Preconceito lingüístico III

5)         Prescreve a quinta “cisão” “conscientizar-se de que toda língua muda e varia. O que hoje é visto como certo já foi erro no passado. O que hoje é considerado erro pode vir a ser perfeitamente aceito como certo no futuro da língua”, o que sendo inteiramente exato, não equivale a que todas mudança e  variação sejam aceitáveis e devam ser admitidas sem mais critério do que a conscientização enunciada.

            Se a mudança e a varição decorrem, como no caso brasileiro, do analfabetismo, da exígüa escolarização, do desapego ao livro, da incúria, vale dizer, dos fatores evidentemente negativos que são a exclusão cultural e a negligência dos incluídos, então incorporar as alterações corresponde a  consagrar os frutos da ignorância, a nivelar o idioma por baixo, a degradá-lo, a retroceder.

            Por isto é falacioso pensar-se, como pensa o autor de “Preconceito lingüístico”, que falam os brasileiros tão bem quanto os portugueses, cada qual a sua modalidade de uso idiomático.

            Não: os brasileiros falam mal o idioma porque  o desconhecem e quando o conhecem, negligenciam-no; os portugueses falam-no bem porque o conhecem e porque aplicam o conhecimento respectivo.

 

6)                     Enuncia-se a sexta proposição em “dar-se conta de que a língua portuguesa não vai nem bem, nem mal. Ela simplesmente VAI, isto é, segue seu rumo”.

            É o mesmo que lançar-se uma embarcação ao mar, desprovida de bússola e de carta de marear e quando ela naufragasse, exclamar-se, com inteira resignação: “Ela não foi nem bem, nem mal. Ela simplesmente foi, isto é, seguiu o seu rumo.”

            Que o vernáculo segue o seu  rumo, é verdadeiro. O que não é absolutamente verdadeiro, é que as suas modificações sejam axiologicamente neutras ou indiferentes; que o ir, seja ir simplesmente, sem mais qualificativos, que o ir bem e o ir mal equivalham-se.

            Aceitar o ditame em tela exige a mais cabal indiferença ética, um amoralismo completo, a indiferenciação entre o desejável e o indesejável, entre o louvável e o censurável, entre o bom e o mau.

            A língua portuguesa vai, sem dúvida. Ela vai mal, muito mal para que se possa assistir sem preocupação, sem alarme, sem angústia ao espetáculo  grotesco das simplificações sucessivas que vem sofrendo, à multiplicação das gírias que substituem a cada momento um vocabulário cada vez mais restrito, aos americanismos que substituem os vernacularismos, ao empobrecimento da capacidade de expressão das pessoas, à redação inepta dos advogados mais jovens, aos universitários sub-letrados, à pecha de arrogância e de preciosismo irrogada a quem, na academia, busca alguma beleza estética. E ainda à preguiça de ler, de consultar o dicionário, de enunciar as frases fora da mediocridade ambiente.

            A que ponto de miséria chegamos!

            Em seu amoralismo, a proposição de número 6 é socialmente hedionda: ao obscurecer o senso de qualidade, que permite distinguir o bom do mau, e ao conduzir à passividade diante da calamidade social que se traduz na incultura das massas, ela concorre para com a manutenção desta realidade, perpetuando a exclusão cultural ao protagonizar a resignação perante as suas manifestações.

 

7)         Recomenda o enunciado subseqüente “respeitar  a variedade lingüística de toda e qualquer pessoa pois isso equivale a respeitar a integridade física e moral dessa pessoa”. Esta “cisão”, que se compagina com a segunda, segundo a qual inexiste erro de português, vai mal redatada, porquanto repete o sujeito ao invés de aplicar o pronome  que deveria tê-lo substituído,  a evitar a prolixidade  da frase que, assim, acrescentar-se-ia em elegância. 

            Há que, lá diz o sétimo mandamento, respeitar-se a variedade idiomática de qualquer pessoa enquanto uso, correto por inerência, da língua.

