhante, nem o seu caráter, a sua correção, as suas virtudes, as suas limitações, etc.; o que lhe importa é aquilo que só deve interessar à privacidade de cada qual e portanto não ao curitibóca. Aliás, a inclinação dos curitibócas de suspeitarem de pederastia o seu semelhante admite a conjectura de que muitos deles (não todos) raciocinam por projeção, imputando a outrem o que se encontra em si próprios e que, portanto, ao certos curitibócas atribuírem homossexualidade a alguém, ela possivelmente existe, não no outro, mas em si próprios: eles confessam-se ao supostamente denunciarem. Este tipo de suspicácia condiciona a mentalidade de quem, em princípio, não partilharia dela e que acaba por adotá-la na medida em que os padrões quaisquer de pensamento, uma vez instalados, propagam-se por imitação: o preconceito dos curitibócas deforma o entendimento das pessoas, induz a conceberem-se falsas realidades, subverte a lógica humana ao sobrepor a imaginação à observação, provoca julgamentos injustos e fomenta coscovilhices. Por isto os valores do curitibóca andam pessimamente hierarquizados: de sociabilidade minorada, limitado em matéria de relacionamento, de extroversão, de amizade, de solidariedade, ele permite-se verberar na vida alheia o que não lhe diz respeito, ao invés de empenhar-se por desenvolver a sua sociabilidade e de procurar relacionar-se mais e melhor com o seu semelhante. Falta-lhe em auto-crítica e em capacidade de relacionar-se o que lhe sobeja em malícia.

O curitiboca é dissimulado: nas suas relações sociais abstém-se, amiúde, de exprimir o seu sentir e o seu pensar, se eles antagonizarem com os do seu interlocutor, a quem responde, frequentemente, com o silêncio. Ele não é franco: franqueza equivale-lhe a grosseria, no seu escrúpulo, excessivo, de não desagradar o interlocutor, diferentemente de outros tipos humanos, que exprimem o seu pensamento e o seu sentimento abertamente, ainda que divirjam dos do interlocutor, como, por exemplo, os portugueses, que ao invés da dissimulação curitiboca, usam de “frontalidade”, significando esta dizer com sinceridade, sem conotação de grosseria da parte de quem fala nem de quem ouve.

Ele é lerdo. Pedestre, na calçada, anda com lentidão; motorista, na rua, arranca com lentidão; freguês, na loja, despacha-se com lentidão, ao pagar. Se há fila atrás dele, ele não procura ganhar os tempos seu e do seu semelhante: ele usufrui do seu como se o dos demais lhes sobejasse, forma de individualismo, em que ele desconsidera a pressa possível dos seus semelhantes ou, ao menos, o interesse deles em ganhar tempo.

Achando-se um curitiboca acompanhado por alguém, se ele encontra um conhecido ou amigo seu, conversa com ele (se o fizer), porém não apresenta, entre si, o seu acompanhante e aquele a quem encontrou. A conversa desenrola-se entre dois e o terceiro fica de mais, ao passo que, entre não-curitibocas, tendencialmente a pessoa comum apresenta, entre si, as outras duas: enquanto o ser humano normal procura aproximar, relacionar, o curitiboca não o faz; enquanto para o primeiro estabelecer vínculos é normal e inerente à vida social, para o segundo, não o é; ao contrário, não lhe faz sentido apresentar dois estranhos entre si, sem motivo ou devido à banalidade irrelevante de um encontro casual o que, afinal, não é motivo.

III- Explicação Qual a origem psicológica desta verdadeira síndrome de anti-sociabilidade? Como entender a mentalidade do curitibóca?

Primacialmente, o curitibóca padece de um empobrecimento da sua sensibilidade: a sua nota distintiva, origem das demais, radica na pobreza, dramática, do seu altruísmo, dos bons sentimentos, daqueles que levam o indivíduo a desprender-se de si próprio e do seu egocentrismo, e a dar-se ao próximo, a estar nele, a realizar-se no seu semelhante, a reconhecer nele uma individualidade que lhe integre o horizonte existencial como pessoa e não meramente como objeto da sua paisagem.

Correspondem tais sentimentos à bondade, ao carinho, à ternura, à solidariedade e à fraternidade; em sua expressão mais elementar, à cordialidade e à simpatia. Da atrofia destas duas últimas formas afetivas decorre toda a psicologia do curitibóca: na sua intimidade mais profunda, ele é um insensível e um indiferente ao seu semelhante.

