A homossexualidade nos memorialistas

 

                                                           A homossexualidade nos memorialistas

 

                                                                                  Arthur Virmond de Lacerda Neto

     arthurlacerda@onda.com.br                                                                                         9.VIII.2010

 

            Em conseqüência da homofobia, a homossexualidade tornou-se assunto proibido, por séculos a fio, que se evitava ou a que se aludia velada e discretamente, motivo porque rareiam referências a ela, na literatura ficcional e memorialistica, nacional e estrangeira, situação que entrou a modificar-se apenas nos últimos anos. Em meio à esta raridade, encontrei quatro passagens acerca dela, três em memorialistas e a derradeira em um romance.

            Ao tratar das paixões juvenis, Roger Martin du Gard (em “Le lieutenant-Colonel de Maumort”, edições Gallimard, 1983, citado por Anne Vincent-Buffault, em Da amizade, Jorge Zahar Editor, 1996), rememora os seus tempos de estudante, cerca de 1885, na França: “A maioria (dos meus colegas de retórica) havia elegido no colégio, entre os menores, um escolar de semblante bonito e de aparência amável, para o qual dirigiam sua necessidade sentimental e poética do amor. Esses desvios de um impulso natural naquela idade não eram um dos fenômenos menos estranhos daquela existência de rapazinhos. Com raríssimas exceções, esses sentimentos permaneciam absolutamente platônicos.”

            Roger du Gard assim pondera a propósito das relações homossexuais entre os alunos do internato: “Muitas vezes pertuntei a mim mesmo se o padre que tomava conta do nosso dormitório, que devia sem dúvida, ainda que só pelos cochichos de confessionário, desconfiar de alguma coisa, e os vigilantes, que tinham experiência do internato e de seus costumes clandestinos, não fechavam voluntariamente os olhos e os ouvidos, por medo de desencadear um escândalo que os teria constrangido tanto quanto às vítimas. Parece-me, também que esses mestres, tarimbados em todos os segredos do internato, tivessem chegado nessas matérias a uma espécie de indiferença fatalista, do gênero: “Não se conseguirá nunca impedir isso, que, aliás, não tem lá tanta importância“.

            Nas suas “Confissões”, João Tiago Rousseau, o célebre autor do “Contrato Social”, narra uma cena, passada em 1728, no colégio em que estudou, dirigido por padres, entre ele e um destes, seu professor, em que este o assediou ao que, ele, sem compreender o que se passava, desembaraçou-se do padre, que, a seguir, de costas, masturbou-se  na sua presença, até ejacular.

            Porque Rousseau divulgasse os fatos na escola, foi procurado, no dia seguinte, por um dos administradores dela, que lhe explicou, rememora ele “muitas coisas que eu ignorava, mas que ele não julgava estar me ensinando, convencido de que eu me havia defendido sabendo o que queriam de mim”. “Disse-me, gravemente, que era uma ação proibida como a luxúria, mas cuja intenção, de resto, não era mais ultrajante para a pessoa que dela era objeto e que não havia razão para irritar-me tanto pelo fato de ter sido julgado interessante. Disse-me, sem rodeios, que ele mesmo, quando jovem, tinha tido a mesma honra e que tendo sido surpreendido fora de condições de opor resistência, não tinha achado naquilo nada de muito cruel. Levou a impudência a ponto de servir-se dos termos adequados; e imaginando que a razão da minha resistência era o medo de sentir dor, assegurou-me que tal receio era infundado e que  não tinha motivos para alarmar-me.”

            Preferidas com naturalidade,  foram-no na presença de um clérigo, que as ouvia com igual serenidade, habituado, certamente, à presença da homossexualidade  na escola e no meio eclesiástico.

             No romance “O primo Basílio”, do célebre português Eça de Queiroz, figura um diálogo entre a protagonista Luísa e a sua amiga, Leopoldina, ambas lisboetas, em que se evidencia o tribadismo da segunda, em uma passagem surpreendente, em face do tempo em que foi publicado, a saber, 1878. Ei-lo:

  “Puseram-se a falar dos sentimentos. Leopoldina tivera quatro; a mais bonita era a Joaninha, a Freitas. Que olhos! E que bem feita! Tinha-lhe feito a corte um mês!…

-Tolices!- disse Luísa, corando um pouco.

-Tolices! Por quê?

Ai! Era sempre com saudades que falava dos sentimentos. Tinham sido as primeiras sensações, as mais intensas. Que agonia de ciúmes! Que delírio de reconciliações! E os beijos furtados! E os olhares! E os bilhetinhos, e todas as palpitações do coração, as primeiras da vida!

-Nunca – exclamou – nunca, depois de mulher, senti por um homem o que senti pela Joaninha!…Pois podes crer…”

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