            Concordo com a proposição, se por variedade lingüística entender-se um desempenho idiomático equivalente a outro ou a outros, desde que todos igualmente fiéis ao seu código normativo, em uma palavra, à sua gramática, a exemplo das construções “o cara foi em cana” e “o indivíduo sofreu prisão”  (não obstante o caráter vulgar da primeira, que pessoalmente evito) ou “parada de ônibus”e “paragem do auto-carro”, correntes, a primeira, no Brasil, e a segunda, além-mar.

            Não reputo, contudo, respeitável nenhuma variedade se por este substantivo entender-se uma forma de enunciação que aberre da norma gramatical, que sobre ela tome licenças.

            “Respeitar”, na acepção em que o enunciado utiliza o verbo, corresponde a “ter por boa”,  a “concordar com”, o que se harmoniza com o indiferentismo ético implícito na sexta cisão. Respeitar-se as variedades lingüísticas equivale, aí, a aceitar-se passivamente e sem nenhum critério, qualquer formulação idiomática, por mais avessa que seja a qualquer norma gramaticalmente consagrada. Afinal, a variedade a respeitar é a de “toda e qualquer pessoa”,  o que torna toda e qualquer pessoa senhora do  idioma e livre para conceber uma sua gramática pessoal, caprichosa e arbitrariamente.

            Desrespeitar  as variedades individuais, “a contrario”, conduziria à imposição do preconceito de quem adota certa variedade, sobre os adeptos de outra. Portanto, tudo vale e vale tudo, segundo o próprio livro afirma-o.

            Que o respeito à variedade lingüística alheia possa reputar-se uma expressão do respeito à integridade espiritual do indivíduo, é  concebível. Porém não consigo atinar em que tal respeito importe ainda, como pretende o postulado sob análise, respeito à integridade física do ser humano, à sua incolumidade material.

            Discordar de alguém, menoscabar-lhe o falar, desprezar-lhe o desempenho lingüístico, não lhe afeta absolutamente em nada o corpo, a mobilidade dos seus membros, o funcionamento dos seus sentidos, a sua continuidade epidérmica.

            Por mais que me esforce, não atino em que o desprezo por uma variedade expressiva comprometa a perfeição dos organismos humanos, a não ser, claro, que se pretenda estender bastante longe (longe demais) os efeitos psicossomáticos das emoções.

            Trata-se de uma frase de efeito, quiçá bombástica, porém ridícula e tola.

 

8)         A cisão de número 8 deve ser entendida como um exagero que lhe retira veracidade, ou em jeito de metáfora generosa de livro redigido por um lingüísta, que não advertiu no entanto o leitor da imagem utilizada com liberdade de poeta inspirado.

            Com efeito, segundo ela, a língua “nos constitui enquanto seres humanos. Nós somos a língua que falamos”, “ela molda nosso modo de ver o mundo”.

            As línguas não nos constituem como seres humanos,  nem materialmente, pois somos constituídos de água, sais minerais, carbono etc, nem espiritualmente. Ao contrário, somos nós que as constituímos, como produto da nossa inteligência, da nossa vida em coletividade, da nossa educação.

            Tampouco somos a língua que falamos, já metaforicamente, já em sentido próprio. Não o somos propriamente dito pois somos organismos animais e não  agrupamentos de advérbios, de regras de pontuação, etc. Basta ser-se  dotado de uma capacidade intelectual menos do que primária para entendê-lo, motivo porque recuso-me a estender-me neste particular, mesmo porque se somos as línguas que falamos, então os mudos não seriam, ou seja, seriam o que não é, caso notável, seja na lingüística, seja na física.

            Não somos a língua que falamos em sentido figurado pois não é dela que provém a qualidade humana de cada um de nós, o nosso conteúdo individual, que decorre dos valores que assimilamos, da religião que professamos, das experiências de vida porque passamos, do ambiente em que vivemos, da nossa herança genética.

            Entre um indivíduo de fala russa e um de fala esquimó não há humanidades distintas por força dos seus diferentes sistemas de comunicação. Haverá porventura sistemas heterogêneos de comunicação em decorrência dos seus diferentes conteúdos humanos. Assim, não somos a língua que falamos: ela é conforme somos.