O que o distingue da restante humanidade é que, enquanto nesta, os sentimentos pelo próximo existem e determinam-lhe a maneira de ser, de entender, de atuar, de conviver, no curitibóca, a afetividade é ausente e esta ausência lhe condiciona a mentalidade e o trato com o próximo.

Enquanto no não-curitibóca existe uma afetividade natural que, desde logo, cria entre as pessoas um vínculo de cordialidade, ou seja, de fraternidade espontânea, rudimentar que seja, no curitibóca, ao inverso, inexistindo aquele fundo emocional, inexiste a cordialidade espontânea: enquanto o não-curitibóca é naturalmente sensível à humanidade ambiente e sente-a, o curitibóca é intrínsecamente insensível ao próximo, cuja existência averigüa com o seu entendimento e perante quem se conduz com a sua racionalidade, porém nada sente por ele.

Para o curitibóca, as pessoas não encarnam seres que lhe inspirem um mínimo de sentimento, e sim objetos, similares a quaisquer outros, face aos quais é normal a indiferença. Na psicologia do curitibóca, seres humanos e objetos inanimados equivalem-se, e muitas vezes os primeiros valem menos do que os segundos. Simpatizar corresponde a experimentar-se uma sensação agradável que no simpatizante desperta inclinação e benevolência pelo outro.

Porquanto nos curitibócas escasseiam a simpatia e os sentimentos generosos que dela surtem, com freqüência qualifica-se uma pessoa em Curitiba não, por exemplo, pela sua cultura, pela sua perspicácia, pela sua posição social ou por outros quaisquer dos seus atributos, senão pela sua simpatia ou antipatia: escassos, os simpáticos logo notam-se, ao passo que os antipáticos também se distinguem, pejorativamente: são os curitibócas mais facilmente identificáveis.

IV- Julgamento. O curitibóca é  enfermo dos sentimentos, um doente da afetividade, um aberrante do relacionamento, um anormal da sociabilidade. Ele é detestável: desapreciam-no abundantes curitibanos e a maioria dos forâneos. Nele concentra-se o quanto desfavorece a vida em sociedade e promove o isolamento das pessoas.

Conviver com os curitibócas traduz uma experiência de vida profundamente ingrata, marcada pelas decepções, pelas incompreensões, pela solidão. Eles são causa direta da infelicidade do seu semelhante, ainda que este disto não adquira consciência (o que é freqüente em quantos não os compararam com tipos humanos diversos) ou, quando menos, determinam a redução da sua felicidade: muito haveria de gratificante, de feliz, de recompensador e de emocionante no convívio com os curitibócas, fora outra a sua índole.

No trato com o curitibóca apresentam-se as amarguras e ausentam-se as alegrias. Sem necessariamente ser feliz por ser como é (ao contrário), o curitibóca em nada concorre para com a felicidade do seu semelhante; ao inverso disto, contribui para infelicitá-lo. Ele encarna um modelo negativo, um anti-modelo: deve nele mirar-se quem aspirar a adquirir atributos de sociabilidade, para evitar-lhe as características e cultivar as opostas às dele.

Representam os traços do curitibóca a mais exata negação da virtude como a entendiam alguns moralistas e escritores dos séculos XVIII e XIX (Duclos, Bernardino de Saint-Pierre): virtude é um esforço sobre si próprio em favor dos outros, definição adotada também por Augusto Comte, o fundador do Positivismo. Se ela consagra o altruísmo, a mentalidade do curitibóca representa, simetricamente, o egoísmo, a ausência de qualquer esforço por dar e de dar-se ao seu semelhante.

Se se medir o grau de desenvolvimento humano de uma população pela medida do seu altruísmo, pela intensidade dos seus afetos simpáticos, pela espontaneidade dos seus bons sentimentos, pelas manifestações deles, pelo seu desprendimento face ao próximo, então o curitibóca equivale a um ser sub-desenvolvido, que se encontra muito abaixo do quanto o ser humano é capaz de alcançar.

Ele personifica uma expressão humana empobrecida, que é desejável evitar. Evitá-la corresponde a cultivar os bons sentimentos e a externá-los, a contrair espontaneidade no comércio humano, a importar-se com o próximo, tudo isto sinceramente, ou seja, como verdades interiores que determinem ações que se pratique gratuitamente, pelo prazer de praticá-las: por amor. “O amor por princípio”, dizia Augusto Comte. Evitá-la significa outrossim desinibir-se, extroverter-se, verter-se no próximo, relacionar-se com ele ao invés de ensimesmar-se.