            Se fôssemos  a língua que falamos, então um russo cambiaria de conteúdo, a sua percepção de mundo, a sua hierarquia de valores, as suas convicções etc, ao adotar, por exemplo, o idioma português. Ora, evidentemente, tal não se passa: o russo conserva-se tal e qual já era enquanto exprimia-se em russo apenas. Ao adquirir o português, ele terá acrescido às suas possibilidades de expressão e de aquisição de conhecimentos  um novo meio, sem passar a ser algo diverso do que era devido ao fato em si desta aquisição.

            Encerra o mandamento em questão outra tola sandice.

 

9)                    Da oitava afirmação resulta a de que “o professor de português é professor de tudo”, o que também consigo perceber apenas à guisa de exacerbação expressiva ou como uma metáfora, aliás bem dispensável.

            O lente de português, a exemplo de qualquer professor,  ocupa-se da transmissão de uma certa espécie, perfeitamente delimitada, de conhecimentos. Ele atém-se um determinado setor do conhecimento humano, ele encarna um especialista, e não um generalista.

            Admito que o lente de vernáculo (ou de qualquer outra disciplina) possa enriquecer as suas aulas relacionando-lhes o conteúdo próprio com temas afins ou mesmo alheios a ele, que por algum modo as ilustrem. Desta forma, ele poderá, por exemplo, referir-se às escolas literárias, ao um novo dicionário, à aliteracia, à realidade social pátria, aos efeitos culturais da preponderância de certo país, etc.

            Nenhuma destas achegas eventuais transforma-lo-á em um professor “de tudo”. Ao inverso, ele conservará a condição que lhe pertence por inerência de propiciador de conhecimentos respectivos ao idioma, sob risco de rapidamente degenerar-se em um profissional de má qualidade, que apenas escassamente cumpre o seu papel,  simulando lecionar para, em lugar disto, fazer-se de sociólogo, de filósofo, de historiador, senão mesmo de inculcador de ideologias.

            Afinal, o advérbio “tudo” enseja o introduzir-se na aula de português qualquer conteúdo, inclusivamente os voltados ao doutrinamento religioso, político e filosófico, a propósito de exprimirem o entendimento do lente a respeito de “tudo”.

            O professor de português não é professor de tudo, porém de português,  condição na qual deve esforçar-se por bem desempenhar a sua missão, ao invés de a desfigurar com uma pretendida polivalência.

 

10)                  Por fim, a décima afirmação consiste em que “ensinar bem é ensinar para o bem. Ensinar para o bem significa respeitar o conhecimento intuitivo do aluno, valorizar o que ele já sabe do mundo, da vida, reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade com ser humano. Ensinar para o bem é acrescentar e não suprimir, é elevar e não rebaixar a auto-estima do indivíduo. Somente assim, no início de cada ano letivo este indivíduo poderá comemorar a volta às aulas, em vez de lamentar a volta às jaulas!”.

            Ensinar bem é ensinar para o bem: jogo de palavras fracassado porque conduz a uma identidade falsa entre a proficiência docente e o conteúdo desta docência, a uma confusão, aliás grosseira, entre como se ensina e o que se ensina.

            Ensinar bem corresponde a transmitir clara e compreensivelmente dados conhecimentos, por modo a propiciar-se ao destinatário desta transmissão a pronta assimilação do conhecimento e o seu útil emprego, independentemente de se o que se ensina fomenta o bem ou promove o mal.

            Aceito que no ensinar para o bem inclua-se respeitar os conhecimentos intuitivos do mundo e da vida que possua o aluno,   reconhecer na língua que ele fala a sua própria identidade pessoal, acrescentar ao invés de suprimir,  alçar-lhe a auto-estima em lugar de lha deprimir.

            Indicando tais recomendações que o ensino deve enricar o aluno em sua qualidade humana, penso que qualquer professor endossá-las-ia desde, contudo, que fora do decálogo de que representam o fecho. E isto porque tal decálogo implicitamente prescreve a aceitação do escrever e do falar do dicente no estado em que eles se constituíram, fora da escola, a despeito dela ou contra ela: é aquilo que ele “já sabe do mundo, da vida”, de que depende a sua “auto-estima” a promover e não a minorar.