Felizmente, não encarnam os curitibócas todos os naturais de Curitiba: há os curitibócas e os curitibanos, sendo os segundos pessoas normais, adjetivo que freqüentemente perdem ou cuja intensidade reduz-se mercê da convivência com os primeiros, que, sendo maus, estragam os bons, efeito que se verifica igualmente com os forâneos que, muitos, detestam Curitiba por causa da sua gente, assim como a muitos curitibanos repugnam os curitibócas. A cidade talvez seja preferível a outras; já uma parte do seu povo…

 

Primeira cena (em 2013, em Curitiba).

            – Oi, tudo bem?

Ela balançou a cabeça, afirmativamente.

-Oi, tudo bem?!, em tom mais alto.

Ela balançou a cabeça, afirmativamente.

-Oi, tudo bem?!!, em tom igual ao anterior.

-Tudo…

Só respondeu na terceira vez. É óbvio que era curitiboca. Não me venham dizer que ela estava menstruada, sob TPM, que ninguém é obrigado a conversar e outros subterfúgios de curitibanos: ela comportou-se curitibocamente.

 

Segunda cena (em 2013, em Curitiba).

-Obrigado.

Silêncio.

-Obrigado !

Silêncio.

Obrigado !!

-Denada.

Só respondeu na terceira vez. É óbvio que era curitiboca. Aplica-se a mesma glosa da cena precedente.

 

            Terceira cena (em 2013, em Curitiba).

Alguém adentra o recinto, em que há várias pessoas e, ao fazê-lo, diz, para todos:

– Bom dia.

Ninguém lhe responde. É óbvio que era em Curitiba.

Variante desta situação é a anedota que se conta, acerca dos curitibanos: -Como você sabe que está em Curitiba? Quando dá bom dia e ninguém lhe responde.

 

 

Quarta cena (em 2013, em Curitiba).

Na loja, o freguês pergunta:

– Você trabalha aqui?

Ela sacudiu a cabeça.

-Então pode me ajudar?

Ela sacudiu a cabeça. O freguês perguntou-lhe preço e tamanho do indumento. Ela era lacônica e falava em tom extremamente baixo. O freguês pergunta-lhe?

– Você é de Curitiba, não é ?

Ela sacudiu a cabeça, sem lhe dar palavra, sequer para lhe perguntar “Por quê?”. É óbvio que a guria era curitibana.

 

Quinta cena (em 9.XI.2013).

Um rapaz ia, a pé, com o cadarço de um dos seus tênis desatados.  Um transeunte viu-o, tocou-o no ombro e disse-lhe: “Está desamarrado; pode pisar nele e cair”. O rapaz estendeu a mão ao estranho e perguntou-lhe: “Tudo bem com o senhor ?”; o estranho apertou-lhe a mão, respondeu-lhe “Tudo bem!”. O rapaz riu alegre e espontaneamente e abaixou-se para atar o cadarço.

O transeunte era eu; o rapaz obviamente não era curitibano. Se o fora, mal me respondera; no máximo, “Obrigado”, “Valeu” e nada mais, sem gesto, sem pergunta, sem simpatia, sem risada.

 

Sexta cena (em 5.V.2014).

No vestiário, disse-lhe “Com licença”. Ele nada me respondeu. Abri a portinhola do armário, que, de leve, esbarrou-lhe na mão. Disse-lhe “Desculpe”. Ele nada me respondeu.

 

   Sétima cena  (só darei em livro).

Oitava cena (em janeiro de 2015).

Um rapaz reparou em mim, enquanto eu conversava com terceiro. Terminada a conversa, passei por ele e disse-lhe “Oi, tudo bem?” Ao invés de responder-me, ele baixou a cabeça.

 

Nona cena (cerca de 2013).

No vestiário, o curitibano entra mudo e sai calado. Antes de abrir o meu armário, disse-lhe “Com licença”. Ele nada me respondeu. Abri-o e, de leve, a porta esbarrou-lhe na mão. Eu disse-lhe “Desculpe”. Ele nada me respondeu. Curitibano moço: não fala com estranhos.

 

Décima cena (em 2016).

Em um fila de balada, puxei conversa com um rapaz. Ele ignorou-me. Perguntei-lhe se era curitibano: ele limitou-se a balançar a cabeça, que sim. Curitibano moço: não fala com estranhos.

 

Undécima cena (em 2016).

Em uma loja, em dado momento, não estava ninguém do seu pessoal. Estavamos eu e outro freguês, jovem, a quem indaguei:

-Não está ninguém?

Ele balançou a cabeça, afirmativamente, sem me dizer palavra. Perguntei-lhe se era curitibano; respondeu-me com um monossílabo e resposta óbvia:

-Sim.