            Minorá-la seria desmerecer o seu desempenho lingüístico quando discrepante da norma culta. Elevá-lo, respeitando o seu “conhecimento intuitivo do mundo” equivaleria a aquiescer àquelas formas de expressão que, ao fim e ao cabo, resultam dos flagelos sociais da escolarização  insuficiente, do analfabetismo abundante, da leitura ausente e da incúria generalizada, formas que o aluno emprega por ignorar outras (ou por desvalorizar as que aprendeu).

            Naquelas formas, longe de reconhecer-se a sua identidade enquanto ser humano,  deve-se reconhecer aquilo a que  ninguém, em sã consciência, deseja como qualificação pessoal, desde que não cultive a própria ignorância, o próprio  auto-aviltamento, a própria indignidade perante a capacidade, tão humana, de progresso individual.

            Há jaulas e aulas: as jaulas do “Preconceito lingüístico” acham-se nas concepções nele exaradas, cujo efeito maior consiste no de conservar na incultura quem nela já se encontra, incapacitando-o de retirar-se dela, sob pena de se lhe irrogar a pecha de preconceituoso.

            As aulas são o ensino da gramática, o convívio com  a literatura, o estímulo ao emprego no cotidiano do que se adquiriu na escola, o enaltecimento da beleza e do rigor na expressão falada e escrita, a busca do auto-aprimoramento, o esforço em direção ao saber, a força de vontade de sobrelevar a mediocridade ambiente, o amor ao melhor, a aversão à pobreza intelectual, à falácia, ao uso do saber como instrumento da política, o discernimento entre o que eleva e o que avilta. E, tão importante quanto todo o anterior, um agudo senso de solidariedade face aos excluídos de um saber multisecular, que nos induza a procurar incluí-los nele, ao invés de embelecá-los, agravando-lhes a exclusão sob a falácia do preconceito lingüístico que, se existe, e de fato existe, volta-se contra a norma culta do idioma.

 

V – As razões do êxito

 

            Portador de todas estas falácias e destes primarismos, tão pouco digno da inteligência humana, tão funesto nas suas conseqüências, tão ilusório no guerrear o preconceito, tão odioso no instituir o terrorismo pedagógico, a que atribuir o êxito avassalador das  já nove ou dez edições de “Preconceito lingüistico”, que em maio de 2002 totalizavam a impressionante tiragem de cinqüenta mil exemplares vendidos e portanto uma notável aceitação ?

Atribuo-o à  simplicidade que o perpassa, da primeira à derradeira páginas. Cuida-se de livro concebido em linguagem prosaica e simplista (sem ser reles), portanto legível pelas pessoas em geral,  facilidade à qual soma-se a da simplicidade com que os seus argumentos desenrolam-se, a prescindir de maiores concentrações para a sua compreensão. É um livro fácil.

            Facilitadores, trata-se contudo de elementos secundários e mesmo sem os quais o seu êxito verificar-se-ia, pois o fator decisivo consiste em que o seu discurso é cativante ao leitor, não esteticamente (porquanto o seu estilo acha-se longe de representar um exemplo de beleza), e sim enquanto formaliza idéias que por alguma forma justificam o distanciamento hoje tão pronunciado entre a fala coloquial e a gramática. Milhares de pessoas pelo Brasil afora, falando mal, sabendo mal o idioma e não se esforçando em sentido inverso, encontraram neste opúsculo uma teorização que lhes consagra o desempenho lingüístico, que o autoriza, que o enaltece, que o eleva a padrão e que avilta aquilo e aqueles que se lhe opõe (a gramática e os seus campeões).

É uma disquisição que, do começo ao fim, afaga a vaidade e o

ego do leitor, das milhares de pessoas cujo “saber” idiomático ela reputa positivo e que livra-os do peso na consciência de dominarem fracamente o seu próprio idioma e do sentimento de que carecem esforçarem-se por o dominarem de fato.

                        É um livro populista, no sentido  mais rasteiro do termo, que diz às massas o que lhes embala o coração, seduzindo-as pela emoção que lhes desperta  ao convencê-las  de que certas acham-se elas e errado aquilo que custa aplicação aprender. É populista porque persuade as pessoas de não é preciso aprender a gramática pois esta arcaizou-se e que nelas reside a verdade idiomática. É populista porque infunde-lhes um sentimento de superioridade coletiva diante de uma construção multisecular, que transforma cada desinstruído, cada subletrado, em alguém que se eleva, com a sua incultura e por causa dela, sobre o saber acumulado por gerações a fio. É populista porque, tacitamente embora, taxa de preconceituoso o imperativo de que para saber-se, é preciso aprender-se, o que certamente é muito mais dificil do que satisfazer-se com o que se  adquiriu por mera imitação do meio social. É populista porque pretende externar um grito de libertação dos milhões de culturalmente excluídos, apresentando-se como o denunciador dos alegados  autoritarismo,  intolerância e repressão  de que o livro os concebe como vítimas. 

                        Tanto é populista e atua cativando pela simpatia ao invés de persuadir pelo rigor dos argumentos que,  a despeito da sua miséria intelectual, obteve cinqüenta mil leitores, com cujos reflexão e discernimento não contou nem deles necessitava. Daí a freqüência com que generaliza falsamente, com que recorre a simplismos, a insensatezes, a sofismas, com que argumenta aquém de um certo grau de racionalidade.

                        O poder de emocionar superou o de raciocinar, mesmo substituiu-o.              

                        O seu êxito deve-se também  a que ele compagina-se com a mentalidade instalada no Brasil hoje: pauta-se o “Preconceito lingüístico” por uma militância política de combate aos preconceitos, à exclusão social, ao elitismo, à  opressão de classes, conceitos que um perseverante esforço de inculcamento converteu em senso comum do brasileiro médio e cujos méritos não vem a propósito analisar.

             Tal esforço foi e é inspirado em Antonio Gramsci, para quem a atividade intelectual não deve servir à busca do Saber, porém a fins políticos. Há décadas no Brasil verifica-se uma divulgação reiterada daquelas premissas, por meio dos mais variados canais, a ponto de haver-se constituído um padrão de pensamento delas derivado que tornou as pessoas altamente receptivas a qualquer  discurso que, direta ou indiretamente, as observe.

            Ora, o opúsculo em foco vai atua sobre este senso comum. Ele convence a quem já se encontra predisposto a deixar-se convencer, ao invés de persuadir o leitor pela verdade dos seus argumentos, origem da péssima qualidade destes.  Extremamente circunstancial, sua aceitação decorre da  mentalidade da qual depende e fora da qual seria analisado criticamente, com o uso da inteligência racional, ao invés de ser aceito, como o tem sido, à guisa de expressão de verdades consensuais. É, pois, um livro de época,  que transmite verdades transitórias.

            A sua aceitação por amplas camadas de leitores não lhe atesta a veracidade intrínseca, porém apenas revela o estado espiritual do homem médio contemporâneo no Brasil, estado cuja alteração, modificando-lhe os condicionalismos intelectuais, provocará uma reavaliação das suas doutrinas, quero dizer, um seu exame fora dos consensos vigentes. Será quando os seus leitores abismar-se-ão com a credulidade dos  que conquistou e desmascararão o que, ao fim e ao cabo, representa um caso de embuste intelectual.

 

                        O resultado de tudo isto só pode ser o do espetáculo atual da decomposição do idioma, em que o brasileiro sabe-o mal  porque  faltam-lhe escolarização e  leitura, e porque quando lê, lê “Preconceito lingüístico” e lhe perfilha as doutrinas.