Curitiboca moço: não fala com estranhos.

 

Duodécima cena (em 2016).

Em bicha, houve alguma confusão na ordem das pessoas. Eu disse à senhora atrás de mim:

            -Eu é que estou na vez.

Ela nada me respondeu. Perguntei-lhe:

-A senhora é de Curitiba?

Sem me dar palavra, fez que sim.

-Nota-se, observei-lhe.

Só então ela articulou sons:

-Por que nota?

– Não fala.

Ela riu riso nervoso, provavelmente, que graça não havia.

Curitiboca velha: não fala com estranhos.

 

Adágio (da minha autoria, em 2015).

 

Curitibano é bicho. Bicho não fala.

 

Outro adágio (de um matogrossensse, em 2016).

 

“Curitibano é uma merda!”

 

Sou crítico dos curitibocas; posso criticar o temperamento introvertido, insociável, frio, pouco amistoso dos curitibanos-curitibocas. Qualquer pessoa pode criticá-los, seja curitibano, seja forasteiro, seja estrangeiro.

            Digo-o pois muitos curitibanos somente admitem críticas dos nativos, vale dizer, dos próprios curitibanos, em censura implícita da liberdade alheia de observação e expressão.

            Repare no ardil: quem se acha mais capacitado para perceber o comportamento e o temperamento introvertido dos curitibanos ? Os forasteiros, que, por serem-no, detêm termos de comparação, entre os curitibanos e si próprios. Muitos curitibanos pretendem calar precisamente quem é capaz de criticá-los e admitem críticas dos nativos, o que implica espírito de tribo e contém o pressuposto de que os nativos, por serem-no, tendem à leniência ou à incapacidade crítica por nulidade ou escassez de vivência com outras gentes, com que se comparem. É muito psicológico, é tudo defesa do ego do curitibano-curitiboca.

            Morei no exterior (do país); viajei por inúmeras capitais do Brasil, em que tratei com o povo da rua, nos ônibus, nas lojas, nas ruas; observei como as pessoas são e as comparei com o curitibano. A minha observação coincide com a da maioria dos forasteiros: o curitibano é, sim, geralmente, frio e introvertido. “Geralmente” supõe exceções, que as há.

            Não se trata de experiência, minha, negativa e pontual, com alguns curitibanos; é experiência de incontáveis pessoas (nativas ou forasteiras), com incontáveis curitibanos, que se repete há décadas. Não é preconceito: é observação empírica.

            É claro que sempre há quem se sinta incomodado com as minhas críticas, seja porque se reconhece nelas, seja porque é exceção aos curitibanos-curitibocas e sente-se indevidamente injustiçado (já disse que há exceções). Já estou acostumado a tais tipos de reação, mormente emocionais.

              Critiquei, também, os curitibanos que, nos vestiários masculinos, adentram o cubículo do chuveiro de cueca e dele se retiram de cueca (vide “Curitiba entra de cueca no chuveiro”,aqui ). São pudicos, conventuais, puritanos, ridículos, caretas. Ou não ?

            Sou cacete, muito cacete, em relação aos curitibanos e prosseguirei sendo-o, orgulhosamente. Não mantenho espírito de tribo, não cultivo mentalidade provinciana, conheço haver formas melhores, mais humanas e simpáticas de interagir. Enquanto você teimar em defender a curitiboquice, convirá em manter o ambiente curitibano suscetível às minhas críticas. Obrigado: propicia-me matéria sobre que escrever, malgrado outras, mais instigantes, também me apeteçam.

 

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Curitibócas. Bookmark o link permanente.

5 respostas para O curitiboca

  1. arthurlacerda disse:

    Este ensaio acha-se publicado no meu livro “Provocações”, à venda na Estante Virtual, http://www.estantevirtual.com.br. .

  2. Fábio Zappa disse:

    Parabéns Arthur, ficou perfeito o texto agora, com os devidos espaços… Adorei também as “cenas” descritas…

  3. Aerphio Nowar disse:

    ESTAVA ENGASGADO COM O TRATAMENTO OFERECIDO PELOS CURITIBANOS,POIS VIAJEI POR INUMERAS CIDADES DO MUNDO E NUNCA TINHA VISTO UM COMPORTAMENTO SEMELHANTE.VOCE ARTHUR ME ALIVIOU O CORAÇÃO ME DEIXANDO VOLTAR A SENTIR MAIS HUMANO E NORMAL ! GOSTEI MUITO DE CONHECER O SEU TRABALHO !

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s