Sentindo-se a encarnação da gramática “verdadeira” , “do português do Brasil”, crendo-se livre de preconceitos,  cada autor escreverá como lhe aprouver, sem mais critério que o da imitação do que assimilou do ambiente. Em breve originar-se-ão tantas gramáticas quantos forem os escrevinhadores e portanto literaturas compreensíveis apenas nos limites de tempo e lugar em que  vigorava a ordem gramatical do autor. Haverá guetos lingüísticos, que excluirão ainda mais os excluídos: já afastados da norma culta, tornar-se-ão limitados na compreensão do que escrever-se fora do seu gueto, sofrendo assim um novo e mais odioso prejuízo.         

                        Além disto, agravar-se-á a má qualidade da redação em geral. Produções acadêmicas, petições judiciais,  mensagens eletrônicas,  anúncios comerciais, traduções de livros,  discursos oficiais, matérias  jornalísticas, em tudo perder-se-á, mais do já se perdeu, a noção da beleza e da elegância da forma, o rigor da concepção,  a certeza da expressão e da compreensão. Prevalecerão a fealdade, a inépcia, a incapacidade.

                        Desaprendendo o brasileiro o que lhe pertence, o vernáculo, aberto um vazio na sua capacidade comunicativa, assimilará as formas do inglês,  graças a cuja aquisição, gramaticalmente correta, prevalecem já na sua sintaxe e no seu vocabulário a ponto de, vezes muitas, falarmos inglês em português.

                        Dentre as várias preocupações expressas por “Preconceito lingüístico”, não se encontra a mais mínima relativa à instrução popular, perante a qual, ao contrário, prevalece um silêncio tenebroso de indiferença consumada.

 Nenhuma palavra pela educação, por mais e melhores escolas, pela dignificação do magistério, por melhores salários para o professorado; nenhuma indignação frente ao analfabetismo no Brasil, nenhuma inquietação face ao mísero índice de leitura dos brasileiros, nenhum apelo aos governantes, nenhuma postulação em favor da intensificação das políticas educacionais, o que seria de todo em todo pertinente em um livro que se confessa político (página 9).

            Longe de fortuita, semelhante apatia  é necessária ao êxito do livro, que serve-se da escassa qualificação intelectual dos brasileiros e mesmo dela depende: em primeiro lugar, pois quanto menos culto, esclarecido  e capaz de pensamento autônomo, que o apetreche para discernir entre a verdade e a mentira, entre o conhecimento e a sua instrumentalização política, tanto menos os leitores de “Preconceito lingüístico” serão capazes de lhe desmascararem os  sofismas e a  miséria intelectual.

            Em segundo lugar, quanto maior a incultura, a desinstrução, a falta de escolas, o desdém pela leitura, a desmotivação dos professores, a indisciplina escolar, a repetência, o trabalho infantil, tanto mais escassos serão a compreensão e a interiorização da norma culta; tanto maior será o distanciamento entre ela e as “variedades” coloquiais, tanto mais diversificadas serão estas e, de conseqüência, tanto mais abundantes  as supostas vítimas dos preconceitos, da  alegada exclusão, da proclamada “aplicação autoritária, intolerante e repressiva que impera na ideologia geradora do preconceito lingüístico”(página 10, tanto mais haverá a quem persuadam as doutrinas de “Preconceito lingüístico” e com tanto mais convicção quanto mais intensa a natureza emocional e panfletária com que elas se propaguem.

            Convém ao “Preconceito lingüístico” um povo tão fracamente instruído quão possível, para assegurar-se um público leitor proporcionalmente abundante na quantidade e crédulo na qualidade do seu convencimento. Por isto, muito mais do que demagógica e populista, esta é uma obra odiosa,  que engana aos incapazes de perceberem que são enganados e que os mantém no engano para mais e melhor os enganar.

 

VI – Uma interrogação

 

                        Quanto tempo, quanta confusão, quanta estupidez, quanta mediocridade serão necessários para que a sociedade brasileira distinga entre o que a engrandece de fato e o que a rebaixa, entre a mistificação e o progresso da sua gente e da sua cultura ?

                       

                                                           Curitiba, fevereiro de 2003.

 

 

Anúncios
Esse post foi publicado em Preconceito lingüístico. Bookmark o link permanente.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s